Ângelo G. Vicente: «No plano internacional é especialmente relevante projectarmo-nos em língua galega»

«Nom recebemos ainda as televisons portuguesas na Galiza por umha clamorosa e tristemente empobrecedora falta de vontade política»

Quarta, 09 Junho 2010 07:53

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Para Ângelo Vicente, o potencial da Galiza nom foi aproveitado

PGL - Ângelo Gonçalves Vicente é o vice-director do Instituto Galego de Análise e Documentación Internacional (IGADI). Do PGL conversámos com ele para conhecer melhor o labor realizado por esta instituiçom e acerca do potencial da Galiza no contexto internacional.

PGL: Ângelo G. Vicente é vice-director do IGADI, Instituto Galego de Análise e Documentación Internacional. Qual é a missom desta entidade, qual a sua razom de ser?

Ângelo Vicente: De um lado, trata-se de ajudar a que a Galiza tenha presença no mundo, projectando-se como o que é: um país com as suas particularidades. De outro, quer-se que a própria Galiza tenha permanente consciência de que está inserida no mundo, um mundo global em que as distáncias som bem menos importantes do que em qualquer momento histórico precedente.

Se conhecemos mais a realidade internacional, estaremos em melhores condiçons para aprender de experiências doutros que nos podam ser úteis, bem para encontrar soluçons a determinados problemas, bem para evitar caminhos que outros já demonstrárom errados. Se nos conhecem melhor fora, outros povos poderám aprender de nós, ser-nos-á mais fácil estabelecer relaçons económicas, sociais, políticas... umha pessoa nom pode estabelecer umha relaçom simbiótica com outra se nom sabe que existe. No plano dos países ocorre o mesmo.

PGL: E que tipo de actividades desenvolve para atingir esses objectivos?

AV: Para a projecçom externa do país, o IGADI tenta contribuir para orientar o trabalho de instituiçons, públicas ou privadas, que participam na acçom externa. Isto nuns casos concretiza-se em labores de assessoramento ou consulta, tal como tem sido com a Junta da Galiza, com quem, independentemente de quem governe, se venhem assinando convénios anuais. E noutras ocasions tem envolvido mesmo umha participaçom directa, como é o caso do Fundo Galego de Cooperaçom e Solidariedade, em que o IGADI, para além de impulsor da sua criaçom, desenvolve o labor de Secretaria Técnica.

Outra forma de promover a projecçom internacional da Galiza consiste em contribuir à formaçom de pessoas galegas especializadas em temas ou regions externas, capazes de participar em publicaçons, estudos ou eventos de carácter internacional, tentando associar Galiza a umha imagem de excelência investigadora e intelectualmente dinâmica e cosmopolita.

Relativamente à consciência na Galiza da sua inserçom numha realidade mais ampla e global, editam-se estudos como IGADI Annual Report, que repassa alguns dos principais assuntos da actualidade internacional, os IGADI Paper, que abordam um assunto concreto de modo pedagógico e pormenorizado. Também se publicam, cada semana, diversos artigos divulgativos sobre temas de actualidade internacional, no nosso web e nalguns dos principais jornais electrónicos e impressos galegos e nom galegos.

Ademais, organizamos palestras, cursos e outros eventos do género a que trazemos importantes analistas internacionais.

Ângelo G. Vicente numha fotografia recente
com o presidente da AGAL, Valentim R. Fagim

PGL: Comentavas que o IGADI trata de ajudar a que a Galiza tenha presença no mundo tendo em conta que é umha país com as suas particularidades. No plano linguístico, quais som estas?

AV: Na Galiza a generalidade das pessoas sabem utilizar de modo solvente dous dos idiomas mais estendidos no mundo: castelhano e galego-português. Na medida em que qualquer actividade humana precisa de interacçom e na medida em que esta se desenvolve habitualmente através da comunicaçom lingüística, esta peculiaridade revela-se fulcral no mundo globalizado. Duas portas imensamente largas estám escancaradas perante nós. Mas, por enquanto, e com excepçons, parece que priorizamos claramente umha, a castelhana, em claro detrimento da outra e prejuízo do país todo.

Deste modo, entendo que no plano internacional é especialmente relevante projectarmo-nos em língua galega. De um lado, como referido, por estar a ser infra-utilizada nesta dimensom e precisar ser potenciada. Do outro, por ser um idioma em claro retrocesso no nosso país, em sério risco de desaparecer. Aproveitarmos o seu potencial internacional pode contribuir para umha positiva revalorizaçom na própria Galiza.

Finalmente, porque o nosso país fai parte de um Estado que já se projecta como castelhano-falante no mundo e que aproveita bem as possibilidades que isto implica no mundo global. A mais-valia que a Galiza pode achegar a isso é o idioma galego. De outro modo, seremos umha parte qualquer mais do Estado. Podemos ser nós ou umhas/uns mais. Sermos nós será melhor para nós próprios, para o Estado e para o mundo.

PGL: Podias colocar exemplos mais concretos que ajudem a visualizar esta perspectiva?

AV: Na cooperaçom internacional da Galiza, que no IGADI conhecemos bem, podemos acompanhar o resto do sector cooperante do Estado, e aspirarmos a ser umha pinga num rio muito grande e poderoso, apoiado por muito fortes instituiçons estatais. Isto envolveria dirigir a nossa cooperaçom fundamentalmente, tal como hoje acontece, para os países de fala castelhana. Mas esses nom som os que mais necessitam e tenhem já umha maquinaria muito potente a apoiá-los. Ou podemos prestar atençom prioritária à África, para onde as instituiçons internacionais chamam a centrar mais esforços, e cooperar com os países lusófonos do continente.

Só a Galiza e Portugal (que tem umha cooperaçom muito débil e ainda arrasta o passado colonial) estám numha posiçom que lhes permite cooperar de modo muito ágil, eficaz e barato se comparados com as cooperaçons de outros países. Deste modo a Galiza pode singularizar o seu trabalho no contexto do Estado, achegando esse mais-valor ao conjunto do sector cooperante estatal e ao mundo. E, doutro lado, divulgando este trabalho entre a cidadania galega e mesmo fazendo-a participar, pode-se a mostrar à nossa cidadania que o seu idioma é cada vez mais extenso e cada vez mais útil, contribuindo para a progressiva consciencializaçom sobre o grande empobrecimento que suporia o seu desaparecimento e que supom o seu desconhecimento por parte, já, de bastantes pessoas da Galiza.

PGL: Tradicionalmente, tem-se afirmado que a Lusofonia é umha oportunidade para a Galiza e o galego. Tem-se traduzido isso em açcons concretas?

AV: Como Secretaria Técnica do Fondo Galego e como centro de reflexom sobre a cooperaçom internacional galega, tem-se contribuído para assentar a prioridade do trabalho com os PALOP como princípio orientador basilar. Neste sentido, o Fondo Galego tem como um dos países prioritários Cabo Verde e vai entrar a trabalhar este ano em Moçambique. A ideia da entidade é que estes países pesem cada vez mais nos seus orçamentos.

Como centro produtor de reflexom, som numerosos os documentos e foros em que a lusofonia tem sido defendida polo IGADI como prioridade geográfica da acçom exterior galega. Quiçá um dos documentos mais importantes tenha sido o Livro Branco da Acçom Exterior, coordenado polo Director do IGADI, Xulio Ríos.

Também se tentou pôr a andar umha iniciativa específica, o Observatório Galego da Lusofonia (OGALUS), que ainda nom encontrou o interesse e conseguinte financiamento necessários para poder funcionar ao nível que seria conveniente. Quer ser um referente na produçom de estudos e análises relativamente às realidades políticas, económicas e sociais dos países lusófonos, com especial ênfase no Norte de Portugal, de modo a que a Galiza tenha pleno conhecimento em todo momento das complementariedades e oportunidades que a Lusofonia lhe oferece: para o Governo, para os partidos políticos, sindicatos, associaçons ambientalistas, culturais, empresariado, etc.

Ângelo G. Vicente no seu gabinete | Foto: IGADI

PGL: Qual a tua valorizaçom dos diferentes governos galegos na hora de optimizar a vantagem competitiva da lusofonia?

AV: A minha valorizaçom tem de ser negativa, infelizmente. No plano retórico, os nossos e as nossas políticas tenhem proferido mensagens que mesmo poderiam ser qualificadas de lusistas. No plano prático nom se tenhem visto avanços institucionais notáveis. De facto, a sociedade, cultura e economia galegas vam bem por diante da nossa classe política.

Ponho exemplos. Do ponto de vista cultural e social agromam iniciativas do maior interesse, como Ponte nas... ondas! ou os Cantos na Maré... e aparecem dados reveladores: noticiava um jornal galego, há um par de anos, que os 80% das pessoas que visitavam a regiom norte de Portugal eram da Galiza. Umha percentagem importantíssima de utentes de serviços públicos dos municípios transfronteiriços portugueses, tais como as piscinas, já estám a ser da Galiza. Há uns anos a piscina de Vila Nova de Cerveira era empregada, num 60%, por pessoas galegas. O nosso país é dos maiores exportadores e importadores de Portugal...

PGL: E do ponto de vista político?

AV: Do ponto de vista político, e sem ânimo de exaustividade, nom se avança na inclusom do português no âmbito educativo. E conste que penso que se lhe deviam dedicar um par de semanas de aulas dentro da matéria de língua galega; tratá-lo como umha língua diferente parece-me um erro grave e bem pouco prático. Tampouco se promove o aproveitamento de umha estrutura como o Fórum para a Cooperaçom Económica e Comercial entre a China e os Países de Língua Portuguesa, sediado na Regiom Administrativa Especial da Regiom de Macau, de passado colonial português, que hoje mantém esse idioma como oficial e que, por isso, constitui umha porta de entrada à China de primeira ordem para o empresariado internacional de língua galego-portuguesa, sem necessidade de saber chinês nem inglês.

Por outra parte, a Galiza ainda nom participa nos Jogos da Lusofonia. Som um magnífico palco internacional para o desporto da Galiza e ainda nom estamos aí! Neste caso, ademais, posso asseverar com conhecimento de causa que as portas temo-las abertas e desde há anos. A ediçom de 2013 celebra-se em Goa, por sinal, outra porta de entrada de primeira ordem, neste caso para a Índia. Nom nos damos conta de que o nosso idioma nos pode ajudar notavelmente a estabelecer todo o tipo de relaçons com 3 dos 4 BRIC: Brasil, Índia e China?

Ademais, o nosso país ainda nom está representado polo seu governo, e portanto ao máximo nível, na CPLP, e tampouco recebemos ainda as televisons portuguesas na Galiza. E nom é nem por dinheiro nem por dificuldades técnicas. É por umha clamorosa e tristemente empobrecedora falta de vontade política. Som alguns dos exemplos possíveis. Penso que suficientemente relevantes.