«Galiza e os países de Língua Portuguesa»

Debate no Foro Social Galego contou com a participaçom de Camilo Nogueira, Uxía Senlhe e Elias Torres

Quinta, 11 Dezembro 2008 00:00

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Camilo Nogueira, Uxía Senlhe e Elias Torres | Foto: Foro Social Galego

PGL - No passado 6 de Dezembro a cidade de Compostela foi palco para diversos debates inseridos no contexto do Foro Social Galego. Umha das mesas estivo virada para a Língua e a Lusofonia e contou com a participaçom do membro de honra da AGAL, Camilo Nogueira; da cantante Uxía Senlhe e do professor Elias Torres.

Os três falárom alargadamente para um auditório composto por umhas sessenta pessoas, muitas das quais participárom a seguir num muito interessante debate que se prolongou durante mais de umha hora. A seguir oferecemos um amplo resumo do que lá foi dito e defendido.

As vantagens do mundo galego-português na perspectiva do altermundismo

Camilo Nogueira focou a sua exposiçom nas vantagens e valores intrínsecos ligados á Lusofonia ou ao mundo galego-português que tem a Galiza, muito aproveitáveis na perspectiva do altermundismo.

O dirigente galeguista recordou que a economia da Galiza é umha das mais abertas do Estado espanhol, abertas ao mundo, com umha intensa relaçom com Portugal. «Somos o primeiro importador e primeiro exportador de Portugal», afirmou.

Ora bem, a nossa exportaçom está viciada, pois ela é computada no comércio exterior espanhol como exportaçom de Madrid, mas o balanço comercial galego reflecte um superávit comercial, exportando 33% do nosso PIB, por cima do País Basco e Catalunha.

O político viguês salientou que a História da Galiza nada tem a ver com a do Estado espanhol, pois «nós sempre estivemos no mundo como tais, nom como espanhois, ámbito que nunca nos incluiu», e defendeu o carácter universal do galego, «umha das poucas línguas universais do planeta».

Para o Membro de Honra da AGAL, tudo isso confere à Galiza umha grande capacidade de autodeterminaçom, mais importante que a da maioria dos estados europeus constituídos nos últimos anos. «Afirmarmo-nos no que somos será umha comoçom para o Estado espanhol, excepto que este mudar de perspectiva e pensar que a Galiza é realmente um valor acrescido ao mesmo. Afirmando-nos na nossa regionalidade espanhola, nom fazemos mais do que negarmo-nos», destacou.

Nogueira conclui a sua intervençom dizendo que a Lusofonia pertence ao Brasil, «imenso território da nossa língua que vai ser um dos Estados e potências do futuro», e contou a seguir umha pequena experiência vivida recentemente na Baía, apanhando um autocarro. «Perguntou-me umha mulher negra que estava na paragem: ‘Você de que parte do Brasil é, donde é o seu português?’. Eu respondim: ‘Senhora eu nom som português, som galego e falo galego’. E ela respondeu: ‘que bom, logo eu também falo galego, quando pensava que só sabia português’.

Cantos na Maré ou o vivo exemplo de como derrubarmos preconceitos

A cantante Uxía Senlhe começou a sua intervençom pedindo para nos reconhecermos na cultura comum lusófona. «A música deve e poder fazer muito para contribuir a isso; vivermos de costas ao inserimento internacional da nossa língua é um sintoma mau para o País e ao respeito à nossa autêntica História», salientou.

«Eu cada dia constato, graças à música e ao constante trato - com respeito aos primeiros tempos do meu achegamento a Portugal, quando nom se nos percebia individualizados no Estado espanhol, que o facto de tornarmos a Galiza em mercado para os cantantes lusófonos fai com que a Galiza agora seja para muita gente umha outra cousa, e nom simples Espanha».

Ugia reconheceu que o seu relacionamento constante com Portugal influiu muito e deu lugar a umha evoluçom benéfica da sua pessoa e das suas ideias de partida, mesmo do modo de nos vermos no mundo. Colocou como exemplo o espectáculo Cantos na Maré e o seu trabalho no mesmo, afirmando que «é um modo concreto de achegarmos cultura lusófona, fomenta a criaçom, o intercámbio e a colaboraçom e isso desenvolveu, à sua vez, um patamar superior no nosso relacionamento; já levamos seis anos desde que começamos em 2002 na praça da Ferraria em Ponte Vedra».

Lembrando a nova ediçom marcada para o dia 13 de Dezembro de 2008, Uxía Senlhe disse que Cantos na Maré tinha servido para projectar Galiza em Portugal, no Brasil e a Lusofonia toda, conseguindo que muitos preconceitos portugueses sobre a Galiza desaparecessem. «A Galiza para muitas pessoas foi umha descoberta que nem imaginavam», passando a explicar que agora temos Cantos na Maré em rede e que o projecto tem servido para colaboraçons que noutros caso seriam impensáveis, tem favorecido unions colaborativas e encenaçons, além da música...

«Com Cantos na Maré a Galiza só tem a ganhar. Eu sinto-me devedora em nom poucas cousas de quem iniciou o nosso relacionamento musical, o Zeca Afonso, embora depois dele a cousa se tivesse esvaído. Graças a Cantos na Maré, muitos músicos lusófonos que nunca estivérom na Galiza tenhem interesse em vir, e aqueles que já vinhérom nom querem que o espaço galego desapareça da sua programaçom», acrescentou.

Ugia concluiu confessando que a história de Cantos na Maré começara sendo quase só música, mas agora é muita mais cousa. «Eu afirmo com força que a nossa língua é a mesma que o português, excusai que na minha escrita ainda me fique muito por avançar, mas cada pessoa vai ao seu passo e como pode».

 


 Camilo Nogueira, Uxía Senlhe e Elias Torres | Foto: Foro Social Galego

 

Reconhecermos a espanholizaçom da Galiza para construirmos lusofonia

O vice-reitor da USC e presidente da Associaçom Internacional de Lusitanistas (AIL), Elias Torres, encerrou as intervençons iniciais da mesa, encetando a sua palestra com umha pergunta: «Que se pode fazer? A Galiza vive numha autarquia cultural muito precária, a de ser um subproduto cultural inserido no mundo cultural espanhol. O universo cultural espanhol está muito interiorizado e é elemento de coesom social da nossa intelectualidade».

Todo o seu discurso giraria por volta desta questom levantada de início, nom deixando o auditório indiferente perante umhas afirmaçons que deitárom por terra muitas dos argumentos sobre os quais alicerçam as bases do actual galeguismo. «Portugal serve-nos para muita cousa, Portugal nom é Espanha e irmos a Portugal serve para exercermos de intelectuais espanhois, ainda que alguns levem muito carimbo galeguista e até independentista. Os portugueses percebem-nos como o que somos, claramente», afirmou.

O presidente da AIL continuou explicando o porquê da sua afirmaçom, apoiando-se em que o espanholismo no qual está inserida a cultura galega tem efeitos sobre a nossa identidade e em como vemos o mundo. «O chamado repertório galego de ver o mundo é vê-lo com óculos espanhois». Elias Torres deu exemplos claros disso, fazendo ver ao auditório que todo ao nosso redor é hoje espanhol, da ordenaçom do nosso tempo diário, passando por comidas e jantares. «Todo o construído como visom galega do mundo choca de frente com o que era a mentalidade histórica do nosso povo, idêntica ao Norte e ao Sul do Minho. Hoje na Galiza o nacionalismo galego praticamente todo - nota-se bem ao governarem, tem interiorizado absolutamente o mundo cultural espanhol do que o galego é um subproduto autárquico em situaçom precária», espetou.

O vice-reitor da USC explicou como as balizas, ou subtis proibiçons que dificultam as comunicaçons com as comunidades nom espanholas, nomeadamente com a Lusofonia, reforçam continuamente o nosso inserimento subordinado no mundo espanhol: dos subsídios, passando pola comunicaçom, polo trabalho... Isso determina o nom sermos do mundo histórico galego, portanto português, e isso cria dificuldades para que as nossas elites cultural se relacionem fora sendo elas próprias, sem viverem na casa espanhola.

Além das questons da língua, para Elias Torres o problema mais grave existente nos dias de hoje na Galiza é o nosso inserimento nom questionado nesse mundo cultural espanhol, e para estudar esses problemas culturais nom há espaço nas unversidades, nem recursos, pois isso é mais um elemento do nosso balizamento. Nesse campo entraria a própria RAG e as actividades culturais subsidiadas, acordos concordiais...

Dessarte a Galiza é projectada de maneira estática e nom dinámica, nom dialéctica, cousa raramente questionada, e a intelectualidade galega que tentar sair desse mundo é considerada traidora ao nosso povo e à sua identidade, sem repararmos que precisamente nom fazer isso é ficar no balizamento espanhol. «Hoje na Lusofonia nom significamos nada, é nosso o interesse em estarmos nela, nom da Lusofonia, mas nom podemos estar na Lusofonia com umha pátria interdita».

O Congresso Galego no Mundo. Latim em Pó, organizado em seu dia na Universidade de Compostela, foi colocado por Elias Torres como exemplo de umha tentativa de mover balizas. Ora bem, a prática cultural toda do governo autónomo que gere o nacionalismo, mesmo com boas intençons, o que fai na realidade é reforçar esse balizamento. «Quanto dinheiro teríamos se suprimíssemos os subsídios a editoriais, a normalizadores, a congressos que mais que nos projectarem reduzem-nos? E se isso o dedicássemos a umha prática cultural nom balizada?», interrogou-se.

Elias disse ser consciente das dificuldades burocráticas para mover políticas nascidas no mundo espanhol, pois os poderes nom querem abandonar esse domínio cultural balizado. «Eu como vice-reitor cultural recebo todos os dias protestos por pôr nos cartazes, por ex., os dias de maneira tradicional (v.g. quinta-feira...), protestos nom por problemas de entendimento, ou por ser galego ou nom, mas simplemente porque no nosso actual balizamento de quinta-feira nom é espanhol e, portanto, nom é galego».

A interessante exposiçom finalizou com o presidente da AIL lançando um apelo para fazermos cousas que «rachem esse balizamento, essa autarquia precária em que vivemos». Só assim, com cada pessoa, cada grupo nas suas possibilidades, na sua prática, podemos construir umha Galiza nom balizada que poderá ser cabeça de ponte da África e do Brasil na Europa, mesmo com vantagens objectivas sobre Portugal, antiga metrópole.

«Continuarmos nesta autarquia precária para alguns pode ser bom; há quem viva e bastante bem na Galiza graças ao inserimento da mesma no mundo cultural espanhol, mas esse caminho só nos leva ao nada», assim de taxativo conclui a sua exposiçom Elias Torres.