«Como um galeguista podia (e pode ainda) pensar que as instituições nacionais espanholas e o ensino nacional espanhol podiam (e podem ainda) “normalizar” o galego?»

«Suspeito que há uma possibilidade de o reintegracionismo acabe sendo a posição hegemónica dentro do galeguismo cultural... numa Galiza praticamente monolíngue em castelhano»

Sexta, 09 Dezembro 2011 00:00

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Mário Herrero, autor de Guerra de Grafias, conflito de elites

PGL - Através editora vem de publicar Guerra de Grafias, conflito de elites, da autoria de Mário Herrero. O livro debruça-se sobre a construção institucional da língua galega, e sobre a relação entre Política e Língua nas décadas de 70, 80 e 90. No PGL quisemos conversar com o autor.

Acredita que os acontecimentos de 1982-83, Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego (ILG-RAG) e o decreto de normativização da Junta da Galiza (1983), eram inevitáveis, ou a história podia ter sido diferente?

Política ficção virada para o futuro. Não, obrigado. Política ficção virada para o passado. Também não, obrigado. Mas considerando a nossa inclusão no Reino de España, a história podia ter sido muito pior... Agora um bocadinho mais a sério: existindo na altura uma necessidade do nacionalismo espanhol de controlar o problema linguístico galego, não posso conceber outra história. Nacionalismo espanhol esmagadoramente maioritário. Nacionalismo galego sempre hesitante e que optou pola saída miserabilista nesta questão. Contra-elites lusistas numa posição estrutural muito fraca...

Eu digo às vezes que se polo menos as Normas do galego-castelhano – que foram, são e serão, por muito que lhes possa pesar aos seus criadores, a representação gráfica de uma forma do português – tivessem atingido um alto grau de consolidação entre grupos significativos de galego-falantes, algo ficaria para o futuro... E para o presente. Porém – e acho que é um magnífico exemplo da “ilusão necessária” (Chomsky dixit) que tem caracterizado o processo de planificação linguística desenvolvido na Galiza nos últimos trinta anos – algo teria sido conseguido, pouco talvez, mas algo socialmente tangível do ponto de vista da dignificação da língua e, sobretudo, dos seus falantes. Mas nem isso. Vivem-nos na falácia e agora já nem precisam de dissimular.

Devemos dizer que, nessa altura, não existiam elites galeguistas que se opusessem à legitimação dessas normas castelhanizantes?

Há elites galeguistas, no sentido político e, para este aspeto, glotopolítico, desde a criação das Irmandades da Fala. Portanto, existiam elites na altura e, evidentemente, foram elites galeguistas (culturais e políticas) que legitimaram intelectualmente essas normas. De facto, sem a legitimação dessas elites, nenhum poder político espanhol teria conseguido nada, senão a oposição – provavelmente global – do galeguismo cultural e político. E sem esse apoio, nuns casos entusiasta e noutros puramente pragmático, não teria sido possível articular essa “ilusão necessária”.

Com certeza, outras elites galeguistas (culturais) legitimavam intelectualmente outras normas, claro. Mas eram elites que contavam apenas com o fraco sustento de apenas uma parte, nem a maior, das escassas elites políticas galeguistas existentes na altura. Algum dia será necessário que alguém escreva a história geral do populismo (ou antes, do miserabilismo) sobre o qual se tem constituído o nacionalismo galego moderno. Explicaria muito da derrota sofrida na perspetiva linguística e sociolinguística.

Em termos glotopolíticos, que lição se pode tirar de 30 anos de "normalización linguística"?

Em termos glotopolíticos, que o projeto desenhado pelo nacionalismo espanhol para solucionar o problema linguístico galego vai, indubitavelmente, por bom caminho: a normalização sociolinguística do espanhol avança de forma imparável, enquanto a institucionalização do galego-castelhano atingiu os seus limites permissíveis e deve começar a retroceder em direção ao único lugar que o nacionalismo espanhol lhe pode conceder: o litúrgico. O genial furto que faz Fraga Iribarne de uma das armas fundamentais de luta política e cultural que tinha o nacionalismo galego (a língua) deveria constar dos manuais do governante democrático no capítulo dedicado à política e à planificação da identidade.

Em que cabeça de nacionalista galego com um mínimo de inteligência prática podia (e pode) caber a ideia de que as instituições espanholas podiam (e podem) fazer políticas contra a sua “língua nacional”, o espanhol? Pois a história nos diz que na maioria dessas cabeças de nacionalistas galegos... E eu, que não sou nacionalista, nem falta que faz, tenho dedicado demasiadas horas a tentar compreender este facto fundamental: como um galeguista podia (e pode ainda) pensar que as instituições nacionais espanholas e o ensino nacional espanhol podiam (e podem ainda) “normalizar” (no sentido dado polo nacionalismo galego a esta horrível palavra) o galego?

Para nos entendermos, em poucas palavras, que tipo de relação existe entre corpus planning e status planning?

São duas faces, complementares, da mesma moeda: a planificação da identidade sociolinguística de indivíduos e grupos. É preciso desmontar, de forma permanente e até insistente, a falácia de serem duas perspetivas independentes (o famoso “o importante é normalizar” e grosserias intelectuais do estilo) que podem ser analisadas, e implementadas, separadamente: uma norma linguística é um instrumento básico para qualquer processo de planificação sociolinguística e o próprio ser dessa norma linguística (não apenas a face ortográfica) é uma referência essencial para saber o que essa planificação pretende. No caso galego é obscenamente evidente.

Mas, repito, sem a colaboração ativa de uma parte das elites galeguistas – nuns casos penso que bem-intencionada e noutros, sinto dizê-lo, por puros interesses de medra pessoal – o nacionalismo espanhol não teria triunfado como de facto triunfou na Galiza. Ou, por outras palavras, a derrota teria sido um pouco mais digna porque a inexistência de uma sociedade civil galeguista, acho, não permite intuir, nem antes, nem agora nem muito menos no futuro, a remota possibilidade de atingir uma vitória pírrica (assegurar a permanência futura do português da Galiza numas condições mais ou menos dignas), para não falarmos já de uma vitória completa (alcançar para o português da Galiza a qualidade de língua socialmente hegemónica).

Os motivos por que o movimento lusófono galego não chegou mais longe socialmente, nos últimos 30 anos, são de ordem externa ou interna?

Sendo irónico, posso dizer que temos a razão mas que não somos anjos, mas humanos, demasiado humanos. Os erros cometidos são numerosos do ponto de vista das estratégias, e não apenas. Devo dizer que, infelizmente, nas décadas de 1980 e 1990 os personalismos e as inimizades pessoais impediram, em boa medida, qualquer possibilidade de expansão socialmente mensurável.

A resistência e a persistência já são em si próprias, penso, um puro milagre grupal. Parece que isso começou a ser superado a partir da década de 2000. O funcionamento da AGAL nos últimos anos e a criação de uma incrivelmente heterogénea Academia Galega da Língua Portuguesa são, em minha opinião, bons exemplos de uma mudança importante de rumo. Para que falarmos dos fatores externos? Todos podemos fazer uma listagem de agravos pola nossa militância, uns mais do que outros. O Reino de España não perdoa excentricidades.

No livro analisa a questão do ponto considerando as organizações (RAG, ASPG, AGAL, etc) como agentes neste conflito. Até que ponto o fator pessoal deveria ser também considerado também numa análise deste conflito?

Já tenho dito alguma cousa sobre isso em perguntas anteriores. Acho que o tema dava para outro estudo, que eu não farei. Em todo o caso, estaria muito mais interessado em estudar como o conflito tem afetado a vida (no sentido de conjunto de interações sociais, não apenas de aquelas vinculadas diretamente à questão linguística, e, sobretudo, nos aspetos passionais, sentimentais, familiares, etc.) das pessoas envolvidas nele. Quero dizer que, do ponto de vista puramente ético, haveria que fazer um estudo sobre o sofrimento, sobre a humilhação.

Seja como for, e de uma ou outra forma, acho que sobre o componente pessoal (e personalista) do conflito já tem escrito muito bem António Gil Hernández (Silêncio Ergueito, Temas de Linguística Política), um dos maiores intelectuais galegos e uma das pessoas que mais tem sofrido as consequências deste conflito. Nesse sentido, devo dizer que admiro a sua capacidade de resistência. Noutros casos, os resultados têm sido devastadores para as pessoas. De outro ponto de vista, é evidente que há pessoas fundamentais para compreender determinados aspetos da configuração do conflito e da sua evolução, é claro. Porém, o que eu fiz é um estudo de textos, não de atitudes.

Considerando outros casos semelhantes na Europa, que desfecho pode ter a curto prazo este conflito? E a longo prazo?

Do ponto de vista social, que é o que nos deveria importar, a progressiva menorização do português da Galiza até à sua desaparição como língua de uso social real, não apenas litúrgico, no longo prazo. No que diz respeito ao “conflito ortográfico”, penso que, como escrevo no final do livro, nada parece indicar que o status quo atual vá ser alterado radicalmente nos próximos anos.

O certo é que não me deixa de surpreender a capacidade de resistência do reintegracionismo – muito mais forte agora do que há vinte anos – e suspeito que há uma possibilidade de que acabe sendo a posição hegemónica dentro do galeguismo cultural... numa Galiza praticamente monolíngue em castelhano. Falo, claro, dos longos prazos. Esses que já não veremos. Espero que saibam desculpar a sinceridade, mas nunca me caracterizei pola minha capacidade diplomática. Olhem, acabei fazendo política ficção, e não queria. Muito obrigado. Saúde.

 

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