Entrevista a Nel Vidal, presidente da CTNL

«Entre todas e todos deveríamos aprofundar na relaçom mútua e no intercâmbio com os países que usam, entre outras línguas, o português»

Terça, 19 Julho 2011 06:27

Atençom, abrirá numha nova janela. PDFVersom para impressomEnviar por E-mail
Engadir a del.icio.us Compartilhar no Twitter Compartilhar no Chuza Compartilhar no Facebook Compartilhar no DoMelhor

PGL - Os dias 20, 21 e 22 de julho decorrerá a sétima ediçom do curso de verão Trabalhando em Língua, organizado polo serviço de normalizaçom lingüística da Universidade da Corunha em parceria com a CTNL, o Concelho de Carvalho e da Deputaçom da Corunha. A presente ediçom terá o foco na análise dos discursos para a promoçom da língua galega.

O PGL entrevistou Nel Vidal, presidente da Coordinadora de Traballadores/as de Normalización da Lingua, e técnico de normalizaçom lingüística em Carvalho.

PGL: Nel, podias fazer um breve percurso histórico da figura do técnico de normalizaçom lingüística para os nossos leitores e leitoras?

Nel Vidal: Para desenvolverem e implementaren as suas políticas em qualquer âmbito, as administrações públicas dotam-se de instrumentos e pessoal técnico. Assim, para desenvolverem a política urbanística têm departamentos de urbanismo, para as políticas culturais têm departamentos de cultura, para as políticas sociais criam departamentos de serviços sociais... E no âmbito da política lingüística esses departamentos técnicos som os serviços de normalizaçom lingüística (SNL).

Os SNL começaram a se constituir na Galiza na década de 80, a raiz da Lei de normalizaçom lingüística (1983), da Assembleia de Presidentes da Câmara de Compostela (1984), da Lei de uso do galego como língua oficial polas entidades locais (1988) e da primeira convocaçom de subvenções para corporações locais para a criaçom dos SNL (1991).

O seu objetivo geral é procurar o incremento do uso e prestígio da língua galega no âmbito de influência da administraçom a que pertencem.

PGL: Que mudou, do ponto de vista do perfil dos técnicos/as e das açons desenvolvidas polos SNL ao longo de todos estes anos?

NV: Desde um primeiro momento deu-se por feito com que os/as técnicos/as de normalizaçom devemos ser filólogos/as e isto, da CTNL, consideramos que nom tem que ser assim. Se a sua funçom é planificar, gerir, executar e avaliar ações de para o incremento do uso e prestígio do galego nos diferentes âmbitos sociais, está claro que conhecimentos lingüísticos temos que ter, mas também conhecimentos relacionados, por exemplo, com a sociologia ou a comunicaçom, para a intervençom social, o planeamento de ações, etc., e isto nom o garante nem a licenciatura em Filologia nem nengumha outra. O trabalho é multicisciplinar e, portanto, as equipas também deveriam sê-lo.

Achamos que nos últimos anos se estám a dar alguns avanços nesta conceçom, mas é preciso continuar trabalhando para fazer ver que os SNL nom som departamentos de correçom lingüística e muito menos de traduçom, mas departamentos para o desenho e o planeamento de ações, de medidas, de programas, de campanhas, que procurem a normalizaçom social da nossa língua, o incremento do seu uso e prestígio.

A nossa funçom nom é “normalizar”, mas gerir medidas que procurem o objetivo da normalizaçom. Por isso nom nos podemos chamar “normalizadores/as”, mas técnicos de normalizaçom, igual que os técnicos de cultura nom som “culturizadores” nem as técnicas de urbanismo “urbanizadoras”.

PGL: Quando nasce a CTNL e qual é a tua avaliaçom da sua existência?

NV: A CTNL nasceu em 1996 e, desde aquela, nom deixamos de fazer propostas para melhorar o processo de normalizaçom lingüística (dirigidas às administrações, às organizações políticas, etc.), realizar relatórios e análises (sobre políticas lingüísticas das diferentes administrações, sobre medidas concretas...), organizar formaçom dirigida aos/às trabalhadores/as de normalizaçom lingüística (mercadotecnia, desenho e implementaçom de campanhas, legislaçom, planeamento, gestom administrativa, técnicas grupais, etc.), promover encontros e contatos ou aglutinar gente.

O trabalho realizado valoramo-lo como positivo, mas fica muito por avançar, portanto, muito trabalho por fazer.

PGL: O curso de verao que vai decorrer em Carvalho vai estar focado na análise dos discursos. Pensas que as entidades oficiais que estám atrás da promoçom da nossa língua conseguem comunicar com o cidadão comum?

NV: Acho que nom o conseguem, que nom o conseguimos, nem as entidades oficiais nem as entidades sociais... Se for assim, noutra situaçom estaríamos.

Se o discurso a favor da normalizaçom lingüística conseguisse a empatia da maioria da cidadania, entom teríamos muito avançado. E isso acredito que seja chave, conseguir a empatia cidadã.

PGL: Podem-se conjugar os discursos da identidade e da utilidade para a promover socialmente? Se achares que sim, em que forma?

NV: É preciso conjugar muitas cousas, termos um leque de argumentos adequados dirigidos aos diversos grupos sociolingüísticos existentes na complexa realidade galega, comunicados com a linguagem adequada, transmitindo os valores da normalizaçom lingüística, que som a justiça social, a liberdade, a responsabilidade, a defesa do bem comum, do próprio, a igualdade de oportunidades...

É preciso criar também espaços e situações de utilidade, em que o galego seja útil e necessário, agora bem, empregar a utilidade como discurso, como argumento, acho que é, quando menos, discutível. É útil o inglês para a maioria das galegas e galegos? E o chinês? É útil estudar obrigatoriamente 10 anos de matemática, com logaritmos, equações, etc., quando, a maioria das pessoas na sua vida só precisa somar, restar, dividir, multiplicar e fazer regras de três (o que se pode aprender num só curso)? É útil a literatura? É útil a física? É útil a música? Haverá quem diga que é útil para quem o for.

Nom sei, é preciso, na prática, fazer ver a utilidade do galego e criar espaços e situações em que se perceba necessário, mas utilizar no discurso isso como argumento nom sei se é sempre adequado e/ou positivo.

PGL: Que valorizaçom fai a CTNL do trabalho desenvolvido polo reintegracionismo no campo da normalizaçom lingüística, quando menos desde a CTNL existir?

NV: Acho que se pode fazer umha valoraçom global do processo de normalizaçom lingüística, mas nom acho que proceda segregá-la segundo a defesa ou utilizaçom de umha norma lingüística ou outra.

Logicamente, no processo de normalizaçom temos muito por avançar, cousas que melhorar, ações que intensificar e medidas que tomar. Agora bem, acho que se nom fosse por todo o movimento social em defesa da língua, a situaçom seria muito pior, portanto o trabalho desenvolvido em geral foi positivo, mas entre todas e todos devemos melhorá-lo, fortalecê-lo e intensificá-lo.

PGL: Dada a conjuntura atual, quais as linhas mestras da CTNL para um futuro em galego? O que pensas que a CTNL pode aproveitar da estratégia reintegracionista?

NV: O nosso papel, como coordenadora de trabalhadoras e de trabalhadores, é o de elaborar propostas para fazer mais efetivo o trabalho a favor da língua, promover a formaçom contínua e defender os interesses gerais destas/es trabalhadoras/es.

Ademais de trabalharmos nestas questões, em melhorarmos a formaçom de os/as técnicos/as em diversos âmbitos, em fazermos propostas sobre diversos aspetos que vam desde alguns muito gerais, como o discurso, até alguns muito pontuais, como convocações de subvenções, etc., umha das necessidades principais que vemos e, portanto, umha das reivindicações principais, é a da coordenaçom entre os diferentes SNL. No País temos umha rede de SNL espalhada, mas cada um trabalha por livre, e em raras ocasiões se dá feito algo conjuntamente entre diferentes entidades, e isto seria fundamental, que todos os SNL trabalhassem de maneira planificada conjuntamente, que desenvolvessem acções em conjunto, e também tendo em conta os movimentos sociais e em colaboraçom com estes.

A normalizaçom lingüística deve ser assumida pola cidadania, mas para isto do movimento normalizador, institucional ou social, temos que conseguir convencê-la, implicar à maioria social.

PGL: Achas que é possível (e desejável) um frente comum que aprofunde no relacionamento e no reconhecimento mútuo com o resto da lusofonia para além de normativas ortográficas? Que medidas achas mais urgentes a este respeito? O conhecimento das outras variantes da nossa língua e o uso das suas produções, em que medida agem na normalizaçom da variante galega?

NV: Podermos aceder desde a nossa língua às criações de países tam variados que vam da América do Norte à África só oferece vantagens, mas é preciso intensificar os intercâmbios, a difusom de informaçom e o acesso a essas criações. E para isso é fundamental o papel dos governos, tanto do galego quanto dos outros países.

É incrível como desaproveitamos toda a criaçom do país vizinho à que a populaçom galega poderia aceder só com ter informaçom e melhorar o conhecimento mútuo. É incrível o inseridos que estamos em Madrid e em todo o seu sistema informativo e cultural e o afastados que estamos do Porto e do sistema cultural, criativo e informativo português.

Entre todas e todos deveríamos aprofundar na relaçom mútua e no intercâmbio com os países que usam, entre outras línguas, o português.


+ Ligações relacionadas: