Helena Villar Janeiro: «A Fundaçom Rosalia de Castro tinha que ter um status especial dentro das Fundaçons da Galiza»

Umha mulher refletida noutra

Segunda, 07 Março 2011 08:25

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Jorge M. de la Calle (*) - Um século separa as duas mulheres da fotografia: umha, Rosalia de Castro, a grande poetisa do Ressurgimento Galego no século XIX, e a outra, Helena Villar Janeiro, presidenta da fundaçom que conserva e exalta o seu legado, além de professora, poetisa e romancista.

Mas muitas linhas as unem. Rosalia, de formaçom autodidata, foi um exemplo de mulher comprometida com o seu tempo, principalmente através da publicaçom de obras como Cantares Galegos ou Folhas Novas, em que trata a problemática social do seu tempo, dos galegos, e também e em especial a da mulher. O idioma próprio, com a escrita em galego, e mais a recuperaçom da literatura oral e popular, ocupa também um lugar central na sua obra. E Helena Villar, que nom tivo formaçom regrada nos seus primeiros anos, mas sim umha constante curiosidade e amor pola leitura e o mundo da cultura, como Rosalia, honrou também o galego, sendo igualmente umha das pioneiras, e lutando ativamente pola melhora da sociedade, principalmente através da docência e a pedagogia.

Esta ancaresa (Bezerreá, 1940) estudou primeiro Magistério em Lugo, e depois, quando a idade e a economia lho permitírom, Filosofia e Letras, em Compostela e Madrid, supriu a sua vocaçom polo canto com distintos cursos de arte que partilhou com o resto da humanidade ao aplicá-los na escola: teatro, dança, cine e música, mostra da sua multifacetada figura. Desde entom, veicula todos os seus conhecimentos na língua que ama, a dos seus pais e avós, a língua galega, e deste jeito os transmitiu a várias geraçons, através do ensino e a literatura.

Obtém a habilitaçom de professora de Língua e Literatura Galega e institui o seu estudo no Colégio Público Pio XII, com carácter experimental (1979-1980), área a que se dedicará no sucessivo. Recebe o prémio "Patronato Rosalia de Castro" para mestres e pedagogos (1979). Obtém umha licença por estudos para pesquisar sobre as aprendizagens lingüísticas na família. É colaboradora de diversas instituiçons na formaçom permanente do professorado; fai parte da Comissom Mista Ministério de Educaçom e Ciência/ Junta da Galiza para a aprovaçom de livros de texto, trabalhou no Gabinete de Estudos para a Reforma Educativa da Galiza e exerce como Coordenadora Docente de Língua Galega, desenhando e desenvolvendo programas relativos à normalizaçom lingüística em todos os sectores da comunidade educativa. Consciente da problemática da língua, anima em 1985 a criaçom de APADEL (Associaçom de Pais em Defesa da Língua), associaçom da qual é vice-presidenta.

Na foto vemo-la lendo e recitando Rosalia, diante de unha velha figueira
e da Casa-Museu que leva o seu nome, no meio de um cuidado jardim
de camélias, rosas e limoeiros

À atividade docente e dinamizadora cultural de Helena, justapom-se, inseparável desta, e fazendo parte, a de animadora à leitura. Participa ininterruptamente nas campanhas de fomento da leitura a distintos níveis: alunado, famílias, professorado, bibliotecas, e realiza o curso monográfico de Bibliotecários Escolares da Conselharia de Cultura. No segundo campo de trabalho, é conferencista, poeta, narradora, ensaísta, articulista de imprensa e tradutora. Foi a primeira mulher incluída num coletivo poético (Cravo Fondo, 1977). Foi co-fundadora e secretária do PEN Clube da Galiza, co-fundadora e vice-presidenta da primeira junta diretiva de GÁLIX (Amigos do Livro Infantil e Juvenil), e pertence ao IPWWC (International PEN Women Writers Committee), que luta pola dignidade e a liberdade das escritoras em todo o mundo.

Desde julho de 2005, ostenta a presidência da Fundaçom Rosalía de Castro. É membro do Plenário do Conselho da Cultura Galega. Participou em numerosos congressos internacionais e obtivo importantes prémios literários em vários géneros. A sua obra é muito numerosa e, em parte, está traduzida para outras línguas.

Helena nasceu numha família humilde mas muito inquieta culturalmente, e colaborou nas lavouras do campo desde bem pequena. Seica por isso vemo-la tam desenvolta rodeada de apeiros tradicionais, arbustos e árvores centenárias, no contorno do formoso jardim que rodeia a Casa da Matança, o paço onde Rosalia morreu. No outono de 1947 cria-se o Patronato Rosalia de Castro, com o fim de arranjar a Casa da Matança. Restaura-se em 1971 e converte-se na Casa-Museu em 1972. A Fundaçom, que continua a labor do Patronato, é a atual proprietária.

Neste espaço, propom-se um percurso polos acontecimentos que marcárom a vida e a obra de Rosalia. No rés-do-chao, denominado O perfil dumha sombra, o visitante pode apreciar a verdadeira dimensom desta emblemática figura da cultura galega e universal: a sua vida, o contorno que a rodeou e a relaçom do povo galego com a figura da escritora. No primeiro andar, denominado O seu, propom-se umha recriaçom da casa rural da época, entre labrega e fidalga. Em 2005, aos seus 65 anos, já reformada, a esta mulher sábia e inquieta se apresenta a oportunidade de presidir a Fundaçom Rosalia de Castro, mulher que tanto admira e tem estudado, e claro está, acede, demonstrando que ainda tem muito a dizer, e com mais legitimidade, voz da experiência nesta sociedade.

Sentada num lagar típico galego, na Casa da Matança, em Padrom
(comarca de Compostela), na qual Rosalia passou os derradeiros anos da sua vida

Jorge M. de la Calle: Rosalia foi umha mulher de formaçom muito autodidata. Você também, nos seus inícios.

Helena Villar Janeiro: Estivem sem escolarizar dos 6 aos 14 anos, aprendendo soa e ensinando a um irmão o que eu sabia, que já é dizer. Líamos muito os dous juntos. Logo fum autodidata em quase tudo.

JMC: Como ela, viu suprida a formaçom (em tempos em que a mulher nom gozava do direito à mesma formaçom que o homem) por um ambiente que favorecia e satisfazia a sua curiosidade e inquedança intelectual. Que importância tem isto nas famílias humildes como a sua?

HVJ: A minha família era bastante excecional. Fum umha nena afortunada numha família economicamente humilde, mas com uns pais muito interessados no saber. Ele sim era um grande autodidata que tinha lido os clássicos da literatura universal e mesmo feitas incursons no jornalismo de opiniom. Ela estivera onze anos em Euskadi e ali conhecera muitas cousas. Escutávamos a rádio e lia-se o jornal todos os dias. O trabalho doméstico na alfaiataria acabava sendo umha espécie de ateneu aonde iam clientes e amigos de meu pai fazer tertúlia entre as agulhas e os tecidos. Eu trabalhava com ele e foi a etapa mais enriquecedora da minha vida.

JMC: E que lhe queda dessa "cultura de campo", se me permite chamá-la assim?

HVJ: O primeiro tesouro é a língua e a cultura que se articula com ela. Meus pais pudérom ter-ma mudado e afortunadamente nom o fizérom. Em segundo lugar, um bom conhecimento da natureza e um grande amor por ela.

Caminho florido ao pé da Casa-Museu de Rosalia

JMC: Toda a sua vida dedicou-a ao ensino. De onde vem esta vocaçom?

HVJ: Nom fum ensinante por vocaçom, mas acabei-a tendo e forte. Estudei Magistério por ser pobre. Queria ser música – o bel canto –, médica ou matemática. Nemhuma das cousas era possível. Nem eu mesma podo crer que me entregasse com tanta paixom a umha profissom a que cheguei por nom poder fazer outros estudos.

JMC: A literatura infantil é umha espécie de segunda divisom na literatura? Ou tem umha dificuldade particular? Fale-me um pouco dela.

HVJ: Também aí cheguei por ter umha nena e um neno a quem queria transmitir a língua na situaçom de maior normalidade possível. As leituras, os rituais dos jogos e as cançons eram umha ferramenta da qual o idioma daquela carecia no nível de cultura mais urbana que lhes tocava viver. Houvo, portanto [já que logo], que criar para eles. Seu pai e mais eu fizemos O libro de María. Logo pedírom-nos colaboraçom para o concurso musical Cantareliña e mesmo o livro para editá-lo. Já iniciado um caminho é doado andar por ele. E a literatura para a infância tem muito engado porque nos permite ver o mundo desde outra perspetiva.

JMC: Crê que há que investir mais em cultura?

HVJ: A cultura está demonstrado que rende inclusive economicamente. A indústria cultural é das mais produtivas. Digo-o para a gente que pensa em termos económicos, sempre a mais difícil de convencer dos valores do gozo e transmissom do património mais humano. Se me perguntas se estou conforme com o que se investe em cultura, diria-che que nom. Sempre me pareceria pouco.

 

JMC: Pensa que este governo o está fazendo bem em temas como o da língua?

HVJ: Toda promoçom e dignificaçom da língua própria seria pouca. Perdêrom-se décadas que oxalá sejam recuperáveis. E entretanto fórom medrando as mentiras da imposiçom do galego, da extinçom do castelhano e, sobretudo, da "imersom" como um perigo, quando nom é mais do que um procedimento de aprendizagem. As famílias que enviam os filhos ao estrangeiro mandam-nos diretamente a umha inmersom, mas parece que nom o sabem.

JMC: E a Rosalia? Como tratam a Rosalia?

HVJ: A Fundaçom Rosalia de Castro tinha que ter um status especial dentro das Fundaçons da Galiza. Mentres isto nom suceda, tem um problema económico muito sério, pois manter a Casa aberta e o jardim cuidado custa. Rosalia nom percebe direitos de autora e a Casa nom pode subsistir de seu. Nom obstante, percebo na sociedade um movimento de recuperaçom de Rosalia como bem coletivo e como símbolo da Galiza. Espero que melhore a situaçom económica e que aumentem os ingressos tanto institucionais como privados.

JMC: Que temos de aprender da figura de Rosalia como mulher e como pessoa?

HVJ: Há muito a aprender e muito a desfrutar da sua leitura. O amor ao país e à sua língua e cultura, a coragem, o sentido da justiça, a defesa dos mais débeis, a divergência ante o pensamento único, a fortaleza, a superaçom pessoal, a defesa da paisagem… Quanto ao prazer da sua leitura, Rosalia tem um poema ou um verso que acai perfeitamente com qualquer situaçom vital. Essa atualidade faz da sua leitura quase umha necessidade.

 

JMC: Há já 6 anos, aos 65 anos de idade, oferecem-lhe a oportunidade de presidir a Fundaçom Rosalia de Castro. É umha oportunidade de ouro que só se apresenta a idades também de ouro?

HVJ: A essa idade ainda se pode aceitar esta carga e a experiência suponho que ajuda em qualquer atividade. Estar reformada também me permite dedicar-lhe muito tempo "gratis et amore". Umha pessoa em ativo teria mais problema. Mas a minha presidência tem data de caducidade. Nom vou permanecer muito tempo. Há que renovar as instituiçons.

JMC: Em geral, que de bom tem chegar a esta idade? Sente-se melhor que noutras épocas?

HVJ: Chegar aos setenta anos é umha sorte que nom tivérom outras pessoas. A alternativa a nom cumprir anos nom é avogosa, por isso eu os celebro com alegria. Agora mesmo sinto-me muito bem e inclusive com ânimos para iniciar atividades polas que nom me tinha interessado antes, como é a fotografia artística e o mundo das novas tecnologias.

 

 


(*) Entrevista publicada originalmente no blogue do autor, no qual se podem ver mais fotografias. Texto adaptado ortograficamente para o PGL com a sua permissom.