Verdadeira história de um percurso brasileiro

O deslumbramento amazónico e de como o nome da GZ fora anteriormente barrido da Bienal

Sábado, 06 Dezembro 2008 00:00

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Com Agualusa e Luís Ruffato

Carlos Quiroga - É a pedido dos responsáveis do PGL que escrevo este texto. Os acontecimentos a que se refere causam-me ainda indignação e felicidade a um tempo. O segundo sentimento é claramente atribuível à gente do Amazonas, com Júlio e Patrícia à cabeça; o primeiro, a indignação, ainda não sei de modo exacto a quem, pois sempre resisti a aceitar teorias da conspiração sem prova evidente –mas começo a ter algum indício.

Vou tratar de aproveitar o frio de Kiel, no Norte da Alemanha desde onde estou redigindo, para distanciar a cara e a cruz de uma viagem que podia ter sido esmagada, mas que sucedeu só devido ao entusiasmo da gente da Floresta Amazónica. Pelo menos a eles devo o deixar constância. E pela parte deles vou começar.

O deslumbramento Amazónico

Depois da cruz de Fortaleza (a que só vou referir-me em segundo lugar), a acolhida em Manaus no dia 15 de Novembro foi de entusiasmo. O Júlio e a Patrícia já me roubaram ao enviado do Festival e celebramos o encontro no mesmo aeroporto. Na passagem pelo secretariado do evento, com todo o voluntariado lá, e numa livraria onde aguardavam algumas glórias literárias locais com livro na mão, o afecto, as fotos, as palavras e a curiosidade de todos e todas levaram-me a perguntar ao Júlio se não me estavam a confundir com outra pessoa. O Agualusa por exemplo. Pelos vistos não. Ora ele, ora o Tenório Telles, cérebro do Festival Flifloresta e autêntico cruzado da leitura, tinham predicado a raiz da língua portuguesa na minha boca e todos queriam vê-la aberta, ouvir as palavras.

No dia 16 entrei na selva, bem é verdade que como turista, mas do único modo que podia permitir-me na altura. Foi outro presente do Júlio e da Patrícia e a primeira homenagem à Floresta. Navegamos o Amazonas, ao encontro das Águas entre o Rio Negro e o Solimões, comemos numa aldeia, vimos os bichos, as plantas. E de noite outro presente: entradas para ver no mesmíssimo Teatro Amazonas a encenação de “Dona Flor e seus dois maridos”. Fiquei comovido por tudo (menos pelo trabalho dos actores), até porque já tinha evocado o famoso Teatro no final do Periferias, não imaginando que um dia poderia estar realmente dentro.

 

 
Ao encontro das Águas, com Patrícia e Júlio
 

No dia 17 começava o Simpósio Indígena (aconteciam até 3 Festivais a um tempo, o Indígena, o da Leitura, o dos Cafés Literários, para além do Florestinha para os mais pequenos). Apareci entre o público e novamente o grande Tenório desde o palco saudava a Galiza e pedia para pôr-me em pé. As simpatias e apelos continuavam de maneira tão estonteante durante toda a manhã que me senti obrigado à retirada. Também para preparar as palestras e a mesa. A primeira intervenção seria na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) no dia a seguir, “O português da Espanha”.

No dia 19 participei na leitura da Carta da Floresta, na Cachoeira da Onça, e de tarde no Café Literário de abertura, com Agualusa, Lina Tâmega e Alexei Bueno (mediador Júlio Rocha). O Tema, “Fala Portuguesa –diálogo e integração”. No meio da disputa sobre o Acordo Ortográfico, o “assunto galego” de novo bem patente (veja-se aqui).

O convívio no Festival, com entrevistas para alguns meios, vida social e conversa literária, decorreu em Manaus (“mãe dos deuses”, em homenagem à nação indígena Manau), cidade localizada no coração da floresta. O que também propiciou os típicos percursos turísticos. Entre os participantes do Flifloresta houve ocasião de reencontrar amigos já conhecidos e informados da realidade galega, como o Luiz Ruffato e o Pepetela. E fazer outros, como o louco Carpinejar, conhecer o Galera, o Alexei Bueno, e cem nomes e livros que ainda não digeri e que quando regresse a Compostela tenho que pôr ainda em ordem. Houve ocasião ainda de comer o incomparável tambaqui, o grande pirarucu, experimentar carnes de peixes de água doce que sabem a frango e que no lugar de espinhas têm costelas. Experimentar iguarias como a formiga tanajura das mãos de um índio Mura no meio do INPA. Ou cansar-se de anotar sucos e sabores de frutas mil. E até descobrir novas marcas de guaraná –ai, e presenciar como se dá mamadeira a um peixe, o famoso peixe-boi amazónico, mamífero em corpo de peixe com cara de vaca.

Desloquei-me ainda à Rondônia, capital Porto Velho, pontilhada de grandes prédios, próxima à virgens florestas e cercada por caudalosos rios. E houve de novo ocasião para na Universidade Federal de Porto Velho divulgar o caso galego entre as Línguas Neolatinas, numa palestra do dia 21 (veja-se aqui). A partir daí, com retorno por Manaus, começou o tortuoso regresso.

 

 
Na Mesa do Flifloresta
 

A experiência desta parte da viagem é altamente positiva e chocante, pois estar no Amazonas é em muitos sentidos como estar noutro planeta. No terreno pessoal, devo a experiência seguramente e acima do mais à generosidade da Patrícia e do Júlio, cuja família me acolheu também como mais um membro dela. Mas para além das cumplicidades ideológicas e pessoais, existe ainda uma cumplicidade com a Galiza que fica enterrada como uma semente neste coração da floresta amazónica.

De como o nome da GZ fora anteriormente barrido da Bienal

Depois de recordar a felicidade, que é realmente o importante para construir futuro, vou recordar a indignação –também importante para a memória da própria Galiza saber onde convoca hostilidades, não negaria que estimuladas desde fora do Brasil. Porque a proposta de ir novamente ao Brasil chegou primeiro de Fortaleza, e foi por ela que depois aceitei ir a Manaus. Em 10 Junho recebi um correio da pequena editora que lançara o meu livro nos seguintes termos

«A organização da Bienal do Ceará definiu como tema deste ano ‘Aventura Cultural da Mestiçagem’ e um dos curadores, o Jorge Piero recebeu o Periferias. O outro curador Floriano Martins também conhece seu trabalho e quer ver a possibilidade de vc vir em novembro para Bienal».

Em 13 de Junho já me entendia directamente com o Floriano Martins, que começava a falar de condições de ida e de aporte de livros, revistas e vídeos, para dedicar um stand à Galiza. Em 25 de Setembro recebia o convite formal do Estado de Ceará (em espanhol), indicando que não só pagariam todos os gastos mas ainda uma quantidade sem determinar; para além disso, enviavam um rascunho da Programação Completa, colocando ao lado do meu nome numa mesa a prodecência “Espanha”. Escrevi para o Floriano sem implicar demasiado mas advertindo que eu mal podia representar a Espanha, e ele por seu lado respondia em 28 de Setembro que «Eu também prefiro, e por razões que são tão minhas quanto tuas, identificar-te como representante da Galiza do que propriamente da Espanha. Já fiz alteração em nossa programação».

 

 
Jurububa
 

A partir daí estabelecu-se o roteiro de viagem, tratando de fazer coincidir a estadia em Fortaleza com o deslocamento a Manaus para participar no Flifloresta, um novo festival literário que entretanto também me tinha convidado. No meio disso, e com o entusiasmo do curador da Bienal, consegui para eles o envio de material audiovisual, julgando que seria aí mais fácil sentir a proximidade do que nos meios escritos não reintegracionistas. A Agência Galega do Audiovisual do governo da Junta, a Associação de Escritores, a RTVG, enviaram material em DVD a meu pedido, para programar dentro da Bienal (documentários, curtas, filmes de animação e ficção, gravações de escritores, e gravações do programa sobre livros em que colaboro). Em papel impresso, a AGAL e o Novas da Galiza enviaram também amostras. O Floriano ia agradecendo os envios com carinho, e no 13 de Outubro ele dava uma entrevista para “O Povo -Vida & Arte”, de que corto duas perguntas:

OP - Quais foram os critérios de escolha dos autores estrangeiros?

Floriano - Em todos os casos, o que não exclui os autores brasileiros, a preocupação mescla qualidade da obra e diversidade estética e geracional. Reitero que a estranheza que se possa ter em relação à maior parte dos nomes não é demérito da parte deles e sim reflexo de nosso descompasso cultural em relação a esses países.

OP - Você pode destacar alguns deles?

Floriano - Destaco trios em áreas distintas, variando também os países: na prosa, temos o peruano Carlos Garayar de Lillo, o galego Carlos Quiroga e o cubano Abel Prieto; na poesia, este imenso poeta que é o peruano Carlos Germán Belli, ao lado do argentino Rodolfo Alonso e do colombiano Jotamario Arbeláez; entre os palestrantes contamos com as excelências do mexicano Carlos Montemayor, da portuguesa Joana Ruas e da paraguaia Susy Delgado. Mas não devemos esquecer de destacar também a presença brasileira, que naturalmente inclui cearenses como Ana Miranda, Isabel Lustosa e Chico Anysio, quanto não-cearenses, a exemplo de Lêdo Ivo, Afonso Henriques Neto e Lauro César Muniz.

Concordo em não haver muitos fundamentos para mencionar-me nesse contexto, mas invoco tal detalhe para provar o entusiasmo pela “causa galega” que o Floriano estava demonstrando até à altura. Na nova programação, a Galiza aparecia em pé de igualdade entre os “PAÍSES PARTICIPANTES”:

ANGOLA | ARGENTINA | BRASIL | CABO VERDE | CHILE | COLOMBIA | COSTA RICA | CUBA | EQUADOR | ESPANHA | GALIZA | MÉXICO | MOÇAMBIQUE | NICARÁGUA | PARAGUAI | PERU | PORTO RICO | PORTUGAL | REPÚBLICA DOMINICANA | URUGUAI |VENEZUELA

Em fins de Outubro a Bienal começou a receber críticas da imprensa. E ao mesmo tempo, Diana Célia Gomes, Directora Técnica de W10 Produções e Eventos, que se ocupava da intendência da Bienal, tratava de marcar a minha passagem e perguntava-me: «Onde é GALIZA? a TAM não identifica. E a GALICIA? Aguardo retorno o mais breve possível».

 


A Agália na Bienal
 

Em 31 de Outubro recebi um correio do repórter Eduardo Sales, do jornal Brasil de Fato, para uma entrevista. Tinha sido o proóprio curador a sugerir para fazer-me. Eram somente quatro questões mas dava-me todo o espaço do mundo. E respondi demorado. Em 4 de Novembro recebi uma circular com endereços, indicações climatéricas, conselhos e informações, para as pessoas convidadas chegarem avisadas. No dia 6 era publicada a entrevista do Brasil de Fato, enormemente recortada, e com manchetes algo bombásticos que colocavam alguma contradição com o espírito da Bienal (veja-se aqui).

Imediatamente depois o Secretário da Cultura do Estado, 6 dias antes da minha partida, cancelava o meu convite e mandava borrar completamente o nome da Galiza do Programa. A comunicação chegava via curador. Invocavam-se motivos de orçamento. Floriano sugeria para eu escrever directamente para o Secretário da Cultura, Francisco Auto Filho ( Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar ), responsável único por esta decisão.

Não escrevi, naturalmente, para secretário da cultura algum, aceitei sem acreditar em teorias da conspiração por enquanto, até porque também era atingida outra escritora de São Tomé e Príncipe. Orgulhosamente, estava para renunciar à viagem e voltar ao trabalho. Mas o Flifloresta e os amigos de Manaus, no seu enorme entusiasmo e amizade, assumiram nesse momento o resto da passagem. E não soube como negar-me, apesar de me parecer demais. Ora, como eles já tinham comprado um bilhete desde Fortaleza, ainda perguntei ao Floriano se tinha espaço na mesa em que estava programado na Bienal, pois via-me obrigado a passar por Fortaleza. A resposta foi negativa. A sua explicação à minha editora foi clara:

«Eu sinceramente acho que ele deveria mandar o Estado se danar e não fazer mais o menor empenho de aqui estar. Posso encontrar-me com ele e tomar uma cerveja. Tecnicamente seu nome já foi cortado da programação, não há mais vagas em hotel etc. Ele já não existe para a Bienal. Compreendo a vontade dele aqui estar, mas acho que deveria mesmo era dar a volta por cima. Compreendes? Me ajudas a falar com ele?»

Floriano Martins enviou-me o seu celular. E eu passei por Fortaleza e fiquei duas noites num hotel que paguei por minha conta. Mas não telefonei para o Floriano, se o achava por acaso tomaria o chope –tinha direito a estar resentido com a Bienal. De ter que passar por lá, seria ridículo ficar no hotel, assim que visitei fugazmente o evento. E certifiquei-me de que havia material galego, tanto na sala de projecções audiovisuais como na de revistas, que era uma questão que me torturava. A Agália estava lá, mas sob o rótulo de Espanha. Fui ver unicamente uma mesa, a do amigo moçambicano Patraquim, que levou uma grande alegria ao ver-me e desde o palco me chamou a entrar no debate do colóquio por duas vezes. Recusei não só por estar entretido escrevendo um epigrama ao Chico Auto Filho (com esse nome), mas também por saber que qualquer conversa acabaria por puxar a minha indignação pelo acontecido. Não aceitei conversa pública, mas aceitei depois as cervejas. A que também se juntou o sábio Cláudio Willer. Eis a minha presença ausente na Bienal.

Tirei o pó das chanclas em Fortaleza e continuei viagem. Depois veio o deslumbramento e o entusiasmo que se guarda para nós no coração do Amazonas. Mas isso já está dito. E o relato acabado.