M. J. Marmelo, o repórter fecundo

"Sentimentalmente, a Galiza é uma entidade da qual me sinto muito próximo, mas este tem sido, de algum modo, um amor adiado"

Segunda, 22 Novembro 2010 00:00

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PGL - Igual que fizeram na passada semana Raquel Ochoa e Francisco José Viegas, Manuel Jorge Marmelo estará durante esta semana na Galiza, convidado pelo Instituto Camões. O autor apresentará a sua obra em Lugo, Vigo e Vila Garcia de Arouça os dias 22, 23 e 24, respetivamente.

A seguir reproduzimos com exatidão os lugares e horas em que o autor português apresentará a sua obra no nosso país:

Jorge Marmelo
  • segunda-feira, dia 22 - Escola Oficial de Idiomas de Lugo, às 19h
  • terça-feira, dia 23 - Escola Oficial de Idiomas de Vigo, às 20h
  • quarta-feira, dia 24 - Escola Oficial de Idiomas de Vila Garcia de Arouça, às 19h30

Para fazermos boca, resgatamos na íntegra a entrevista que Marmelo concedeu em 2006 ao então diretor da Revista Agália, o escritor Carlos Quiroga. A entrevista fora publicada no nº 87/88 dessa revista de ciências sociais e humanidades editada pela AGAL.

Carlos Quiroga - Manuel Jorge Marmelo (Porto,1971), jornalista desde 1989, escritor desde quase sempre. Arrancou, em 1996, com O homem que julgou morrer de amor/O casal virtual, a uma velocidade de cruzeiro de, pelo menos, um livro por ano.

A sua continuidade na escrita tem deixado livros memoráveis: de 97, Portugués, guapo y matador, objecto também de adaptação teatral; de 98, Nome de tango; 99, As mulheres deviam vir com livro de instruções, já em nona edição; 2000, O Amor é para os Parvos, já três reedições; 2001, Sertão Dourado; 2002, Paixões & Embirrações, colectânea de crónicas e reportagens, em segunda edição; 2003, Oito Cidades e Uma Carta de Amor, livro de contos com fotografias citadinas; 2004, Os Fantasmas de Pessoa; e O Silêncio de um Homem Só, colectânea de quinze contos que recebeu o Prémio Camilo Castelo Branco...

Para além de estar editado noutras línguas e ter presença em colectâneas e antologias, como A cidade sonhada (96); Porto. Ficção; Putas – Antologia do Novo Conto Português e Brasileiro; Porto, Fragment de Vie; Doze Contos com Livros Dentro, etc. Para além de incursões no livro infantil, para além de ter obras frescas (Porto: Orgulho e Ressentimento, e o guia Porto Irrepetível)... Para além de tudo, a Campo das Letras reedita agora o livro da sua estreia, O Homem que Julgou Morrer de Amor, que serve de desculpa a esta conversa.

(Carlos Quiroga) – Transcorridos dez anos, apresentas de novo O homem que julgou morrer de amor, texto revisto. Quem aprecia a obra original recomendará esta –recomendo vivamente! Mas o público gostará de saber se há mudanças substanciais agora.

(Manuel Jorge Marmelo) – Sim, há mudanças muito substânciais. O fio narrativo da novela original foi mantido, mas a abordagem da história mudou muito, essencialmente ao nível da forma. Onze anos depois, eu escrevo de maneira diferente e teria sido muito difícil optar por uma revisão apenas pontual sem que, de algum modo, não acabasse por renegar o que ali estava ou, pelo menos, não me revisse, enquanto escritor, nesta reedição. Daí que tenha optado por abordar o livro como se estivesse a escrevê-lo pela primeira vez, com total liberdade para mudar tudo, se fosse esse o caso. Não mudou tudo, claro. Mas mudou muita coisa.

(CQ) –Então vale a pena ter, inclusive, as duas versões?

(MJM) –Para quem se interesse por estas coisas, por estudar estas coisas, creio que será interessante comparar as duas versões. Para o leitor comum, uma das edições é suficiente. Apenas espero que a segunda versão tenha justificado o trabalho e esteja, de facto, melhor conseguida do que a primeira.

(CQ) –O que chamou especialmente a tua atenção para o interlocutor de Sócrates, na hora de lançar-te a escrever o livro, a sua história com Helena ou também a atitude ética da personagem clássica?

(MJM) –Na altura foi apenas o facto de estar a estudar filosofia clássica e me ter parecido que seria interessante criar uma história que partisse de um conjunto de personagens (e circunstâncias) mais ou menos históricas, mas cujas biografias são de tal modo imprecisas que abrem facilmente caminho à especulação e à ficção.

(CQ) –A fórmula de misturar a Antiguidade, neste caso a dos filósofos Clássicos, com personagens e acontecimentos ficcionais, para contar a história de amor, dá um magnífico resultado. Talvez se podia aguardar uma carreira literária mais voltada para o género histórico, que tão altos exemplos deu em Portugal, mas não foi assim.

(MJM) –Não. Nem sei bem se se deve aguardar de mim uma “carreira literária” voltada para algum tipo de género. Ainda estou, de algum modo, à procura de mim mesmo enquanto entidade literária. Ainda estou a aprender, ainda acho que é possível fazer melhor e fazer diferente. Nada do que fiz até aqui me satisfaz, mas também não sei se chegarei algum dia a um resultado satisfatório.

(CQ) –Guarda-se uma estima especial pelo primeiro livro publicado?

(MJM) – Guarda, claro. Mas é uma estima que, às vezes, se confunde facilmente com algum constrangimento. Pode ser penoso, alguns anos depois, voltar a ler esse primeiro livro e constatar como se era inexperiente, imaturo, inocente.

(CQ) –O amor e a cidade do Porto, ainda que não de modo exclusivo, são assuntos centrais na tua obra? A distância no tratamento do amor é só aparente ou realmente O Amor é Para os Parvos?

(MJM) – Esses dois temas surgem, é verdade, com alguma insistência nos meus livros. Mas não sei se essa não será uma visão demasiado redutora. O amor e o sítio em que nascemos e moramos fazem parte de uma coisa maior que é a vida. E creio que, em última análise, toda a literatura é sobre a vida, é uma espécie de inquirição e investigação. Há um momento em que, sobre um fenómeno específico, como o amor, se pode concluir isto e aquilo, mas essa conclusão não deixa nunca de ser parcelar, momentânea. No caso de “O Amor é para os Parvos”, o livro acab por desmentir o próprio título.

(CQ) –A propósito do Porto, o teu nome já está, desde Julho de 2001, no Dicionário de Personalidades Portuenses do Século XX, como o mais jovem lá biografado. Sentes-te profeta na tua terra?

(MJM) – Nem na minha terra, nem em nenhuma outra. Não faz parte do plano ser profeta. Apenas quero fazer algo de que gosto, escrever, e poder fazê-lo sem constrangimentos de nenhuma espécie, sem ter que pensar se este livro é a continuação de uma “carreira literária”, ou se vai vender, ou… Espero apenas que as pessoas leiam e, se possível, que gostem, sejam lá de onde forem. E a minha terra, convenhamos, já conheceu melhores dias.

(CQ) –Aludindo brevemente ao teu bom manejo dos recursos da língua, tens consciência de haver alcançado um registro estilístico próprio? Estará no pendor lúdico, no humor subtil e subterrâneo, uma marca dele?

(MJM) – Digamos que espero tê-lo conseguido, pelo menos em alguma medida, mas não tenho a certeza de já lá ter chegado. Creio que ninguém minimamente sério tem por objectivo imitar outros e que o objectivo é sempre esse, criar um registo próprio. Mas é sempre possível fazer comparações, encontrar semelhanças e eu sei lá mais o quê. Chegar ao ponto de poder dizer “eu escrevo assim e este é o meu estilo” é não só arriscado, como exige muito esforço, é algo que se consegue pela perseverança, sendo capaz de ir publicando e afirmando, aos poucos, esse tal estilo.

(CQ) –O pendor lúdico está patente nos títulos de alguns livros. Creio ter conhecido isso (via Onésimo de Almeida, por certo, uma das maiores autoridades teóricas e práticas nos segredos do humor) como uma divisa inteligente a preceder o chamado à leitura dos teus livros. Imagino que terá acontecido igual com o amplo leque de leitores que as tuas obras ganharam. Até que ponto é importante e premeditado o assunto dos títulos para ti? Há uma intenção comercial neles?

(MJM) – Não, a intenção nunca foi comercial, pelo menos nesse sentido estrito e mercantilista. Um pouco à imagem do que sucede no jornalismo, os títulos servem, ou podem servir, para chamar a atenção dos leitores. Quando se está no meio de centenas, milhares de livros, entre escritores que admiramos, perdidos nessa multidão de capas e lombadas, o título pode ser uma forma de levantarmos a mão e de fazer com que o leitor repare na nossa existência.

(CQ) –O título Portugués, guapo y matador, creio que não levantou comentários em Portugal por causa do castelhano. Já não se teme o mau vento da Espanha? No teu caso particular, encaras ser publicado na Espanha e na América de fala castelhana como uma grande conquista?

(MJM) – Creio que, neste momento histórico, a Espanha é um vizinho pacífico e bem aceite entre os portugueses. As rivalidades estão mais ou menos saradas, há até alguma admiração dos portugueses relativamente ao que Espanha tem feito nos últimos anos e quase ninguém se incomoda que o país vá sendo comprado por empresas espanholas. Neste momento, tudo isto está muito bem. Mas a história é o que é e nunca se sabe o que vem a seguir.

Quanto à publicação em castelhano, claro que sim. Trata-se de uma língua e de um imaginário literário do qual eu me sinto muito próximo. Cada leitor que se ganha é uma grande conquista, seja em Portugal, em Espanha ou na Arábia Saudita.

(CQ) –Os Olhos do Homem que Chorava no Rio apresenta uma unidade sólida em volta do tipógrafo brasileiro, mas há uma prosa poética diferente à de outros livros e quase desaparece o enredo. Se a ideia foi do brasileiro Paulinho Assunção, e se o trabalho foi realizado conjuntamente com a angolana Ana Paula Tavares, procede daí o diferencial estilístico? Tu aportas a discursividade e Ana Paula o subjectivismo –ou a lírica só vem do Douro?

(MJM) – Não sei. O livro simplesmente aconteceu assim, sem que nada tenha sido combinado ou pré-estabelecido. Fomo-lo escrevendo sem pensar, sequer, se aquilo ia mesmo ser um livro. No fim, estava feito, tinha acontecido. Sim, a minha prosa aí aparece mais poética (como aparece também, por exemplo, no “Porto: orgulho e ressentimento”), mas, se calhar, isso é apenas parte da tal busca que eu, enquanto escritor, sinto necessidade de fazer. Foi uma forma de ampliar os meus limites, de tornar a minha literatura maior — e creio que não apenas no tratamento da língua.

(CQ) –Existia alguma intencionalidade simbólica nesta triangulação? As literaturas de expressão portuguesa podem dialogar com proveito?

(MJM) – Podem e devem. Mas não houve, à partida, nenhum intencionlidade. Apenas se conjugaram vários factores, várias coincidências e até alguns mal-entendidos e, de tudo isto, acabou por resultar algo que me parece feliz.

(CQ) –Com o Paulinho Assunção chegaste a abrir Bar Aldebarã, um bar-blogue entre Belo Horizonte e o Porto, e há uma página pessoal e um Blogue a teu nome (http://marmelo.blogspot.com). Estás muito pendente das novas tecnologias? Existe algum outro projecto ligado à escrita e desta natureza no horizonte próximo?

(MJM) – Não estou dependente, nem muito nem pouco. Digamos que os blogues proporcionam um disciplina de escrita que, muitas vezes, não se consegue manter de outro modo. Esse ritmo diário acaba por constituir uma espécie de treino, de balão de ensaio, se quiseres, para a literatura que se pode vir a fazer. Aguça-se o manejo da língua, mas, sobretudo, levantam-se questões e abrem-se perspectivas que, havendo tempo, podem ser exploradas de outra forma e mais consistentemente. Dito isto, não, não tenho mais nenhum projecto nesta área. Aquilo em que me fui envolvendo já é mais do que suficiente para o pouco tempo de que disponho e começa até a ser contraproducente.

(CQ) –Voltando ao papel, em Os fantasmas de Pessoa há uma revisitação ao grande totem moderno das letras portuguesas, e até recuperas o seu inspector Quaresma. Concordas com o parecer pessoano de não haver nada melhor no mundo do que um café, um cigarro e um bom policial?

(MJM) – Bem… Sendo consumidor de café, fumador e leitor de policiais, eu acrescentaria sempre um bom copo de vinho, uma boa conversa e uma mulher bonita à lista.

(CQ) –Essa tua história é mais ou menos policial, mas ligas a biografia pessoana com temas de actualidade, como os assassínios em série ou as teorias ocultistas. Era inevitável ou aparece aí o jornalista que também levas dentro na ajuda do narrador?

(MJM) – O jornalista tem pouco a ver com isto. O que aconteceu foi que o desafio que a Asa me lançou para escrever um livro para esta colecção, partindo da personagem Fernando Pessoa, era, ao mesmo tempo, empolgante e assustador, até porque o Pessoa hisórico está sobejamente explorado e, mesmo literariamente, já o José Saramago e o Antonio Tabucchi, por exemplo, tinham feito algo semelhante. Pareceu-me que esta abordagem mais contemporânea seria uma forma de evitar eventuais comparações, conseguindo, do mesmo passo, um margem de liberdade ficcional que de outro modo não teria. E, sim, claro, isto permitiu-me também abordar temas actuais, que me interessam enquanto escritor e enquanto cidadão.

(CQ) –Recebeste em 1994 o prémio de jornalismo da Lufthansa e em 1996 a menção honrosa dos Prémios Gazeta de Jornalismo do Clube de Jornalismo. Que lugar ocupa o jornalismo na tua vida? É só uma profissão alimentar? Foi a escola da escrita?

(MJM) – Foi uma escola, claro. A prática diária da escrita que o jornalismo possibilita (e obriga) permitiu que a minha relação com a língua se apurasse, que fosse capaz de manejar essa ferramenta com maior à-vontade. De outro modo, creio que não me teria sido possível publicar o primeiro livro com 24 anos. Por outro lado, também a minha relação com o mundo se aprofundou, não só pela obrigação de estar atento à actualidade, mas também pelas viagens que pude fazer enquanto jornalista e pela abertura de horizontes que daí decorreu. Nesse sentido sim, o jornalismo faz parte desta história.

(CQ) –Retornando às parcerias, agora familiares, aparece em 2003, A Menina Gigante, com a tua filha Maria, e no ano passado, O Peixe Baltazar, com o teu filho Jorge Afonso. Com qual deles se escreve melhor? O Jorge Afonso continua a achar chata a poesia?

(MJM) – O processo foi muito semelhante com ambos. Foi mais uma experiência, talvez até mais familiar do que literária, e creio que o resultado final é satisfatório.

(CQ) –Para fechar o círculo voltando ao princípio, e quanto à reedição do teu primeiro livro, pode haver mais reescritas dos que seguiram nestes anos? Há algum título que gostarias de tocar de novo?

(MJM) – Não. A experiência de reescrever o primeiro livro foi, de algum modo, gratificante, mas é esquisito (e até um pouco confuso, até para mim, escritor) ter um livro que, na verdade, são dois, que têm duas versões tão diferentes. Não creio que seja uma experiência a ser repetida.

(CQ) –Em todo o caso, pode-se pensar numa segunda etapa na tua carreira de escritor, se não a madura e de reescrita talvez a de menor urgência na publicação? Vai aminorar o teu prolífero ritmo de produção?

(MJM) – Não sei responder a isso. A urgência da publicação, como lhe chamas, tem tido a ver com o ritmo de escrita e com a minha própria relação com esse trabalho. Olhando para trás, hoje, é para mim bastante claro que não teria havido nenhum mal se alguns dos livros que publiquei tivessem ficado na gaveta, a amadurecerem. Mas, na altura, pareceu-me que o certo era publicá-los, livrar-me deles. Fiz e está feito. Daqui para a frente não sei se o ritmo de produção se manterá, como não sei até que ponto mudará a minha relação com o que escrevo, se me tornarei mais exigente comigo mesmo ou se isto implicará maiores compassos de espera entre a escrita e a publicação. Sinceramente, não sei. O que espero é que aquilo que venha a sair no futuro seja melhor do que aquilo que está publicado até agora. Será sinal de que consegui evoluir e melhorar enquanto escritor e, creio, enquanto ser humano.

(CQ) –Finalmente, estás a par do que acontece acima do Minho? Conservas contacto com pessoas? Achas que existe uma cumplicidade possível, no espaço imaginário daquilo que o Rui Reininho cantava, "É a pronúncia do Norte", agora que não existe alfândega e estamos mais perto do que Lisboa...?

(MJM) – Tento manter-me a par e conservar os contactos (e sobretudo os amigos) que vou fazendo, sim. Mas não creio que tenha sido muito eficaz e nem vale a pena tentar arranjar justificações como a falta de tempo ou a escassa divulgação em Portugal daquilo que se faz na Galiza. Sentimentalmente, a Galiza é uma entidade da qual me sinto muito próximo, mas este tem sido, de algum modo, um amor adiado.

Muito obrigado, Jorge.