Madre Salud: «Os galegos podem abrir fronteiras nos lugares em que se fala português»

Entrevistámos religiosa galega com importante trabalho social em Cabo Verde e Angola, além do México

Quinta, 15 Julho 2010 00:00

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Para a Madre Salud, qualquer galego tem a porta aberta lá onde se falar português

V. M. L. P. - Dia de tormenta em Ourense. O professor Estraviz e mais eu combinamos para entrevistar a Madre Salud, mas o dia parece não vir da mão. Entretanto viajamos até o lugar onde se localiza o colégio Miraflores, lá no Pereiro, a pedra cai com força. Mas chegamos ao destino e lá fomos recebidos, com cordialidade e proximidade, pela Madre Salud.

A nossa intenção é sabermos do trabalho desta religiosa voltado para o ensino na América, na África e na Galiza e, ainda, verificarmos se a língua galega tem sido uma mais valia no seu percurso pelos países africanos de língua portuguesa: Angola e Cabo Verde.

Já nos locais do impressionante Miraflores, aberto em 2004 e que agora potencia a sua oferta educativa, somos recebidos amavelmente pela Madre Salud. Longe de nos sentirmos distantes, o seu trato faz com que derrubemos as fronteiras do desconhecimento inicial e iniciemos uma conversa que se prolongaria durante uma hora.

P: Donde é natural a Madre Salud? Que foi o que a levou a se tornar religiosa?

R: Eu sou do Porto, aldeia pertencente ao concelho de Vilar de Bárrio, embora estivesse pouco tempo lá porque sendo muito nova fui-me como interna e depois já pensei em ser religiosa. Levou-me a isso o espírito de serviço aos demais e a adoração ao Santíssimo Sacramento.

Entrei por primeira vez no colégio de Sobrado do Bisco e de lá fui para Madrid, primeiro em Ciudad Lineal (Madrid) e depois no bairro de Salamanca. O meu nome original é Antónia Conde Nieto, Antonina Carinho é como me chamavam, mas já sou conhecida como Madre Salud desde que estive lá em Ciudad Lineal.

P: E depois a América e a África trabalhando na sua congregação...

R: Com certeza. Fui para México cidade no ano 1956, onde levo trabalhado até os dias de hoje, embora tenha saído muito para a África, nomeadamente para Angola e Cabo Verde.

Tenho que dizer que a minha congregação, as “Esclavas de la Santísima Eucaristía y de la Madre de Dios”, foi fundada pela Madre Trinidade del Puríssimo Corazón de Maria, natural de Granada, com uma vontade e vocação de serviço, e desenvolve projetos de missão e educativos em muitos lugares do mundo.

P: E os seus trabalhos dentro da sua congregação têm sido, quais?

R: Fui administradora da congregação 21 anos e agora sou diretora dos colégios da América (sete colégios no México) e da África, além das muitas obras sócias que temos nesses lugares. O que me levou para a África foi a obediência, simplesmente me mandaram e eu aceitei, claro.

Em Angola vou e venho, nunca estive lá destinada como tal. Tenho que dizer que também venho com frequência pela Galiza, nomeadamente desde que em 2004 inauguramos o projeto Miraflores aqui em Ourense.

Eu nunca tive o objetivo de ser superiora geral mesmo posso dizer que não gostaria. Reitero que tudo é um serviço mas eu prefiro servir diretamente, gosto do contato com os rapazes e com a gente de todo tipo, seja pobre, rica, mediana...

P: Quais são os sustentos económicos da sua congregação. Donde provêm os fundos para terem tantas obras sócias e estabelecimentos de ensino?

R: Podem acreditar, a nossa congregação sustem-se pela esmola da gente boa que é amante da educação, tendo claro que tudo é para serviço para os demais. Eu peço no México, nos EUA, na Galiza... e a resposta tem sido sempre fantástica. Quando as pessoas conhecem o nosso trabalho, não duvidam.

P: Indo ao ponto. Quais os seus trabalhos em Cabo Verde e em Angola?

R: Em Cabo Verde ainda não há muito fizemos um colégio para mil e tal rapazes e raparigas, numa obra que teve um efeito sobre o meio extraordinário. O colégio foi inaugurado o dia que morreu o Papa João Paulo II. Lá atendemos infantil, primário, secundário e bacharelato. No total, estamos em duas ilhas e esperamos que os frutos logo se vejam, como já temos verificado no México, onde levamos muito mais tempo (desde 1956).

Em Angola dedicamos mais esforços as centros de missão: no total temos sete. Ora, também temos estabelecimentos de ensino: na altura gerimos dois.

P: Esses estabelecimentos de ensino são para todo tipo de gente?

R: São, sim. Os Miraflores estão pensados para gente com maior poder aquisitivo e os Ângelo Matute estão voltados para pessoas com poucos recursos, como também os infantários. Tenho que esclarecer para já que a educação e o sistema de ensino, bem como o professorado são iguais para ambos os projetos.

Os colégios de Angola, Cabo Verde, têm a mesma estrutura e serviço mais são distintos a respeito do que fazemos aqui na Galiza. É claro que a situação não é a mesma e, portanto, as obras que fazemos também devem ser focadas da mesma maneira.

Em Cabo Verde o professorado está composto por monjas da nossa congregação e professores que nos envia o Estado; também em Angola dão laicos e religiosos. E nunca tivemos problemas, mesmo tenho ido em toque de recolhida e o atendimento foi sempre magnífico.

P: Têm favorecido outro tipo de atendimentos para as gentes mais necessitadas?

R: Dentro das nossas possibilidades, tentamos trabalhar para todo o pessoal ter uma condição de vida digna, como direito a terem uma habitação. Para isso, mediamos no possível com os governos e dos nossos colégios têm saídos médicos, advogados, contadores... cujo trabalho futuro irá melhorar o nível dessas comunidades.

Enfim com educação e formação sempre poderão sair da pobreza. Em Cabo Verde os colégios, quer Miraflores, quer Matute, fizeram um impato incomparável e os nossos alunos saem para diante, como já temos verificado no México.

 

A Madre Salud com o professor Estraviz num momento da entrevista

 

P: O fato de ser galega tem-na ajudado por aquelas terras?

R: Sem dúvida que tem. Quer em Cabo Verde, quer em Angola eu defendi-me bem com o galego, nunca tive problema. Os nativos entendiam-me e eu entendia. O mesmo quando falava com os governos. E falando como me saía, isto é, à galega.

Sinceramente, eu daria o conselho de aproveitarmos muito esta riqueza que temos porque é uma mais valia tanto cultural como de nascimento, e no que diz respeito ao galego as pessoas podem abrir as suas fronteiras nos lugares em que se fala português.

P: Quer dizer que graças ao galego as portas abrem-se mais fácil, é isso?

R: Um galego tem as portas abertas lá onde se falar português, terá uma magnífica acolhida. Por um lado o castelhano e por outro o galego é uma grande riqueza que devemos saber gerir. Por sinal, no México tenho muitos galegos entre o professorado e entre nós falamos muito galego.

P: Para já, o que diria as pessoas que nos estivessem a ler, nomeadamente na Galiza?

R: Bem, ir por Cabo Verde ou Angola vale a pena, são uma oportunidade e as suas gentes são muito alegres. Em Cabo Verde, por exemplo, o problema da água potável é muito grave e as suas potencialidades pesqueiras ainda não têm sido bem exploradas, pois o governo não tem dinheiro para investir e poder aproveitar isso como é devido.

Eu pediria para as pessoas colaborarem com esses países que em muitos casos não têm nem o indispensável, e, ainda, visitarem com os seus filhos esses lugares e verem quanto têm eles e o muito que falta aos demais.

P: E os seus trabalhos no futuro?

R: Agora estou na Galiza acabando o Miraflores aqui em Ourense. De aqui a pouco vou passar uns dias até o Porto, a minha aldeia, e a partir de 15 de agosto volto para o México, pois já começam as aulas.