Luís Iglesia: «Eu nom sou um ator galego, sou um galego ator»

«Pode-se ser um bom ator galego se nom sabes falar bem galego? Creio que nom... a menos que queiras fazer de estrangeiro nas séries de televisom galegas»

Terça, 14 Setembro 2010 00:00

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O ator Luís Iglesia num momento da entrevista

David Canto / Gerardo Rodrigues - A meados do verão entrevistámos o ator Luís Iglesia Besteiro (Rio Torto, 1962), conhecido atualmente sobretudo por interpretar o papel protagonista de Carmelo na série Matalobos, que emite a TVG. Conversámos com ele acerca da relaçom da língua galega com o mundo audiovisual, a situaçom do setor da dobragem e a Lusofonia, entre outros temas.

O pretexto para o contato inicial foi umha palestra que o ator deu em Ordes convidado pola AC Foucelhas, à qual aproveitamos para agradecer que nos pugesse em contato com quem é hoje em dia um dos rostos mais reconhecíveis da televisom galega.

Mas o seu êxito nom chegou de golpe, pois tem umha extensa trajetória às costas. Baste lembrar nom só a sua ativa participaçom numha outra série, Terra de Miranda, e inúmeras incursões no teatro e noutros projetos audiovisuais. No entanto, se agora é um rosto conhecido, decerto a sua voz é mais reconhecível ainda, pois leva mais de vinte anos a fazer falar galego atores como Mel Gibson, Harrison Ford, Robert de Niro, Paul Newman... e também personagens fictícios, como o gato Garfield, entre muitos outros.

Luís Iglesia dá vida a Carmelo Matalobos na série homónima

Infinitamente amável, Iglesia chegou mesmo antes da hora marcada. Apesar de que aqui lhes oferecemos pouco mais de vinte minutos, a nossa conversa prolongou-se mais de duas horas, e possivelmente teria durado mais se nom fosse pola chegada do sol-pôr.

A primeira questom pola qual perguntámos foi a dobragem. Para ele, a dobragem é «um dos bancos de provas mais importantes que há para o idioma», pois coloca-se «qualquer pessoa, de qualquer lugar do mundo, a falar em galego». Desta maneira, fai-se possível que se dêem situações como a de «um astronauta a falar galego no seu meio, que seria a NASA», provavelmente difícil de se dar na realidade, mas possível no mundo da dobragem. «Seguramente, agentes da CIA haverá algum que fale galego... ou do FBI», comenta rindo.

Luís Iglesia, num momento da entrevista

Iglesia vê também umha importância normalizadora, porque através da dobragem é possível ver a falarem galego estratos sociais «que habitualmente nom o usam», como advogados, juízes ou militares.

Quanto ao galego nos meios de comunicaçom, o ator molha-se e afirma que neste País há gente que «nom parece ter claras» algumhas «cousas básicas» como o que é falar bem galego, e fai especial ênfase na fonética e na prosódia. «É melhor dizer 'térmite' no canto de termite ou non'é una termite?». Neste senso, critica que se procure gente com ofício no mundo da dobragem, mas nom gente com um galego ajeitado, «como se umha cousa estivesse separada da outra», lamenta, ao tempo que lança umha pergunta: «pode-se ser um bom ator galego se nom sabes falar bem galego? Creio que nom... a menos que queiras fazer de estrangeiro nas séries de televisom galegas», sentencia.

Palestra da AC Foucelhas

Perguntado acerca de algumhas das questões sobre as quais falou na palestra de Ordes a que aludíamos ao começo, Luís Iglesia lembrou umha frase ali comentada: «eu nom sou um ator galego, sou um galego ator. E digo isto de coraçom, e a sério. [...] Algum dia podo perder a condiçom de ator, a de galego nom a vou perder na vida». O de Rio Torto leva essa premissa a outros âmbitos. Ao seu ver, se, por exemplo, os políticos fossem «galegos políticos» e nom «políticos galegos«, ou «galegos empresários», as cousas poderiam ir melhor. E isto aconteceu muito no audiovisual, «queria-se fazer audiovisual na Galiza, mas audiovisual galego nom [...]. Levam-se gastados milhões de euros na atividade vinculada ao cinema, e nom se vê o caminho aberto por nenhum lado».

Sobre a qualidade do galego no mundo da publicidade, o ator critica que se fai muita, sobretudo da Junta da Galiza, «pagada com quartos de todos os galegos e galegas, feita em Madrid por gente que o único que sabe da Galiza e do galego é que nasceu em Ponte Vedra ou em Vigo, mas que nom deu um chio de galego na sua vida». Lança também a incógnita de por que nem o Governo nem a televisom pública supervisam esses trabalhos e, se for o caso, por que nom os mandam repetir.

Luís Iglesia é crítico com a qualidade da língua empregue no audiovisual

Quanto à recente Lei do Audiovisual da Catalunha, Iglesia lamenta que os papéis «termárom» do que há assinado na Galiza, mas que nunca se cumpriu. Por esse motivo é céptico ao pensar num cenário em que o audiovisual galego tenha um tratamento similar no País ao que tem o catalám. «Muitas vezes dá-me a sensaçom de que é como quando os barcos carregam para babor ou para estribor. Há vezes que, ideologicamente, determinados setores fazem que o barco vaia tanto para um lado que depois, para o levar para o outro, é mui complicado».

Lusofonia

À hora de falarmos da Lusofonia, comentámos-lhe ao nosso convidado umha frase pronunciada pola Madre Salud em entrevista ao PGL: «Um galego tem as portas abertas lá onde se falar português, terá uma magnífica acolhida». Iglesia lembra que se trata de um discurso que se tem defendido também dentro da direita galega, mesmo da mais reacionária, e assinala a contradiçom com o facto de, dentro desse espetro ideológico, «aos que falavam melhor galego, os seus correligionários chamavam-nos 'os da pucha'. Há que explicar algo mais? [...] Creio que o explica tudo». Mais adiante comenta que quando se fala de umha necessária aproximaçom estamos perante um «discurso valeiro».

Outro dos temas 'lusófonos' que lhe colocámos foi o das possibilidade de receçom das televisões e rádios portuguesas na Galiza. «Eu creio que seria estupendo», porque assim «a gente do comum também o perceberia como um facto normal». Isto, matiza, «independentemente da qualidade das próprias televisões e rádios portuguesas».

Pouco antes da despedida —na qual lembrou que em termos de construçom de discurso «estamos muito mais perto de Portugal do que, por exemplo, Salamanca»— a anedota pujo-a umha senhora que se achegou (emocionada) ao ator ao berro de «Carmelo!» para comentar com ele o último episódio da temporada da série Matalobos. «Muito nos figeche sofrer», comentava a espontânea, ao tempo que 'Carmelo', todo amabilidade, repassava com ela algumhas das chaves da série.

 

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