Apesar de todo

Quarta, 14 Dezembro 2011 10:23

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Paulo Soriano é contista amador e mantém na internet o sítio Contos Grotescos

Paulo Soriano

Do lado de fora, sentei-me e pedi uma canha.

Solícito, muito educado, o garçom me trouxe o chope, juntamente com o cardápio.

Não entendi nada do que o cardápio dizia. Estava ele todo em castelhano. Mas, porque eu estava na Galiza, e porque na Galiza se adora queijo, arrisquei :

- Tem queijo?

- No tenemos queso. Pero ...

Pero, loquaz e atencioso, percorreu e pontuou o garçom, com o ágil indicador, bastantes itens do imenso cardápio. Decerto que, imaginava ele, seriam do meu agrado as suas sugestões. Algo realmente apetitoso, e que bem poderia substituir a contento o meu pobre e indefeso “queso”, única alternativa que me parecia certeira num cardápio indecifrável.

Quando ele terminou a torrente espanhola, esperou, pacientemente , que eu “contestase”.

- No hablo español – eu disse, desolado, totalmente encharcado e confuso. E, não posso negar, envergonhado.

Hábil em seu mister, e para elevar o meu moral, me perguntou :

- Do you speak English? Vous parlez français?

- Não – respondi -, eu falo galego. Falo galego-português.

O garçom, abrindo um simpático sorriso, me respondeu :

- Sim, claro. Não temos queijo. Mas temos croquetes de queijo. E temos outras cousas saborosas.

A partir de então, as coisas andaram “normalmente”. Ele me explicou os detalhes de como eram feitos os croquetes de queijo. Entendi perfeitamente.

Apreciei os croquetes, sem dúvidas. E, mais ainda, a atenção com que me tratou o garçom corunhense, que, vez por outra, voltava à minha mesa – e não às outras - , para puxar um pouquinho de papo em galego, apesar do burburinho que se condensava num oceano de vozes espanholas. Ele estava feliz. Acho que ele sentia saudades. Não deve ser fácil conversar na língua nai quando se lhe é exigido falar sempre, com os clientes, em língua estrangeira, em seu próprio país, e justamente para atender às imposições de uma cidade cosmopolita. Soube melhor disso quando voltei a Compostela. Mas essa é outra história...

A este mesmo garçom pedi que me mostrasse o interior do bar. De fora, a considerar o espaço apertado que se via à rua, era impossível adivinhar o que havia dentro. Com um português de fazer inveja a políticos todo-poderosos brasileiros, o garçom galego , falando galego, me mostrou um ambiente moderno, luxuoso, espelhado, bem diferente das adoráveis e sombrias tabernas de Compostela, Noia e Lugo. As de Ourense estariam ainda por vir. Senti-me meio “deslocado”. Acho que Annabel e Lico – meus filhos – ficariam bem à vontade naquele lugar. Havia muita gente jovem, falando espanhol o tempo inteiro. Logo mais, a música alucinante explodiria. Certamente em inglês.

Voltei à minha mesinha do lado de fora. Pedi a conta.

Seguiu-se um aperto de mãos e um bater forte e recíproco de mãos nos ombros. Um quase abraço.

Quase abraço?

Os nossos falares, silenciosos e sorrateiros, íntimos e irmãos, mesmo que deixados para trás, consumidos pelo tempo, ainda se abraçavam, apesar de todo...

 

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