Mar por Meio em Riba d'Eu

Galiza e Portugal, a construção de um espaço comum

Domingo, 26 Outubro 2008 21:40

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José Bastos de Guimarães e Ramom Reimunde

Ramom Reimunde - Em dia de sol radiante, sem uma nuvem no ceu, concluiram as Jornadas Mar por Meio, que se realizaram em Riba d'Eu com muito sucesso no fim de semana de 17 a 19 de Outubro passados, e às que assisti por interesse pessoal e também em representação da AGLP e da AGAL, duas instituções muito valiosas, como se verá no futuro, para o assunto sugerente do tema ali a tratar: Galiza e Portugal, a construção de um espaço comum.

Devo salientar desde já a considerável assistência de público, muito atento e anotador, gentes da cultura e das artes; e a boa organização que fez do Parador de Riba d'Eu o lugar confortável de convívio e comunicação em tom agradável e útil.

Na sexta, dia 17, foi a sessão inaugural, com a assistência de autoridades lusas e locais entre as quais destacou a intervenção da Sra. Helena Gil, segunda do Ministério da Cultura português e responsável regional no Norte, com uma bela exposição na Sala de Turismo Velha.

No sábado, dia intenso de manhá e tarde, achei interessantes as intervenções do jornalista Domingos de Andrade, juvenil e clara; a de Susana Marques, pela sua clareza na exposição da consultoria cultural Sete pés, ajudada pelo computador; a de Vítor Belho sobre o festival da lusofonia Cantos da maré; e a experiência na Póvoa de Varzim das Correntes d´Escritas por Luís Diamantino; assím como a descrição de José Bastos sobre o belo Centro cultural de Vila Flor en Guimarães.

O dia acabou com um magnífico concerto Alô Irmão, do galego Fran Narf e o grande músico da Guiné Bissau Manecas Costa. Não há mar nem rio por meio: o nosso, o Cantábrico, o português, de F. Pessoa.

No domingo, com sessão única, interviram Vítor Belho, consultor cultural; a seguir o relato do Festival de Músicas do Mundo de Sines, perfeitamente narrado pelo seu director Carlos Seixas e mais Xose Grajal, este último jovem, mais conciso e contundente ao falar de música e relações musicais e não só, entre Galiza e Portugal.

No encerramento a concelheira Mariluz Álvarez Lastra fechou as jornadas com palavras de satisfação e agradecimento, ao que seguiram encontros profissionais entre os assistentes a umas jornadas que valeram a pena (de escrever), nas quais, além de falar de cultura e, sobretodo, de música, se falou também, porfim, do centro da questão: a lusofonia como um grande mercado e oportunidade cultural para Galiza, o território comum e esta língua também comum que serve para se comunicarem do jeito máis perfeito os humanos que moram na Galiza e no Norte de Portugal, uma Euro-região sem fronteiras claras, que não separam nem o Minho nem a raia seca, um espaço histórico e secular que continua a ser o mesmo, apesar das hipocresias políticas e as excessivas cautelas e preconceitos pela não ingerência em assuntos estrangeiros, que a cultura e as artes, sempre máis adiantadas e vanguardistas, devem ajudar a desaparecer.

A minha opinião é que estas jornadas foram muito interessantes, pudemos contactar galegos e portugueses para verificarmos os nossos conhecimentos e atitudes positivas, embora sem repercussão nos jornais mesmo locais. Lá falou-se muito de músicas e economia, pouco de livros e teatro, de estabelecer mecanismos que fizessem visível um interesse mútuo, das deficiências, dos problemas de comunicação, com intercámbio de cartões e endereços electrónicos, com conversas de amizade e novas linhas de amarre que se tendem para unir o que nunca de deveu estilhaçar. Ficou clara a desigualdade e assimetria entre os dous países, mas também as possibilidades de solução no futuro.

Sentados nas esplanadas do Parador, com aquelas magníficas vistas da Ria de Riba d'Eu e do seu porto, alguém perguntou olhando para Castro Pol e Figueiras, parodiando o famoso desenho humorístico de Castelao à beira do Minho: «E esses de aí em frente são menos galegos que nós?» Aqui sim se sabe o que respondeu o rapaz.

 

 Penabade, Belho, Matias, Cadima, Via Galego e Jose Grajal

 

Nota: Do outro lado da Ria já são as Astúrias e porém falam o mesmo que desta beira, o português da Galiza que chamamos galego, uma fala humana que trata de sobreviver depois de dez séculos como língua que aqui nasceu, depois de ser levado pelo mundo adiante, depois de ter sido substituído no seu território próprio pelo castelhano nos últimos seis séculos; o galego que é a nossa língua na modalidade mindoniense e que algums não queremos ver morrer, nem sequer ressuscitada em Portugal, no Brasil e outros países.

 


Crónica publicada também no jornal El Progeso, edição da Marinha, no dia 21 de Outubro de 2008.