Filipa Fava: «A imersão continua a ser uma das formas mais eficazes de aprender uma língua»

«A integração na Galiza foi a tal ponto que a dada altura me sentia absolutamente galega»

Quarta, 27 Julho 2011 06:56

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Filipa Fava é a coordenadora docente do aPorto

PGL - Filipa Fava é a coordenadora docente e de atividades sócio-culturais dos aPorto, os cursos de português de Portugal que a AGAL e a Andaime organizam no Porto no mês de agosto.  Filipa nasceu em Lisboa mas logo se mudou para o Porto onde se licenciou em Línguas e Literaturas Modernas. Parte da sua vida decorreu em São Tomé, na Tunísia e... na Galiza.

PGL: Filipa, uma das caraterísticas do teu perfil biográfico, e que te dá muita informação para o teu desempenho nos aPorto, é o facto de teres morado cinco anos em Compostela: Liñaceira, Casa das Crechas, Rádio Galega... que lembranças guardas deste época?

Filipa Fava: Foi uma época de grande crescimento pessoal, em que fiz grandes amigos (amigos do peito, como se diz popularmente), mas também profissional, porque foi o lugar onde descobri que, na verdade, queria ser professora de português. Nunca me imaginei professora, mas quando cheguei à Galiza comecei a dar aulas em vários sítios: academias privadas, cursos para a banca e até formação para funcionários da Xunta. Então, descobri que gostava de estar em sala de aula, porque aprender (e ensinar) uma língua é descobrir uma outra cultura, é realmente abraçar um mundo novo e torná-lo nosso. Acredito deveras que falar português é ser um pouco português, tal como falar galego é ser um bocadinho galego.

PGL: Como foi a tua integração social na Galiza? A queda pela música tradicional habitava em ti ou foi uma descoberta in situ?

FV: Quando cheguei à Galiza, trazia já a bagagem da música tradicional portuguesa, pois tinha cantado e tocado adufe nos Comvinha Tradicional durante uns 4 anos. Depois, a passagem para as Liñaceira foi muito natural – éramos cinco moças com o mundo nas mãos. Tenho saudades desses tempos, foi tudo muito intenso e apaixonante. A integração na Galiza foi a tal ponto que a dada altura me sentia absolutamente galega e tinha inclusivamente dificuldade em falar português padrão – é muito fácil absorver o galego como língua própria, tem a mesma doçura que o português. As nossas culturas (a galega e a do Norte de Portugal, o Sul é outra coisa) são extraordinariamente semelhantes, sobretudo ao nível mais profundo, ao nível dos valores mais enraizados, dos costumes tradicionais, talvez não tanto à superfície, como por exemplo... nos horários!

PGL: Quando chegaste à Galiza que sabias de nós e com o que te foste?

FV: Quando era pequena, lembro-me perfeitamente de imaginar a Galiza como uma terra muito misteriosa, envolta em brumas e névoas densas. Era, de facto, só imaginação, porque a primeira vez que pisei solo galego tinha já 17 anos. Antes de ir viver para a Galiza, aos 23, tinha andado muito por Compostela, sobretudo tocando na rua e, portanto, quando cheguei de malas feitas para ficar, sabia já bastante. Da Galiza trouxe o sabor da “retranca” (que nunca cheguei a dominar, logo talvez nunca tenha sido verdadeiramente galega), a capacidade de avaliar pessoas com grande acerto na primeira impressão (isto aprendi-o na Casa das Crechas), a compreensão do que é ter uma cultura e uma língua mortificadas pelo poder, a sensação claustrofóbica e viciante que é viver em Santiago D.C. e grande admiração por essa minoria do povo galego que teima em preservar o que é seu com excelentes iniciativas sociais e culturais.

PGL: Os aPorto são cursos programados para alunos e alunas da Galiza. Somos diferentes a alunos e alunas de Castela, da França ou de qualquer outro país europeu?

FV: Sim, completamente. A proximidade linguística e cultural do galego é um trampolim para chegar a um nível alto em português com muita facilidade. Em geral, os hispanofalantes são bons alunos de português, mas os galegos conseguem adiantá-los em questões importantes, como na fonética e nalgumas particularidades sintácticas. Aliás, são notórias as diferenças entre alunos galegos cuja língua materna é o galego e aqueles cuja língua materna é o castelhano: o hábito de pronúncia de certas vogais fechadas, por exemplo, é uma mais-valia para a aprendizagem do português. E não só do português, também do inglês por exemplo. Isto não quer dizer que não tenha de haver esforço consciente para aprender a língua. Aprender uma idioma requer paciência e dedicação, não nos enganemos! Acontece que os galegos partem com vantagem em relação ao português.

PGL: Quais são os nossos pontos fracos do ponto de vista da aprendizagem do português de Portugal?

FV: Na minha opinião, o pior obstáculo à aprendizagem do português por um galego é uma certa resistência psicológica. Ouve-se infelizmente muito pouco português (e outras línguas, exceto o castelhano) na Galiza, de modo que, quando tomam contacto com a nova língua, dizem “que raro!” (em português diríamos “que estranho!”) e torcem o nariz! Pois! É necessário abrir a mente e o coração (no sentido da predisposição e vontade) e estar à espera das maiores bizarrias – afinal, e deixando agora de lado as questões de se são a mesma língua ou não, é outro mundo, como dizíamos há pouco! Então, temos todos direito a ser diferentes, a ter coisas e sons e palavras esquisitas (tanto no sentido português, como no galego). Isso é riqueza!

PGL: Que temos a ganhar os galegos e as galegas ao estudarmos português na cidade do Porto?

FV: Obviamente, têm muito a ganhar. A imersão linguística continua a ser uma das formas mais eficazes, fáceis e charmosas de aprender uma língua, sobretudo se é próxima à nossa, como é o caso. Entender como funcionam certas expressões no dia-a-dia, em que contextos são usadas, interiorizar a musicalidade da língua, começar a perceber os pequeníssimos matizes não só fonéticos, mas semânticos do nosso idioma – tudo isto só se aprende verdadeiramente in loco. E, além disso, o Porto é uma cidade fantástica, cheia de gente genuína, desde a alta sociedade ao zé povinho, com grupos sociais urbanos muito diversos e que, neste momento, é muito visitada por estrangeiros. Todo o galego ou galega devia ter, pelo menos uma vez na vida, uma namorada ou namorado português e vice-versa. Aí está uma boa proposta para abrir pontes entre os dois povos: aprender línguas com amor!

PGL: As aulas dos aPorto decorrem na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Um local privilegiado para lecionar língua, não?

FV: Sim, a Faculdade de Letras da Universidade do Porto é uma referencia académica incontornável não só na cidade, mas no país. Criada em 1919 por Leonardo Coimbra, um importante filósofo português, é uma instituição de excelência, onde estudaram e lecionaram nomes como Adolfo Casais Monteiro, Agostinho da Silva ou Óscar Lopes. Conta com uma biblioteca de cerca de 300.000 volumes e relvados muito convidativos no verão.

PGL: Os aPorto não recolhem apenas aulas de língua como também atividades sócio-culturais na jornada vespertina. Qual a razão de incluir esta focagem no curso?

FV: A sala de aula é uma espécie de laboratório e por mais ênfase que se ponha na comunicação não deixa de ser um ambiente artificial, apesar de representar em si mesma um acontecimento. As atividades socioculturais do curso têm como objetivo não só permitir um contacto especial com a parte cultural e social da cidade, mas levar os alunos a usar o português em situações de comunicação reais. Este tipo de aprendizagem é normalmente marcada “a ferro e fogo”, ou seja, permanece na memória, porque é verdadeira e significativa na experiência pessoal do formando.

PGL: Uma mensagem final para animar os leitores e as leitoras para se inscreverem num aPorto:

FV: O aPorto é uma semana de desafios e experiências novas: veste a pele do lobo e manda-te pra cá!

 

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