Elvira López-Cuevilhas: «Sugiro às novas gerações que trabalhem sem pensar no seu currículo»

«Para o meu pai havia uma única língua: o galaico-português»

Segunda, 08 Março 2010 00:00

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Elvira López-Cuevilhas

António Carvalho — Elvira López-Cuevilhas é uma mulher cheia de vitalidade. Proveniente de uma família galeguista, sendo filha como é do reconhecido etnógrafo e arqueólogo ourensão Florentino L. A. Cuevilhas, Elvira confessa, no entanto, que foi o seu percurso vital pela Europa que a ajudou a reforçar a sua identidade galega e a aprofundar na sua consciência operária.

Elvira domina o inglês, o francês, o castelhano e o galego-português. Foi professora pela Europa adiante de língua e literatura espanhola para emigrantes, além de trabalhadora na Fazenda Pública em Ovieu, nas Astúrias, e já na Galiza, em Ourense.

Tivemos com ela nos locais do Liceu, na cidade das Burgas1, para falarmos acerca do seu pai e o seu pouco divulgado "lusismo" e, ainda, para conhecermos como ela, após uma experiência vital tão dilatada, enxerga o acontecer para a Galiza e a língua galego-portuguesa.

Elvira, nasceste numa família ligada ao galeguismo, além disso com vinculação com o Seminário de Estudos Galegos e com o próprio Partido Galeguista. O que lembras dessa época?

Bom, eu vim viver com os meus pais aos 10 anos e lembro que na época da República era frequente irmos às conferências do Partido Galeguista, que tinham lugar na rua Cardeal Quiroga. É claro, já relativamente ao ano 36 lembro que foi um ano muito duro, quer familiarmente, com perdas irreparáveis; quer social e politicamente, com muitas greves e tensão social, embora na altura as crianças só reparássemos em que em muitos dias não tínhamos escola.

 

Elvira Cuevilhas e Vítor Lourenço

 

Falas em circunstâncias familiares e políticas duras... Como viveu o teu pai tudo isso?

A mim custa-me muito falar das coisas do meu pai. O ano 1936 foi um ano muito dramático para ele: a minha avó morre em abril; à minha mãe, com 36 anos, é-lhe prognosticada uma doença incurável; em julho estala o "glorioso movimiento" com toda a sua barbárie; e nesse ano morre também um tio, Alonso Cuevilhas, autêntico mestre inteletual e espiritual do meu pai.

Eu lembro, no entanto, que o meu pai sempre tentava que na minha casa houvesse alegria. Só foi anos depois que eu reparei no duro que foi para ele tudo o que aconteceu. Além do dito, tenho que acrescentar que os seus problemas de saúde começaram precisamente em 1936, fazendo mesmo com que não pudesse ir a algumas excavações arqueológicas.

Chegou a sofrer algum tipo de repressão? Como reagiu?

Ao meu pai fizeram-lhe um expediente por pertencer ao Partido Galeguista, mas finalmente não sofreu como outros, nem a purgação como o caso do Outeiro Pedraio, denunciado por um companheiro. Ora, isso não implica que não estivesse muito vigilado... Eu lembro ter-lhe escuitado que caso fosse destituído do seu trabalho ele tinha pensado ir para a Argentina e lá dar aulas... Isto é, o medo era permanente.

Tenho que esclarecer também que ele sabia da repressão inicial, das mortes... mas não sabia tanto da perseguição tão enorme que tiveram os operários da via, os camponeses sindicados... Havia notícias que não conhecia na altura.

Depois do golpe de Estado, lembro alguma conversa com o Joaquim Lourenço, o "Jocas", em que falavam na necessidade de tentar "salvar" alguma coisa. Por isso, por exemplo, penso eu, que o "Jocas" colaborou nos Coros e Danzas, e que quando proferiam algumas conferências diziam coisas que não sentiam. Eu acho preciso fazer a análise de muitos desses factos tendo em conta a repressão e a censura que sofriam e não interpretarmos tudo ao pé da letra.

 

 

Em relação ao pensamento político do teu pai, podes dizer-nos mais alguma coisa?

Há um tempo peguei em casa numas laudas inéditas escritas por ele, nas quais explica em detalhe o seu pensamento. Agora vão ser publicadas na revista A Trabe de Ouro2. Também há correspondência com personagens como Ben-Cho-Sey em que deixa ver qual o seu ideário, sempre voltado para a Galiza como centro. Não quero avançar muito mais a respeito e convido o pessoal para se informar nessa publicação que logo sairá a lume3.

Posso dizer, no entanto, que politicamente o seu compromisso com o Partido Galeguista era total e absoluto. Bom, na realidade ele fazia parte de um grupo de pessoas em Ourense que se viram tremendamente afetadas pela Primeira Guerra Mundial. Justo no final da mesma, nasceram as Irmandades da Fala e o movimento galeguista começou a ter uma estrutura política bem articulada, é aí que encontraram o caminho para lutar pela Galiza. Ele sempre dizia que qualquer coisa que se fizesse por Galiza, pequena ou grande, valia a pena, por isso não admira que abraçasse esse projeto.

Qual foi o seu relacionamento com Portugal e a sua visão a respeito da língua? Qual o seu ideário linguístico?

Bem, o meu pai não era linguista mas para ele havia uma única língua que era o galaico-português, mas sem considerar o galego anterior ao português nem superior, simplesmente percebia a língua como uma unidade. Isso fica refletido bem quando fala da extensão da língua.

Ele falava em que o galego tinha sido a língua de cultura de Castela e de Leão e de todas as possessões de Portugal. Falava mesmo, já naquela altura, em que estava a concorrer com o inglês na África, em que chegava até à Oceânia pelo Timor-Leste... Insistia pois na universalidade da língua galega.

Quero salientar um detalhe, acho que importante: a primeira poesia que me recitou o meu pai foi A Lágrima de Guerra Junqueiro4 e nessa poesia eu reconheci a nossa música, a nossa psicologia, a nossa alma...

Com certeza que o meu pai teve um vasto relacionamento com Portugal em todos os sentidos: era um constante leitor de obras em português; mantinha correspondência frequente com portugueses, como o caso de Santos Júnior5; considerava Portugal um continuum a respeito da Galiza...

 

Carlos Garrido, José Manuel Fernández Quintela e Elvira Cuevilhas

 

E porque isso é silenciado?

Acho que ontem e hoje houve e há silenciamento da proposta ou da visão lusista simplesmente porque há muito medo a que Galiza, num estado Federal, fosse mais com Portugal do que com o resto de Espanha. Há exemplos disso, sendo chumbados planos que ligariam mais a Galiza com Portugal, com um governo da Junta da Galiza nada autónomo e totalmente parasita e dependente do Governo espanhol.

Falando agora da tua experiência vital, como foi a tua aventura europeia e como era percebida a Galiza de fora?

Acho que mais interessante do que como a gente percebia a Galiza e os galegos e galegas era como os próprios galegos e galegas se percebiam a si próprios na emigração. Eu fui das primeiras gerações que saímos dar aulas de língua e literatura espanholas pela Europa adiante, com muito cuidado em não tocarmos assuntos de política, claro. Íamos dar aulas, nomeadamente, a emigrantes espanhóis, além de uns poucos naturais do país em questão interessados no castelhano.

No meu primeiro destino, na Holanda, onde estive cinco anos, vivi em íntimo contato com muitos emigrantes e comecei a captar que os galegos e as galegas tinham responsabilidades individuais, muitos não trabalhavam em equipa devido a que eram considerados trabalhadores sobressalientes e por isso lhe eram outorgadas essas responsabilidades.

Os galegos e galegas sabiam que eram apreciadas pelo sentido da responsabilidade e por isso tinham uma autoestima muito alta, tal e qual os marinheiros, muito apreciados lá na Holanda em todos os barcos em que trabalhavam.

Já em Amsterdão tive morada numa zona maravilhosa da cidade, curiosamente entre a sede da lógia maçónica mais importante do país por um lado e o local da OPUS pelo outro. Lá, no meu relacionamento com os galegos e galegas, descobri que quando nos conhecíamos e nos declarávamos como galegas a língua que empregávamos era só o galego e deixávamos o castelhano de lado.

 

 

E também estiveste na França...

Estive, sim, numa pequena vila à beira de Marselha, em que havia uns estaleiros, ainda hoje em funcionamento, embora na altura que eu estive já começasse a haver um importante desmantelamento dos mesmos, sendo progressivamente substituído pela indústria do turismo. Lá também verifiquei o que comentei que percebi na Holanda, isto é, a boa imagem que havia dos galegos; isso refletiu-se em serem os últimos trabalhadores afetados pela reconversão.

Lá na França lembro alguns detalhes chamativos que me levaram à reflexão, como quando pessoas que não eram galegas sentenciavam, meio a sério, meio em brincadeira "y esta gallega que castelhano le va a enseñar a sus hijos?". Digo chamativo porque a minha obrigação era ensinar-lhes um bom castelhano e, por sinal, alguma dessas pessoas, como as de origem cântabra, bem como os bascos, tinham muitos problemas com o castelhano e as suas formas verbais.

Quero salientar que os primeiros em língua francesa eram sempre os rapazes espanhois, o que implica que em línguas similares, como possam ser o castelhano e o galego, é muito bom estudar gramaticalmente os dois idiomas.

Além de professora de língua e literatura espanhola, também trabalhaste na Fazenda...

Claro, grande parte da minha vida profissional esteve vinculada à Fazenda Pública, como esteve a do meu pai. Em 1954 estive em Ovieu, onde num total de 100 funcionários, 50 éramos galegos e galegas e eu era a única que não escondia que falava galego. Lembro que muitos vinham de manhã cedo junto de mim para falar comigo galego. Em todo o meu périplo por fora da Galiza descobri que muitos galegos tinham que sair fora para tomar consciência do que eram.

Já em Ourense, no ano 62, foi muito duro ver que os paisanos "pagavam" mesmo por ser atendidos num serviço público como naquele em que eu trabalhava.

 

Carlos Garrido, José Manuel Fernández Quintela e Elvira Cuevilhas

 

Para acabarmos, o que dirias às gerações mais novas?

Eu acredito em que seja conveniente estarem muito politizadas. Para mim estar muito politizada é saber muito bem o que é que querem fazer dos nossos impostos, das nossas consciências e das nossas liberdades. É claro que é nos dias de hoje talvez seja preciso ter uma carreira, mas, em definitivo, eu sugiro trabalhar naquilo em que se acreditar mas sem pensar em fazer currículo.

A respeito da língua, e por extensão da Galiza, simplesmente que pensem que somos nós que a temos que defender, somos nós que podemos fazer com que continue viva e, graças a isso, possamos ter uma visão do mundo particular, enriquecedora da diversidade. Por outro lado, a respeito da visão de língua, para mim o que nos falta para o galego é, nomeadamente, um vocabulário urbanita e penso que o caminho deve ser irmos ao português, acho isso de sentido comum.

 

[1] A entrevista foi realizada no dia 21 de novembro de 2009.

[2] A dita publicação saiu a lume a primeiros de 2010: “Sobre o Galeguismo” in A Trabe de Ouro. Tomo IV, Ano XX / 2009. Outubro. Novembro. Decembro. pp. 609-619.

[3] Ibidem.

[4] Descarregar aqui [em PDF] A Lágrima de Guerra Junqueiro.

[5] Como amostra, divulgamos em primeira mão duas das cartas [em PDF] enviadas por Florentino L. A. Cuevilhas a Santos Júnior.  A transcrição das originais foi tomada do espólio deste último, conforme investigaçom em andamento dirigida polo professor Isaac Alonso Estraviz.