J. M. Barbosa: «O fator simbólico é fundamental para o ser humano»

“A estratégia do castelhanismo historiográfico e nacionalitário é ignorar-nos”, afirma o autor de Bandeiras da Galiza

Sexta, 16 Dezembro 2011 00:00

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José Manuel Barbosa, autor de Bandeiras da Galiza

PGL - Entrevistamos o investigador José Manuel Barbosa Álvares sobre seu livro Bandeiras da Galiza, cuja segunda edição acaba de ser apresentada pola ATRAVÉS|EDITORA, o selo editorial da AGAL. Neste trabalho, Barbosa realiza um percurso histórico pola simbologia galega desde os seus primórdios até à atualidade, baseado em fontes históricas fidedignas.

PGL: Que novas achegas nos traz esta segunda edição das Bandeiras da Galiza. Que de novo vai encontrar o leitor nesta segunda edição?

José Manuel Barbosa: Quando estava a sair a primeira edição, já tínhamos nova informação que já não podíamos incluir por ser tarde demais. Na primeira edição falávamos, por exemplo de a bandeira sueva ter o dragão rampante mas na imagem aparecia passante. Essa já é uma das novidades: a de incluirmos o dragão realmente rampante como anunciamos já em algum dos lançamentos feitos em 2006.

Falando de bandeira sueva, incluímos a referência a existência doutras possíveis estéticas relacionadas com ela...

Outra é a primeira bandeira portuguesa vinculada à simbologia galega medieval. Parece-me também interessante a inclusão da imagem da bandeira histórica das Astúrias, que nada tem a ver com a atual da Cruz da Vitória. Durante toda a Idade Média as Astúrias tinham uma bandeira com dous graais que a vinculam diretamente com a Galiza compostelana o qual, para mim que considero esse vínculo tão importante como o vínculo com Portugal, é salientável.

A correção das bandeiras dos "Ultreias" ou a correção estética do Escudo da Galiza desenhado por nós para este livro são mais alguma das novidades.

PGL: Por quê, quais são os motivos que levaram ao Prof. Barbosa a fazer divulgar este conhecimento da Historia da Galiza?

JMB: O fator simbólico é fundamental para o ser humano. Só há que ler algo de psicologia, algo sobre arte ou mesmo sobre sociologia. A identificação dos grupos humanos com aqueles símbolos que lhes dão identidade é tão óbvia e tão real quanto a identificação com as equipas de futebol ou os campeonatos desportivos ou as olimpíadas.

O facto de nos identificarmos com o nosso passado nacional ajuda a identificação duma pessoa com o seu povo, com a sua nação. Isso sabe-o muito bem o poder que quereria que a Galiza não tivesse hino, nem bandeira, nem seleção nacional, nem nada que pudesse identificar os galegos como tais.

O meu labor foi re-afirmativo, auto-identificativo e "arraigador".

PGL: Sobre a Bandeira Sueva sempre houve uma certa polémica. Como foi descoberta? como deve ser interpretada a documentação que sobre esta símbolo temos a nossa disposição?

JMB: A descoberta da informação sobre a bandeira foi lá por 2002 quando chegara às minhas mãos um livro "A coca e o mito do dragón" de Clodio González Pérez em que se fazia referencia a um texto de P. Perez Constanti em "Notas viejas Galicianas".  Nele falava-se dum documento da catedral de Lugo do século XVII. Esse texto foi o incluído na primeira edição, mas posteriormente tivemos informação do nosso companheiro Tomás Rodríguez de que havia um erro de transcrição por parte do autor do livro em relação ao texto da Catedral de Lugo de 1669. Logo que consultado o texto originário em castelhano do século XVII fornecido pelo companheiro Tomás Rodríguez, comprovamos que havia uma palavra que mudava: um "si" no original, por um "ni" na versão de Constanti e de González Pérez. Do ponto de vista do companheiro Tomás isso era motivo para acreditar na existência dum graal entre o dragão e o leão, ainda que para o nosso modesto entender não seria assim apesar dessa variação, viria, pelo contrário, a indicar uma posterior substituição do dragão e o leão por um graal.

PGL: Nos últimos anos abundam os estudos historiográficos com uma ótica galega. Que grandes linhas de investigação estão a oferecer? Que “verdades” estão a ser contestadas?

JMB: Eu sempre digo que para suster a nação galaica há que ter em conta dous pilares fundamentais: a língua e a história. Do ponto de vista da língua o reintegracionismo é o galeguismo linguístico mas do ponto de vista historiográfico os focos de investigação mais importantes e que reafirmam a Galiza como ente nacional, étnico e histórico são o estudo da pré-romanidade céltica e a Idade Média que é quando se conforma o nosso País com as caraterísticas com o que o conhecemos como tal. Se perdermos essas caraterísticas criadas sobre base desses pilares, a nação galega corre o risco de desaparecer como tal.

Na realidade não há contestação por duas razões: a primeira é que a estratégia do castelhanismo historiográfico e nacionalitário é ignorar-nos. Com essa estratégia tira-se-lhe poder à nossa reafirmação nacional. Se vierem frontalmente iam achar uma forte reafirmação e uma energia como não há em Catalunha ou no País Basco porque para eles nós somos parte duma civilização...de duas civilizações europeias que mesmo podem concorrer com a hispânica: a lusófona e a céltica; a segunda razão é que não há muito a contestar porque as provas documentais são muito evidentes e correriam o risco de se desprestigiarem de cara à comunidade científica e historiográfica internacional. Vem passando com isso algo parecido ao que acontece com a língua e o reintegracionismo: o isolacionismo causa surpresa e incompreensão porque não se adapta às necessidades e às metodologias da ciência. Na historiografia acontece igual.

PGL: Em que fase histórica surgem as bandeiras nacionais como tais? Como surgiu a bandeira nacional galega?

JMB: As bandeiras entendidas como as percebemos hoje são fruto do século XVIII, a ilustração e a revolução francesa e o Estado Moderno. A partir daí, a simbologia apanha a forma que conhecemos. Antes eram pendões reais, de famílias dirigentes, dinastias e identidades religiosas... mas essas deram as bandeiras atuais europeias e daí o resto das simbologias mundiais.

No caso galego se houver uma continuidade normal a bandeira galega poderia ser a do escudo do graal com as cruzes ou quiçá a do leão que aparece no escudo espanhol.

Se nos referirmos à bandeira atual...acho que o seu surgimento decorreu num contexto de submetimento e emigração. A sua feição não é tanto cousa dos galegos como duma simbologia militar naval espanhola e a sua conformação derivou duma decisão de Madrid. Estou certo que a qualquer defensor da identidade galega, isso faria-o recuar... Daí, dessa circunstância oproviosa (e pela minha condição de reintegracionista afeito a duvidar das cousas "evidentes"), vem a minha inquietação por estudar e popularizar a nossa vexilologia histórica e recuperarmos a nossa verdadeira simbologia, não a que nos foi doada por este Estado em que sobrevivemos como podemos.

PGL: Por que prevaleceu o referente mítico celta sobre o suevo na historiografia galeguista?

JMB: Acho que a dia de hoje as cousas começam a equilibrar-se nesse sentido: o referente céltico apanha cada dia mais força e não já como mito, mas como uma realidade reconhecida cientificamente. Com o estudo da genética e a dinâmica de populações somos capazes de reconstruir as migrações que da Galiza se fizeram às Ilhas Britânicas levando o que ali hoje se denomina de "céltico", língua e costumes, mitologia e religião, forma de perceber a guerra, o mundo, a morte, a vida e a existência. Nós fomos quem originamos o que há ali. Nós somos a Matriz e eles a dia de hoje já o sabem ou começam a sabê-lo.

A respeito do referente suevo, desprestigiado pela historiografia castelhanista, desde os estudos de Camilo Nogueira, Anselmo Lopez Carreira e outros, está tomando uma força que nunca deveu perder. O primeiro reino da Europa ainda existindo Roma, o primeiro reino de Europa que cunha moeda, o primeiro reino de Europa que aceita o cristianismo católico, o primeiro reino de Europa que tem uma legalidade administrativa e territorial escrita, o reino que exporta a mal chamada “letra visigótica” (melhor chamá-la do meu ponto de vista “letra suévica” ou “letra galaica”), o arco de ferradura (que hoje se diz árabe), o culto mal chamado moçárabe (que eu também chamaria “suévico” ou “galaico”) e mesmo o reino a partir do qual se originam o atual Portugal e a atual Espanha, não pode passar desapercebido. Esse reino era o chamado "Gallaeciense Regnum". Só a maldade política da Castela medieval pôde apagar esse reino da memória dos galegos, dos portugueses e do resto dos peninsulares. Só à Espanha castelhana não lhe interessa ter esse protagonismo galaico dentro dum contexto continental europeu.

PGL: O património material galego nunca tem recebido a atenção que outros patrimónios nacionais. Quais achas serem as causas? Que áreas estão mais desprotegidas?

JMB: A vontade do projeto político nacional castelhano visa fazer desaparecer totalmente todo resto de galaicidade da península ibérica. Isso vem sendo assim desde que a Galiza perde a sua soberania em favor de Castela. A partir do século XIII, quando Castela apanha o poder a Galiza desaparece dos documentos e isso continua hoje: sabemos que a começos do século XX desaparece uma cruz da vitória da catedral de Compostela. Essa cruz liga simbolicamente com a simbologia astur; há poucas semanas desapareceu o Códice Calistino por incompetência de quem tinha o dever de guardar tal joia...Isso diz todo o que há: Vontade de destruir um património. Se houver vontade não se perderiam as cousas nem se ocultariam outras e mesmo a Galiza estaria no lugar que lhe corresponde dentro do contexto peninsular.

As causas? Do meu ponto de vista a construção dum projeto nacional peninsular determinado no que a Galiza não tem lugar se for uma Galiza galega.

Eu acho que as áreas mais desprotegidas são absolutamente todas se estas reafirmam a Galiza como uma nação diferenciada do padrão castelhano. Quanto mais ignoradas pela gente do comum, mais desprotegidas. Daí a necessidade de conhecermos a Galiza na sua totalidade. História e língua sobre tudo, mas também os aspetos artísticos, filosóficos, antropológicos, geo-estratégicos..., etc.

 

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