Carlos Figueiras: «É problemático que se subsidiem produtos só por se escreverem na norma 'oficial' da língua galega»

«Com Estaleiro temos demonstrado que é possível dinamizar projetos em que a escrita ocupa um papel central»

Segunda, 15 Fevereiro 2010 08:52

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Carlos Figueiras é um dos promotores da Estaleiro Editora

PGL - Criada em 2008, a Estaleiro Editora é umha associaçom cultural sem ánimo de lucro que visa desenvolver um projecto de ediçom independente, capaz de abrir novos caminhos dentro do sistema literário galego. Conversámos com um dos seus promotores, o filólogo e escritor Carlos Figueiras.

PGL: Para começarmos esta conversa, podes fazer umha breve apresentaçom para os nossos leitores sobre o nascimento da Estaleiro Editora, quantas pessoas há envolvidas no projecto e quais som os factores que vos animárom a criá-la?

Carlos Figueiras: Estaleiro é um projeto editorial assemblear, sem ânimo de lucro e que edita sob licenças livres Creative Commons. As mais de 40 pessoas que integramos a associação procurámos, por esta via, a criação de um carimbo editorial independente das necessidades que o mercado "impõe" às empresas editorias e das limitações e censuras que a cultura subsidiada colocam, ou podem colocar, aos produtores.

PGL: A Estaleiro Editora é um projecto novidoso no nosso país, que repercussom achas que está a ter no sistema literário galego?

CF: A repercussão é maior da prevista e até, possivelmente, da ambicionada na ideia original. Estaleiro nasceu com vontade de marginalidade procurada, com a perspetiva de emular propostas similares existentes noutros sistemas culturais. Contudo, a necessidade de aparentar "normalidade" de um sistema cultural pequeno e débil como o galego, acabou por fazer com que os meios de comunicação e as instituições culturais nos prestassem mais atenção da aguardada.

Num sistema como este tudo, ou quase tudo, soma pois, para parecer normal, uma cultura parece necessitar também "marginais", "outsiders" e "modernos", preencher todos os espaços possíveis... e Estaleiro ocupa um desses vazios.

PGL: Nos dias de hoje as editoriais galegas editam um número considerável de obras na nossa língua, isto tem dado lugar a vozes críticas que consideram que este incremento foi parelho a umha menor qualidade. Que de certo há nesta crítica?

CF: Pessoalmente, não acho oportuno falar em qualidade, mas em produtos culturais com maior ou menor grau de sucesso ou de fracasso. Desse ponto de vista, é claro que a política dos subsídios à literatura galega fez com que muitos editores nem sempre tivessem de estar muito preocupados pelo fracasso de algum dos seus livros. O sucesso implica um incremento no lucro, o fracasso, por desgraça, nem sempre provoca as perdas que deveria. Na Galiza edita-se muito, muitíssimo. É difícil não chegar a esta conclusão se repararmos nos índices de vendas do nosso mercado.

Se o governo autónomo não susbsidiasse indiscriminadamente a edição na norma RAG-ILG do galego, os editores deveriam preocupar-se mais com o mercado, publicariam-se produtos que necessariamente deveriam funcionar em sociedade e a sua promoção, com certeza, melhoraria. Neste panorama, por que Estaleiro Editora? Porque é um projeto auto-gerido, que não joga com o dinheiro público obtendo parte dos ingressos simplesmente por colocar um livro no mercado. Estaleiro obtém a totalidade dos seus ingressos por vender os seus livros.

PGL: O livro Fume / Insomnio da autoria de Ruben Ruibal e Carlos Losada, publicado em 2008 pola Estaleiro Editora, foi nomeado finalista da modalidade de teatro dos Prémios AELG 2009. Tem isto suposto umha maior difussom do vosso projecto editorial?

CF: A nominação não influenciou as vendas de Fume / Insomnio, pois a edição estava esgotada quando o livro foi finalista dos Prémios AELG. Quanto à imagem do projeto, é sempre agradável ouvir falar bem dos produtos próprios, independentemente de se são os leitores, os produtores ou as instituições os que o fazem. Estaleiro não nasceu com a vocação ou a necessidade de optar a este tipo de reconhecimentos, mas é claro que que como qualquer outra crítica positiva, este tipo de notícias contribuem para que se fale na editora, e isso, para nós, é sempre bom.

PGL: Estaleiro Editora respeita a escolha normativa do/a autor/a. Mas quanto ao processo de normalizaçom da nossa realidade cultural, e como reintegracionista que és, achas que este é o caminho certo face a ultrapassar a marginaçom da normativa reintegracionista dentro do sistema literário galego?

CF: Do ponto de vista de Estaleiro Editora, o nosso projeto simplesmente pretende ser respeitoso com a liberdade intelectual dos produtores. Isto não se reduz ao assunto da norma, tem implícita uma filosofia maior, uma certa ética do respeito polo pensamento dos outros. Do ponto de vista pessoal, para mim, como cidadão, o problema não radica tanto em que não se concedam subsídios a produtos em normas diferentes da RAG-ILG.

Para mim, como cidadão, o que não deveria ser aceitável é que se concedam subsídios à edição atendendo exclussivamente a critérios linguísticos. Eu acho que o problemático é que se subsidiem produtos simplesmente pelo facto de se escreverem na norma “oficial” da língua galega. De resto, e no que atinge ao nosso quotidiano, com Estaleiro temos demonstrado que é possível dinamizar projetos em que a escrita ocupa um papel central com a participação de pessoas que têm muito diferentes opções normativas.

PGL: A Estaleiro Editora nasce como um espaço de resistência sobre as leis do mercado e as limitaçons dos direitos de autor, mas quais som os benefícios da publicaçom sob licença Creative Commons para o/a autor/a e para a editora?

CF: Estas licenças potenciam as oportunidades que as pessoas têm de consumir e utilizar um produto livremente, sem qualquer outro tipo de restrições que o reconhecimento do autor, dos editores, a não alteração do texto e o seu emprego sem ânimo de lucro. Hoje, as pessoas parecem agradecer iniciativas como esta apoiando com o seu consumo projetos como o nosso, necessários numa sociedade em que a perseguição da partilha e do consumo coletivo dos bens culturais tem ultrapassado já os limites do que, do nosso ponto de vista, poderia ser aceitável.

PGL: Já para pôr fim a esta entrevista, quais fôrom os sucessos atingidos até agora e quais som as próximas metas para a editora?

CF: O maior sucesso de Estaleiro é cada novo livro que sai da imprensa para vender-se numa das nossas bancas, continuar a fazer isso com regularidade é afiançar esse sucesso e a nossa meta. Se para além dissso, de passagem, conseguimos, embora minimamente, influenciar com a nossa praxe o funcionamento do nosso sistema cultural, podemos dar-nos por amplamente satisfeitos.

PGL: Obrigados polo teu tempo Carlos e parabéns polo projecto!

CF: Obrigados nós ao PGL pela atenção e o seu trabalho informativo. Parabéns.


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