Fernando Venâncio: «A AGAL tem uma norma linguística e uma prática formidáveis, com uma morfologia autenticamente galega»

«Se de mim dependesse, a ortografia do português levaria uma grande remodelação»

Segunda, 01 Março 2010 08:57

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Na entrevista, Venâncio fala alargadamente da questão da língua na Galiza

PGL - Disponibilizamos às leitoras e leitores do Portal Galego da Língua a entrevista que Alexandre Banhos realizou ao professor português Fernando Venâncio nas jornadas Ecolíngua, organizadas polo Instituto Galego de Estudos Europeus e Autonómicos (IGEA).

Fernando Venâncio, entre outras coisas, é um professor português (muito europeu) que segue com interesse e muita paixão os problemas da língua comum nas terras da Galiza com todas as suas peculiaridades. Porém, na cabeça de não poucos moradores ao norte do Minho, sonha-se com a reintegração no português internacional, ideologema que foi guieiro do galeguismo desde os seus primórdios no século XIX, ainda que nem todos o tenham realizado do mesmo jeito.

Alexandre Banhos: Que che pareceu o feito de na tua apresentação se citarem as tuas interessantes, e por vezes polémicas, intervenções internéticas em páginas da Galiza, tiveram alguma cousa a ver com o convite para estas jornadas?

Fernando Venâncio: Podem ter tido a ver, ou não. Tenho também publicações de possível interesse, inclusive em revistas galegas. Esse terá sido o motivo do convite.

AB: Gostei muito da tua palestra e das tuas propostas para um aproveitamento do léxico português com vista a uma maior qualidade do galego. Não sei se és consciente de que elas coincidiam com a actividade e a prática da AGAL.

FV: É óptimo ouvir isso. Mas acontece que a AGAL nunca o apresentou como programa concreto. Ela tem uma norma linguística e uma prática formidáveis, com uma morfologia autenticamente galega, como existem também uma portuguesa e uma brasileira. Mas a AGAL nunca teve o que poderíamos chamar uma “política do léxico”. Pois bem, eu vim aqui apresentar algumas ideias sobre o que poderia ser uma política do léxico que permita ao galego funcionar no espaço da língua portuguesa.

Funcionar, sublinho, não enterrá-lo em dicionários. Mostrei a necessidade, mesmo a urgência, de estimular na Galiza o léxico que partilhamos, em exclusivo, galegos, portugueses e brasileiros. Defini medidas concretas, propus métodos de trabalho, escalonei o processo em fases. Na própria Galiza, isso teria o efeito imediato de marcar uma distância nítida com o castelhano.

AB: Isso de que falas não é um pouco o que está a fazer a AGLP?

FV: Penso que não. A AGLP fez uma recolha do léxico exclusivo galego mais corrente para um dos Vocabulários Ortográficos de Portugal. Em si interessante. Mas a utilidade concreta disso não me é clara, sobretudo quando os próprios membros da AGLP evitam habitualmente esse léxico, exprimindo-se sem mais à portuguesa. Mas as minhas propostas aqui, em Vigo, são dum sentido âmbito totalmente diferente.

Trata-se de promover na própria Galiza o nosso léxico comum e exclusivo. Depois, importará estimular no galego uma distribuição lexical inspirada no português (menos quedar e mais ficar, menos seguir e mais continuar, menos mirar e mais olhar, menos lograr e mais conseguir, e muitos outros casos).

Atenção: tudo isto poderá ser efectivado dentro do galego corrente, com o ganho, imediato, de aumentar-lhe a qualidade e afastá-lo do castelhano. Numa fase posterior deste processo de aproveitamento concreto do português, viria a introdução no galego dum léxico português que, não sendo hoje corrente na Galiza, é de autêntica matriz galega.

AB: Houve uma intervenção da professora Margarita Ledo Andión (realizadora de dous extraordinários filmes, um deles que quiçá conheças (Santa Liberdade), que tem criado umas equipas de troca de documentação escrita e literatura com portugueses e brasileiros. Segundo ela, passa-se uma coisa muito curiosa, para um lusófono, a variante regional escrita à castelhana pode despertar emoção, por ser uma estranha variante da sua língua. Porém dá-se um feito, que para ela resultou muito surpreendente, - como esse lusófono, esse português ou brasileiro, tivessem o mais mínimo contacto com o espanhol, produz-se nele um rejeitamento e um bloqueio que o leva a se desinteressar totalmente no que lhe é oferecido como galego.

FV: Sim, conheço esse filme da Margarita, que me foi mostrado pelo Xavier Alcalá. É um filme magnífico. Mas atenção: a rejeição consciente do castelhano é muito comum entre nós. Não é por acaso que só no século XXI surge o primeiro bom (e excelente) dicionário Espanhol-Português, o de Álvaro Iriarte. Digo “rejeição consciente” porque a questão é algo embrulhada. Por um lado, o português tenta, atabalhoadamente, exprimir-se em espanhol. Por outro, não aprecia grandemente a sonoridade espanhola, que é aquela que ele percebe no galego, e até no sotaque nortenho português.

AB: Margarita Ledo não falava de sonoridade, ela referia-se à troca de textos escritos.

FV: O problema da ortografia é um problema real no relacionamento com a lusofonia, mas é um problema em sim, penso que na Galiza, a questão ortográfica é bastante mais complexa que a questão lexical, a lexical comparada com a ortográfica na Galiza, é uma brincadeira de crianças. Em todos nós está incutida uma espécie de fetichismo ortográfico, que sempre existiu, que é muito limitativa no relacionamento. Importa que a questão ortográfica, e sobretudo o “fetichismo” ortográfico, não frustrem sistematicamente os avanços noutros terrenos, como o do léxico, como expus há pouco.

 

AB: Mas é conhecida a tua oposição ao Acordo ortográfico do português.

FV: A minha oposição ao Acordo não é de teor ortográfico. Pelo contrário: se de mim dependesse, a ortografia do português levaria uma grande remodelação. A nossa escrita tornou-se um enorme quebra-cabeças para portugueses, e sobretudo para brasileiros.

Não, a questão é que o Acordo vai inevitavelmente interferir na pronúncia de Portugal, fechá-la ainda mais. As consoantes “mudas” têm para nós uma função: indicar a abertura das vogais átonas precedentes. Já hoje “comemos” muitas vogais, e isso irá acelerar-se ao desaparecer esse sinal gráfico da abertura. Claro que os brasileiros, alguns portugueses e os lusistas galegos estão-se nas tintas. Para eles, essas vogais átonas soam sempre iguais. Para eles, o importante é a “unidade”. Mas é, neste aspecto, uma simples prepotência, que só vem acirrar o nacionalismo português.

AB: Posso contar-te uma anedota. Há uns dias ceávamos eu e a minha mulher em Lisboa com um grupo de portugueses fundamente comprometidos com as cousas da Galiza, éramos à mesa umas onze ou doze pessoas, de repente um deles comentou: «foi pena histórica não ficarmos todos unidos», e eu disse: «bom isso ainda pode reverter-se, e logo levamos a capital para o Porto».

Ao escuitarem isto último, todos a sério e unanimemente disseram: «mas porquê no Porto, poderia ficar em Lisboa, como muito levá-la a Coimbra, mas no Porto de nenhuma maneira, antes seguimos separados», e tentavam saber como eu podia ter feito aquela proposta tão descabelada existindo Lisboa.

FV: Portugal é um país muito antigo, existe há quase 900 anos, e as relações internas estão estáveis desde há muitos séculos. Já por volta de 1380 começa a desenhar-se a ruptura com o Norte, e Lisboa torna-se o centro político, cultural, linguístico. Podemos fazer muitos jogos mentais (alguns italianos talvez preferissem a capital em Milão...), mas são jogos gratuitos e ociosos. É o Norte que tem que encontrar a fórmula para cercear o centralismo lisboeta.

Mas há outra coisa: podes imaginar a rejeição que, num país com nove séculos de convivência, causariam esses jogos mentais a que alguns galegos se entregam, duma rediviva “Galécia” até ao Mondego, ou duma “Portugaliza” até ao Algarve. Bom, digamos que os dois projectos se neutralizariam, ao dividirem os votos... Mas a sério: esses galegos já desistiram da Galiza. E nenhum português lho entenderá.

AB: A visão da ortografia é quase sagrada para a imensa maioria, e daí o blasfemo que pode resultar o galego à regional para um lusófono e mais se conhece ou identifica formas como espanhol.

FV: Mesmo aí eu proporia alguns passos que já se poderiam dar amanhã, a ideia não é minha é de Carlos Casares no 2002 de começar uma reforma a sério da norma galega que as autoridades impulsionam, incorporando o NH LH, como primeiro passo, eu penso que se temos um pouco de sedução isso se poderia conseguir nos imediatos anos, como muito em dez anos.

AB: Pensas que a gente que organiza este Ecolíngua é aberta a isso, às tuas propostas? Achas que é um bom campo para botares a semente?

FV: Repara. Trata-se de gente com dois dedos de cabeça e, mais, que se assume como oposição interna galega, mesmo dentro do oficialismo. Estou convencido de que o reintegracionismo moderado tem bastante mais aliados do que imagina.

A salvação do galego não está no português, menos ainda na importação desse casual (e desgaleguizado!) modelo de língua criado em Lisboa. No momento em que alastra no Brasil a resistência a uma norma de formato lisboeta (resistência encabeçada por gente como Carlos Faraco e Marcos Bagno), é um pouco ridículo ver galegos submetendo-se a essa norma lisboeta, fazendo exibicionismo de (é um exemplo) formas verbais que ninguém na Galiza usará senão eles.

Se em alguma coisa o português pode ser útil ao galego, é no aproveitamento daquele “galego” que ainda existe no português. Um aproveitamento bem conduzido, planificado, estimulante. O reintegracionismo poderá ter, nisso, um papel exemplar e pedagógico.

AB: Vais ter que vir viver uns mesezinhos na Galiza.

FV: Se nos próximos cinquenta anos queremos ver uma Galiza em que esteja adoptado o padrão português, tendes que dar pequenos passos, passos firmes.

AB: Eu penso que infelizmente não temos cinquenta anos, não sei como percebes tu a coisa, mas em cinquenta anos podemos ter o problema absolutamente solucionado com o castelhano de língua única dos galegos.

FV: Isso não é verdade, não é verdade que o vosso futuro seja tão preto, essa é uma mania que tendes os reintegracionistas mas a coisa segundo outras fontes não é assim é há muita a gente que dá informações que falam noutro sentido. Henrique Monteagudo explicava que está a subir o uso do galego, os reintegracionistas sois uns catastróficos que não tendes cuidado com estas coisas e tendes a pôr a coisa muito mal, quando a realidade é outra, são muitas as fontes a confirmá-lo.

AB: Com certeza, a salvação está em nós próprios, mas com o aproveitamento desse programa que tu ontem tão bem expuseste.

FV: Sim, isso é o que digo eu, propostas exequíveis realistas e não ideológicas. Apresentar o português como a salvação e identificando o português, distinto das falas da Galiza, isso é tão inútil como a política estúpida que corre para a língua da Galiza impulsionada desde o poder.

AB: Estás a fazer uns trabalhos fantásticos na tua solidão e às vezes na nossa companha. Por exemplo, o teu livro sobre a Galiza para o público lusófono, como vai?

FV: Falo como português e como tal da vantagem que seria para o povo português de aperceberem-se que esta fronteira do Minho e da raia seca é uma fronteira política, não cultural ou linguística. O momento em que o português entender que a fronteira é só política vai-se produzir uma iluminação. Muitas vezes uma fronteira além de ser um divisor político é-o também cultural, linguístico, étnico, religioso.

AB: Bom, a fronteira eu acho que é também religiosa, é certo que os dous territórios são católicos mas balizam os crentes de distinto jeito. Estou seguro que o Cardeal Rouco Varela (por acaso galego) cabeça ideológica da igreja espanhola, acho que antes prefere ir ao inferno dos católicos que duvidar da sacrossanta unidade de Espanha. A igreja portuguesa baliza as pessoas como muito portuguesas. A doma e castração do reino da Galiza, teve na política religiosa um dos seus alicerces.

FV: Com certeza, mas estando de acordo contigo, a distância religiosa não é muita. E diria mais, dentro do estado espanhol, por comportamento que eu percebo do clero basco, há também uma fronteira religiosa e quiçá também no caso do clero catalão.

Voltando à questão de a fronteira ser política, esse pequeno passo para o português médio, seria um passo de gigante. A coisa vai com pequenos passos e medidas efectivas e sólidas.

AB: Já se estão dando passos.

FV: Sim, mas isso está-se a fazer com muito esforço, um pouco por cada um, mas não duma maneira planejada. Eu penso que posso ajudar a fazer algo aí, é ajudar àquela mentalidade tão limitada portuguesa, ajudar a libertá-la, e mostrar que a fronteira norte é uma fronteira política, e que há uma continuidade entre duas variantes duma mesma cultura, coisa que não se produz na fronteira leste. E essa clarificação deve levar-se desde a Galiza, repito planejadamente, sem dar saltos estúpidos que às vezes levam a desandar o que pouco a pouco se enxergara.

E há que acabar com esse discurso galego onde se apresenta a respeito de Portugal como reclamando não sabe quê direitos de origem, e apresentando Portugal desde a sua situação de prostração da Galiza, como se Portugal estivesse numa situação de subordinação ou dependência da Galiza. Todos os dias lêem-se proclamas dos mais diversos galegos reclamando não sei que de territórios de Portugal para a Galiza. Isso ademais de estúpido não serve para achegarmo-nos e entendermo-nos, essa posição galega só se pode definir exactamente em relação a Portugal como estúpida.

A fronteira é política, mas com muitas destas ideias do irredentismo galego, parece que o que querem é levar a pensar que nem sequer é política, e assim não se dão avanços e resulta uma postura desde a Galiza, irresponsável, e desses irresponsáveis também há alguns entre  reintegracionistas, que chegam a Portugal e negam a fronteira política, eles que segundo a tua expressão “estão balizados na visão do mundo espanhol”, e o português ao ouvi-los foge. Se fazemos entender que a fronteira é política, sim política, temos muito a ganhar de os portugueses entenderem isso, separando um contínuo cultural e linguístico. Esse passo seria de gigante e nos deveria fazer muito contentes.

AB: E o teu trabalho nesse sentido com que pega?

FV: Pois pega com o galego e com o português.

AB: És o português que mais perto temos, estás todos os dias connosco, e às vezes dás luz dando chicotadas, e outras vezes bates inimigos invisíveis em pessoas bem visíveis mas que pensam ou partem de não serem inimigos teus, sem tu saberes. Bom fala-me desses teus trabalhos, adianta alguma coisa.

FV: Os trabalhos em que ando são a respeito da língua, é um trabalho que ademais é neste momento uma questão de oportunidade. Eu vou escrever uma história do léxico português, um léxico que tem três fases, tem uma fase galega, tem uma fase castelhana e tem uma fase portuguesa, criação dos portugueses, e é uma riqueza imensa a de termos que foram criados pelo povo português. Estas fases recobrem-se umas a outras, não são totalmente independentes. Na fase galega, já havia influência castelhana e até originalidade portuguesa.

Eu vou escrever três livros sobre cada uma das fases na língua portuguesa. A primeira fase que vou escrever é a média, que é a fase do castelhano, primeiro porque é a fase mais chamativa, segundo porque é a mais fácil, além disso, eu creio que sei bastante das coisas da língua a partir de 1400.

A língua antes de 1400 continua a ser um grande enigma e um grande mistério, ainda que não tenho dados, cada dia se me aparece de jeito mais claro, e será um bom campo de trabalho futuro, para mais alguma gente, pois pode haver-se dado o caso naqueles tempos recuados que do galego (o português ainda não existia) partir uma imensa transfusão da língua galega, a língua palaciana, para o resto das línguas peninsulares e nomeadamente para o castelhano, penso que tem que haver muito vocabulário castelhano de origem galega ainda que às vezes não o pareça, porém por agora não posso demonstrar nada, mas é um intuito que cada dia se acresce em mim. Esta é uma hipótese muito séria a que se deviam dedicar alguns trabalhos, mas para isto não sou eu nem de longe a pessoa mais indicada para fazer esses trabalhos.

A ver se nos próximos anos eu tenho mais informação para ver como o galego se implantou em Portugal – em todo o território – entre digamos o 1100 e o 1400. E no que se passou quais foram os portuguesismos já daquela incorporados, as invenções portuguesas.

AB: Há mais termos incorporados do português ao galego nos séculos escuros dos que a gente acredita.

FV: Isso acredito, e também li aquele teu artigo dos Colóquios de Bragança sobre o tema. Bom houve uma grande emigração de galegos em Portugal e teve esses efeitos, há também palavras galegas no português incorporadas não no processo medieval, e sim por essa mesma via que trazia novas palavras do português para o galego, eu nisso acredito; são palavras a ver com comida e a restauração basicamente, sector onde os galegos foram muito importantes.

AB: No galego actual, mesmo se se fizer a pesquisa no Diário Oficial do Governo (DOG), estão muitos termos exclusivos portugueses hodiernamente incorporados, pois a outra alternativa era a inclusão maciça do castelhano. Agora temos um novo governo muito agressivo para a nossa língua, quer estimular ainda mais a imposição do castelhano e a imersão permanente dos galegos e galegas no castelhano.

FV: Sim a política oficial que se faz na Galiza é o contrário do que eu propus ontem. Mas tenho que dizer que pelo contrário a posição filológica e linguística é cada vez ao meu ver mais claramente lusista.

Há a actualização normativa do 2003 e há as actualizações constantes do Volga, que eu acho cada vez caminham mais nesse sentido lusitano, penso que é preciso saber e lembrar isso, vocês os declarados reintegracionistas não são os únicos a mirar ao português, dentro da oficialidade há muita gente que eu acho está nessa mesma perspectiva pelo que não se podem pôr barreiras a todo esforço que leve à colaboração e a planificar acções de futuro para a língua. E esses sectores são muito decisivos do ponto de vista linguístico – pela sua influência no poder, pensam como vocês ainda que não o manifestarem.

É muito maior o âmbito em que vocês podem entender-se do que pensam, estou a pensar em pessoas como Freixeiro Mato.

AB: Pois sim que já há bom entendimento, no acto de Outubro em Compostela, com a participação das academias de Letras do Brasil, e de Ciências de Lisboa e AGLP, uma das primeiras pessoas a chegar ao acto foi Freixeiro Mato.

FV: Óptima notícia.

 

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