Adela Figueroa: «Eu sempre tomo parte. Pode ser uma senha da minha geração»

«O de Feminista indica uma vindicação da parte das mulheres, mas isso não é o único que move o meu interesse»

Terça, 31 Maio 2011 07:30

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Fotografia de Adela Figueroa durante a apresentação de Madeira de Mulher em Ourense

PGL - Recentemente Edições do Castro publicou Madeira de Mulher, à venda na Imperdível, uma série de contos de Adela Figueroa com ilustrações de Maria Celsa Sánchez. Neste trabalho, a colaboradora do Portal mostra o pacto inconsciente que as mulheres têm com o ambiente, em particular com as árvores através das imagens das mulheres-árvore.

A nossa companheira Belém Grandal conversou com ela para conhecer mais acerca dos motivos que a levaram para escrever esta obra, bem como se aproximar mais da trajetória e experiências da multifacetada Adela Figueroa. Também incluímos umas valorizações da ilustradora, Maria Celsa Sánchez, sobre o conceito das mulheres-árvore.

Belém Grandal: Mulher, escritora-poeta, articulista e narradora-professora, bióloga e ecologista. Qual destas facetas é a que movimenta e define as demais, ou quê conjunto de facetas marcam o teu percurso vital?

Adela Figueroa: Não sei bem qual dessas facetas é mais significativa. Julgo que a que marca o meu percurso vital é a de observar o mundo à minha volta. E não só, mas também tentar participar nele, se calhar modificando aquilo de que não gosto.

BG: E no livro qual ou quais têm prioridade e marcam a estrutura do livro e das distintas narrações?

AF: Suponho que as relações humanas, quer dos seres humanos entre si, quer com o mundo à nossa volta:

«Chegaram ali buscando, fora da terra em que nasceram, um lugar onde terem uma oportunidade... Transformavam as lembranças em passado e pintavam o futuro com as cores que levaram nas retinas ao nascerem. Impregnando o ar daqueles recendos que cheiraram nos berces e colocando as cores e as formas da sua estética de selva tropical naquelas latitudes nórdicas de ar cinzento e chuva permanente» (A Nogueira Silenciosa).

BG: A mulher é o elemento fulcral através do qual giram e se desenvolvem os diferentes relatos do livro. É um livro autobiográfico, feminista...? Como o definirias?

AF: Volto a supor... Sendo eu mulher e observadora dos aconteceres e do modo de agir das pessoas, pode ser um livro feminino. O de Feminista indica uma vindicação da parte das mulheres, mas isso não é o único que move o meu interesse. Mais diria eu, acerca do sentimento de justiça... ou de injustiça.
Os diferentes problemas da vida estão tratados sob a forma de contos ou relatos que tentam implicar quem lê com a história. Por isso há essa descrição tão pormenorizada do cenário das ações até quase parecer um sketch cinematográfico:

«Começaram a andar pela areia afastando-se do barulho da multidão para um horizonte onde o mar e a praia acabam por se juntarem e que, talvez, pudessem algum dia alcançar» (A quenlha varada)

Adela Figueroa durante a apresentação do livro em Ourense

BG: Que quereis simbolizar Maria Celsa Sánchez mais tu com a imagem arborescente da capa? Quiçá as folhas do desenho representem as vivências e experiências de cada uma das mulheres dos teus relatos?

AF: As mulheres-árvores nascem da minha paixão polas árvores que formam os bosques galegos e a força que vejo nas mulheres galegas da minha geração.

BG: Achas que há uma relação diferente do homem-ambiente, mulher-ambiente e em que aspetos é possível perceber essas diferenças? É uma relação quiçá mais intensa, mais próxima, mais fluida?

AF: Sim , acho que o jeito de ver o mundo dos homens é diferente de aquele das mulheres. Estas, pela sua condição de dar vida têm mais interiorizado o sentimento da natureza, da paisagem, da cultura do meio como fornecedor de vida. Embora isso não signifique que os homens não saibam ver, apreciar, ou comover-se diante do formoso espetáculo da vida. No livro há algumas histórias de homens. De facto a primeira é a história duma procura vital através da natureza e o seu protagonista é um homem para além duma árvore: O Carvalho da Mestra. Ou o monólogo do velho marinheiro, que fala com o mar, por pôr algum exemplo:

«Calou um momento. Mas logo recomeçou... – Lembras-te quando íamos à mexilha... lembras-te de mim e mais dela? Como trabalhávamos juntos... Que tempos, mi madrinha!...» ( Monólogo do Velho Marinheiro)

BG: Procuras criar consciência da situação da mulher na sociedade galega atual e dos conflitos de sexo ou género que existem ou apenas procuras refletir a realidade atual sem entrar em qualquer tipo de valorização e análise?

AF: Sempre há uma valoração. Não há maneira de fugir ao julgamento quando se trata de relações humanas. E, aliás, eu sempre tomo parte. Pode ser uma senha da minha geração:

«Um nó que se lhe fazia na gorja e no peito, voltava desde o lonjano horizonte da sua infância de meninha medonhenta e responsável... A dor do braço era o de menos. Só queria que a chuva de reproches acabasse de uma vez... Para eles tu estavas “bem casada”. No universo em que te educaram era melhor dissimular, não dar informação acerca da intimidade... Quiçá do jeito que o tinham feito tantas mulheres antes. Pequenas chantagens emocionais, putadinhas... Para ti estratégia de sobrevivência dos submetidos...» (Cobra)

BG: Para finalizar que opinas desta frase machista «detrás de cada homem que triunfa há uma mulher inteligente»?

AF: Sempre se faz troça e ironia acerca dos grupos menos favorecidos. Antes era contra os padres ou os caciques. É um jeito de fazermos algo de justiça mediante a compensação.

Eu conheço o dito: Detrás de cada homem inteligente há uma mulher... espantada. Na obra introduzi as mulheres de três homens que tiveram muito a ver na história da Galiza (Dona Virgínia – viúva de Castelão –; Dona Isabel – esposa de Ramom Pinheiro – e Dona Inês Lapa – esposa de Rodrigues Lapa –) para achegar-me ao seu percurso histórico de jeito feminino, tratando de desvendar a outra cara da realidade, mas não tem nada a ver com esse dito (nem o primeiro nem o segundo):

«Pelos vistos marcaram o ponto de encontro em Nadela, porque Anadia e Nadela ficavam irmanadas sendo topónimos que indicam nascente de água… Para dona Inês a viagem fora muito divertida... Rodrigues Lapa não queria faltar à homenagem dum homem que tanto admirava... O que ficou na minha memória foram as gargalhadas de mulher franca e elegante com as quais relatou a anedota...» (Em Testemunhas)

 

 

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Celsa Sánchez: «Pensando e pensando nas árvores e nas mulheres nasceram as mulheres-árvore»

É grande a similitude entre ambas: Ligam-se com força à terra que lhes proporciona o alimento, alimento que ascende polo interior do seu corpo e torna-se em fruto, fruto que oferece nova vida. Estão enchidas de folhas que são as suas próprias vivências, o passar do tempo, e das fases na vida. E toda essa experiência torna-se em proteção delas próprias.

As mulheres de estes relatos estão protegidas polas árvores e eu própria vejo que são mulheres protetoras fortes, oferecem vida e estão cheias de experiências próprias e partilhadas com outras mulheres e testemunhas de muitas cenas da vida.

Essas são as minhas mulheres-árvores. Mulheres ligadas à natureza e à terra. Mulheres que oferecem vida. Mulheres que vão realizando-se devagarinho com o passar do tempo e da vida... o mesmo que as árvores. E assim são as árvores dos relatos de Curra [Figueroa].

 

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