Concha Álvarez, professora de português no IES O Couto

"São necessárias políticas de fomento do ensino do português, e estas dependem de factores económicos, de utilidade... e nomeadamente de atitude; e o desleixo da Conselharia de Educação, dado o pensamento centralista deste governo, é patente"

Quinta, 05 Janeiro 2012 00:00

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Valentim R. Fagim - Entrevista a Concha Álvarez, professora de português no IES O Couto. A docente destaca “o alto grau de estima que os alunos tomam por Portugal e o Brasil, manifestando-o em muitas ocasiões com “veementes compromissos” de defesa de todo o português e brasileiro, havendo alunos que orientaram os seus estudos universitários e o seu futuro profissional nesse sentido”.

Concha, tu és professora de português no IES “O Couto”. Que é preciso que aconteça para haverem aulas de português no ensino obrigatório na Galiza?

Considero que o fundamental é criar vagas de português nos centros educativos, mas acho que, sendo esta uma questão muito importante, não é a única, porque nem sempre é esse o impedimento para lecionar português. Por vezes (e não é o meu caso) os obstáculos estão nos próprios centros. É preciso as equipas diretivas apoiarem claramente a implantação dos estudos de português e não porem entraves para evitar complicações de organização, infraestruturas, horários...

Mas, acima de tudo, precisamos a implicação favorável das administrações educativas.

Portanto, não existem vagas de português mas sim de francês e alemão. Que consequências tem isto?

Os professores que estamos a dar aulas de português somos professores de língua galega e literatura. Quando eu comecei a lecionar português, a Conselharia destinava um outro professor ao meu centro para dar as aulas de galego que eu deixava, mas agora com os “cortes”, no caso de haver horas no departamento de galego, já não há a possibilidade de lecionar português. Isto não ocorre com o francês e o alemão porque não dependem dum outro departamento.

Ao que parece, o português não é uma prioridade para a Conselharia de Educação. Quais podem ser as razões?

É claro que são necessárias políticas de fomento, e estas dependem de factores económicos, de utilidade... e nomeadamente de atitude; e o desleixo da Conselharia de Educação, dado o pensamento centralista deste governo, é patente.

Prioriza-se o inglês frente às demais línguas por razões de utilidade de índole científica, económica, social; mesmo outras línguas (francês, alemão, chinês...) são percebidas como mais úteis do que o português, porque se considera que este não precisa de um estudo sistemático devido à familiaridade e facilidade de compreensão para os galegos. Isto comporta uma atitude institucional desmesuradamente favorecedora do estudo do inglês frente ao português.

 

 

Atualmente todas as turmas que lecionas são de português mas isso pode vir a mudar, não é?

Esta é uma das situações com que nos encontramos os professores de português. No próximo ano letivo é provável haver uma reforma no departamento de galego e, como resultado, mais uma vez, das medidas restritivas da Conselharia de Educação, relativamente ao pessoal docente, essa vaga vai ser extinta e consequentemente eu terei de assumir as horas de galego, em detrimento das correspondentes, em número, de português.

Como incentivas os alunos e alunas que querem estudar português? Que argumentos utilizas?

Não devemos ser chauvinistas, mas também não devemos esquecer aqueles aspetos positivos que a forma histórica nos concedeu, e um deles foi termos gerado uma das línguas, hoje, mais faladas no mundo.

Há inúmeras razões para estudar português. É útil porque formamos parte da Euro-Região Galiza-Norte de Portugal, com importantes intercâmbios económicos e comerciais. É útil porque o Brasil é um dos grandes países emergentes...É útil porque é uma língua falada em todos os continentes... E além disso, porque para nós, galegos, é muito mais fácil do que qualquer outra língua.

Como docente, que ensinamentos tiras das aulas de português de Portugal e do Brasil na Galiza? Qual o teu grau de satisfação?

Os alunos chegam ao português com preconceitos: esperam uma “versão do galego ligeiramente modificada”. É comum surpreenderem-se da grande riqueza fonética e gramatical da língua. Justamente esta grande proximidade com o galego, especialmente para aqueles que o valorizam como um signo cultural, social e histórico, torna-se um importante elemento motivador para um maior interesse pelo seu estudo.

Os alunos adquirem, em sincronia com a aprendizagem da língua portuguesa, uma formação e uns conhecimentos amplos e globalizadores (geografia, sociedade, costumes, desporto, gastronomia, música...) relativamente ao Portugal e Brasil, históricos e atuais. Incrementam a sua destreza no uso das novas tecnologias (informáticas e audiovisuais, em geral) ao usá-las de forma rotineira como recurso de apoio metodológico. Graças a elas podemos ter aulas amenas e motivadoras, e de grande rendimento didático e pedagógico.

O meu grau de satisfação?

A maioria dos alunos adquire um nível aceitável/bom no uso da língua. Portanto, sinto-me recompensada pelo meu trabalho e a minha dedicação pessoal.

Além disso, tenho de salientar o alto grau de estima que chegam a ter, por meio da língua portuguesa, por Portugal e o Brasil, manifestando-o em muitas ocasiões com “veementes compromissos” de defesa de todo o português e brasileiro, havendo alunos que orientaram os seus estudos universitários e o seu futuro profissional nesse sentido.