Paulo Soriano: "O vigoroso elemento comum que há entre o Brasil e a Galiza – a língua – é, também, o maior instrumento de que dispomos para a aproximação de ambas as nações"

«Uma coisa que me deixa extremamente feliz é conversar pessoalmente com galegos. Eu falando 'brasileiro'; o amigo falando 'galego'. E todo mundo se entendendo perfeitamente, justamente porque todo mundo está falando português»

Terça, 18 Janeiro 2011 00:00

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Paulo Soriano é contista amador e mantém na internet o sítio Contos Grotescos

Valentim R. Fagim - A editora galega Edizer vem de editar um volume de contos baixo o título Mestres do Terror. O que tem de invulgar esta edição é que nasce da cooperação entre uma empresa galega e um parceiro brasileiro. No PGL quisemos entrevistar o advogado baiano Paulo Soriano, que com este empreendimento vem a dar mais uma mostra do seu amor pola Galiza e a língua que nos une.

Paulo Soriano é o gestor do site Contos Grotescos. Quando começou a sua paixão por este género?

Nasci em Itabuna, estado da Bahia, na Região Cacaueira. Morávamos numa casa de dois quartos - os outros dois só vieram depois - a umas poucas centenas de metros do Rio Cachoeira. Éramos uma família grande – meus pais e oito filhos. A então jovem e ousada Itabuna já era o centro comercial da região, e o seu núcleo urbano rivalizava com o de Ilhéus, esta última uma cidade bela, altiva, secular....

Vivíamos cercados pela Mata Atlântica: o bom do cacau é que ele, ao invés de muitas outras culturas, não devasta nada. O cacau gosta de sombra e de chuva abundante, por isso a mata e o caudal dos rios são preservados. E onde há homem do campo, em sintonia com as florestas, há lendas ancestrais e deliciosas assombrações. Meu primeiro contato com o fantástico veio daí: das narrativas orais. Havia a Mãe D´água no fundo das cacimbas; as almas penadas que habitavam os cemitérios desolados; a arruinada casa mal-assombrada emergindo numa curva da estrada que conduz a Ilhéus; a Caipora de espreita no cerne matas, exigindo cachaça e fumo de rolo dos que se perdiam naquele universo de mata exuberante e traiçoeira.

Depois vieram os filmes de terror. É claro que, nos cinemas, os filmes de horror eram proibidos para menores. Mas, tarde da noite, passavam-se filmes de horror na televisão. Foi aí que, ainda guri – ou seja, pirralho –, driblei a vigilância de Dona Elisabeth – minha mãe – e mergulhei no universo espetacular protagonizado por Béla Lugosi, Claude Rains, Peter Lorre, Peter Cushing, Vincent Price, Christofer Lee... Bons tempos aqueles dos filmes “B” da Hammer...

Em sequência, vieram as histórias de quadrinhos de terror, mas eu não podia comprá-las nas bancas por causa da idade. Mesmo assim, consegui algumas, de segunda mão, às escondidas... E as guardava como um tesouro.

Mais tarde, quando eu era adolescente, meu pai, sabendo que eu era fã do gênero, me chegou com as “Histórias Extraordinárias” de Allan Pöe. Foi amor à primeira vista... ou melhor, à primeira leitura.

Mas não foi fácil seguir em frente. Traduzia-se muito pouco no Brasil e a literatura sombria nacional se restringia aos quadrinhos e a uns poucos autores de livros polpa, sempre e injustamente marginalizados.

Qual a saúde da narrativa do terror no Brasil?

A de um adolescente... Um adolescente vigoroso, inquieto, insolente, sonhador, indeciso...

Todos sabem que somos um país jovem. Precisamos tanto de gênios quanto de heróis. Precisamos de um Machado de Assis para que o mundo saiba que sabemos escrever tão bem quanto Flaubert ou Hugo. Isto é uma questão de honra. Mas, nesta busca insana de grandiloquência e autoafirmação, de sublime elevação intelectual, terminamos por nutrir enorme preconceito por gêneros considerados de segunda classe. Mas, olvida-se que o horror, o fantástico e o grotesco estão presentes em Homero, Petrônio, Boccaccio, Dante, Da Vinci, Claesz, Arcimboldo, Shakespeare, Goya, Blake, Swendenborg, Fuselli, Hoffmann, Balzac, Bosch, Hugo, Machado, Maupassant, Dickens, Stevenson, Pöe, Deföe, Shelley & Shelley, L’Isle Adam, Andersen, Goethe, Newton, Mérimée, Listz, Bierce, Baudelaire, Gautier, Berlioz, Lang, Wiene, Clark, Boito, Dalí, Darío, Brauner, Quiroga, Eça, Kippling, Magritte, Wilde, Munch, Cortázar, Hawthorne, Conan Doyle, Murnau, Lovecraft, Kubrick, Coppola, Bradburry, Borges e em tantos outros espíritos elevados. E, mesmo, em alguns não poucos inspirados redatores da Bíblia.

Mas, apesar dos pesares, publica-se muito mais no Brasil. Traduz-se mais. Novas editoras, de mentes arejadas – como a Devir, a Aleph, a Andross e a Draco, dentre outras –, acreditam no potencial de autores. Temos autores excelentes, muitos dos quais modelam a vida em razão do impulso à literatura fantástica brasileira. Sei que citar nomes seria uma grande ingratidão com muitos outros. Mas não poderia deixar de me referir a escritores fantásticos, pertinazes, talentosos, como Roberto de Sousa Causo, Miguel Carqueija, R. F. Lucchetti, Jorge Luiz Calife e Bráulio Tavares.

E há, também, a internet, esta grande revolução. Há sítios belíssimos, como Contos Fantásticos de Afonso Luís Pereira; Arquivo do Barreto, de Luciano Barreto; Sombrias Escrituras, do Sr. Arcano; Arquivo, de Renato Suttana, dentre muitos outros, igualmente dignos de menção. Aliás, a internet tem revelado autores de grande talento, como Giulia Moon e Henry Evaristo. Poderia citar outros nomes; não o faço porque muitos deles são meus amigos e eu não quero cometer o pecado de olvidar alguém que mereça ser sempre lembrado...

Mas, houve, em contrapartida, uma involução: já não se veem nas livrarias os deliciosos livros de bolso portugueses. Não há mais as coleções Pêndulo e Vampiro... Por aqui ninguém lê mais Ross Pynn.

Como nasceu esta colaboração com Edizer e como decorreu?

O nosso sítio, vez por outra, publica clássicos da literatura fantástica. Para tanto, conta o sítio com a gentil colaboração de vários tradutores, sendo os mais frequentes Renato Suttana e Rogério Silvério de Farias. De minha feita, traduzo algumas narrativas e as ofereço a amigos que também publicam na net, a exemplo de Luciano Barreto e Roberto de Sousa Causo. Surgiu-me, assim, a ideia de elaborar uma coletânea reunindo grande mestres da literatura de horror, inclusive brasileiros. Mas seria uma obra voltada ao leitor galego, especialmente àquele amante do gênero fantástico. Talvez uma forma de familiarizar o leitor galego à recente ortografia unificada da língua portuguesa. Ou de tornar mais conhecidos na Galiza excelentes autores latino-americanos.

Dos amigos tradutores, obtive presta adesão ao projeto, que então nascia: uma breve coletânea, composta de narrativas de horror escritas em português, ou ao português vertidas por escritores brasileiros, na qual se vislumbram autores portentosos, internacionalmente conhecidos (Allan Pöe, Bierce, Maupassant e Lovecraft) e mestres latino-americanos, cujas obras de temática fantástica, em prosa, não são tão divulgadas na Europa (ou mesmo no Brasil) quanto deveriam ser, a exemplo de Aluísio de Azevedo, Darío, Quiroga, Humberto de Campos e Thomaz Lopes.

A Valentim Fagim revelei a ideia e pedi-lhe ajuda na realização. Prontamente, Valentim entrou em contato com o pessoal da Edizer. Anteriormente, eu havia sido apresentado, pelo mesmo amigo Valentim, aos editores, e estes, já naquela ocasião, haviam acenado a uma possibilidade de parceria.

Pois bem, o pessoal da Edizer acolheu o meu projeto com imensa simpatia e enorme entusiasmo. Nascia, assim, a parceria. Em julho, enviei os originais, que foram afavelmente recebidos; depois, trabalhamos eu e Rodrigo Vizcaíno, conjuntamente, na revisão; já em novembro, o livro estava pronto. Não há palavras que traduzam a minha gratidão ao professor Valentim Fagim, aos editores Thomaz González Ahola e Rodrigo Vizcaíno e, também, aos colegas tradutores, por esta imperdível oportunidade de tornar um pouco mais estreito o liame que cinge as nossas nações.

Contos grotescos organiza um concurso anual de contos de terror visando o espaço lusófono. Houve já alguma participação galega?

A ideia original era bem esta: organizar um concurso anualmente, aberto a todas as nações lusófonas. Em 2010, porém, não foi possível realizar certame. Pesou-me enormemente a perda prematura de Henry Evaristo, escritor de talento assombroso - um dos julgadores do concurso -, em fevereiro do ano que passou. Mas tenho planos de lançar um novo edital em meados de 2011.

No concurso de 2009, cujo primeiro lugar coube a um jovem escritor lusitano, o talentoso Miguel Luís Santos Vieira, não houve participação de galegos, infelizmente. Mas torço para que tenhamos colaborações galegas no segundo e nos demais certames. Aliás, com o incentivo de amigos e de associações como a AGAL e o ICBG- Instituto Cultural Brasil-Galiza, a tendência é bem esta.

Paulo Soriano, de pé à direita, com a sua turma

Os nossos leitores e leitoras não sabem que Paulo Soriano tem um enorme interesse pola Galiza e a nossa variante linguística. Quando é que nasceu esta curiosidade?

Tudo começou de uma forma inusitada. Na década de noventa, eu frequentava um bar-restaurante, de pertença do Sr. Basílio, um veterano galego, situado no centro da cidade. Certo dia – um dia inesquecível –, estava eu sentado ao balcão, bebericando uma cervejinha, em companhia do velho amigo Lúcido Brandão, quando me deparei com um exemplar de um jornal galego que, por acaso, estava ali, quase a tanger a minha mão. Bem, eu já havia lido a respeito do “íntimo parentesco” entre o galego e o português e morria de curiosidade pelo assunto. Todavia, nunca encontrara um texto escrito em galego “moderno.” O jornal, no formato tabloide, era quase todo escrito em espanhol. Mas, no final da última página, havia uma crônica escrita em galego. Galego?

Aquilo para mim era português, apesar da estranha ortografia castelhanizada. Português legítimo, belo e clássico em sua estrutura. A descoberta de que o galego e o português eram a mesma língua, a despeito da dicotomia proclamada nos velhos livros didáticos, e das ortografias distintas, eu fiz sozinho, instantaneamente. E a confirmei, após obter, com grandes dificuldades, outros textos escritos em galego – lembrem-se: nessa época não existia internet.

Meu interesse pela Galiza e pelo galego cresceu exponencialmente. Com o advento da internet, minha curiosidade pôde ser, em grande parte, saciada. Conheci o PGL, fiz ótimas amizades. E meu leque de amizade continua a se ampliar. Já recebi visitas, em Salvador, de galegos que se tornaram meus grandes amigos. De cá seguem abraços a Joseph Ghanime e José Ribeira. Uma coisa que me deixa extremamente feliz é conversar pessoalmente com galegos. Eu falando “brasileiro”; o amigo falando “galego”. E todo mundo se entendendo perfeitamente, justamente porque todo mundo está falando português. Dar-se-ia o mesmo se um dos interlocutores falasse “lusitano”.

Que sabe o cidadão médio do Brasil? Como se poderia incentivar esse conhecimento?

Muito pouco se sabe sobre a Galiza e sua língua no Brasil. Mesmo em Salvador, que abriga a maior colônia galega no Brasil, pouco se sabe sobre a terra de Rosália de Castro. Os galegos, cá, são apenas espanhóis, assim como são espanhóis os catalães e os bascos. Não se tem uma noção de que o Reino de Espanha abriga línguas e nações muito distintas, cada qual com a sua cultura e o seu sentimento de nacionalidade. Para o brasileiro médio, a Espanha é apenas touradas e belas morenas a dançar freneticamente o flamenco. Por cá, não se imagina que na Galiza se fala português. E, muito menos, que a língua que cá falamos foi gestada e partejada na Galiza.

O vigoroso elemento comum que há entre o Brasil e a Galiza – a língua – é, também, o maior instrumento de que dispomos para a aproximação de ambas as nações. Daí a importância, neste cenário, de instituições como a AGAL, a AGLP e o ICGB. Mister, também, que as Universidades interajam. Seria importante, ademais, que houvesse maior intercâmbio entre editores brasileiros e galegos. E entre autores, também. Todavia, em que pese à identidade linguística das nações, a ortografia oficial, castelhanizada, da RAG-ILG – que, a meu ver, caminha na contramão da História - é um empecilho considerável, e precisa ser superado.

Que tem o Brasil a oferecer à Galiza? Que tem a Galiza a oferecer ao Brasil?

Não se pode negar que o Brasil é um país emergente, com forte projeção internacional. De sua feita, a Galiza é um país culturalmente imenso: só o fato de ser o berço da língua portuguesa a dignifica e a põe em pé de igualdade com países como a Itália, a França e a Romênia – e aqui cito somente nações neolatinas. Mas a Galiza leva uma grande vantagem: possui uma língua internacional das mais faladas do mundo – mais de 200 milhões de utentes –, abrangendo todos os continentes. O Brasil, como nação emergente, é essencial a este reconhecimento e à projeção da Galiza no cenário mundial.

De sua feita, o Brasil não pode conceber a sua identidade sem que, necessariamente, transite pela Galiza e por sua cultura: se Portugal é pai, a Galiza é avó. E mais: não sabem como perdem os brasileiros enquanto alijados da leitura de grandes escritores como Rosália, Castelao, Calero, Álvaro Cunqueiro, Mendes Ferrim, dentre tantos outros. Há muitos grandiosos tesouros na Galiza que poderemos descobrir e redescobrir.

Paulo Soriano resenhou o livro de Ubaldo Ribeiro, Viva o Povo Brasileiro. Por que uma pessoa interessada no Brasil deve ler este livro?

Porque ele é a cara do Brasil. Não há forma mais agradável de conhecer o Brasil que a leitura de Viva o Povo Brasileiro. João Ubaldo, com todo o seu bom-humor, sua fina ironia e sua mágica linguagem transporta o leitor ao corpo e à alma do Brasil. Quem lê o livro de João Ubaldo, percorrendo com ele todo o curso de nossa História, assimila o espírito de um povo que ainda constrói a própria identidade. Peço ao leitor que leia e verifique se não falo a verdade...

 

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