Artur Alonso Novelhe: «A Galiza esta adormecida por essa brêtema que lhe impede viver como ela mesma teria gostado de viver»

Terça, 05 Abril 2011 07:24

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PGL - O poemário Filhos da Brêtema, de Artur Alonso Novelhe, é um dos mais recentes títulos galegos que se publicaram adaptados ao acordo ortográfico que internacionalmente vigora para a nossa língua. É, também, uma valiosa joia em edição bilingue galego-catalã. Conversámos com ele acerca do seu trabalho, da Galiza no mundo, da emigração e da globalização na entrevista que lhes oferecemos a seguir.

PGL: Qual é o motivo desta edição bilingue e porquê escolheste o catalão e não o inglês, idioma por excelência da globalização?

Artur Alonso Novelhe: A escolha do catalão deve-se também a que Polifona Editora é uma editora catalano-galega, então surgiu a ideia de plasmar esta realidade de intenção de linguística neste poemário. Para mim também abre as portas a conhecer a realidade catalã desde perto, não pelas referencias doutros, mas pela minha própria visão, uma vez que lá chegue e segundo as experiências que surjam.

PGL: Os conflitos pessoais, sociais, e as contradições que gera o injusto sistema em que estamos imersos, são denominador comum e de profunda reflexão e análise em Filhos da Brêtema. Quais são as razões destas dissertações ou reflexões em chave poética?

AAN: A brêtema pretende ser esse sinónimo de identidade, além de esse outro de véu oculto por detrás do qual se esconde a verdadeira realidade, a realidade que outros nos ocultam adrede, para impedir a libertação do ser... Daí a razão principal do discurso é a necessidade de o autoconhecimento, junto ao conhecimento real do entorno, do externo...

O novo olhar, o aprender a desaprender as falsidades que desde o nascimento nos são impostas, o superar os condicionantes inculcados desde a base, o saber contornar para chegar a respirar a vida, tal e como a vida é... Deixando que ela crie as nossas experiências, os nossos ensinamentos, o nosso mundo... Essa é a razão de dissertar e refletir sobre que já deveria ser óbvio, mas não é.

PGL: Em termos gerais, achas que o tom do poemário é mais pesimista ou mais esperançador?

AAN: Nem reparei muito nisto... Como todo poema foi um processo disso que chamamos “inconsciente”, eu chamaria da consciência adquirida e interiorizada... No intuito de também ter que liberar a minha, para que ela também aprenda a sua forma natural de criar, libertada das cadeias do condicionamento político e social...

Mas agora que reparo, penso que é uma visão particular e esperançada da noite em que ainda estamos imersos... Essa noite que já esta chegando à madrugada, pois como dizia o filosofo tibetano Dugpa Rimpoché: «Nenhuma noite é o bastante longa e obscura para impedir a alvorada». E nós, os galegos e galegas, estamos a intuir o nascer do sol, estamos começando a reparar que a noite, essa longa noite de pedra de Celso Emilio Ferreiro, está a chegar ao seu fim: vem a alvorada... E em muitos casos temos medo dela, pois durante séculos habituáramo-nos a viver na sombra, estamos cómodos na sombra... Mas devemos acordar, devemos enfeitar-nos com as nossas melhores galas, para receber esse dia com todo nosso amor...

A alvorada está chegar... Mas antes ainda teremos que lutar com muita inteligência para poder afastar de nosso povo as sombras... E agora essas sombras não poderão ser afastadas por nós sós, teremos que fazê-lo com todos nossos irmãos e irmãs de cultura e fala.

Artur Alonso Novelhe dá uma olhada ao poemário durante
o lançamento do livro o em setembro de 2010

PGL: A Galiza é associada comummente à chuva. Porquê entom Filhos da Brêtema?

AAN: A chuva interior é brêtema, muitas vezes a chuva fina vai acompanhada de pequena brêtema, e temos a impressão quando estamos imersos nesse fenómeno meteorológico que alguma dor nos impregna, ou bem física ou bem psiquicamente...

A Galiza esta adormecida, narcotizada por essa brêtema, que lhe impede viver como ela mesma teria gostado de viver... Está com uma grande dor, mas como disse antes, tão habituada à sua dor que acha que essa é a forma natural de viver... Muitos galegos e galegas da minha geração têm-me comentado que não são otimistas, porque se não pensam que as cousas vai sair mal então de seguro que vão sair mal.. Se, pela contra, pensam que vão sair mal, ao melhor podem sair bem... Isto é doentio, é um reflexo dessa brêtema no coração...

O abandono da sua língua e cultura ou o viver sua língua e cultura e não lha legarem aos seus filhos, tem algo a ver com o anterior, pois estão convencidos que se vivem noutra língua e noutra cultura as cousas vão ir melhor... O qual é outra evidencia da dor na brêtema, dos condicionantes falsos, da assunção de inferior, da brêtema na alma.

O livro tenta expressar todas essas formas de dor, de brêtema. Nós somos os filhos dos filhos, que, durante séculos, nunca nasceram livres, num país que não podem conhecer, do que algo sabem, do que algo intuem... Mas não possuem os médios para conhecê-lo, nem tem intacto o legado histórico, nem sequer tem uma história escrita por eles: fica entre as suas mãos a brêtema, que se esvai, mas não deixa ver a luz... Afinal sentem a Galiza, como uma brêtema, uma construção metafísica, etérea, que está aí mas não está... Por isso podem abandoná-la, virar costas dela, fazer que não existe, concentrar-se noutras realidades mais palpáveis... Essas realidades que têm uma verdadeira realização concreta e são engrandecidas pela televisão...

PGL: Achas que as experiências vivenciais e existenciais foram até o de agora pontos referenciais em cada uma das tuas obras?

AAN: As experiências vivenciais marcam sempre tanto a visão do mundo como o modo de se relacionar com ele, portanto elas mesma se acomodam na obra. Mas não são a obra. Como diz um provérbio do povo navajo, «não acredites em mim, mas aprende a escutar, pois a minha verdade só é verdadeira para mim, ela nasce das minhas experiências, das minhas vivências... Não acredites nele, pela mesma razão, mas aprende a escutar... Não acredites em ti, por idênticas razões, mas aprende a escutar, porque se aprendes a escutar em meio de todas estas verdades relativas, a verdade aparecerá».

Quer dizer, um deve ser sincero, viver sua verdade sem limitações ideológicas ou modas para que se possa integrar na verdade global, que aparecerá uma vez escutadas todas as verdades. Além disso, a poesia obriga-nos a um exercício de dignidade, esse exercício de dignidade à sua vez vai transformando as nossas vidas, obrigando-nos a sermos dignos, se quisermos estar à altura da nossa criação, das nossas obras... Existem autores a que isto lhes dá igual, nem reparam. Eu reparei, e isso é duro, porque agora estou obrigado a manter minha dignidade em relação a minha obra, e não sei se estarei a altura, se algum dia conseguirei.

Assim que os motivos sempre são os mesmos.... A poesia, a medicina, a arquitetura, qualquer profissão, qualquer atividade criativa não é mais que um meio de expressão, que, como dizia o filósofo português Agostinho da Silva, serve para o homem criar sobre o que já está criado, é dizer, um meio para expressar a necessidade inerente no homem de criar, dado este ser vir a ser «um poeta à solta» que veio precisamente a achegar seu grãozinho dentro da imensa criação universal...

Reparemos que universo, o campo unificado, essa essência que habita em todas as cousas e que outros chamam “Deus” está a realizar ao mesmo tempo milhões de milhões de combinações... E no entanto as formas das que se dota esse universo, que são devidas as distintas vibrações que nele se expressam e criam também a matéria, a sua vez estão interagindo e criando, dentro desse continuo transformador que a cada momento inaugura um novo presente... Porque nós sempre vivemos em presente contínuo, ainda que muitas vezes, doentiamente, nos deixemos agarrar por um passado que já foi, por futuro que sempre é no acontecer seguinte: nesse acontecer que quando a ele chegamos já é presente...

Assim que a poesia não é nem superior nem inferior a qualquer outra atividade humana... É a necessidade, a interação dessas duas forças que coabitam no ser humano: a centrípeta que recebe e vasculha no interior, no centro; e centrifuga, que expande desde o interior, desde esse centro, a sua energia num certo rádio. Os outros motivos são enfeites que nós nos outorgamos, segundo a nossa ideia, nosso ideal do mundo ideal... Esse que nunca existe, pois é uma deformação idealizada da realidade que nos envolve.

PGL: Como filho de galegos emigrados/exilados, como viveste e integraste lá no México a nossa cultura e língua, ponto fulcral da nossa identidade?

AAN: Eu aprendi a ser galego em certo modo no México, mas para mim a Galiza era essa pátria mágica dos avôs, e o galego a língua de cultura dos velhos exilados republicanos, uma língua que queria falar porque como neno, acreditava, daria-me a formação daqueles homens. Mas o problema real nos dias de hoje é que resulta muito difícil criar janelas para visualizar a Galiza no mundo hispano, incluindo o México. Não passa de um produto anedótico e exótico, sem nenhuma importância a nível comercial, algo por desgraça de suma importância até agora, na nossa realidade global.

Fazer essas tentativas é perder muito dinheiro e tempo para obtenção de escassos resultados. No México interessa o produto cultural hispano ou norte-americano... Não o galego. Primeiro teríamos de entrar no mundo lusófono e anglo. Em primeiro lugar no lusófono, onde as janelas estão abertas e podem-ons perceber e receber como parceiros em igualdade desde o primeiro dia. Projetos inúmeros estão à vista neste imenso mar, o único que faz falta e gente que os quiser levar para à frente.

Depois, entrar no mundo anglófono via mundo celta: Irlanda, Escócia, irlandeses dos EUA... Infelizmente, só poderemos entrar no mundo lusófono quando toda a Galiza considerar a unidade linguística galego-portuguesa com um facto indiscutível... Depois, com o poder de uma língua global, entraremos no mundo hispano via sul pelo Brasil, via Norte pelos EUA... Mas primeiro precisamos da língua global e das redes com brasileiros e irlandeses dos EUA.

Já perdemos a oportunidade de criar uma ponte entre mundo lusófono e hispano, quando ainda o Brasil não era uma potência regional e global... E tudo pela falta de uma língua com capacidade de concorrer internacionalmente... Aguardo agora não percamos esta... Se não te visualizam, não existes.

Exemplares de Filhos da Brêtema

PGL: Quais fôrom os aspetos essenciais, quer culturais, quer sociais, quer políticos, desse país que se vislumbram no início e desenvolvimento da tua obra literária?

AAN: Realmente em uma simbiose de dois países. Dois rios afluindo ao mesmo mar. México é a essência da minha consciência... Os primeiros aromas, as primeiras imagens, a primeira abertura do espírito e a alma se da entre o sol e a lua do México. O amor a língua castelhana nasce aí, ela é a minha língua mãe, as minhas primeiras palavras foram nesse castelhano tão bem temperado e rico como é o castelhano do México.

Galiza e a sua língua tiveram de ser aprendidas para entroncar com as minhas raízes, para saber donde vinha minha linhagem. Assim que México é o país dos sonhos, Galiza o país da linhagem... Foi meu padrinho, vice-presidente do Centro Galego do México, quem me deu os primeiros escritos em galego, quem me ensinou a amar Castelão, Risco, Pedraio... Mais tarde eu chegaria a Rosália, Murgia, Curros, Pondal... Mas na minha obra literária, México não se vislumbra até o segundo e terceiro livro... Fica escondido no saber legado dos indígenas, no amor ao mundo incógnito que nos aproxima do futuro, no saber mastigar com gosto as amarguras e belezas dos tempos idos...

A nível político, nas incessantes lutas sociais de uma nação que fez sua revolução com antecedência à russa, que ainda hoje está a suster um pulo contra o neoliberalismo devorador de imensos recursos económicos, ecológicos, humanos... Dessas lutas e muita da dignidade da gente que estão nelas envoltas, os meus poemas ficaram impregnados. Mas o poeta aprendeu, trasladou a si essa dignidade? Isso é que não sei dizer...

 

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