Poesia na Vila: deus estava lá

Crónica do V Encontro de Poesia de Vila do Conde (28-29 de Maio de 2009)

Terça, 09 Junho 2009 07:29

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Alameda de Vila do Conde após a intervençom poética

Carlos Quiroga - Sim, participei no Festival de Poesia de Vila do Conde. Se resisti ao pedido do Portal –puxa, como farejam os porteiros– é porque mal poderia contar do conjunto, pois só fiquei uma noite. Mas bem, à falta de informante mais dedicado, aceito deixar crónica necessariamente parcial.

O Verão parecia ter chegado escaldante neste fim de Maio, quando arrancou o evento na antiga Vila, tão antiga como que anterior à fundação de Portugal (hoje centro industrial, porto de pesca, zona balnear, destino turístico, e tudo). Muitas galegas e galegos já estivéramos presentes em Março, nalguns dos centenares de textos que apareceram pendurados nas árvores da Avenida Júlio Graça, manhã do Dia Mundial da Poesia (intervenção «10 passos depois das árvores», convite lançado também no PGL para quem gostasse). O trabalho nocturno fora do Colectivo Silêncio da Gaveta, um grupo local que «tem percorrido vales e montes no país e no estrangeiro, realizando sessões de poesia em bibliotecas públicas, auditórios municipais, associações culturais, feiras do livro, encontros literários, galerias de arte, bares e emissões radiofónicas».

Portanto Poesia. Pequena vila antiga –aconchegante– e Poesia. Difícil de acreditar no século XXI, mas acontece. E tem público. E até aparece Deus. Mas isso depois. No Programa deste novo Encontro constavam debates, idas de escritores às escolas e distribuição de poemas na Feira Semanal. Os debates decorriam na Biblioteca Municipal, onde se resguarda o coração da estrutura, desenhada pela directora, Marta Miranda. Para além da mesa em que participei, e de que a seguir falo, participaram nas outras Catarina Costas, Jorge Melícias, João Rios, Pedro Gil Pedro e Ana Luísa Amaral. "O corvo", de Edgar Allan Poe, foi encenado por Marcelo Lafontana, e houve também umas Rotas d'Escritas, viagem pelos lugares que inspiraram escritores que nasceram ou viveram em Vila do Conde (como Afonso Sanches, José Régio, Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco). Ai, e recital de poesia, com Vítor Norte e João Lagarto, no último dia.

Quanto ao que eu catei, primeiro foi comida, com Marta Miranda e Teresa Sá, que escoltaram nos prolegômenos as pessoas convidadas para o primeiro debate. «Para romper o gelo», asseguravam. Desculpa prescindível, dada temperatura e companhia: o angolano Luandino Vieira, o vila-condense valter hugo mãe, a poeta e tradutora de Aveiro, Rosa Alice Branco, e quem agora escreve, figurando ainda como galego (detalhe a ponderar, pois nas Correntes de Fevereiro o mal-estar do embaixador espanhol levou a apagar-me a identidade).

Quando chegou a hora (21.30 portuguesas) da outra mesa, a de falar, o debate tinha outra desculpa tão prescindível como aquela da comida, mas tão necessária para guardar as formas: «Todo o escritor é um poeta?». A sala da Biblioteca José Régio estava cheia. O moderador, teólogo e poeta José Rui Teixeira, repartiu tempos. A conversa foi ampla, mas o jornal A Voz da Póvoa simplificou assim as nossas respostas a tal pergunta:

«...nunca houve grandes dúvidas. Luandino Vieira acrescentou mesmo que “todo o ser humano mesmo que não saiba, ele é um poeta”. Carlos Quiroga lembrou que “a poética literária da Galiza é um espaço de resistência”. Rosa Alice Branco, referiu que “os livros não são autobiográficos à partida mas no fim acabam por ser”. Para valter hugo mãe, “só me interessa a prosa que não tem o objectivo de entreter”.»

O jornalista ficou com aquilo de que mais gostou, tudo bem. Mas os matizes podem dar livros. «Todo o escritor é um poeta?». Não, resposta aristotélica evidente. Depois, as possibilidades são imensas. Temos escritores que são poetas, temos poetas que são escritores, temos poetas que não são escritores nem poetas, e até temos não-poetas ou não-escritores que são uma coisa ou outra sem constar nada disso em parte alguma. E ao contrário. No fundo há que voltar sempre à definição primária de escritor ('aquele que escreve') e de poeta ('escritor que compõe poesia'), para discutir alguns conceitos. Creio que se deve evitar o reduzionismo de chamar poesia à escrita de versos. Creio que se deve negar que Poesia seja coisa efeminada que rima. E também que Poesia seja aquela coisa nos livros que não chega bem às margens. A rima tem ritmo, evidente, pode é não ter sentido, pensamento que preste. Sentido e pensamento andam também, muito, fora da Poesia: pode é não merecer nome de tal, por muito que entrecortemos as linhas. Portanto, "ó, quanto gasto estúpido de papel, isso sim que prescindível", em nome da Poesia. [Terei que acrescentar mais alguns pareceres sobre o assunto, para encorpar a crónica].

Chegados a este ponto, e aproveitando meditações previstas para aquela mesa, nego aqui como ali o sagrado da poesia, o "estado de graça" de Juan Ramón Jiménez, por suposto, o "acto de fé" de Robert Graves, claro, a virtude de fazer "aparecer sombras e dar existência ao nada" de Edmund Burke, inclusive, e a capacidade de fazer "aparecer o invisível" de Nathalie Sarraute, e até o da "religião sem esperança" de Cocteau. Isso não é exclusivo de Poesia. Posso admitir aqui e ali a "adolescência fermentada" de Ortega –mas só em parte. Posso conceder o "dizer mais com menos palavras" de Voltaire –mas sei de exemplos ao contrário. E posso acreditar que Poesia seja o confessar-se de Klopstock –muitas vezes. Mas estou muito mais seguro de existir prosa com ritmo (como esta), com tanta pureza rítmica e tanto pensamento poético que não fique nada a dever ao conceito. E também "sei que a poesia está para a prosa / Assim como o amor está para a amizade", do Caetano.

Sei também que existe um contrato particular entre emissor e receptor que leva este a seguir regras distintas de leitura quando vê o sinal da versificação, a frase cortada, a colecção que desde a capa ou rótulo lhe dita isto ser Poesia –no contrato presente, por exemplo, não figura esse sinal.
E sei que na poesia não há dinheiro, não há utilidade aparente, só aquela das cores e dos odores –que é tão grande porque dá tanta saúde, harmonia. E que o poema é aquela hesitação prolongada entre o som e o sentido. E que Valéry falou disso, como tanta gente. Porque toda a gente tem algo para dizer seguramente sobre este assunto.

Mas o que nem toda a gente tem para dizer com fundamento –e também naquela mesa do Encontro–, é que há lugares em que a tarefa política e poética se tocam. Há lugares em que praticar uma poética da resistência –num discurso consciente da sua historicidade– ainda é inerente à prática da Poesia. E não estou falando de Poesia de intervenção, basta ser Poesia, basta usar uma língua, uma ortografia. Basta ser da Galiza –um desses lugares onde preservar a sua identidade é uma tarefa também poética–, e escrever. [O resumo poderia ser mais amplo, mas então já não seria resumo, e o jornalista, pelos vistos, viu nesta deriva final o mais diferencial. E com isso ficou. Talvez também deva eu aí ficar].

Devo acrescentar, contudo, que houve falas do público, ameaças de leitura de poemas, e perguntas várias. Desculpas (im)prescindíveis para prolongar aquela noitada na Biblioteca. Também que houve copos pós, naturalmente num bar, e que o valter hugo mãe me confessou dois problemas durante. O primeiro, o do seu nome: escrevê-lo com minúsculas não lhe causa tantas dificuldades como ter-se habituado a pôr os dois apelidos (já sabem, o habitual é pegar só no último). Imaginam a situação de uma brasileira dizer em público (era na troca de experiências recientes lá), "Ó, mãe, gosto tanto de você...!", imaginam isso? Se pelo menos ele tivesse mais cara de mulher, ou mesmo menos de homem, ou inclusive indistinta mas maternal...

O segundo problema do valter tem a ver com um tipo da Vila, que é Deus (acredita ele), e que defende ter-lhe ditado o último livro (romance badalado, o remorso de baltazar serapião, do qual Saramago disse –ao dar-lhe o prémio idem– que era um verdadeiro "tsunami literário"). Defende isso e não só. Deus tem alguma obsessão com o valter, e realmente toda a carreira deste seria guiada por aquele, que escreve todos os seus livros e ampara todos os seus passos. Com dedicação e mimo. Eu sabia que a procissão do Corpo de Deus em Vila do Conde, durante a qual se realizam os famosos Tapetes de Flores que cobrem as ruas do Centro Histórico, é uma das maiores atracções turísticas da cidade, mas desconhecia que fazia Deus o resto do ano em Vila do Conde. Agora já o sei, está escrevendo os livros do valter.

Perguntei-lhe a este se Deus estava na Biblioteca essa noite, vendo a nossa mesa, e disse-me que obviamente sim, e descreveu-mo. Então lembrei-me dele entre o público –se acreditasse em Deus, talvez teria que acreditar que estava sentado comigo à mesa, no corpo do valter. Mas não, este descreveu e eu recordei vir Deus entre o público. Que caladadinho esteve, Deus. Tem barba, mas é jovem. Se ficam curiosos, seguramente andará por perto do próximo evento que tenha a ver com Poesia na Vila. Perguntem por ele se decidem aparecer. Havendo Poesia, de certeza Deus aparece.

 

 

Alameda de Vila do Conde após a intervençom poética

 

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