Susana S. Arins: «As revoluçons adiadas nunca som feitas, ficam pendentes»

Terça, 19 Janeiro 2010 00:00

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Susana S. Arins

PGL - Amanhá, quarta-feira dia 20 de janeiro, terá lugar em Santiago de Compostela a apresentaçom do poemário [de]construçom, da escritora Susana Sánchez Arins, num acto que será apresentado polo professor Carlos Quiroga. Do PGL aproveitamos a ocasiom para falarmos com a autora sobre  o seu trabalho, a literatura, o reintegracionismo lingüístico e ainda outras questons.

Esta foi a conversa que mantivemos com a Susana:

PGL – Susana, como foi a tua entrada no mundo da poesia?

SA – Tenho a sensaçom de nom ter entrado nunca, mas de estar de sempre dentro desse mundo. Escrevo desde nena, e foi este um gosto que me foi potenciado na escola.

Tardei muito tempo, isso sim, em dar com um estilo cómodo para mim. Houve temporadas em que nom escrevia, mas levo umha de produçom bem longa e frutífera, aguardo que por sorte para o sistema (risos).

PGL –  Na hora de trabalhares, para concretizar um poema, decides que vas escrever ou a inspiraçom chega sem aviso?

SA Às vezes o poema acontece, como dizia Sophia, mas embora isso passe, os textos devo trabalhá-los, dou-lhes voltas e voltas e voltas. Algumhas vezes ficam tal qual os escrevim na primeira versom, mas som as menos. Na maioria dos casos, decido o QUE quero escrever mas nom COMO. Isto último vai saindo à base de rascunhos em papel.

E para isso conto com umha ajuda básica (isto vai semelhar patrocínio pagado): o e-estraviz. Nom há poema que nom seja crivado com peneira melhor.

PGL – Precisamente, alguns críticos apontam que a tua obra bebe das águas literárias da poeta lusa Sophia de Mello Breyner. Que influências destacarias tu?

SA – Pois a primeira influência pode ser ter lido e debulhado toda a sua poesia. Descobrim Sophia numha estadia de estudos em Lisboa, o ano que lhe deram o Camões, mas uns tempos antes do prémio acontecer. Eu fiquei engaiolada com a sua obra poética.

Influência? Gosto imensamente da poesia singela, breve e sintética, sem barroquismos léxicos, que há, sobretodo, nos seus últimos livros. Por vezes acredito que consigo cumprir com essas premissas quando escrevo mas, paradoxalmente, é muito difícil escrever singelo.

PGL – No teu blogue podemos ler poemas como O elevador e Da desilusão ou Campo de refugiados, Palestiniana e Intifada, peças na linha da poesia social, que te conectam com os problemas da Galiza e do mundo. Achas que a poesia é umha ferramenta para a mudança?

SA – Bufff! Pois infelizmente penso que nom muda o mundo, claro que nom, mas pode ajudar a compreendê-lo ou a suportá-lo, que já é avondo. Tenho que ser realista e aceitar que poemas como Intifada ou Palestiniana nom vam mudar as cousas em Gaza, mas quando fôrom os bombardeios eu pudem expressar assim a minha raiva e a minha solidariedade; e quiçá alguém, ao lê-los, poda compreender como nos sentimos nós ou reflectir sobre a situaçom das vítimas, destas violências e outras.

Em todo o caso, nom acredito na diferenciaçom entre poesia intimista, por exemplo, e poesia social, pois as pessoas somos, por definiçom, animais sociais, somos no mundo, somos entre a gente e a minha intimidade nom é independente da minha consciência social.

PGL –  Para além da poesia tes cultivado o relato. Foi algo esporádico, ou continuarás trabalhando este género?

SA – Pois a realidade é que nom me sinto cómoda na prosa literária. Quando a pratiquei, nom me foi mal, pois suponho que fas referência aos textos que tenho feito para o Certame de Microrelatos de IND, mas o certo é que os escrevim porque me sinto identificada e comprometida com as causas que defende essa ONG.  

Penso que até  me sinto melhor na crónica jornalística ou na literatura de divulgaçom que na prosa literária. Quiçá com o tempo e a prática.

PGL – A literatura é mais um agente normalizador mas, escrever em reintegrado é um acto de valentia? Comentavas há tempo que, na Galiza, escrever na norma histórico-etimológica fecha portas. Continua a ser assim ou a situaçom reverteu?

SA – Para mim, pessoalmente, nom é um acto de valentia mas de normalidade. De fora poder ser visto como mui atrevido, como me podem parecer a mim as acrobacias dos ginastas, mas de dentro, igual que para eles, é algo habitual e lógico, fruto do costume e o uso diário. O de abrir ou fechar portas tem que ver com os objectivos que cada quem tenha no sistema literário.

Nos limites da Galiza e querendo viver da escrita, por exemplo, está claro que acouta possibilidades. Tem em conta que eu ganhei o único certame poético a que me podia apresentar. Todos os demais que eu consultei (e casualmente com prémio de dotaçom económica) exigiam o uso da norma ILG-RAG. Pensa nas editoras que mais vendem na Galiza e quantas obras em reintegrado tenhem nos seus catálogos. Mas se o que queres é outra cousa... se nom há portas, há janelas e sempre podem ser escavados túneis...

PGL – Quando as pessoas dam o passo para a norma da Agal, tenhem por trás umha profunda meditaçom, pois a formaçom tem de ser autodidacta. Como foi a tua transiçom do galego-castelhano para o galego-português? O que te motivou?

SA – Foi há tanto tempo que nem lembraria, se nom for polo curioso. Sempre fui umha leitora empedernida e, nos veráns, quando estava no liceu, liquidava as existências das Bibliotecas da minha escola de Primaria e da Municipal, para passar as tardes na praia fluvial. Na da escola dei com um romance de Carvalho Calero, Scórpio, que devorei gostosa e do qual depois soubem que pudem nom ter lido nunca porque ninguém lho queria publicar nessa norma que a mim nom me custara muito ler.

Um outro dia encontrei, na Municipal, umha ediçom bilingue espanhol-português da poesia de Álvaro de Campos. Quando me dei conta, estava a ler a página portuguesa porque me resultava tam fácil como a página castelhana... foi simples cair na conta de que estava ante umha variedade da minha própria língua...

Estou a falar de quando tinha por volta dos quinze anos. Devia ser umha adolescente um pouco repelente!!

PGL – A tua obra tem visitado outros pontos da lusofonia, como Portugal. Qual foi a acolhida?  

SA – Apresentei o livro sem haver livro ainda em Braga, dentro do Galiza em Trânsito deste ano. Foi algo estranho e mui divertido. Tem em conta que era escritora sem obra, poeta sem poemas. Gostei da experiência e estou disposta a repeti-la (por se há alguém aí atendendo)...

PGL –  Apresentas agora em Compostela [de]construçom, premiado de jeito unânime com o Parallé 2008. O que nos podes contar sobre o livro?

SA – [de]construçom é umha obra que está a pagar mui bem o esforço que gastei nela. Quando a planifiquei, pretendia que fosse o diário das obras de reconstruçom dumha casa velha que merquei há uns anos. A ideia era fazer poesia de materiais aparentemente pouco poéticos, e mesmo antilíricos, como podem ser as uralitas, os andaimes e plásticos arrombados num canto ou o cimento a cair da colher de um alvanel.

O resultado é  o que indicava no começo: podo decidir sobre o que escrevo, mas nom como. Afinal saiu um livro que fala de lares, de intimidades, da casa como cárcere e como refúgio, de gentes que no mundo nom tenhem casa... Penso que é umha obra que tem múltiplas leituras e isso é o que a faz interessante.

PGL – A internet tem sido umha peça fundamental para a sua criaçom?

SA - Internet  nom foi essencial na criaçom, mas sim na disciplina laboral. A mim o que me perde é a preguiça e sentir-me obrigada a actualizar o blogue, fazia que nom esquecesse trabalhar algo de quando em vez...

PGL –  Há quem diga que agora é o momento de normalizar, e que normativizar virá depois. Com este pretexto, anos atrás, houvo vozes na literatura galega que mudárom de rumo quanto à normativa, e passárom do NH para o Ñ. Mas também há quem diga que essa mudança atende ao medo de ficarem excluídos das ajudas e do tecido cultural hegemónico promovido polas instituiçons oficiais. Como poeta, como vives tu isto?

SA – Nas razons pessoais da gente para optar por umha norma ou outra, nom podo entrar, pois som isso, pessoais. Alá cada quem com a sua consciência. Do que eu nom gosto nada é das frases agora nom é o momento ou deves ter paciência.

As revoluçons adiadas nunca som feitas, ficam pendentes para sempre. Aconteceu o mesmo com a revoluçom feminista e sem ir muito longe com o governo anterior: quando deixas algo importante para depois do momento em que podes fazê-lo, tem por seguro que nom o farás, porque nunca se dam as condiçons ideais para certas mudanças, sobretodo se estas som estruturais.

Para mim nom há  normalizaçom sem normativizaçom: som processos paralelos, irmáns. Por isso escrevo na norma em que escrevo, porque nom penso que deva aguardar, a quê?, a quando? a que o galego deixe de ser língua falada na Galiza? a que se agrave o processo de substituiçom de galego polo castelhano?

PGL – Na linha do anterior. Há um tecido cultural paralelo nom promovido por instituiçons, mas por centros sociais muito activos que trabalham com plena naturalidade em base ao padrom da Agal. Um dos teus poemas fala precisamente dum desses colectivos, a Gentalha do Pichel.

SA – A Gentalha do Pichel, centro que ainda nom conheço. Aqui onde me vês escrevo muito poeminha solidário mas depois nem visito os locais... [risos]. Som umha alternativa real à da cultura oficial, igual que projectos editoriais como o da Estaleiro Editora.

Se o interesse que temos é o da difusom cultural e o da cultura comunitária e nom o de fazer indústria, som essas redes o meio a utilizar. Tenho participado desde a adolescência e  projectos associativos diversos e creio – quase tenho fé religiosa – na força do associativismo de base, quando participativo e aberto.

Com respeito ao uso da norma AGAL com normalidade, penso que esse é o caminho: eu uso-a e lá onde vou dá-se, quando menos, a conversa, o diálogo que em muitas ocasions nasce da surpresa ou da curiosidade por eu escrever tam raro; mas o facto de eu fazer uso dela com essa naturalidade cria mais simpatias que antipatias. Ou assim o percebo eu...

PGL –  Já para pormos fim a esta entrevista, umha última pergunta, Susana. Em tempo de rascunhos, decretos e privaçom de liberdades para os galego-falantes, e atendendo à tua experiência docente, como vives a situaçom actual da nossa língua?  

SA – Pois com grande descontentamento e com grande raiva. Som docente numha comarca maioritariamente galego-falante, mas vejo e percebo no meu alunado os mesmos complexos e conceitos tópicos a respeito do galego que em outras muitas zonas nom galego-falantes.

Estou convencida, por exemplo, de que se lhes dam a escolher a língua da escola, optarám polo castelhano. E como o sei eu, sabe-o o governo do PP, por isso decidem que devem escolher pais e nais e nom a sociedade em conjunto.

Deve ter sido em conta que o escolar é o único espaço que na actualidade oferece às crianças e adolescentes um uso normalizado do galego (lá onde os centros cumprem a lei, que havê-los, hai-nos).

Atacar esse único espaço é atirar mísseis á linha de flutuaçom: o processo de transmissom geracional da língua. Quem lhe falará galego às crianças que cheguem dentro de 10 anos? Por isso penso que é importante a mobilizaçom: como digem antes, as revoluçons nom podem ser adiadas.

PGL – Muito obrigado por conversares connosco Susana. Algumha mensagem para os leitores e leitoras do PGL?

SA – Um lema que já defendim na anterior entrevista que me figestes do PGL: faz o humor e nom a guerra. É sempre, se nom o melhor caminho, quando menos o mais divertido...

 

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