Xoán Lagares: «O português para nós deveria ser uma força centrífuga que tirasse o galego da órbita do espanhol»

«Diria simplesmente que os galego-falantes, pelo fato de sê-lo, temos direito ao português. E que devemos trabalhar politicamente para podermos exercer, como coletivo, esse direito»

Segunda, 08 Novembro 2010 00:00

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

Valentim R. Fagim - O Portal Galego da Língua entrevistou Xoán Lagares, professor de Linguística Histórica na Universidade de São Paulo, no Brasil. Conversámos com ele acerca da identidade linguística galego-portuguesa e das vantagens de potenciar os laços comuns, a começar pelo mesmo idioma.

PGL: Em que medida o estabelecimento duma fronteira política pode alterar a comunicação e a comunidade imaginada entre ambos os lados da fronteira?

Xoán Lagares: A fronteira política tem evidentes consequências ecolinguísticas, pois orienta as falas em direção aos respectivos centros normativos e influi poderosamente nos imaginários que servem de base à construção de identidades linguísticas. Bourdieu dizia que a fronteira tanto produz a diferença cultural quanto é por ela produzida. E dizia também, em relação com isso, que a ação do sistema escolar sobre a língua mostrava que a vontade política pode desfazer o que a história tinha feito.

É preciso também compreender que a fronteira nem sempre foi como a conhecemos hoje. Do meu ponto de vista, há na historiografia linguística, tanto galega como portuguesa, uma mistificação da incidência histórica da fronteira sobre as falas de ambos os lados do Minho. Podemos imaginar que a influência real dos construtos normativos sobre as práticas linguísticas da imensa maioria da população tenha acontecido de forma maciça muito recentemente, só após a construção dos Estados-Nação modernos, com a universalização do ensino obrigatório e a difusão dos meios de comunicação de massa. Antes disso, a variação linguística presente nos territórios galegos e portugueses devia responder a variáveis sociais outras, que não excluem, é claro, a variação geográfica.

Por outro lado, a fronteira é também um lugar de trânsito, em que a presença do outro obriga a uma permanente redefinição, a um diálogo constante, impedindo que as identidades se fixem de uma vez e para sempre, o que considero muito positivo. Talvez, no nosso caso, ao invés de ficarmos reclamando eternamente das evidentes consequências históricas surgidas da fronteira que nos separa de Portugal (tentando recriar miticamente uma união política que nunca existiu), resultasse interessante e enriquecedor alargarmos essa fronteira, evitando vê-la como limite, e convertermos Galiza inteira em lugar de trânsito, numa territorialidade complexa capaz de acolher e de reconhecer em si o que está fora dela. Pelo menos, eu, que sou avesso a qualquer forma de purismo, não vejo nada ruim nessa condição fronteiriça. Muito pelo contrário.

PGL: Na Galiza, a respeito de Portugal e o Brasil, a nossa língua está satelizada. Em que se traduz isto do ponto de vista interno?

Xoán Lagares: A metáfora da satelização linguística já fora usada por Aracil ao definir e descrever a situação minoritária. Essa situação manifesta-se na permanente “interposição” da língua hegemônica e no bilinguismo desigual e substitutivo. Os falantes bilingues na Galiza (que são, “necessariamente”, os que têm o galego como língua inicial e habitual) acedem aos produtos culturais das outras línguas sobretudo através das traduções feitas em espanhol, que acaba sendo modelo também para a adopção de neologismos e de estrangeirismos. E a satelização, como dizia antes, com a imposição de um padrão linguístico alheio, condiciona a deriva do idioma.

Mas, se não é razoável desconsiderar a presença do espanhol como um elemento condicionante da mudança linguística na Galiza, tampouco acho que seja possível hoje delimitar com precisão o alcance dessa influência. Esse tipo de empreendimento “linguístico”, pretensamente científico, acaba virando pura e simples metafísica. As falas galegas são resultado de condicionantes diversos: fenômenos locais de mudança, que em muitos casos se verificam já nos textos medievais; presença constante do espanhol como modelo de correção para os falantes; isolamento a respeito das outras variedades da língua histórica; processo de elaboração parcial e inicialmente em condições muito precárias desde o século XIX; institucionalização de um modelo de língua desde os anos 80 do século passado... Todos esses elementos influindo em diversos graus e de formas diferentes segundo os falantes, a situação, o momento histórico.

PGL: As consequências da satelização também afetam a nível externo, em como somos vistos. Pola tua experiência pessoal, como somos visualizados e categorizados no Brasil?

XL: Eu diria que a satelização tem consequências em como “não somos vistos”. Em linhas gerais, não existem representações sociais mais ou menos verazes sobre os galegos, o qual tem consequências linguísticas e pragmáticas evidentes. Um galego pode ter ideias diversas sobre a relação entre galego e português, mas não tem problemas para identificar um falante brasileiro e está pronto para se comunicar (ou não se comunicar) com ele. Ora bem, sem referências prévias, sem ter onde encaixar os dados linguísticos que um falante galego oferece, um brasileiro pode ficar tremendamente confuso, com percepções variadas e, às vezes, contraditórias ao conversar com ele: pensando estar diante de um falante hispânico que “arranha” o português (sem falá-lo exatamente), de um falante de português estranho (rural?, arcaico?, de fronteira?) ou de alguém que fala uma língua próxima que não consegue identificar.

O termo “galego” remete no Brasil a realidades díspares: faz referência a um tipo de limão, grande e amarelo, que (atenção, nota culinária!) nunca é utilizado nas caipirinhas; no Nordeste do país serve para se referir a pessoas de pele branca e/ou cabelo louro; e pode fazer referência também de forma genérica e mais bem depreciativa, pelo menos no Rio, aos emigrantes portugueses. Alguém de  idade avançada já me comentou que na sua infância com o termo “galego” eram designados os comerciantes judeus. Fora isso, existe a expressão “trabalhar feito um galego”, que a nós não surpreende mas que poucos brasileiros saberiam explicar. Possivelmente, só os que já leram O Direito à Preguiça de Paul Lafargue. Também tenho ouvido a expressão “fazer alguma coisa à galega”, com o significado de 'sem cuidado', 'de qualquer jeito'. E por aí param os sentidos que eu conheço do termo “galego” no Brasil.

A numerosa colônia galega é percebida apenas como espanhola, sem matizes, e assim é como ela mesma se apresenta nos seus centros sociais (Casa de Espanha, Clube Espanhol, etc.). No Rio de Janeiro, os emigrantes galegos proprietários de hotéis, motéis, restaurantes, saunas e bingos praticam a arte da camuflagem e do dissimulo. Em certa ocasião, meu sogro levou-me a um tradicionalíssimo restaurante árabe do centro da cidade. O proprietário, supostamente árabe, falava, segundo ele, um português “enrolado”. Ao chegarmos lá descobrimos que o tal cidadão se chamava Manolo e era de Santa Comba. Aquele falar enrolado era o seu galego enxebre levemente abrasileirado. Anos a fio meu sogro, ele mesmo com antepassados libaneses, pensara que se tratava de um emigrante árabe, e o Manolo, raposeiro, pelo bem do negócio, nunca desfez o equívoco. Na hora lembrei o diálogo entre as duas regateiras de peixe da Romagem dos Agravados, de Gil Vicente: “Tu tens tudo emburilhado. Pera qu'é falar galego, senam craro e despachado?”. Parece que, nesse aspecto, as coisas não mudaram tanto assim nos últimos séculos. Aqui estamos, ainda, às voltas com o nosso “falar emburilhado”.

PGL: Em que medida o facto de não existir comunicação Galiza-lusofonia afeta a identidade?

XL: A interposição do espanhol dificulta o contato direto com as falas galego-portuguesas mundo afora. E a falta de relação com esse outro que é um pouco nós mesmos, afeta, é claro, o imaginário sobre a nossa língua, que passa a ser percebida como uma realidade apenas local, subsidiária, limitada e inservível para comunicar-se com qualquer um que não seja o vizinho mais próximo. O português para nós deveria funcionar como uma força centrífuga que tirasse o galego da órbita do espanhol ou que, pelo menos, contrabalançasse esse poderoso impulso gravitacional. Fomentar a presença do português na Galiza, nomeadamente, na escola e na mídia, deveria ser uma estratégia básica de qualquer política linguística no nosso país.

Isso não tem a ver necessariamente, do meu ponto de vista, com a difusão ou a imposição de um modelo de língua único e internacional de língua portuguesa entre a população, até porque esse modelo não existe, mas com a presença da diversidade linguística lusófona na Galiza. Não estamos obrigados a escolher entre o local e o universal. Essa, aliás, é uma falsa dicotomia, pois a rigor toda língua é local, o que não impede que possa funcionar também, com as estratégias e os instrumentos necessários, fora desse âmbito. Do meu ponto de vista, a questão deve ser colocada noutros termos...

Por exemplo, na “hispanofonia”, tantas vezes tomada como modelo, não existe um espanhol “panhispânico” falado pelas elites letradas de todos os países de língua oficial espanhola, como diz a poderosa máquina propagandística a que estamos submetidos; existe apenas um projeto político e ideológico de construção de uma variedade internacional, que os instrumentos normativos panhispânicos chamam de “espanhol total”, e uma constante intervenção política que persegue a sua legitimação, a criação de consenso em torno a esse centro normativo único e totalizador. Essa intervenção, aliás, não está isenta de polêmica e de conflito nos países da América Latina. No âmbito lusófono, nem existe uma norma culta internacional portuguesa nem um projeto político homogeneizador dessas características, felizmente.

Por outro lado, na lusofonia a circulação de produtos culturais entre grandes centros emissores de norma linguística tem sido historicamente muito precária, ao contrário do que acontece no mundo hispânico. Penso que essa circunstância explica a percepção que os falantes do espanhol têm da suposta homogeneidade internacional da sua língua (que, obviamente, não é real, porque a homogeneidade linguística não existe), e que as instituições normativas exploram até a exaustão, face ao esgarçamento do português em duas grandes variedades, a brasileira e a portuguesa, que já começam a se estranhar. Uma situação que o Acordo Ortográfico, por si só, não vai resolver. Afinal, essas identidades linguísticas unitárias ou fragmentadas são resultado da existência ou inexistência de comunicação entre as partes, e não de uma efetiva uniformização da língua. Novas práticas, novos contatos, darão lugar, sem dúvida, a novas configurações.

PGL: Embora a nível popular a Galiza e a sua língua sejam desconhecidas, acontece o mesmo num plano académico?

XL: No âmbito das faculdades de letras, em universidades públicas brasileiras, que é onde atuo profissionalmente, tenho testemunhado situações muito diversas. Há ainda um grande desconhecimento do galego, mesmo entre professores de língua portuguesa. Nesse sentido, continua valendo a historiografia portuguesa clássica, para a qual o galego fica na pré-história da língua ou corresponde apenas à língua das cantigas. Não por acaso o nosso idioma no período medieval é mais conhecido no Brasil com o nome de Português Arcaico.

No entanto, o renovado interesse pela linguística histórica, realimentada pelas metodologias da sociolinguística variacionista e pelo estudo das tradições discursivas, assim como aquilo que Müller de Oliveira chama de “virada política” da linguística brasileira, estão fazendo com que alguns relevantes pesquisadores comecem a olhar para o galego. E acho que devemos tentar responder a esse interesse, que é sincero e aberto, e que carece de preconceitos.

A minha intenção é colocar as nossas questões na agenda da pesquisa acadêmica no Brasil, e isso é o que estou fazendo na medida (pequena) das minhas (escassas) possibilidades. Em dezembro deste ano, por exemplo, coordenarei um simpósio sobre galego-português no III Congresso Internacional da Associação Internacional de Linguística do Português (AILP), que vai acontecer na minha Universidade, com a participação de pesquisadores brasileiros, da Universidade Federal Fluminense e da Universidade de São Paulo, e galegos, da Universidade de Santiago de Compostela-Instituto da Língua Galega.

PGL: Tens trabalhado no estudo comparativo das falas galegas e brasileiras e afirmas que desta focagem poderiam ver-se abaladas algumas das certezas em volta da história do português. Quais são estas?

XL: O estudos comparativos que tenho apenas iniciado partem da necessidade de analisarmos as falas galegas e brasileiras como realizações da variação linguística no âmbito histórico galego-português. As pesquisas históricas brasileiras tomavam como elemento de comparação apenas o português europeu tal e como se constituiu historicamente no reino de Portugal, desconsiderando muitas das suas realizações populares, e ignorando totalmente as falas galegas. Eu penso que colocar o galego em cena, nesse empreendimento comparativo, e fazê-lo dessa maneira, considerando-o como conjunto de variantes de uma língua histórica maior que também inclui as falas portuguesas, brasileiras, africanas e asiáticas, pode trazer muitos elementos que permitam reconstruir com mais rigor a história de cada uma dessas variedades.

Quando analisados fenômenos pontuais, variantes concretas em qualquer nível de análise gramatical, muitas das barreiras simbólicas entre galego e português caem por terra. Conhecidos e reconhecidos “galeguismos” podem ser também formas “tipicamente cariocas” (formas sem nasalização como home, onte, antonte, trasantonte... embora com especificidades na sua realização fonética na Galiza e no Brasil) e fenômenos “caipiras” podem ser considerados também “tipicamente galegos” (craro, nebrina, gueloria, marelo, pelingrino). Para termos uma visão ampla e abrangente do espaço linguístico lusófono, e do lugar que as falas galegas ocupam, de fato, nele, devemos tentar compreender como se dão as continuidades e as rupturas históricas entre as variedades. Acompanhando processos de variação histórica de forma comparada, estaremos mais preparados, do meu ponto de vista, para entender, por exemplo, a extensão do uso do infinitivo gerundivo em Portugal, o seu desaparecimento total no Brasil e, por contraste, o modo como se mantém na Galiza. Ou termos uma melhor compreensão da distribuição de usos dos sufixos -aria / -eria, comparando a produtividade atual do segundo no Brasil (sem qualquer interferência do espanhol), com a do primeiro em Portugal, o qual nos permitirá avaliar a influência do espanhol na situação atual do galego nesse aspecto.

Por outro lado, na linguística histórica brasileira há duas teses explicativas que se opõem para explicar as particularidades dessa variedade de português. Uma delas defende a noção de “deriva” e identifica o germe das principais características do português do Brasil (PB) no próprio português europeu (PE). A outra tese explica a língua atual brasileira pelo contato linguístico com as línguas indígenas e africanas faladas no Brasil, como o resultado de um processo de crioulização. Do meu ponto de vista, ambas as perspectivas não são excludentes. Parece evidente que no PB se verifica uma mudança bastante radical que afeta a sintaxe, ao ponto de já ter sido considerado, diferentemente do PE e do galego, como uma língua de sujeito explícito (como o francês). O fato de o PB ter deixado de ser  “língua pro-dop”, ou de sujeito nulo, tem consequências no regime de concordância, na ordem de constituintes da sentença, e na famosa quase extinção dos pronomes oblíquos. Mesmo para a análise daqueles fenômenos mais estritamente brasileiros, a comparação histórica com outras formas do galego-português pode ser, sem dúvida, muito importante, pois permitirá checar a hipótese crioulista ou detectar tendências histórias realizadas com diversa intensidade em diferentes espaços geográficos, de acordo com as circunstâncias sociais e políticas.

PGL: Que papel pode jogar a variedade galega na esfera da lusofonia?

XL: Falava ao responder à pergunta anterior de um aspecto sintático de variação no âmbito lusófono. As diferenças sintáticas deixam muito nervosos os defensores da unidade da língua, como se a sintaxe fosse a última fronteira a ser cruzada para uma efetiva dissolução ou destruição dessa hipotética uniformidade. Alguns dos fenômenos que relatava no PB (como a concordância variável ou a ausência de pronomes oblíquos) também se encontram pontualmente em variedades do espanhol, como no caribenho ou no chamado castelhano andino, mas os arautos do panhispanismo sempre citarão, como argumento irrebatível em defesa dos seus empreendimentos normativos, a inefável e misteriosa uniformidade sintática da língua castelhana...

A lusofonia, como todas as outras fonias (que são o produto da expansão colonizadora de antigas potências europeias), carrega uma história de violências e de imposição linguística e cultural. Com frequência, a lusofonia é concebida como um ideal unitário, para o qual a diversidade constitui uma ameaça. Por isso, passar a considerar o galego, que não me importo em reconhecer como a mais “impura” das variedades lusófonas, no limite desse espaço linguístico, como parte integrante de pleno direito acena para uma visão realmente crítica e abrangente da lusofonia, remete a uma abordagem pluricêntrica e permite afastar o debate sobre o seu futuro da simples disputa histórica entre Portugal e o Brasil. No Brasil há vozes dispostas a rever a história do português a partir do galego e a construir um outro imaginário em volta da noção de lusofonia, como um espaço comunicativo linguística e politicamente diverso.

Nessa linha vai a proposta de minicurso que vamos ministrar o professor Carlos Alberto Faraco e eu mesmo em fevereiro do ano que vem, no XX Instituto da Associação Brasileira de Linguística (ABRALIM), que acontecerá em paralelo ao III Congresso Internacional, em Curitiba, com o título Políticas Linguísticas no Espaço Lusófono. Nesse minicurso, além de discutirmos a noção de lusofonia trataremos com mais detalhe a situação política do português em Cabo Verde e do galego no Estado Espanhol.

PGL: Recentemente o embaixador espanhol em Brasília afirmou-se na vontade generalizada do governo brasileiro em que a sua população fale castelhano. Forma parte do imaginário espanhol do português como língua menor ou é uma realidade?

XL: As declarações do embaixador espanhol no Brasil constituem um exemplo típico de propaganda enganosa. É verdade que houve um boom do ensino do espanhol no Brasil nos últimos anos, como consequência de dois fatos, principalmente: a presença de grandes empresas de capital espanhol no mercado brasileiro (Repsol, Telefônica, Gas Natural, Banco Santander...) e o processo de integração regional do Mercosul. Mesmo assim, a aumento do interesse pelo espanhol não chegou a ameaçar em momento algum a hegemonia do inglês no mercado do ensino de línguas estrangeiras. É verdade também que em 2005 foi aprovada uma lei que obrigava as escolas a oferecerem a disciplina de língua espanhola, como optativa para os alunos. Porém, se só com isso se conseguisse que toda a população brasileira passasse a falar castelhano, ou que o Brasil ingressasse na “Hispanidade”, como diziam algumas manchetes e como afirmam alguns intelectuais do regime, então, em boa lógica, a Espanha, onde o inglês é obrigatório em todos os níveis do ensino regular desde há bastante tempo, deveria ser já considerada um país anglófono. Como sabemos, isso está muito longe de ser uma realidade.

Mas, além disso, a lei federal de 2005, que devia começar a ser efetiva agora em 2010, é aplicada por estados e municípios, responsáveis pela administração da imensa maioria das escolas públicas. E o processo de aplicação é desigual, lento e, em alguns casos, inexistente. Diante dessa situação, o governo espanhol decidiu tomar a iniciativa e assinou um acordo com o MEC brasileiro que previa o uso de um método de ensino de espanhol semi-presencial, on-line, nas escolas públicas do Brasil. Esse projeto provocou uma enorme oposição e uma rápida reação dos próprios professores de espanhol brasileiros, como é lógico, pois constitui uma ingerência intolerável de instituições estrangeiras no sistema de ensino do país, desrespeita as próprias exigências do Ministério sobre o carácter educacional que deve ter o ensino de línguas e, por último, ameaça deixar no desemprego ou na precariedade laboral os graduados que se formam cada ano nas universidades. Para frear esse despropósito, e outros que ameaçam vir por aí, docentes universitários de todo o país formaram uma comissão para acompanhar junto ao Ministério da Educação o processo de implantação do espanhol no ensino brasileiro, a COPESBRA. Eu tenho a honra de ter sido escolhido pelos colegas para integrar o conselho consultivo dessa comissão. Contrariamente ao que afirma o senhor embaixador, a fase experimental desse projeto de ensino de espanhol on-line já acabou e, graças ao trabalho da COPESBRA, a iniciativa está paralisada.

Com efeito, na minha opinião, esse triunfalismo expansionista faz parte do tradicional discurso do nacionalismo espanhol, que considera as outras línguas peninsulares quase como anomalias históricas que devem ceder lugar à “língua comum” ibérica, que na sua concepção é o castelhano. O senhor embaixador “esqueceu” comentar, por exemplo, que na Argentina, em virtude do princípio da reciprocidade, foi aprovada uma lei equivalente, que obriga as escolas a oferecerem a disciplina de língua portuguesa. O Brasil é o motor econômico e o líder político da região, assim que não é difícil entender que, junto com o aumento do interesse por aprender espanhol aqui, tenha aumentado exponencialmente o interesse por aprender português nos outros países do Mercosul. A foto abaixo é uma prova disso.

Oferta de emprego numa loja de roupa infantil
no centro de Buenos Aires (dezembro de 2009)

De 19 a 22 de outubro decorreu em Foz do Iguaçu o I Congresso Internacional de Professores de Língua Oficiais do Mercosul (CIPLOM), onde todas estas questões foram discutidas em termos de integração regional, sem mistificações nem delírios neo-imperialistas.

PGL: O português é a vantagem competitiva da Galiza em termos linguísticos. Como se poderia implementar?

XL: Essa vantagem que temos os galegos, a possibilidade de participarmos da órbita linguística portuguesa, é sem dúvida uma oportunidade que seria simplesmente absurdo desaproveitar. E a Galiza vive nesse absurdo. Penso que é importante explicar e divulgar essa possibilidade, e observo com satisfação que essa está sendo uma das linhas de atuação da AGAL. Do meu ponto de vista, agrupações, instituições privadas e pessoas particulares podem vir a criar um novo estado de opinião que propicie a adopção de autênticas políticas públicas de abertura ao português. Pelo menos, para serem aplicadas quando consigamos ter um governo que acredite neste país, o que não sei se acontecerá tão cedo.

Considero estrategicamente adequado reivindicar medidas concretas que possam provocar acordos imediatos entre todos os setores que trabalham pelo galego: incluir a disciplina de português como segunda língua nos currículos escolares e, concomitantemente, incluir a diversidade galego-portuguesa nos programas das disciplinas de língua e literatura galegas; veicular produtos audiovisuais em português na TVG; liberar e promover o mercado de livros em português; elaborar convênios para fomentar o intercâmbio de estudantes e professores universitários com Portugal e o Brasil em todas as áreas de conhecimento; implementar programas específicos de intercâmbio escolar com Portugal, por exemplo, fazendo valer no âmbito educativo e cultural a existência da euro-região.

Seria desejável manter certa unidade de ação em questões estratégicas básicas, mesmo respeitando as diferenças na concepção de língua. Reconheço que, se na situação atual é difícil levar adiante o programa que acabo de expor, isto último parece ficção científica... Se a mim parece possível talvez seja pelo meu desejo de superar a disputa normativa nos termos em que ela se coloca (tal e como a herdamos os da minha geração, que chegamos ao jogo quando as cartas já foram dadas), e porque agora sou um professor brasileiro, e estou por isso numa situação também marginal, sem disputar espaços de poder na Galiza. De qualquer modo, eu conseguiria ver alguma luz no final do túnel se todos os setores que defendem o galego se comprometessem com um programa dessas características, que alivie o peso identitário na concepção do galego e privilegie o discurso da comunicação num mundo em que as especificidades locais têm, cada vez mais, a oportunidade de agir globalmente. É nessa perspectiva que eu trabalho.

PGL: Que temos a ganhar com o nosso enquadramento na Lusofonia?

XL: Pensando até na aceptabilidade social da proposta, eu substituiria o termo “enquadramento” por alguma coisa assim como “participação”, que remete a uma atividade livremente escolhida e exercida. Se é para ser enquadrado, “eu tô fora”, para dizê-lo na mais apurada gíria carioca, ou ainda de forma mais barroca, “me inclui fora dessa”...

A nossa participação no espaço comunicativo lusófono pode acontecer de diversas maneiras, mas importa sobretudo que os cidadãos galegos possamos usufruir dessa possibilidade que, com o galego na ponta da língua, temos ao alcance da mão. Não quero por-me como exemplo de nada, mas se eu consegui uma vaga de professor de linguística histórica na Universidade de São Paulo, mediante concurso público, foi por ter pesquisado a história do galego ao longo dos meus estudos de pós-graduação. Isto é, aprofundar na minha própria língua, que para alguns é uma particularidade de valor apenas etnográfico, abriu-me as portas da mais importante Universidade do Cone Sul americano. Não quero dizer que devamos participar na Lusofonia para podermos emigrar, apenas ilustrar com a minha experiência que essa conexão existe e que pode ser explorada de formas muito diversas.

O importante é que a abertura ao português permita aumentar o nível de bem-estar dos galegos, como dizia Elias Torres numa entrevista que saiu no PGL há pouco tempo, e contribua para melhorar a nossa auto-estima. Se quisermos falar em termos de direitos linguísticos, superando a concepção liberal individualista, eu diria simplesmente que os galego-falantes, pelo fato de sê-lo, temos direito ao português. E que devemos trabalhar politicamente para podermos exercer, como coletivo, esse direito.

PGL: A reforma do estatuto está na agenda dos partidos políticos. Como se poderia concretizar os temas que estamos a tratar na redação de um novo estatuto?

XL:Talvez uma menção explícita a esse “galego exterior” que conhecemos como português, e à especial relação linguística e cultural com os países que o têm como língua oficial, poderia dar cobertura jurídica às políticas que comentava anteriormente. A dimensão simbólica de uma referência ao português num novo estatuto de autonomia também não pode ser negligenciada. Pudemos comprovar que a noção de “língua própria” teve importância na construção de um imaginário sobre o galego, compartilhado mesmo por muitos falantes de espanhol. Nesse sentido, afirmar que a nossa “língua própria”, no contexto jurídico espanhol, é “comum” a outros países deveria ter um efeito social notável.

Também acho que seria importante prever a criação de um órgão institucional dedicado exclusivamente, ou pelo menos preferencialmente, à relação política, e à colaboração linguística e cultural, com os países de língua portuguesa. Moro no Brasil há quase dez anos e acompanho a política galega só pela internet, mas não me parece que estas questões ocupem um espaço relevante nas propostas dos partidos políticos galegos, de maneira que ainda temos muito trabalho pela frente.

A fronteira política tem evidentes consequências ecolinguísticas, pois orienta as falas em direção aos respectivos centros normativos e influi poderosamente nos imaginários que servem de base à construção de identidades linguísticas. Bourdieu dizia que a fronteira tanto produz a diferença cultural quanto é por ela produzida. E dizia também, em relação com isso, que a ação do sistema escolar sobre a língua mostrava que a vontade política pode desfazer o que a história tinha feito.

É preciso também compreender que a fronteira nem sempre foi como a conhecemos hoje. Do meu ponto de vista, há na historiografia linguística, tanto galega como portuguesa, uma mistificação da incidência histórica da fronteira sobre as falas de ambos os lados do Minho. Podemos imaginar que a influência real dos construtos normativos sobre as práticas linguísticas da imensa maioria da população tenha acontecido de forma maciça muito recentemente, só após a construção dos Estados-Nação modernos, com a universalização do ensino obrigatório e a difusão dos meios de comunicação de massa. Antes disso, a variação linguística presente nos territórios galegos e portugueses devia responder a variáveis sociais outras, que não excluem, é claro, a variação geográfica.  

Por outro lado, a fronteira é também um lugar de trânsito, em que a presença do outro obriga a uma permanente redefinição, a um diálogo constante, impedindo que as identidades se fixem de uma vez e para sempre, o que considero muito positivo. Talvez, no nosso caso, ao invés de ficarmos reclamando eternamente das evidentes consequências históricas surgidas da fronteira que nos separa de Portugal (tentando recriar miticamente uma união política que nunca existiu), resultasse interessante e enriquecedor alargarmos essa fronteira, evitando vê-la como limite, e convertermos Galiza inteira em lugar de trânsito, numa territorialidade complexa capaz de acolher e de reconhecer em si o que está fora dela. Pelo menos, eu, que sou avesso a qualquer forma de purismo, não vejo nada ruim nessa condição fronteiriça. Muito pelo contrário.