M.ª Madalena Barbosa: «O conhecimento de Portugal para a Galiza constitui uma necessidade, uma resposta e um espelho»

Entrevista realizada por Gabriel Álvares, estudante de Tradução e Interpretação na Universidade de Vigo · A dia 30 de setembro celebra-se o Dia Mundial do Tradutor

Quinta, 30 Setembro 2010 00:00

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Gabriel Álvares - Madalena Barbosa (Rio de Janeiro, 1985) é filha de um galego e uma brasileira, e tem avós portugueses. O seu coração é verde-amarelo-azul e branco com uma faixa azul que o atravessa de esquerda à direita.

Licenciada em Tradução e Interpretação e Mestrado de Tradução e Paratradução, Madalena Barbosa é autora do trabalho de investigação Aproximación á tradución da literatura galega en Portugal e Brasil.

Gabriel Álvares: De onde surgiu o teu interesse pelas relações literárias entre a Galiza, Portugal e o Brasil?

Madalena Barbosa: Por uma confluência de razões pessoais e interesses acadêmicos. Correm por minhas veias esses três grandes afluentes da língua portuguesa. Por outro lado, existem bem poucos trabalhos de investigação neste campo e toda contribuição é de interesse.

Na obra fala-se em que muitos dos tradutores que trasladam obras galegas para o português são especialistas da tradução do castelhano pela «importante bagagem lexical» que o galego compartilha com o castelhano e o português. Podias desenvolver esta afirmação.

Para a minha pesquisa, tratei de entrar em contato com alguns especialistas da tradução desde o galego ao português. Não tive muita sorte, poucos foram os que responderam os meus correios. Um deles foi o tradutor Teixeira de Aguilar. Ele traduziu, para Publicações Dom Quixote, duas obras desde o galego: Rapazas, de Agustín Fernández Paz, e No ventre do silencio, de Xosé Luís Méndez Ferrín. Essas duas encomendas lhe foram feitas graças à sua experiência como tradutor de obras em castelhano e não por ser um especialista em verter obras do galego ao português. Ele me confessou que só teve pequenos problemas que pode solucionar através de contato direto com os autores ou consultando um dicionário galego-castelhano.

Pelo mundo afora, há falta de profissionais qualificados formados especificamente em tradução desde a língua galega. Como conseqüência, a alternativa é recorrer a tradutores que trabalham desde o castelhano. Há vezes em que o tradutor,   que está a trabalhar com uma obra galega, consulta a versão em castelhano (se esta existir) para resolver dúvidas. Foi o que ocorreu, por exemplo, com As chamadas perdidas de Manuel Rivas. A tradutora, Maria do Carmo Abreu, consultou a autotradução castelhana. Mas a interferência de uma terceira língua em discórdia resulta, a miúdo, no empobrecimento do produto final. O português, o galego e o castelhano têm muitas coisas em comum, mas cada língua tem a sua própria essência , a sua singularidade. E para realizar um trabalho de tradução correto, há de conhecer-se intimamente cada língua (a de partida e a de chegada) para superar todos os empecilhos e evitar assim cair nas armadilhas próprias da tradução entre pares de línguas próximas.

GA: A partir das pesquisas realizadas para o trabalho, quais achas que são os autores galegos que melhor funcionam no mercado luso-brasileiro?

MB: Manuel Rivas, Méndez Ferrín, Suso de Toro, Xavier Queipo, Marilar Aleixandre, Agustín Fernández Paz, Gonzalo Navaza são alguns dos nossos autores que chegaram às mãos dos leitores portugueses na vestimenta lingüística de Camões. Rivas goza de boa fortuna literária em Portugal. Por outro lado, não podemos menosprezar o papel que desempenha a literatura infanto-juvenil na projeção internacional da literatura galega. Temos um caso anedótico, o dos personagens de Pepe Carreiro, Os Bolechas, que, por evitar qualquer conexão maliciosa (Bolechas parece ser que é a alcunha de Mário Soares), foi traduzido como Os Bochechas. No Brasil, no círculo erudito, Rosalía de Castro é bem conhecida e admirada. Rivas tem alguma obra traduzida ao português do Brasil, mas o texto fonte era a versão castelhana. A literatura infanto-juvenil galega está a ser uma aposta para penetrar no mercado brasileiro e desde as editoriais de Espanha há um interesse em investir no Brasil. Há outros autores galegos conhecidos no mercado luso-brasileiro que optaram por penetrar nesse mercado escrevendo na normativa AGAL ou diretamente em português, como é o caso de Carlos Quiroga, bem presente no panorama literário e acadêmico português e brasileiro.

GA: Que acha do facto de as obras do recém-finado José Saramago estarem na maior parte das livrarias galegas na sua versão traduzida para castelhano?

MB: Os tradutores galegos são os principais agentes importadores da literatura portuguesa e brasileira para o público espanhol. O professor e tradutor galego, Basílio Losada, foi o grande promotor da obra do Nobel português em Espanha. Corria o ano 1982, o seu amigo Xesús González Gómez lhe falou de um romance sedutor de um autor pouco conhecido em Espanha. Se referia a Memorial do Convento, de Saramago. Losada adorou o livro e tentou, em vão, convencer ao editor da necessidade de vertê-lo ao castelhano. Porém, a apresentação de Saramago se produziu com outro romance, O ano da morte de Ricardo Reis, por sua relação com Fernando Pessoa e pelas referências à Guerra Civil espanhola. A seguir veio a tradução de Memorial do convento e outros muitos títulos que levaram o selo de Losada. Mais recentemente, é a viúva de Saramago, Pilar del Río, a encarregada de verter a sua obra ao castelhano. Além disso, há alguns títulos em catalão.

Os grandes leitores galegos de Saramago o consumem maioritariamente em castelhano. Outros, buscando um contato mais íntimo com o autor, preferem prescindir da tradução e gozar das bondades e sutilezas dos romances de Saramago na língua original. Dolores Vilavedra, no seu artigo «Galego, portugués e castelán: unha interacción productiva», fez um estudo sobre as possibilidades do livro em português na Galiza e concluiu que há um público universitário, mas também leitores afastados do círculo acadêmico, que consomem produtos literários em português. Vilavedra reconhecia, ao mesmo tempo, a existência de um público disposto a comprar livros de autores lusófonos em galego.  Se quisermos fomentar o consumo, por exemplo, de livros em português em Galiza haveria que  planificar políticas com objetivos claros e impulsar campanhas de promoção da língua e cultura literária do rico e variado universo da lusofonia. Outra possibilidade, revitalizar o processo de tradução ao galego, de tal forma que haja a mesma oferta de livros traduzidos ao galego e ao castelhano simultaneamente. A existência de uma determinada obra traduzida ao castelhano não significa que as necessidades dos leitores galegos estejam satisfeitas, nem muito menos, porque eles, mesmo podendo aceder a essa obra na língua oficial de todo o Estado espanhol, têm o direito e devem ter o privilégio e o prazer de poder ler sempre na sua língua, em galego. Enquanto haja autores como Saramago que só nos chegue em castelhano, o galego seguirá padecendo um menosprezo histórico, social e cultural. Tradutores, editores, escritores, leitores, jornalistas, políticos, docentes,... têm a responsabilidade de mudar esse panorama.

GA: Qual é o panorama da tradução literária em Portugal?

MB: A minha pesquisa teve como objetivo dar uma visão geral sobre a recepção da literatura galega em Portugal, por isso careço de dados suficientes para analisar ou avaliar qual é a situação do mercado da tradução literária em Portugal.

Pessoalmente acho que no caso do galego a não-tradução de obras portuguesas e brasileiras seria melhor do que a tradução. Como diz a citação de Carré Aldao que se menciona no teu trabalho: «En el orden gramatical, el gallego leyendo en portugués se desenvuelve y enriquece; traduciendo del castellano languidece, degenera y muere.» O que opinas disto?

Com o português a língua galega reencontra-se e recupera as suas raízes, revive a sua origem, regressa a esse cordão umbilical. Como digo no meu trabalho, o contato com a língua portuguesa é o antídoto contra o veneno da contaminação castelhana. Estimular a aprendizagem do português na Galiza, fomentar entre nós o conhecimento da rica literatura em língua portuguesa e incentivar a leitura de obras escritas nesta língua seriam medidas que redundariam no nosso próprio fortalecimento e enriquecimento.

GA: Na Galiza discute-se da pertinência de traduzir obras literárias do espanhol para o galego. Concordas?

MB: O galego é a língua da Galiza e como tal deve desempenhar todas as funções de uma língua própria de um país. Deve estar presente em todas as esferas da vida social, cultural, comercial,... Deve ser a língua da educação, da justiça, da administração, do ócio e do negócio. Temos no nosso idioma palavras para expressar todos os sentimentos, todas as realidades da vida. Gozamos de uma bagagem histórica tão antiga como a das outras línguas peninsulares. Com o galego, o nosso povo pode satisfazer todas as suas necessidades comunicativas e não deveria ver-se obrigado a recorrer ao castelhano para aceder a uma determinada obra, mesmo de um autor hispanofalante. A tradução  desde o espanhol ao galego está, no meu parecer, justificada. O Plan xeral de normalización da lingua galega de 2006 reconhecia a importância de incrementar a política de tradução ao galego das melhores obras da literatura universal de ontem e de hoje escritas noutras línguas (incluído o castelhano). Mas esse objetivo ainda está, infelizmente, longe de se alcançar.

 

GA: No trabalho fala-se duma proposta do professor Venâncio consistente em publicar obras galegas em ortografia portuguesa corrigindo castelhanismos “inoportunos” e juntar um glossário sucinto. Essas edições comercializariam-se posteriormente também na Galiza. Por outro lado temos a estratégia de publicar diretamente em normal AGAL e exportar a Portugal e ao Brasil. Crês que com o debate que se está a dar ultimamente com o Acordo Ortográfico esta estratégia é factível ou que poderia ser bem recebida nesses países?

MB: Dependerá do público destinatário dessas obras. As pessoas familiarizadas com a realidade lingüística da Galiza, aquelas interessadas na nossa língua e conhecedoras desse passado comum que nos une com todos eles estarão, com certeza, bem dispostas a consumir esse produto cultural. Mas o público em geral talvez não tenha vontade de conviver com uma variedade mais. Como cito no meu trabalho, o jornalista e escritor Viale Moutinho, grande conhecedor das relações Galiza-Portugal, insiste na importância de traduzir ao português as obras galegas já que há em Portugal leitores avessos a ler em galego. Segundo Viale, obstaculizar as traduções só serviria para prejudicar a difusão da literatura galega em Portugal. Por outro lado, não podemos esquecer o fato de que os produtos traduzidos no Brasil não se acostumam comercializar em Portugal e vice-versa. Cada país faz a sua própria tradução conseqüente com a forma de expressar-se  característica das respectivas variedades do português (vocabulário, diferenças sintácticas e ortográficas,...). Analisando e contrastando a tradução brasileira e portuguesa de um mesmo livro ou filme, pode-se ver que há diferenças também na hora de optar, por exemplo, entre a domesticação e a estrangeirização, entre a adequação e a aceitabilidade. Por isso, há defensores de promover na lusofonia a literatura galega traduzida ao português do Brasil e de Portugal, seguindo a mesma linha com que se promovem outras literaturas forasteiras. Claro que existe no Brasil e em Portugal um certo público que consome a literatura galega não traduzida ou levemente retocada. Seria realmente interessante realizar um estudo profundo e completo sobre o perfil desse público leitor e o grau de sucesso de vendas dessas publicações em comparação com as obras galegas vertidas ao português normativo de cada país.

GA: Dadas as características do mercado literário galego é impossível traduzir tudo o que se traduz, por exemplo, para o castelhano. Não crês que o leitor galego poderia aceder também a traduções realizadas em Portugal e no Brasil, para assim não ter que passar pelo filtro do castelhano?

MB: Como dizia antes, haveria que avivar o amor, a curiosidade e o interesse pela língua camoniana na Galiza. Uma maior e melhor oferta de cursos de português e de introdução às literaturas em língua portuguesa e, em uma segunda fase, a realização de campanhas de animação à leitura nesta língua ajudariam a preparar melhor o terreno de tal forma que o público leitor galego sentisse mais confiança e bem-estar ao ler em português.

GA: Segundo tu, quais são as circunstâncias que dão lugar a essa assimetria de relações entre a Galiza e Portugal?

MB: Um artigo de Pilar Vázquez Cuesta, «Portugal-Galicia, Galicia-Portugal: un diálogo asimétrico», faz uma interessante reflexão sobre o que significa Portugal para a Galiza e o que significa a Galiza para Portugal. Ela diz alguma coisa assim: a Galiza significa só para Portugal a recuperação do passado, de um passado nostálgico que ninguém deseja ressuscitar. Portugal representa para a Galiza a demostração de que, com a sua língua, história e cultura, resulta viável como projeto nacional, e de que, talvez, ainda lhe resta um futuro de país que, em potencial humano e riqueza, não tem nada que invejar a outros muitos de Europa. Por isso, o conhecimento da Galiza é para Portugal um luxo que pode e deve permitir-se, o de Portugal para a Galiza constitui para esta uma necessidade, uma resposta e um espelho.

Uma boa síntese da relação assimétrica que durante séculos caracterizou ―e talvez ainda caracteriza― a convivência e o intercâmbio cultural entre a Galiza e Portugal. Irmãos siameses que gozaram, juntos e unidos, do esplendor medieval, cada um correu uma sorte bem diferente quando uma operação histórico-política se encarregou de praticar a excisão definitiva. Desde então, a língua e literatura portuguesas, evolucionadas em um processo normalizador e protegidas por uma nação de navegantes e conquistadores, significaram para a Galiza o vivo exemplo de o que poderiam ter chegado a ser se tivessem gozado de similar liberdade histórica. Recuperar os laços com Portugal significava, para muitos intelectuais galegos, liberar-se do jugo castelhano.

GA: Que vantagens achas que oferece o Acordo Ortográfico no que respeita à tradução e ao consumo de traduções?

MB: O Acordo ainda está em cueiros. Há vozes em contra que dizem que quem faz a língua é o povo e não as academias e os governos, de tal forma que essa iniciativa seria como um passo atrás. Outros, porém, estão contentes de ver um sonho realizado, o de conseguir uma certa unificação da língua portuguesa nos países que a adotam como seu meio de expressão. O Acordo deve buscar a união, a coerência e o consenso, sempre desde o respeito à diversidade, singularidade e riqueza das variantes geográficas. Uma união que faça a força, mas que não force a homogeneidade nem privilegie uma variedade em detrimento das outras. É difícil alcançar esse equilíbrio. Uma língua é tal em virtude dos diversos usos que de ela fazem os seus falantes, esquecer essa realidade seria impôr uma língua de laboratório que os falantes acolheriam como artificial e estranha.

Estão se publicando os primeiros materiais lingüísticos, livros e dicionários para dar a conhecer as mudanças. Começa agora um período de transição, confusão, aprendizagem e familiarização que se produz sempre que há uma mudança deste tipo. Estão a conviver o antigo e o novo. Há quem ainda se negue a dar o braço a torcer e advertem nos seus escritos: “escrevo obedecendo as regras anteriores ao Acordo”, tal como li em um artigo de uma revista portuguesa. O tradutor, como homem de letras, deverá incorporar o Acordo à sua bagagem. Mas, o Acordo fará que, por exemplo, o produto final traduzido por um português seja aceite e comercializado no Brasil e vice-versa? Vejo difícil. Evitará a necessidade de “traduzir” desde o português do Brasil ao português de Portugal? Talvez. Devemos esperar um tempo para poder realmente avaliar o efeito do Acordo no mercado da tradução.