A futura deputada europeia Ana Miranda inscreveu-se nos CPP

«Mesmo que estudei em Bruxelas os níveis de português até o médio, creio que há que aperfeiçoar sempre que se possa fazer»

Terça, 01 Junho 2010 07:34

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Ana Miranda utiliza habitualmente a nossa língua em Bruxelas

PGL - A futura eurodeputada Ana Miranda e porta-voz do BNG em Bruxelas é uma das primeiras pessoas inscritas nos Cursos de Português no Porto que organizam a AGAL e a associação Andaime. Conversámos com ela para saber acerca do seu labor e das motivações pelas quais se inscreveu.

PGL: Como é a realidade linguística das instituições europeias em Bruxelas?

Ana Miranda: Serei Deputada ao Parlamento Europeu oficialmente em 2012, na rotação do mandato parlamentar com as organizações políticas da coalizão Europa dos Povos. Agora sou a Porta-voz do BNG em Bruxelas. Quanto às línguas de trabalho dentro das instituições estas são o francês, o inglês e cada vez mais o alemão. O peso, por exemplo, do espanhol, é bem relativo, apesar do seu peso no mundo. É pequeno, se compararmos com o alemão que se fala em quatro Estados membros e em muitos países da última entrada na UE.

Nos escritórios de cada deputado ou deputada, fala-se e trabalha-se na língua de seu, em comunicações com os seus territórios e cidadanias mas aqui, ademais da língua própria, para fazer um bom trabalho, são imprescindíveis essas três línguas. Não se trata de ser incultos linguisticamente como alguns presidentes como o da Galiza, ou o do Estado espanhol, mas fazer um trabalho, com competência, também linguística, para negociar diretamente as emendas, para pressionar para que Galiza e as suas problemáticas, necessidades e potencialidades sejam também conhecidas, defendidas e impulsionadas neste Parlamento Europeu.

PGL: No teu dia a dia, em que línguas te comunicas?

AM: Em galego para as relações diárias com a Galiza; em francês, inglês, espanhol e alemão para as relações com o grupo parlamentar ou dentro das atividades do próprio Parlamento, há que estar mudando constantemente pelo ritmo e variabilidade dos e das interlocutores.

Exemplos diários como falar dumas emendas das pescas com um eurodeputado sueco ou com a colega nacionalista galesa em inglês, com o deputado corso ou uma boa parte do funcionariado em francês por exemplo, com uma deputada húngara em alemão, com o nosso secretário geral que é basco em espanhol por exemplo e já com os companheiros de escritório, os catalães, passivamente já entendo tudo mais falta que me lance a falar catalã. As línguas somam, sempre o repetirei, é um erro pensar o contrário.

A nível pessoal, com a minha filha em casa falo em galego, ela vai à escola em francês e aprende outras línguas, porque insisto, as línguas somam!! É um erro grande limitar a capacidade de aprendizagem das línguas em especial à infância. Uma criança sem preconceitos nas línguas copia e repete sons, e associa a coisas, a contos, a leituras, a visões. Na nossa Galiza, o Governo está condenando uma geração à ignorância linguística.

PGL: Camilo Nogueira e José Pousada foram dous eurodeputados galegos que, a diferença doutros, exprimiram-se em galego na Câmara europeia. Qual a prática dos atuais representantes da Galiza?

AM: Os representantes do PP e do PSdeG, que são três pessoas que nunca se exprimiram em galego, nunca pelejaram por usar nem por manifestar um eixo de trabalho nessa defesa, usam o espanhol constantemente e mesmo, eles que aludem tanto ao multilinguismo, não escutei nunca nem nas comissões parlamentares nem no Plenário usar outras línguas europeias, por exemplo como fizeram eurodeputados catalãs. Sinceramente, creio que estão a ter vergonha de usar a nossa língua.

PGL: Qual a tua relação, a nível laboral, pessoal e político com a Lusofonia?

AM: A nível laboral, frequente nas boas relações políticas que temos por exemplo com o Bloco de Esquerda e com o PCP aqui na Eurocâmara, ademais de por ser membros da Delegação UE-Mercosul para as relações como o Brasil, foi um objetivo claro de escolha que era uma delegações importante para o BNG. A nível pessoal, tenho muitas amizades portuguesas e brasileiras, e a nível político bem presente.

PGL: Como é a relação com os eurodeputados/as e trabalhadores/as portugueses?

AM: Há uma diferencia clara entre quem entende que Galiza não é Espanha e respeita a nossa identidade e portanto não muda o seu falar e continua a falar na sua língua, e quem muda para falar em espanhol e para ter pautas mais centralistas, como se estivesse a falar com alguém de Madrid. Em geral é boa, mas há que estar sempre a fazer em especial com portugueses MEPS que não sejam do Bloco de Esquerda ou do PCP e seus funcionários e assistentes, um esforço pedagógico de explicar que existimos, quem somos, que a Galiza é uma nação, milenária, com peculiaridades, história, etc.

PGL: Ana Miranda inscreveu-se nos Cursos de Português no Porto (CPP) que promovem esta associação e Andaime. Porque decidiste formar-te em português? Para que serve a melhora do nível de português no teu trabalho?

AM: Porque nas línguas, em todas as línguas, cumpre uma aprendizagem permanente, e mesmo que estudei aqui em Bruxelas os níveis de português até o nível médio, creio sinceramente que há que aperfeiçoar sempre que se possa fazer. Evitar cometer erros, ter competência linguística plena, nas línguas de trabalho.

Quem pensar que com ficar no que se sabe chega, está a ignorar que os conceitos, a terminologia, as novas entradas nas línguas provocadas pelas mudanças tecnológicas mudam, cumpre aprendizagem permanente! Na Europa do multilinguismo, a diferença do Governo galego, a Europa está a promover o multilinguismo entendido por respeito a todas as línguas, com independência do número de falantes. Onde iria pois o maltês ou o gaélico? O peso relativo do português na Europa é menor que outras línguas, más observado a nível mundial, pode ser a 7ª língua da ONU.

Parece ademais originalíssima a focagem dada a estes cursos porque na minha experiência de aprendizagem do português em Bruxelas há erros derivados da proximidade que podem ser melhorados. O professor, que era angolano, sempre dizia, por mim e outra companheira galega que ia aos cursos, "as meninas fazem muito teatro", porque havia finlandeses ou alemães que tinham que fazer grande esforço comparativamente connosco, que entendíamos tudo, mas isso não queria dizer que houvesse mais facilidade na gramática, por exemplo, para escrever bem no padrão.

PGL: Que razões profissionais ou culturais darias a galegos e galegas para encorajá-los a melhorarem as suas competências linguísticas em português de Portugal?

AM: Uma outra língua europeia e universal, um futuro aberto ao Brasil, a Portugal, a um mundo de vizinhos, uma língua europeia, tão válida como outra, uma aproximação de realidades....um jeito de conhecer a cultura mais próxima, e que nos conheçam! E deveríamos ademais, dar-lhe o valor económico que pode ter para o Galego uma projeção internacional como a que dá a Lusofonia, apostar por isso sem dúvida.

PGL: As pessoas que passam pelo teu escritório em Bruxelas conhecem realmente o conceito de Lusofonia?

AM: Algumas sim, outras não. Por exemplo, o mundo da Francofonia faz uma enorme tarefa lobbística. Cumpriria um pouco de organização, imaginação ou planificação para que este conceito tivesse uma outra dimensão ou promoção.

PGL: A comunidade galega em Bruxelas, como vive a situação do galego e a lusofonia?

AM: Aqui há uma figura importante que é o proprietário de Orfeu-Livraria Portuguesa e Galega, o bom amigo Joaquim Pinto da Silva, "um galego do sul" como ele se autodefine, quem abriu com total generosidade as portas da livraria para a coletividade galega, são muitas as pessoas que durante muitos anos passaram por aqui, da literatura, do ativismo, da política, do mundo artístico, ali é onde fazemos os atos da associação cultural "Couto Mixto" de que sou membro.

Em geral para este público, há abertura, porque quem trabalha aqui, devido ao uso de línguas necessárias diariamente, possivelmente tenha menos preconceitos com a lusofonia, como pode ter alguma gente galega que mesmo despreza. Pessoas portuguesas como Joaquim fazem muito pela aproximação, o contacto e a transnacionalidade entre os nossos povos.

 

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