Francisco Salinas: «A supervivência da língua e da cultura galegas consegue-se abrindo as fronteiras com Portugal»

Francisco Salinas Portugal revisa para nós a sua participaçom no campo do associacionismo e da intervençom lingüístico-cultural

Sexta, 18 Março 2011 00:00

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O professor Francisco Salinas Portugal

PGL - O professor Francisco Salinas Portugal repassa para o Portal o seu percurso polos campos literário, associativo e académico da Galiza, esboça a (auto-)análise dumha trajetória construída “entre o acaso e a necessidade” e reflexiona sobre o relacionamento galego-lusófono e sobre o grau de autonomia dos campos culturais na Galiza a respeito do poder político e do nacionalismo galego.

O poeta Franciso Salinas Portugal começa por lembrar neste vídeo-entrevista o seu labor como integrante dos grupos Alén (1977) e De amor e desamor (1984-1985). Destas duas estratégias de publicaçom coletiva, a primeira reune três estudantes universitários (Miguel Anxo Mato Fondo, Xosé Ramón Pena e o próprio Salinas Portugal) que, próximos do professor Ricardo Carvalho Calero, apostam polo reintegracionismo lingüístico e a renovaçom literária num momento político-cultural caraterizado pola abertura e a incerteza. Ao falar em De amor e desamor, por seu lado, Salinas rememora os seus vínculos com o heterogéneo grupo corunhês que, quiçá, venha a ser alvo colateral das estratégias de consagraçom que as instituiçons culturais autonómicas reservam para um dos seus integrantes mais dificilmente assimiláveis pola crítica literária em meados de oitenta, o poeta Lois Pereiro, a quem é dedicado este ano o Dia das Letras Galegas.

O professor Francisco Salinas Portugal revisa igualmente para nós o seu trabalho como docente de língua e literatura galegas no ensino secundário, de português na EOI da cidade herculina e, desde a década de noventa, como responsável das literaturas lusófonas dentro do Departamento de Galego-Português, Francês e Lingüística da Universidade da Corunha (UdC), instituiçom esta onde desenvolve também um intenso labor investigador virado para o estudo dos processos de autonomizaçom de sistemas culturais ditos emergentes ou pós-coloniais. Este interesse polo conhecimento científico de processos sócio-culturais homologáveis com o caso galego explica em grande medida os seus vários estudos sobre o funcionamento da literatura nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), em especial os dedicados ao caso angolano e à figura de Pepetela. De facto, desde que Francisco Salinas analisa A escrita da angolanidade de Pepetela na sua tese de doutoramento em 1992, o professor corunhês dedica vários trabalhos a este escritor reconhecido com o prémio Camões em 1997, o último dos quais consiste na ediçom dumha peça teatral que funciona como metáfora da dominaçom e a aculturaçom provocadas polo colonialismo europeu nas Áfricas (A revolta da Casa dos Ídolos, publicada em 2010 pola Biblioteca-Arquivo Teatral Francisco Pillado Mayor da UdC).

Igualmente, o objetivo de promover o relacionamento da Galiza com o resto da Lusofonia desde o campo académico está também na origem da parceria estabelecida em 2003 entre a UdC e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) para a publicaçom dos Estudos Galego-Brasileiros. Aqui, o professor Salinas promove, junto aos seus colegas de departamento, um empreendimento que já deu como resultado quatro volumes em que investigadores galegos e brasileiros ligados às duas instituiçons universitárias abordam os processos de emergência lingüística e literária tanto na Galiza como no Brasil.

Noutra fase da entrevista, Francisco Salinas Portugal revisa para nós a sua participaçom no campo do associacionismo e da intervençom lingüístico-cultural (desde posiçons enquadráveis no reintegracionismo e o nacionalismo galego), e confessa o seu cansaço pessoal e a sensaçom de derrota que lhe provoca a realidade lingüístico-cultural da Galiza atual. A (auto-)crítica feita polo antigo ativista e fundador da AGAL (hoje afastado da primeira linha da intervençom social neste âmbito) descansa, por um lado, na falta de autonomia dos campos lingüístico e cultural da Galiza a respeito do poder político autonómico e do nacionalismo galego com maior grau de institucionalizaçom e, por outro lado e em boa medida como resultado do anterior, na “visom mui pessimista da situaçom lingüística” que perpassa as palavras que o professor Salinas Portugal dedica a este assunto.

Assim, ao analisar as razons que sustentam o seu desencanto, Salinas refere os últimos resultados do processo (inconcluso) de elaboraçom lingüística na Galiza, em concreto os efeitos provocados polas mudanças nas Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego aprovadas pola Real Academia Galega (RAG) em 2003 após um processo animado desde o nacionalismo que sustentava o chamado reintegracionismo “de mínimos”, através da Asociación Sócio-Pedagóxica Galega (AS-PG), e no qual participarom a própria RAG, o Instituto da Lingua Galega (ILG) e os departamentos de galego das universidades de Santiago de Compostela, a Corunha e Vigo. Neste sentido, o professor Salinas Portugal entende que esta última fase do processo deu como resultado a dita “normativa de consenso” mas, também, a perda da tensom normalizadora, o deslocamento para posiçons em maior medida periféricas do conjunto das propostas reintegracionistas e a consagraçom dum modelo lingüístico que “reforça o processo de castelhanizaçom do idioma”.

Ora, no fim da entrevista surge ainda nas palavras de Salinas Portugal a confiança na supervivência da Galiza como comunidade cultural diferenciada, uma soberania cultural só possível, para o professor da UdC, com a implementaçom dumha estratégia política conduzente à integraçom da Galiza na rede cultural lusófona. Estamos, enfim, perante umha exposiçom pública em que a sinceridade e a capacidade de análise do professor Salinas Portugal contribuem decididamente nom apenas para a percepçom de aspectos destacados no funcionamento do Sistema Cultural Galego das últimas décadas, mas também para entendermo-nos nós nele e percebermos que o nosso futuro coletivo está a depender, ainda, do nosso trabalho comunal. Umha entrevista, portanto, a nom perder.