Celso A. Cáccamo: «O que se chama reintegracionismo, nesta altura, já nem é um conjunto de teses, mas uma atitude de normalidade»

«O Manifesto é um texto que continua a correr polo meio do tempo, e provavelmente só seja mais adiante quando se possa ver o seu significado real»

Terça, 15 Dezembro 2009 00:00

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Celso Álvarez Caccámo é professor de Lingüística na Universidade da Corunha

PGL – Lançado em 14 de Julho, o Manifesto pola hegemonia social do galego já superou os 1600 apoios. Do Portal Galego da Língua contactamos com o sócio-lingüista viguês Celso Álvarez Cáccamo, um dos nomes que lançárom na rede o manifesto, para falar desta e outras questons relacionadas com a nossa língua.

A grave situaçom de desprotecçom que padece a nossa língua na Galiza é motivo de grandes manifestaçons que ponhem de relevo o descontente da populaçom galega. Esta foi a razom que nos levou a contactar com o professor Celso A. Cáccamo. Falamos de língua, falamos do presente e do futuro, e falamos do Manifesto.

Oferecemos, a seguir, a entrevista realizada:

 

PGL – A manifestaçom em defensa da língua e das teses reintegracionistas do 17-M recorreu ao título de um dos teus artigos e assumiu-no como bandeira. Estamos a falar da plataforma Galego sempre Mais.

Na última reivindicaçom popular perante os ataques do Governo à nossa língua (18-O), a faixa principal portava a sentença: Contra o bilingüismo, pola hegemonia social do galego, na que a tua figura também tem muito a ver. Qual é a tua valorizaçom destes factos?

Celso A. Cáccamo - Bom, "Galego Sempre Mais" não era o título dum artigo meu, mas usei-no como lema final num texto propagandístico-panfletário, "Chapapote linguístico".  Para isso recolhim três palavras comuns, que não pertencem a ninguém, mas em positivo, procurando fugir dos lemas de "defesa" que conjuram um território assediado.  De igual maneira, "hegemonia social" resume um processo e uma meta; é menos estático do que um difícil "monolinguismo" na altura, e enfatiza a construção (ideológica e na prática) dessa posição necessariamente dominante do galego.

E interpreto que "Contra o bilinguismo", evidentemente, não significa "contra o uso pessoal de mais duma língua", mas contra a ideologia e a prática pretensamente crítica que, na verdade, se preocupa de que na Galiza também se saiba bem e se use o español, o qual não é nem deve ser logicamente um alvo do galeguismo. Aviados estaríamos se além de preocupar-nos pola transmissão, uso e ensino do galego nos preocupássemos polo español!

A minha valorização de tudo isto é que é muito positivo que o ativismo linguístico continue a organizar-se em torno dum novo discurso, seja com estas ou com semelhantes palavras, mas que em qualquer caso supere a fossilizada e sequestrada "normalización" e que destaque a agencialidade, o agir social, em lugar do simples desejo.

 

PGL – Pola hegemonia social do galego leva já uns meses na rede. Criticado desde alguns sectores pola quantidade de manifestos e plataformas que se produzírom no mesmo período, as necessidades de se defender dos ataques lingüicidas eram evidentes, mas quais as diferenças da vossa proposta?

Celso A. Cáccamo - Eu não sei verdadeiramente em que medida o manifesto foi criticado. Se o foi, isto é menos importante que a variedade de apoios que tem, porque desde uma posição de compromisso ativo com a língua é evidente que resulta difícil não subscrever um texto que reclama essa hegemonia da língua própria e, além, num quadro de "verdadeira soberania", como diz.

Isto é, o Manifesto pola Hegemonia reclama o mais normal do mundo, e, na minha leitura, não postula que defender nesta altura uma legislação que não garante tal naturalização do galego seja a tática mais adequada: para começar, porque para alguns será tática, mas para muitos outros convencimento, e aí há uma linha em que o ativismo linguístico não deveria ceder. Por isso o Manifesto está a receber apoios relativamente amplos de pessoas e setores que noutras circunstâncias talvez não o houvessem apoiado.

De alguma maneira, muita gente parece estar a dizer: "Já avonda!  Vou apoiar o que penso, e não vou deixar de fazê-lo porque não leve eñe", o qual é muito positivo. Ainda mais, eu tenho a impressão de que para alguma gente isto está a representar uma certa libertação, como uma necessidade de posicionar-se (também) contra os símbolos que acompanham desde há 30 anos a desfeita da língua. Mas devemos entender, contudo, que o compromisso de assinar um manifesto (este ou qualquer) é apenas sintomático dum sentir social.  O Manifesto pola Hegemonia não tem por detrás qualquer partido ou instituição específica, e, neste sentido, é tão "nosso" (se por isso te referes às pessoas que o promoveram) quanto das quase 1.600 restantes.

O Manifesto é um texto que continua a correr polo meio do tempo, e provavelmente só seja mais adiante quando se possa ver o seu significado real.

 

PGL – Sendo um manifesto redigido em galego-português, nom é um manifesto apenas para reintegracionistas, mas plural. Com mais de 1.500 apoios, demonstra isto que o povo galego nom é refractário às teses reintegracionistas?

Celso A. Cáccamo - E onde houve previamente qualquer manifesto reintegracionista "apenas para reintegracionistas"? ;-). Isto seria uma contradictio in terminis. Eu penso que o que se chama reintegracionismo, nesta altura, já nem é um conjunto de teses, mas uma atitude de normalidade. Naturalmente: o povo galego não é em essência refratário a uma visão do seu idioma como uma língua internacional que noutras partes se pode chamar doutra maneira. Essa visão de unidade manifesta-se de maneiras muito diversas e complexas na vida diária, por parte das pessoas mais insuspeitadas (não é preciso ser "reintegracionista militante", explicitamente ideologizado), e nem sempre a meio do nome da língua.

Admira ver que nas centenas de comentários de assinantes quase não há polémica "ortográfica". Talvez seja, também, porque o Manifesto não é "correia de transmissão" de ninguém: não é uma consigna, mas a exteriorização duma série de ideias fortes, mas quase de sentido comum se se compreende a preocupante situação do idioma. Contudo, o assunto não é que a gente esteja "pronta" ou não para o reintegracionismo como visão da língua, mas as condições que possibilitam ou impedem que esta visão possa chegar a plasmar-se, a ter realidade crescente na vida diária. E muitas dessas condições não dependem diretamente do "povo".

A necessária hegemonia consiste não só em ganhar espaço à dominação linguística e cultural españolas, em eliminar essa distorção que impede o raciocínio, mas em ganhar espaço de razão também no seio do ativismo e do galeguismo em geral.

 

PGL – Os organizadores realizastes um grande esforço, mesmo económico, para difundir o manifesto, aparecendo por exemplo publicado na ediçom de papel do Xornal de Galicia. Contribuiu notavelmente este facto? Cresceu o número de apoios?

Celso A. Cáccamo - Na verdade, foi e é um trabalho conjunto de muita gente (e, certifico, não só "reintegracionistas") de difusão pola Internet, por correios eletrónicos, por telefonemas, no Festigal, ou na passada manifestação de 18 de outubro. A edição em papel, claro, fez ver que estamos aqui: sejamos 700, como no momento da publicação, ou quase 1.600 agora, estamos aqui. Não se trata apenas duma questão de cifras absolutas, mas, repito, duma dinámica que possa romper com hábitos e inércias.

Quanto ao aspeto económico, o ideal seria a mais ampla participação para pagar essa publicação em papel, não porque umas poucas pessoas não possam pagá-lo, mas precisamente para incrementar a co-responsabilidade.

 

PGL – Mercê à colaboraçom do MIL (Movimento Internacional Lusófono) o manifesto foi publicado na imprensa portuguesa. Que repercussom tivo isto no país luso e de que jeito tem contribuído para a causa reintegracionista?

Celso A. Cáccamo - Realmente, eu não tenho informação sobre esse impacto. Talvez outras pessoas sigam isto mais perto. O MIL adoptou o texto como seu e decidiu publicá-lo em Portugal, o qual é muito positivo para a sua difusão. Mas as adesões continuam a ser geridas no sítio do Manifesto.

Acho que acontece por primeira vez que em Portugal se preocupam desta maneira concreta pola situação da sua língua na Galiza, já não "na Espanha", mas é que recentemente há tantos eventos "por primeira vez" na projeção exterior do conflito linguístico da Galiza que este é um mais. Outras pessoas poderiam informar melhor disto.

 

PGL – Em que momento se encontra o manifesto? Há novas adesons?

Celso A. Cáccamo - Sim, claro. Eu pessoalmente não vejo qualquer motivo atual para o Manifesto deixar de estar aberto. Não é um texto circunstancial. Talvez as referências à política atual do PP sim, mas o texto também deixa ver que tudo isto é também resultado duma prática de décadas da classe política dirigente em geral.

Na medida em que não haja uma viragem substancial na conceção da política linguística por parte dessa classe (política, inteletual e técnica), na minha opinião as condições de oportunidade do Manifesto continuarão vigentes. Outra cousa é que, no futuro, o que aconteça no país leve a gente a fazer outras cousas que se fundamentem e alimentem do anterior, mas o superem.

O Manifesto pola Hegemonia não é um objetivo em si. Nenhum texto é um objetivo, mas um meio. Esta posição precisa, claro, do máximo apoio consciente e explícito, mas, como um livro acabado de escrever, o apoio pode parar no futuro, espontaneamente (isto é, coletivamente: a história não improvisa). O que observo cá e lá, porém, à margem do Manifesto em si, é que a centralidade fundante da noção de "hegemonia" tem um longo percorrido por diante, pois começa a compreender-se que reclamar a hegemonia do galego significa superar o sequestro que sofreu a "normalización".

 

PGL – Aproveitando a tua condiçom de professor na Faculdade de Filologia da Universidade da Corunha, existe alguma hipótese para a língua galega que nom passe pola estratégia luso-brasileira?

Celso A. Cáccamo - Bom, já o disse Carvalho Calero a uma pergunta semelhante num debate na TVG em 1987: "Ninguém é um xamã". Em sociolinguística não há adivinhos, nem aqui, nem no outro lado do campo. O que há são variadas interpretações sobre variados tipos de dados. Mas a experiência parece dizer que trinta anos polo caminho que seguiram as instituições não levou muito longe. E, em certas questões, até abriu portas para a reação hipocritamente bilinguista atual.

Na verdade, Carvalho não era um esotérico adivinho, mas sim um agudíssimo investigador, e para mim a sua visão continua a ter plena vigência: o galego, ou é galego-português, ou é galego-castelhano. Ou dito mais científicamente: se não é boi é vaca. O galego vaquiboi não existe: se tem peçunho, é boi, e se tem pezuño, é vaca (e mais cousas, claro: coloco a escrita como exemplo, como signo visível de nacionalização linguística). E como, que eu saiba, o galego faz parte da língua portuguesa, para mim a "estratégia luso-brasileira" nem estratégia é, mas apenas a plasmação social da unidade da língua.

Estamos numa nova fase, ainda incerta, e hoje menos que nunca temos que pedir permissão nem desculpas a ninguém para fazermos o que a língua aconselha, que é continuarmos no caminho dessa unidade. Felizmente, isto está a acontecer também fora das nossas fronteiras, com a inclusão, por primeira vez, de léxico galego nos nossos dicionários internacionais (os da língua portuguesa, claro) mercê ao trabalho da Academia Galega da Língua Portuguesa. Não sei se se repara na potencial importância deste facto, mas é que no mundo nenhuma instituição da língua acolhe alegremente centenas de palavras ou acepções novas se não fazem parte do sistema.

Alguém imagina um dicionário de italiano que de súbito incorporasse centenas de palavras do romeno como próprias? Portanto, a compreensão da unidade linguística com a Galiza por parte das academias de Portugal e Brasil é muito significativa. Claro que o impacto disto nos usos reais da língua e na sua transmissão é uma outra questão, que requer um trabalho de explicação e de reposicionamento ideológico, requer que como coletividade adoptemos de vez uma nova orientação, algo assim como o nosso Feng Shui linguístico.

Por exemplo, há ainda muito que fazer na articulação entre os grupos e entidades que trabalham pola língua e os grupos ativistas de base, locais sociais, e outras formas de organização da sociedade civil. Também, na medida em que as instituições culturais e políticas inevitavelmente jogam um papel em tudo isto, há que estarmos preparados e preparadas para uma necessária troca de elites (jovens, por favor).

Se examinamos os dados quantitativos fiáveis sobre a perda linguística, é evidente que a recuperação do galego precisa de quantidades maciças de "neofalantes" jovens, não apenas de galegofalantes iniciais. E, por várias razões que ocuparia tempo expor, os neofalantes precisam dum neogalego (como foi neogalego o dos neofalantes anteriores).

Esse neogalego, para ter hipótese de continuidade, será algo que os neofalantes identifiquem simples e naturalmente como parte da língua portuguesa, com o grau de compreensíveis "Sim, mas..." iniciais que se quiser. E toda esta revalorização da língua, temo-me (não me temo), não se pode fazer sem, simultaneamente, desvalorizar simbolicamente o español, esse lastre identitário e cultural (não se pode ser galeguista e bilinguista de certo tipo ao mesmo tempo). Esta é, penso, a estratégia mais útil.

 

PGL – Muito obrigado polo teu tempo e polas tuas palavras, Celso.

Celso A. Cáccamo - Obrigado a vós.

 

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