Néstor Rego (Sermos Galiza): «Apostamos pola abordagem da atualidade dos países lusófonos e por estabelecer fórmulas de colaboraçom que permitam partilhar recursos informativos»

«Todos os leitores e leitoras do PGL partilhamos o objetivo da plena normalizaçom da nossa língua e a decepçom pola desapariçom de meios em galego»

Quinta, 29 Setembro 2011 00:00

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Valentim R. Fagim - No último ano fôrom vários os meios de comunicaçom em galego que encerrárom, quer no tradicional suporte papel, quer no ciberespaço. Contudo, nesta dinámica negativa ainda parece haver espaço para o surgimento de novas iniciativas, como Sermos Galiza.

O nome de Sermos Galiza começou a soar para o público geral especialmente em começos do verao, ao pouco de se anunciar o fim do Galicia Hoxe, o único diário em galego editado na Galiza. Contudo, já desde antes disso se andava a trabalhar no projeto. O grupo promotor inclui pessoas de diferentes sensibilidades, com a aposta comum na necessidade de meios de comunicaçom em galego e em chave nacional. Do Portal Galego da Língua entrevistamos umha destas pessoas, Néstor Rego Candamil, professor e presidente da associaçom cultural compostelana 'O Galo'.

Valentim R. Fagim: Quando se começou a gerir o projeto de Sermos Galiza?

Néstor Rego: Acho que no mesmo momento em que se anuncia o encerramento do semanário A Nosa Terra, muitas pessoas começamos já a pensar na necessidade de recuperarmos esse espaço comunicativo. A convicçom de que era preciso agir e tomar a iniciativa fortalecia-se a cada notícia de encerramento de meios em galego, que se sucederam nos últimos meses. Consequência dessa convicçom, na primavera deste ano começamos a trabalhar na iniciativa lançada publicamente o dia 1 de julho.  Partimos de que a existência e consolidaçom dum espaço galego de comunicaçom é condiçom necessária para assegurarmos un espaço de decisom próprio a caminho do pleno autogoverno. Por isso, precisamos de dotarmo-nos de meios de comunicaçom próprios, que tenham como referência a Galiza e que partilhem o projeto de naçom. Na prática, o nosso labor encaminha-se para construirmos um grupo de comunicaçom que coloque na rua, no começo do ano próximo,  um diário digital e um semanário em papel, orientado para a análise e interpretaçom da atualidade. Sem descartar outros meios como a rádio, a começar pola digital.

VRF: Sermos Galiza nasce num momento crítico dos média em Galego com o desaparecimento de vários cabeçalhos, o que coloca muita responsabilidade neste projeto e deixa pouca hipótese de erro. Som conscientes disso?

NR: Somos.  Mas é precisamente essa situaçom a que nos levou a conceber este projeto como uma iniciativa social e coletiva. Sermos Galiza apela aos segmentos mais conscientes da sociedade galega para se comprometerem neste objetivo. Pretendemos criar umha empresa sólida, com umha base larga de pequenos e médios acionistas. Por isso optamos por açons de valor acessível (100 euros) e por estabelecer um limite de açons por acionista único nos 10%. Deste modo, a garantia de sucesso da iniciativa está nos próprios leitores e leitoras. E como a necessidade existe e, para além disso, é largamente sentida na sociedade galega, temos a segurança de que culminaremos o processo alcançando plenamente o nosso objetivo.

VRF: Um argumento que se lê com frequência para explicar o desaparecimento destes meios é a falta de compromisso dos sectores sociais favoráveis à promoçom social da nossa língua. Outros argumentos indicam, no entanto, a falta de adequaçom dos conteúdos destes meios com estes potenciais clientes. Qual a sua opiniom?

NR: Acho que na realidade existe – e nós vamos demonstrá-lo - compromisso com os meios em galego. E ainda uma consciência crescente do papel que devem jogar no processo de normalizaçom social da língua. Mas é verdade que, nalguns casos, houvo desafeiçom dos leitores como consequência da mudança de linha editorial. Outros nom souberom já, vítimas de umha combinaçom de preconceitos sociais a propósito da língua e timoratismo político, encontrar o espaço que lhes permitisse assentar-se socialmente. Porém, acho que o principal problema está na atitude hostil do atual governo galego com a língua e com os meios que a utilizam.

A eliminaçom dos subsídios para a normalizaçom do galego nos meios e a inexistência de qualquer outro tipo de ajuda –em contraste com a generosidade com a imprensa afeta ao sistema- foi decisiva para a desapariçom de vários cabeçalhos. É por isso que queremos remarcar que estamos a projetar um meio nom apenas em galego, mas tamém crítico, com uma linha claramente comprometida com a defesa da língua, da cultura e dos direitos sociais e nacionais da Galiza. É dizer, um meio aberto, plural, mas ao tempo crítico e alternativo. A voz que a sociedade galega precisa.

Apresentaçom de Sermos Galiza no Festigal 2011

VRF: Qual vai ser o tratamento e o espaço que se vai dedicar à Lusofonia?

NR: No documento básico, com que lançamos a iniciativa fazemos referência expressa à vontade de aproveitar sinergias comunicativas com os meios portugueses, prestando também atençom ao acontecer político e cultural dos países da lusofonia. Apostamos, portanto, nom apenas pola abordagem da atualidade dos países lusófonos, mas por estabelecer fórmulas de colaboraçom que permitam partilhar recursos informativos e ainda, que possibilitem um maior conhecimento da realidade da Galiza nos Estados da CPLP, especialmente em Portugal.

VRF: Sermos Galiza vai estar aberto a todas as sensibilidades linguísticas, em que modo?

NR: Com certeza. Embora o Grupo Promotor nom poda antecipar decisons que  corresponderám aos acionistas e gestores do meio umha vez constituída a sociedade, tenho a convicçom  pessoal, e acho que partilhada polos companheiros e companheiras, que também nisto o projeto que lança Sermos Galiza tem de ser diferente. Partimos de que a norma de redaçom seja a da RAG –evidentemente nas máximas possibilidades do acordo de 2003-, mas com absoluta liberdade para a utilizaçom doutras normas do galego, quer a da AGAL quer o padrom português, em colaboraçons e artigos de opiniom, se os colaboradores assim o desejarem.

VRF: Podemos aspirar, a médio prazo, a um periódico onde a presença de ambas as sensibilidades seja similar? Por outras palavras, a presença do galego-português irá ganhando paulatinamente espaços?

NR: Concebido desde a origem como um projeto coletivo, deverá continuar a sê-lo também no futuro, uma vez em funcionamento. Dito de outro modo,  o meio será o que as pessoas que o sustentam quigerem que seja, tamém no que diz respeito á norma.  Pessoalmente concordo na necessidade de avançarmos nessa direçom e acho que a aposta expressa pola colaboraçom com meios lusófonos encaminha para isso. Mas é claro que decisons como essa dependerám da sensibilidade e da vontade dos e das acionistas. Eis mais uma razom para todas as pessoas que compartem esta visom se tornarem acionistas de Sermos Galiza.

Apresentaçom de Sermos Galiza no Festigal 2011

VRF: Em termos de sustentabilidade, que capital social se necessita e, sobretudo, quantos assinantes?

NR: O nosso objetivo é alcançar um capital social de 300.000 euros. Entendemos que é perfeitamente possível e, ao tempo, suficiente para poder começar a operar com normalidade. Mais importante é o número de assinantes, porque um meio destas características só pode ser sustentável apoiando-se nos leitores e leitoras. Ainda mais na atual conjuntura de volatilidade do mercado publicitário e de hostilidade da quase totalidade das administraçons públicas. Para garantir a viabilidade do meio precisamos, no mínimo, 3.000 assinantes.

VRF: Quanto deve ser o peso da subvenção pública num periódico destas caraterísticas?

NR: Numa situaçom como a do galego é razoável, e ainda necessário, o apoio público para contribuir para a normalizaçom da língua, também na mídia. Aliás, é isso o que prevê a legislaçom atual. Mas é também evidente que nom existe vontade real de promoçom da normalizaçom da língua na imprensa por parte do governo galego.  Daí que o realista seja pensar um meio que, sustentado nos leitores, nom dependa nem dos subsídios públicos nem da publicidade. Apenas assim ficará garantida a independência e continuidade do projeto.

VRF: Para finalizar a conversa, qualquer cousa que gostava de dizer...

NR: Todos os leitores e leitoras do Portal Galego da Língua partilhamos o objetivo da plena normalizaçom da nossa língua e portanto também, disso estou certo, a decepçom pola desapariçom de meios em galego. Agora é o momento de partilhar a  paixom e o compromisso para a construçom entre todas e todos dum novo projeto. Um meio em galego, aberto  e plural, crítico e comprometido. O meio que a Galiza precisa. De nós depende.


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