Conexão Lusófona: «Com a interação lusófona, temos a ganhar uma visão mais aberta, mais descomplexada, com o mundo e connosco mesmos»

«A Lusofonia é um espaço em construção e totalmente aberto onde uma língua interpreta valores, normas e estruturas culturais que apesar de comuns, são diversas»

Quinta, 22 Dezembro 2011 08:24

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PGL - A Conexão Lusófona é uma iniciativa juvenil lusófona que «acabou por se tornar um movimento em prol da interculturalidade», explicam no seu website.

No cerne do projeto está uma rede social que promove a troca de experiência e conhecimento entre os falantes da língua portuguesa. É, portanto, «um espaço para jovens de todas as partes do mundo descobrirem e experimentarem o que de mais interessante e construtivo sob as suas próprias perspetivas, é produzido na nossa língua mãe». Literatura, música, arte, opinião e reflexão têm cabida no projeto.

Atualmente organizam atividades dirigidas à juventude lusófona, participam em fóruns e eventos juvenis ou de caráter lusófono, bem como atividades de voluntariado. Do Portal Galego da Língua realizámos esta entrevista para conhecer mais acerca do seu trabalho.

P: A Conexão Lusófona é uma associação juvenil criada em 2009 em Lisboa. Existem associações para as quais é difícil enxergarmos qual a sua missão. No vosso caso, o nome diz tudo.

R: Sim... a ideia foi mesmo essa. Embora a Conexão Lusófona, esteja idealizada para agir em diversas frentes, e ser acima de tudo uma plataforma que permite fazer muitas coisas, o que está na base de toda e qualquer atividade é mesmo essa ideia de “conexão” e cooperação entre as diversas culturas que compõem a Lusofonia assim como a interação deste espaço geográfico e cultural com o resto do mundo.

Dessa forma, podemos afirmar que a nossa missão passa fundamentalmente por trabalhar para o desenvolvimento de uma consciência lusófona através da realização de projetos que envolvam a juventude, promovam a interculturalidade e a troca de conhecimento no espaço da língua portuguesa.

O que queremos mesmo é promover esse sentimento generalizado de identificação e pertença à Comunidade de Países de Língua Portuguesa, ou à Lusofonia no seu sentido mais lato e, consequentemente, estimular a juventude a ter uma ação mais interventiva, mais cidadã neste espaço de todos nós.

Pela nossa experiência, este sentimento de pertença acaba por acontecer muito naturalmente através das similaridades, sobretudo culturais. Estas, por sua vez, costumam desencadear um processo muito interessante no qual, ao despertar para os pontos de semelhança o estágio seguinte costuma ser justamente o gosto pela descoberta das diferenças.

Neste momento, a nível interno, está feita a mistura perfeita que compõe o espírito de quem colabora ativamente com a Conexão Lusófona. A potencialização do alcance deste processo tencionamo-lo fazer de diversas maneiras.

P: A Conexão Lusófona começa a se gestar em Lisboa, talvez a cidade com mais presença dos diferentes braços da lusofonia.

R: Na verdade a Conexão Lusófona não se começa a gestar exclusivamente em Lisboa. Os primeiros debates, que de certa forma germinaram a ideia, deram-se essencialmente nas cidades de Lisboa e do Rio de Janeiro. Graças aos protocolos universitários, estas cidades costumam juntar bastantes jovens de diferentes latitudes lusófonas e que infelizmente, na sua grande maioria, nem sempre convivem assim tanto entre si. No nosso caso, houve essa excepção à regra. As conversas, os convívios, sempre foram regulares, extremamente agradáveis e enriquecedores e foi isso que nos fez querer levar esta ideia mais além.

Por outro lado, é também importante frisar que o projeto da Conexão Lusófona sempre se desenvolveu com base na virtualidade. Ou seja, todo o percurso que nos traz até aqui tem por base, muita troca de emails, conferências skype, mensagens de telemóvel, e ainda algumas viagens realizadas a título individual por alguns de nós. Por isso, quando nos perguntam em qual país a Conexão tem origem, nós simplesmente dizemos que essa questão não se coloca. A Conexão nasceu no país da Conexão Lusófona. Um espaço de afetos e cumplicidades com as fronteiras abertas para quem quiser entrar.

P: Um dos objetivos de Conexão Lusófona é a organização do I Encontro de juventude lusófona. Em que estádio está a iniciativa?

R: O Primeiro Encontro de Juventude Lusófona está projetado para vir no seguimento do Festival Conexão Lusófona com o seu circuito itinerante.

Se no Festival Conexão Lusófona se encontra prevista a realização de um ciclo de tertúlias, que pretende dar uma introdução genérica ao tema da Lusofonia, no Primeiro Encontro de Juventude Lusófona promover-se-á um segundo nível de debate, mais focado em temas concretos e em formato de universidade. Durante uma semana, pretendemos reunir especialistas e futuros líderes do espaço lusófono para debaterem em conjunto questões inerentes ao desenvolvimento e cooperação dos seus países e regiões. Neste momento encontramo-nos extremamente focados na realização do Festival itinerante da Conexão Lusófona, sem no entanto, deixar de manifestar desde já junto das instituições com quem nos estamos a relacionar, a vontade para a realização do Primeiro Encontro de Juventude Lusófona, idealmente a acontecer no final de 2012, início de 2013.

Captura de ecrã do website da Conexão Lusófona
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P: O caminho para a Lusofonia percorre-se social, económica e politicamente. Que passos económicos estão a ser dados?

R: Constatamos que os países da Comunidade começam finalmente a tomar consciência do potencial económico do seu espaço e parecem cada vez mais querer caminhar nesse sentido. Isso deixa-nos claramente felizes e esperançosos. Hoje, basta abrir um jornal de assuntos económicos e perceber que essa é a tendência. Da parte da Conexão Lusófona o passo económico mais significativo é dado quando estes jovens, uma vez despertos para a riqueza e potencial do mundo lusófono, passam a se tornar mais conscientes e ativos no meio social e económico em que estão inseridos.

Consequentemente se tornam mais empreendedores, produtivos e competitivos ao nível de mercado lusófono de trabalho. Seja pelo número de oportunidades que passam a vislumbrar, seja pelo alcance da sua força de trabalho, que passa a levar em consideração, locais que antes não mereciam muita atenção, como é o caso dos países de língua portuguesa. Acreditamos que poderá estar para chegar uma nova geração de lusófonos talentosos cada vez mais conscientes do potencial econômico do seu espaço.

P: Que temos a ganhar os lusófonos e as lusófonas dos diferentes cantos do mundo se nos inter-relacionamos?

R: Sempre ganhamos quando aumentamos nossos inter-relacionamentos e isso é em qualquer lugar do mundo. Do ponto de vista económico, quando falamos de lusófonos estamos a falar de um conjunto de países, que juntos têm perspetivas de desenvolvimento mais positivas que a média mundial. Isto significa mais oportunidades para todos. Do ponto de vista social, estamos a falar da facilidade de uma língua em comum que nos agracia com a riqueza de uma diversidade acessível e pouco encontrada nessa amplitude, em outras línguas.

Temos a ganhar uma visão mais aberta, mais descomplexada, com o mundo e connosco mesmos. Temos a ganhar uma oportunidade enorme de nos construirmos cada vez mais e melhor. Acima de tudo, construir um espaço de diálogo que ficou suspenso, através de uma nova geração que, consciente dos valores e afetos comuns, pode construir um futuro muito melhor.

P: O termo Lusofonia não é sempre pacífico e no Brasil ainda não vingou. Vale a pena mudar de termo ou é preferível divulgar o que já existe?

R: O conceito de Lusofonia é uma obra antiga mas um tanto quanto imperfeita...

Em muitos países/regiões é um conceito praticamente desconhecido e quando é conhecido, existem diferentes interpretações e correntes de pensamento. A reflexão lusófona é ainda um assunto das elites políticas e culturais, não tendo sido apropriado pela juventude e/ou pela sociedade em geral. O Brasil é só mais um caso prático de um país que na sua generalidade desconhece a ideia. A nosso ver, independentemente de Lusofonia ser ou não um conceito pacífico, já é alguma coisa que vale a pena continuar a construir. Muito sinceramente, estamos mais preocupados em contribuir para a construção do seu conteúdo, da sua essência, do que em alterar a sua forma. Trocar o nome de algo que embora não terminado, já começou, não faz para nós muito sentido... Achamos que evoluir, incluir e redimensionar são as palavras-chave em todo este processo.

P: As novas gerações serão capazes de superar os preconceitos das mais velhas?

R: As novas gerações têm a obrigação de superar os preconceitos das mais velhas e provar que vêem este mundo sob uma perspetiva diferente e, acima de tudo, concretizável. Se serão capazes? Estamos convictos que sim! Afinal, a geração Conexão, ou esta primeira geração da nova lusofonia, é uma geração de transição. Somos a primeira geração livre das mágoas e dos traumas de guerras e independências coloniais - não passámos diretamente por esses episódios, apenas ouvimos falar deles. A nosso ver, reúnem-se assim todas as condições para se iniciar uma nova fase no sentido da construção de um sentimento livre de identificação e pertença a esta Comunidade.

P: No vosso site aparece a Galiza através da conexão galego-angolana (galega-guineense!!) Aló, Irmão e da maravilhosa angolana-galega Aline Frazão. Que tem a Lusofonia a dar aos galegos e as galegas?

R: A Lusofonia é um espaço em construção e totalmente aberto onde uma língua interpreta valores, normas e estruturas culturais que apesar de comuns, são diversas e assentes nas particularidades dos vários países e regiões onde se inserem. Esta lusofonia abarca assim uma comunidade de diversidades que se quer manter e respeitar. Dentro desta diversidade cultural, todos aqueles que se sentem identificados e capazes de aportar essa diversidade, são naturalmente muito bem-vindos.

P: Quais seriam as melhores formas de divulgar a Galiza lusófona em Portugal e conseguir que o cidadão, a cidadã média portuguesa saiba que a norte do Minho está o berço da língua de Portugal, do Brasil, de Angola..?

R: Como dito anteriormente, todos aqueles que se identificam com um espaço lusófono são bem-vindos. A Conexão Lusófona não parte do particular para o todo mas do todo para o particular, isto é: potencia, comunica e transmite todas aquelas manifestações culturais que respiram a Lusofonia e que demonstram o que esta nova geração faz de melhor num espaço que os compreende e acolhe. A língua sendo um dos aspetos mais relevantes, porque é onde está assente a comunicação, é onde mais se concretiza esta visão. A diversidade deste elemento de comunicação comum, e que se manifesta nos vários artistas que são divulgados, é o que se quer manter e enriquecer. Não sobrepondo uma ou outra característica linguística seja de base na História, na Cultura ou no número de falantes, mas sim, fazendo conviver as várias particularidades que são afinal uma das grandes riquezas da Lusofonia.

 

Conexão Lusófona - Entrevista Económico TV

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