Carlos Núñez: «Com um esforço mínimo temos acesso a umha língua de milhons de falantes»

«Do Brasil surpreende a presença de palavras chave do imaginário galego que ali estám presentes na vida»

Sexta, 19 Fevereiro 2010 00:00

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No centro, Carlos Núñez com Sabela Fernandes, Valentim R. Fagim, Fernando Conde e José R. Pichel

PGL (*) - Conversámos com o músico Carlos Núñez. O fito que inspirou esta entrevista foi o facto de o gaiteiro viguês ter publicado no ano passado um magnífico disco Alborada do Brasil, inspirado no outro lado do Atlántico. Foi umha conversa em que resultou evidente que a nossa língua é universal, além de um valor de presente e de futuro.

Pergunta: Como e por que começaste a te interessares polo Brasil e por que este disco tam claríssimamente dirigido cara ao Brasil?

Carlos Núñez: Eu tenho um antepassado que foi o meu bisavó, que era músico, da Galiza, da Mezquita, que foi para o Brasil em 1904. Sempre nos dixérom que fora assassinado por ciúmes profissionais, mas como que era um mistério por resolver, eu nunca acreditei que isso fosse possível, sobretudo porque nom figérom dele um herói na família, senom que desapareceu com a sua música, como algo a esconder, demasiado raro, e sempre sempre quigem averiguar que se passava aí com o Brasil, como que Brasil era algo que ficava pendente desde sempre.

Depois, nós estivemos há dez anos de gira no Brasil e tocamos em São Paulo. Um pouco a sensaçom que tivemos era que aquilo era enorme. Nom estávamos ainda preparados para essa aventura, e ainda havia que “fazer o caminho de Santiago”, ainda havia que passar polo flamenco, polas músicas peninsulares, polas músicas europeias. Primeiro ainda figemos discos nos que pesquisamos a relaçom Norte-Sul da península, o flamenco, os árabes, que se a Bretanha... e bom, dez anos mais tarde pensamos que poderia ser o momento do Brasil. Entom fôrom três anos de pesquisas, três anos de viagens polo Brasil interrompidas. Sempre voltávamos para fazer giras na Europa, mas em quanto podíamos continuávamos as exploraçons, e um ano de gravaçom.

P: Por que juntar duas palavras, Alvorada e o Brasil, como título para o teu disco?

C.N.: Isto pensamo-lo muitíssimo. O que surpreende no Brasil quando chegas é a presença de palavras mágicas, de palavras chave do imaginário galego e que ali estám presentes na vida. Acontece que às vezes estám presentes, mas com umha componente incluso até mais moderna, mais actual. Palavras que aqui permanecem quase de museu, por exemplo alvorada.

Alvorada, sim, lembra-nos Rosalía de Castro, o século XIX, Murguia, o Rexurdimento, havia revistas com esse nome. Alvorada, no Brasil, som cousas tam dispares como o Palácio onde vive o presidente Lula, o Palácio da Alvorada de Oscar Niemeyer ou um dos sambas mais conhecidos no Brasil que é o samba Alvorada de Cartola. Contam-nos os brasileiros: é que para vocês alvorada é mais o começo do dia e para a gente alvorada é mais o fim da festa, a volta da festa, já quando passa a noite, já remata tudo.

 

O presidente da AGAL, Valentim R. Fagim, com Carlos Núñez
e o seu mánager, Fernando Conde


P: Antes de ter essa experiência musical no Brasil, ligavas Galiza com Brasil nesse sentido?

C.N.: Nós, aos inícios da nossa carreira, estávamos mais concentrados na música celta. Sempre dedicámos atençom a Portugal, figemos trabalhos desde o primeiro disco (A Irmandade das estrelas) com artistas portuguesas como  Dulce Pontes, Teresa Salgueiro de Madredeus, Anabela...

E ainda que a atracçom polo Brasil sempre estivo aí e já estivemos lá há dez anos, percebíamos que era um pais interessantissimo, mas sentíamos que era imenso. Nom sei se por defeito, nunca nos metêmos nalgo até que nom aprofundámos realmente. Por isso deixamos passar dez anos. Fomos acumulando sensaçons e intuiçons sobre o país e, quando a caixa estivo o suficientemente cheia, lançamo-nos à aventura.

Imaginade o dia que descobrimos que o primeiro instrumento que chegou ao Brasil foi a gaita que levárom os portugueses... ou quando os Chieftains nos falam que o nome do Brasil é um nome irlandês, que existia umha lenda irlandesa que falava de umha ilha situada no Atlántico e que se chamava Ibrasil. A crença de que existia terra além do Atlántico era comum a todos os países atlánticos e materializa-se nessa lenda irlandesa com o conceito da ilha de Ibrasil.

Nesta lenda fala-se que dessa ilha trazia-se umha madeira chamada pau-brasil e que aí habitavam a princesa Morgana e o rei Artur. Precisamente, há um texto de um basco, que é de 1450 e pico, antes de Cristovo Colombo, que fala dessa ilha. Portanto, quando os portugueses chegárom ali, pudérom pensar que estavam na ilha de Ibrasil. O caso é que esse ponto de vista atlántico, galaico, nunca foi valorizado. A ideia da criaçom brasileira sustentou-se noutros mitos e estes permanecem aí no limbo.

P: Desde que estiveste no Brasil, que visom tens do galego?

C.N.: Há um Museu da Língua Portuguesa em São Paulo, muito interessante, com salas interactivas e muito desenho... Numha das salas, os nenos das escolas fazem jogos. Por exemplo, saltam por cima dos versos das ondas de Martim Codax, fazem rap com os poemas galego-portugueses medievais ou com poemas de Manuel Bandeira -neotrovadorista brasileiro-.

Por certo, que o rap tem muitíssima relaçom com a poesia rimada medieval, que é algo que no Brasil segue vivo com os repentistas... Nós temos visto entrevistas com músicos brasileiros de música tradicional que dizem, que isso do rap já existia antes aqui, que é o que eles chamam a embolada. Por isso, fizemos a Alvorada de Rosalía de Castro em chave de rap. É impressionante, porque segues a melodia de gaita em que Rosalía se inspirou e é claramente um rap, é poesia rimada.

Além disso, nesse museu há um vídeo de Caetano Veloso onde ele diz que a língua brasileira é a melhor língua do mundo para cantar. Pronto, isto é que nos contavam na escola quando nos diziam que na época de Afonso X “O Sábio” se acreditava em que o galego era a melhor língua para cantar. Entom, nós pensámos: nom será que os brasileiros tenhem essa língua de que nos falavam? E é que escuitas os bês, os vês... toda essa riqueza e entom dás-te de conta, que os brasileiros cantam melhor em galego-português do que nós, conservam e tenhem viva toda esse arte do trovador, de música, poesia, na sua música.

E já em particular, a respeito da língua, depois de ter escutado português do Brasil durante todo este tempo, decatas-te do castelhanizado que está o galego quando voltas. A propósito disto, lembro umha anedota com Jordi Pujol [ex presidente da Catalunha], com quem estivem falando de diferentes temas numha ceia, entre eles a música celta. Nessa conversa, eu pensei que se os cataláns tivessem as conexons internacionais que tem a Galiza, como as explorariam. Pujol espetou-me o seguinte: “o problema do galego é que está demasiado castelhanizado”.

Naquela altura eu nom entendim. Agora que estivem no Brasil, decato-me do que queria dizer um catalám, que estamos perdendo toda essa riqueza que lá há, que estamos perdendo –aparte de, evidentemente, umha riqueza lingüística que já só fica em recunchos do rural galego, com certeza nom na TV ou nas cidades- a possibilidade da criaçom de um imaginário cultural comum como eles [os cataláns] sempre procurárom com o Mediterráneo, e desenvolver economicamente esses vínculos.

 

No centro, Carlos Núñez com Sabela Fernandes, Valentim R. Fagim,
Fernando Conde e José Ramom Pichel


P: Que se pode fazer para mudar isto?

C.N.: O que podo dizer é que algo que me encantou de toda esta aventura no Brasil é o reencontro com umha ilusom pola língua. Umha ilusom mui naïf quiçá, que remete à minha época de estudante, porque eu aprendim o galego na escola, já que a minha língua materna é o castelhano. Naquela época, os anos 70, havia muita ilusom com este tema. Agora todo está mui politizado.

Essa ilusom era ao que deveríamos voltar, deveríamos recuperar a ilusom pola língua e desfrutar com a nossa língua como fazem os brasileiros. Porque eles sim que desfrutam com a língua, para eles a língua é umha cousa criativa, jogam com ela. Voltando do Brasil, a sensaçom que eu tivem foi “que poderio ter umha língua como o galego, que sorte temos”.

P: Que credes que se passaria se a gente, o nenos e nenas galegas descobrissem de repente que falamos umha língua que se fala ao outro lado do Atlántico e noutros lugares do mundo, com que podem podem comunicar e  a qual a gente brinca e desfruta com ela e já está? Credes que mudaria algo a respeito do idioma?

C.N.: Nós fomos educados com um medo ao português tremendo. Eu no Brasil “perdim-lhe o medo ao português” e decaitei-me do fácil que é, especialmente o português do Brasil. Questom de mudar umhas poucas cousas. Homem, nunca vamos falar como eles, mas tamém está bem manter o nosso próprio sabor, nom?

Outros, é curioso, diziam-me quando eu regressei do Brasil que som dous mundos diferentes, que é complicar-se muito que a gente armaria-se sarilhos desnecessários. Eu penso que nom, que com um esforço mínimo, com mui pouquinho, com uns poucos meses de aprendizagem, temos acesso a umha riqueza enorme: umha língua de milhons de falantes. Brasil é um país emergente, um país de futuro. Já gostaria o resto da Espanha contar com esse vínculo. Espanha deveria utilizar o galego e a Galiza como ponte com o Brasil. E com orgulho.


(*) Esta entrevista foi realizada para o Portal Galego da Língua por Valentim Rodrigues Fagim, Sabela Fernandes Domingues e José Ramom Pichel Campos. A entrevista foi transcrita em norma AGAL partindo de umha gravaçom, e fôrom corrigidos castelhanismos e algumhas expressons coloquiais.