Iolanda Gomis: «A melhor maneira de reconhecer a diversidade é reafirmar a própria identidade»

Entrevistamos esta nova poetisa galega, ganhadora num concurso internacional promovido no Brasil

Sexta, 31 Outubro 2008 07:00

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Capa de 'Travessias'

Desenho que ilustrará a capa do livro 'Travessias'

PGL - A ferrolana Iolanda Gomis Parada (Ferrol, 1974) é sócia fundadora da cooperativa Tagen Ata, especializada em consultoria TIC e serviços lingüísticos que abrangem da traduçom à formaçom passando pola diagnose e elaboraçom de conteúdos para a web. Recentemente um poema seu, Galiza, Tu também és de Pedra, resultou seleccionado num concurso internacional promovido no Brasil e será publicado num livro colectivo de intitulado Travessias.

Como a própria Iolanda indica com modéstia, «nom tenho grande cousa publicada», o qual nom impediu a sua participaçom activa no livro colectivo Sempre Mar (publicado aquando a maré preta do Prestige) ou na revista Vozes da Casa (Concelho de Fene), além de poemas soltos nalgumha revista de Ferrol. Contudo, nada disto a desmotivou para participar na XXVI ediçom do Concurso Internacional que promove a editora Edições AG.

 
— Participaste no concurso com quatro criações. Como é que decidiste participar num concurso promovido desde o Brasil?

Sempre procuro projectos participativos e colaborativos nos quais ir aos Iolanda Gomis Paradapoucos para ir achegando algo mais ao conjunto da produçom literária. Procuro um diálogo que encontrei neste concurso, que topei na rede uns meses atrás. Achei que era outro tipo de concurso, mais colaborativo, através da rede com posterior publicaçom, e preparei quatro poemas para serem apresentados. Pensei, «podo escrever em português e procurar um outro tipo de iniciativas criativas, porque nom?». E qual foi a minha surpresa que num concurso internacional aparecesse em segundo lugar na categoria de poesia o meu poema. Sentim um reconforto enorme, foi como dizer, «nom estava louca, o que escrevo tem algum interesse, partilhando concurso a nível internacional o que digo chega, que bem!». Foi um reforço.

Creio que para estabelecer conexões com outros modelo sociais, temo-lo de fazer através da própria identidade, e para isto a rede, as iniciativas desta classe, som um sistema que permite levar adiante a interaçom. A melhor maneira de reconhecer a diversidade é reafirmar a própria identidade para poder valorizar as outras na sua justa medida.

— O poema está regidido segundo as normas do português europeu. Pensaste em redigi-lo na norma AGAL ou o adaptá-lo ao padrom brasileiro?

Quando decidim participar no concurso nom pensei nisto. Nom pensei em complexas opções de participaçom na nossa língua no mundo, nom examinei todas estas questões. Apenas analisei as oportunidades que temos como galegas e galegos de participar a nível criativo e pensei directamente em concursos internacionais inovadores e participativos em português. E encontrei isto.

 A minha ideia é a de impulsionar a identificaçom e comunicaçom de Galiza com todo mundo lusófono. A unidade linguística de galego e português está mais do que avalada pola ciência, a história, e os e as pensadoras comprometidos com o país ao longo dos tempos. Qualquer pessoa com certa informaçom e conhecimento sobre o tema sabe hoje isto... outra cousa é que nom se aplique na realidade.

A realidade, as sociedades, os processos sociais, a normalizaçom de um idioma som cousas muito mais complexas do que isto. Nom se pode centrar só na questom da normativa. Por exemplo, alguém repara na quantidade de anos que se precisárom para substituir o galego polo espanhol? Pois para iniciar e incentivar um processo em sentido inverso o trabalho é muito complicado. Temos de saber de muitas questões para restaurar um idioma, ter muitas pessoas especialistas trabalhando na sua normalizaçom.

— Aproximadamente quando sairá o livro colectivo no qual figura o teu poema, Travessias?

A editorial organizadora, edições Arnaldo Giraldo, AG, falam em que o livro deverá ser publicado no decorrer dos meses de Janeiro / Fevereiro de 2009 e está prevista a entrega aos autores e autoras em Maio.

— Como galega, como valorizas o facto de seres a única 'espanhola' a participar no concurso?

Pois a verdade eu nom tinha muita ideia de como funcionavam estes concursos internacionais. O certo é que das pessoas que aparecem classificadas nom há mais pessoas do Estado espanhol, mas sim há pessoas de Itália, Suíça, EUA, Argentina... A maioria das pessoas participantes som brasileiras, portuguesas, de Moçambique e do mundo lusófono em geral. Também reparei em que as pessoas argentinas escrevem em espanhol os seus poemas e nom sei se é um hábito de América do Sul nestes concursos. Eu, porém, quando lim as bases do concurso pensava que só podia ser apresentado em português.

Mas cumpre dizer que o mais interessante da experiência é mudar os esquemas preconcibidos que temos em ocasiões as pessoas. Acho que como galegas e galegos temos de procurar ideias para projectar a criaçom galega fora das nossas fronteiras, de dialogar com gentes de outras latitudes. E nós temos um instrumento muito bom para isto: a nossa língua. Nom sei qual deve ser a norma usada a nível internacional, nom reparei nisto. Eu apliquei o que tinha aprendido na faculdade de Filologia Portuguesa em Santiago de Compostela, nom encontrei tempo para pensá-lo mais.

— No poema há referências a Carlos Drummond de Andrade e Celso Emilio Ferreiro, dous vultos das literaturas brasileira e galega. A escolha foi intencionada em relaçom com este concurso ou nom estava pensado deste jeito? Qual foi o motivo da escolha? Partilhas algo com ambos?

 Quando preparei este poema e os outros três tinha muito clara a linha da criaçom. A intençom era a de comunicar a Galiza com a literatura de outras latitudes e outros tempos. A ideia era a de colocar a Galiza como protagonista da nossa própria existência, da existência dos galegos e das galegas, vozes no mundo que contam histórias tam importantes e lúzidas como as de muitas outras nações. De facto os outros três poemas têm presentes Rosalia, Witman, e Virginia Wolf.

Este segundo poema sim que era o que tinha mais presente a relaçom Galiza-Brasil, Brasil-Galiza. Celso Emílio colocou Drumond de Andrade na Galiza e agora voltamos Celso Emilio para Brasil. É apenas um diálogo, a comunicaçom, a vida.

— O poema, Galiza, tu Também és de Pedra, verdadeiramente parece na linha crítica de Longa Noite de Pedra. O que foi que te motivou escrever nesta direcçom?
 
O poema Galiza, tu também és de pedra acho que é um poema claro e singelo no seu significado. Nom está inspirado só na linha da crítica social de Celso Emilio, umha linha que ao meu perceber pretende desde a crítica mudar a ordem das cousas. O poema está imerso na crítica à sociedade actual, na tomada de consciência deste tempo no que habitamos. Há algumha parte do poema que explica isto:
 
No tempo das democracias sonhadas
nos cárceres do pensamento os relógios são de pedra, ...
De pedra os noticiarios, os jornais, as revistas, de pedra....
Os povos perdidos na origem dos tempos,
Galiza, tu também és de pedra,
de pedra os teus sonhos sobre as acácias também de pedra.

— Apaguemos preconceitos. Como se vive em galego numha cidade como Ferrol?

 Ferrol é parte da nossa história o mesmo que as outras cidades galegas. A situaçom sociolingüística galega é bastante dura em geral, mas já comentava antes que eu nom sou em absoluto derrotista. A minha percepçom é diferente porque trabalho na promoçom da língua desde a manhã até a noite. Trabalho nisto, levo sete anos com o meu projecto vital, com Tagen Ata.

A cooperativa nasceu em Compostela mas eu sempre desejei localizar  também  a empresa na comarca. O trabalho é muito difícil mas poderia relatar acontecimentos maravilhosos para a nossa língua que vivo quase a diário: ver entrar o galego no âmbito empresarial, planificar a participaçom por volta da normalizaçom lingüísitca, conhecer pessoas adultas, adolescentes e pequenas que olham para o galego e partilham com nós o nascimento de umha tímida motivaçom para a recuperaçom do idioma.

A minha vida decorre assim, entom nom tenho umha perspectiva muito clara do que é o habitual na comarca para a gente que fala galego. Eu saio da casa, vou ao nosso local em Fene, falo com a gente no café, estou com colegas, visito a familiares, e a minha vida é em galego. Sei que a de muitas outras pessoas nom, mas temos de trabalhar com força para que a chama prenda nesses sorrisos cúmplices que nos assaltam no caminho da vida.

 

Conhecendo Iolanda

  • Um sítio web: Mancomun.org, porque é umha iniciativa das de: estamos no mundo, somos bons, somos coerentes, vamos com os tempos e somos galegos e galegas comprometidas.
  • Um invento: O cinema, ainda que na actualidade ficamos intoxicados com a comunicaçom visual o cinema é algo próprio do nosso tempo. O bom cinema é grande parte das vivências de toda umha vida, como os livros, como as histórias em geral. Quem nom pensa hoje em seqüências de filmes?
  • Umha música: Muitas músicas, mas hoje mesmo digo todo o de Lila Downs, música multilingüe, também em nahualt. O nahualt, por certo, com muitos mais problemas de normalizaçom, mas luitando. E hoje escolheria a cançom Ojo de culebra, que fala de expulsar o ódio que levamos dentro para continuar e criar. Lila Downs é umha artista completa, é maravilhosa.
  • Um livro: Leaves of Grass de Walt Whitman, com a traduçom para o português Folhas de Relva e que tem umha versom galega [em galego oficialista] com o título Follas sobre a herba, acho. Poderia escolher cem livros... seguramente também todo o escrito por Manuel Bandeira, e em concreto Estrela da Vida Inteira. Os dous som universais, traduzem e trabalham a própria identidade, e isto é o que penso que temos de fazer na Galiza com todo o que recebemos de fora.

 

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