Lena Lemos: de Moçambique a Burela

A exposiçom “Caminhando” é umha peculiar visom da autora do seu percurso pola nossa terra e do gosto pola nossa paisagem

Sexta, 21 Maio 2010 08:23

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Lena Lemos é professora no IES Monte Castelo (Burela)

Laura Ramos - A professora Helena Fidalgo de Lemos, Lena Lemos, docente da especialidade de Artes no IES Monte Castelo, expom umha selecçom da sua obra pictórica na sala de exposições da Casa da Cultura de Burela. A amostra fica aberta até cinco de junho.

Combinámos na Sala de Artes do IES Monte Castelo, onde actualmente lecciona a estudantes do nível de Bacharelato.  No começo da entrevista, o ambiente está algo tenso, mas a calidez e a simpatia da pintora fam que desapareça aginha.

Família de artistas no Moçambique colonial

Nascida em Moçambique, Helena Fidalgo de Lemos é neta de portuenses, por parte materna, e de portugueses afincados em Goa, pola paterna. Desde a mais tenra infância gozou dum ambiente familiar aberto e acolhedor, rodeada de primos e de multidom de objectos com os que espertar a sua curiosidade. Sobrinha de tia e tio pintores, um outro tio poeta e um núcleo familiar amante da música, do teatro, dos espectáculos, das visitas a museus e exposições... tivo a estimulaçom precisa da sua criatividade e imaginaçom que a influírom profundamente.

Conjuntamente com isto, o trabalho de funcionário de seu pai obrigava-os a viajarem dum lado para outro, vivendo a cavalo entre o Porto e diversos lugares de Moçambique. Nom costumavam ficar mais dum curso escolar em cada sítio. Este feito, longe de lhe desgostar, conformou a sua personalidade aberta e afável. Guarda muito gratas lembranças de cada lugar: da África menciona a natureza, os rios, as partidas de caça, toda a fauna (crocodrilos, leons, hipopótamos...) a música e as cores de Inhambane, o mar, os barquinhos... todos esses elementos que marcárom, em forma de poesia, a sua mente de apenas sete anos.

Estudos de Belas Artes no Porto

Porém, «o Porto passou a ser o meu mundo de fantasia. A casa dos meus avós era enorme, com muita família. Um piano, várias plantas. Todo um mundo para averiguar. Umha casa como umha selva por descobrir, um quintal enorme....». Foi numha dessas viagens à cidade portuguesa que descobriu a escola de Belas Artes. «Era poética. Via-se do exterior, com todos os jardins... Toda a gente passeava ao lado, sem reparar, como se fosse doutro planeta. Muito lindo... E eu decidim ir ao Porto, nom a Lisboa nem a outro sítio. Desde pequena quigem ir estudar a essa escola de Belas Artes, ser pintora».

Como já apontava maneiras na pintura, e após receber aulas de desenho numha cooperativa de artistas em Maputo (Lourenço Marques, na altura), passou o exame de acesso à especialidade de Belas Artes.

Desejo cumprido. Mudou-se ao Porto e passou a viver na casa de seu avô, um homem liberal e maravilhoso que lhe permitiu montar o seu próprio obradoiro de pintura no salom, onde verter todo esse mundo fantasioso e imaginativo que ela levava dentro. O cheiro a pintura e a sua presença tomaram o controlo da casa em pouco tempo.

Quanto aos estudos, nunca tivo problemas. A sua bagagem polo mundo deparou-lhe mais de umha surpresa: reencontrou-se com umha antiga companheira maior que ela e juntou-se entom ao grupo do último curso e pudo gozar dos privilégios deles e partilhar grandes experiências. «Tinham organizadas as melhores viagens, as exposiçons mais interessantes e eu juntava-me a eles, encantadíssima. Guardo muito boas lembranças desses tempos... umha das raparigas tinha mesmo umha casa grande abandonada e alí figemos um estúdio enorme para estudar e pintar. Participamos em coros musicais, espectáculos teatrais…».

Aliás, organizárom viagens para conhecer outras cidades, por exemplo Lisboa. Helena empapava-se de tudo o que a rodeava. «Como era gente maior, diziam de sair pola noite. Entom íamos conhecer Lisboa. Aquilo era mágico! Tinha também  companheiros que, segundo com qual andaras, conhecias unha zona determinada do Porto: a zona da Ribeira, a da Foz, a da Boa Vista…», relata-nos animada.

Numha destas viagens cruzou por primeira vez a raia e chegou a Galiza. Numha actividade com o  professor de História deslocárom-se a Santiago de Compostela para conhecer o românico. Ela ficou prendada da capital, sobretodo da vista nocturna, com o  contraste de luzes e sombras nas pedras monumentais. Foi, segundo relata, umha viagem maravilhosa, cheia de música e conversas animadas durante as longas horas.

A revoluçom dos cravos

A vida estudantil de Helena, tam vital e interessante, mudou totalmente durante o segundo ano de carreira. Aconteceu um sucesso histórico que marcaria um antes e um depois na situaçom política do país: a Revoluçom dos Cravos.

«Foi umha abertura total, umha mudança radical no ensino da escola. Mudaram os professores, as matérias... reestruturou-se tudo. Na revoluçom, entretanto, formavam-se grupos e a escola, conjuntamente com a de Arquitectura, no edifício  contíguo, abriu-se colaborando com eles. Fazendo cartazes, mobilizações... Sempre dávamos apoio, às vezes até estávamos toda a noite ali». Também se somou a um grupo de apoio aos moradores, para construir casas de melhores condiçons para os seus habitantes.

Na escola de Arquitectura, justamente ao lado da de Belas Artes, conheceu o seu futuro marido: o arquitecto Xoán Casabella, do Valadouro, que logo retornou à Corunha para continuar estudos.

Os pais de Helena também se vírom influídos pola revoluçom em Moçambique, que nesse tempo alcançou a independência. «Lembro-me ter chamadas da minha mãe contando-me que tudo ia bem, para que nom me preocupasse, mais logo inteirei-me de que a independência de Moçambique fora bastante dura e nom gostavam de falar do assunto».

Seguindo os seus passos no tempo, Helena rematou os estudos e foi entom quando se dedicou à docência em Santo Tirso, ao Norleste do Porto. A experiência resultou-lhe gratificante e nada complexa, pois já tivera experiências anteriores com nenos em acampamentos de verão, trabalhando campos como a arte ou o teatro. Contou-nos como gozava com a sua «criatividade maravilhosa, os nenos tenhem umha espontaneidade incrível, quanto mais pedem, mais dás».

Chegada à Marinha e residência na Corunha

Durante o curso escolar, aproveitando umha breve ponte, visitou por primeira vez a Marinha, com motivo da manifestaçom em contra da central nuclear de Jove. Daquela viagem lembra-se, sobretudo, do formosa que lhe pareceu a paisagem, o mar e a gente.

Seguidamente, apesar de estar feliz no seu trabalho, quando finalizou o ano escolar marchou para a Corunha, para se reunir com o marido. Aqui passou por um pequeno corte com a atarefada vida anterior. Já nom estava imersa em tantas actividades artísticas e culturais, embora isso nom evitasse que seguisse a pintar. Passou a centrar-se um pouco  no mundo da Arquitectura, que Xoán seguia a cursar, e também a dar aulas particulares na cidade.  Como logo lhe soubo a pouco, decidiu começar a leccionar nos centros educativos de Galiza. Isto supujo alguns probleminhas com a validaçom do título, probleminhas que foram resolvidos.

Tam pronto como se somou ao mundo laboral, o tempo livre minguou visivelmente e tivo que afrontar algo novo: a maternidade. Começou, aos poucos, a dedicar-lhe menos tempo às pinturas e às suas ideias artísticas. Deixou o óleo e passou a pinturas de água, que nom emitiam um cheiro tam forte, molesto para o bebé. Reduziu o tamanho das obras e passou a se interessar por criar  cousas mais pequenas que pudesse armar em pouco tempo.

Ao deslocar-se cada ano a um sítio diferente, vai conhecendo Galiza muito devagar. Visita um grande número de praias e paisagens, de onde recolhe algas, areias e outros organismos marinhos, como as estrelas de mar. Som pequenos objectos que a atraem pola sua textura, forma, composiçom... Começa a debuxá-las, a fotografá-las… E daí, passou a recolhê-las, secando-as e guardando-as para, mais tarde, começar a fazer collages.  Também guardava tudo o que a surpreendesse e a atraísse nos seus cadernos de viagem, que chegárom a alcançar tamanhos consideráveis. Recolhia qualquer cousa colorida que chamasse a atençom da sua olhada. Tanto umha flor do caminho como o material dum museu ou dum posto turístico.

Exposiçom em Burela

Durante anos foi aumentando esse grade armazém de lembranças minúsculas e essenciais, juntando-as num alarde de criatividade em collages de rápida montagem. E é precisamente disto que trata a sua próxima exposiçom, “Caminhando”, inaugurada no dia 15 de maio na Casa da Cultura de Burela. Som retalhos dumha etapa, pequenas mostras minúsculas do que vai encontrando no caminho, todos esses pormenores que conformam o essencial da vida. Mediante a sua peculiar visom da nossa terra, do gosto pola nossa paisagem, a gente, o mar, a língua… poderemos ver o seu percurso pola nossa terra.

Agora mesmo, Helena Fidalgo está a deixar de lado essa faceta de collages, texturas e pinturas de água; e começa a centrar-se em aflorar o sentido artístico e imaginativo que a caracterizou nos primeiros anos, esse mundo cheio de cores e música dum tempo atrás. Diz que as aulas no IES Monte Castelo estám a ajudá-la a tirar à luz toda essa faceta. Tem ainda muitos projectos por levar a cabo, como um relacionado com poetas da nossa língua… Mas haverá que esperar um tempo por eles. Bem seguro que nos ham produzir umha sensaçom tam alegre e vital como a que nos deixou esta entrevista.