Entrevista de Pedro Casteleiro e Antom Malde a José Saramago

«O galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português»

Terça, 22 Junho 2010 06:43

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PGL - A revista digital Çopyright divulgava na rede lá polo ano 1998 umha entrevista a José Samarago realizada a começos da década, quando o autor de Azinhaga ainda não lograra o Nobel de literatura  e era um desconhecido para a maioria da sociedade galega. Já naquela altura evidenciava um notável conhecimento acerca do nosso país.

Em 1990, Pedro Casteleiro e Antom Malde entrevistáram Saramago para Folhas de Cibrão, umha revista universitária de investigaçom científica, e para isso aproveitárom umha estadia do escritor na Galiza.

Na alargada conversa, José Saramago reflecte acerca de tudo, das suas origens humildes, da literatura e do processo criativo, do compromisso social, da língua e da norma.... da Galiza...

A seguir reproduzimos apenas alguns excertos e encorajamos para a leitura do texto na íntegra.

[...] O que se pode dizer é que meus pais não eram ricos; ao contrário, eram bastante pobres e claro, meu pai sabia ler, sabia escrever, sabia contar, e minha mãe era analfabeta e ficou analfabeta até ao fim. Isto significava que a vida cultural na minha casa era nula, não havia livros. Eu lembro que o primeiro livro que tive, aos doze anos, deu-mo minha mãe porque eu lho pedira e depois, mais tarde, lembro também de ter estado lendo uma vez, e como na casa não havia livros, e eu gostava de ler, a minha mãe andava por casa das vizinhas a pedir livros.

 

[...] a minha vida literária propriamente dita com consistência e continuidade começa em 1966, quando já tinha quarenta e quatro anos, na altura em que já não se fazem as coisas, ou se tinham que ser feitas, já são feitas. O problema muitas vezes é dizer que nunca é tarde para fazer qualquer coisa. Desde o quarenta e quatro até agora Bem vinte e dois anos, estão escritos dezoito ou dezanove livros. Enfim, que enquanto se está vivo...

 

Sim, o saramago é uma planta que nos tempos da minha infância e antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crises, digamos, comiam saramagos.

E o saramago é um alcume de família. Eu fui o primeiro Saramago da família, porque o empregado do registo civil, quando meu pai foi dizer:

— Nasceu um rapaz!

—Como é que o rapaz se chama?

E ele diz: «O seu nome é José de Sousa», pois Sousa era o nome da minha família paterna, e foi ele o que acrescentou, pela sua conta e risco, Saramago.

 

[...] a literatura feita na Galiza é para nós uma grande desconhecida. Se tiramos os nomes conhecidíssimos, mas mesmo assim com altas e baixas a respeito da divulgação deles, se tiramos um Castelão, uma Rosalia, um Cunqueiro, um Blanco-Amor e alguns poetas como Manuel-Maria... A regra é o grande desconhecimento. E é um desconhecimento que não sei como é que se pode resolver.

 

É claro que do ponto de vista do poder central espanhol, qualquer aproximação entre a Galiza e Portugal, mesmo no plano linguístico, no plano cultural e tudo isto, eu acho que é vista com maus olhos. Madrid não gostaria que por cima do rio Minho se lancem todas as pontes possíveis e imagináveis, e que a Galiza seja uma espécie de prolongamento natural de Portugal... Mas também não vejo que tal e como as coisas estão, que Madrid... Eu não me apercebo de que haja acções do governo de Madrid no sentido de serem contrárias a isto, também não as há no sentido de favorecer...

 

A Europa iria acabar com a Galiza, com as Astúrias... Não espero nada de bom da Europa. Aquilo que eu acho é que a situação pode modificar-se muito a partir do momento em que ache uma Espanha federativa, em que a Espanha não seria mais já esta coisa híbrida que não se sabe se é um país só, se é um conjunto de nacionalidades, e em que as autonomias se vão conquistando muito lentamente, e pouco a pouco. A solução para a Espanha é chegar à figura de uma federação. Então as relações entre Portugal e a Espanha deixariam de ser, como são, predominantemente relações bilaterais, entre Estado e Estado, para se tornarem relações multilaterais, relação entre Portugal e Catalunha, entre Portugal e Andaluzia, entre Portugal e a Galiza.

 

Há alguns anos eu estava em Madrid, entrei numa livraria e havia um livro de Castelão. Comprei o livro de Castelão, cheguei ao hotel, abri o livro, olhei-no e comecei a ler... E disse: que é o que estou lendo...? Estava lendo uma tradução espanhola, uma tradução castelhana do galego, da língua galega que o Castelão tinha usado. E então interroguei-me... Como é que é possível isto? Então é que a Espanha precisa certa Espanha, a Espanha castelhana, precisa de traduzir um livro de Castelão para que...

 

Em relação à Espanha, enfim, são velhas histórias, são velhas histórias que assentam em preconceitos, evidentemente, mas também é verdade que até isto tem que ser entendido. Porque quando nós olhamos para o mapa da Espanha e está ali um, eu penso que os espanhóis não gostam de ver a Península Ibérica, não gostam de olhar para o mapa da Península Ibérica, porque de duas uma: ou a reproduzem inteira nos seus mapas, e então aquele bocado que está ali não é Espanha; ou então, como às vezes fazem, retiram Portugal de ali, e então a Espanha fica toda desarrumada... Há uma falta ali acima...

 

[Da concepçom do galego] Bom, eu conheço mal a questão; sei que o problema aqui, a questão não é pacífica, isso já o sei. Que há lusistas muito determinados, há outros grupos que tendem, pelo contrário, para a continuação da castelhanização do galego...

Julgo que, ao contrário do que é acostumo dizer, nestes casos eu estou de acordo com o radicalismo. Porque uma atitude de meias tintas, de meias águas, acabará com certeza por prejudicar a própria identidade do galego, não já no que se refere apenas à língua, mas também à sua própria identidade cultural. E penso que essa tentativa de aproximação da norma portuguesa, que muitos defendem com muita força, pode não ser alcançável, quer dizer, pode até eventualmente não ser útil, completamente útil. Mas penso que os que defendem essa aproximação tão radical, aquilo que no fundo estão a fazer é a querer defender-se do castelhano. E a verdade é que o galego não tem outra maneira de defender-se do castelhano, senão aproximando-se do português.

 

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