Carlos Garrido: «O ideal para o galego é umha configuraçom lexical próxima da das línguas de cultura comunicativamente eficazes e socialmente estabilizadas»

«O galego deveria dispor de um léxico dialetal claramente delimitado, e de um léxico supradialetal também claramente definido»

Terça, 10 Janeiro 2012 09:26

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Carlos Garrido, autor do trabalho, é o presidente da Comissom Lingüística da AGAL

PGL - O presidente da Comissom Lingüística da AGAL, Carlos Garrido, publicou recentemente o trabalho Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom. Nesta obra indica um caminho para a plena regeneraçom do léxico galego e lança os alicerces de umha codificaçom lexical eficaz do galego-português da Galiza.

Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom é um volume de 800 páginas profusamente esmaltado com reflexons, diagramas e exemplos, todo num estudo do léxico galego que representa o contributo mais profundo e mais ambicioso até agora realizado nesse domínio.

PGL: Como nasce a ideia de elaborar Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom?

Carlos Garrido: O estímulo remoto para estudar a natureza da atual degradaçom do léxico galego e as correspondentes estratégias regeneradoras disponíveis vejo-o na minha condiçom de neofalante culto que se incorpora a tempo completo ao galego a partir do castelhano, língua, esta, de imensas possibilidades expressivas e de ingente oferta cultural; o contraste entre a plenitude lexical que experimentava enquanto utente de castelhano e as estreitezes a que me reduzia a codificaçom isolacionista do galego lançou-me a umha ativa procura dos recursos expressivos e da coerência interna que a codificaçom e os usos «oficialistas» tam flagrantemente sonegam ao galego. Além disso, esta perceçom da problemática lexical do galego ainda se viu agudizada pola minha dedicaçom ao exercício e ao ensino da traduçom, a qual constantemente me punha à vista as insuficiências e deficiências dos usos lexicais induzidos pola codificaçom RAG-ILG. Já como estímulo próximo para a elaboraçom da presente monografia, devo assinalar a publicaçom na Agália, em 1999, de um trabalho breve sobre léxico, em que expunha um modelo analítico da histórica degradaçom lexical do galego baseado em diversos fatores degradativos e atitudes nom regeneradoras; desde entom ficara com a impressom de que esse modelo tinha um alcance e umha utilidade que o artigo só parcialmente explorava, de modo que se revelaria conveniente no futuro ampliar a dita análise num texto de mais largo fôlego, o que vim a cumprir em 2005, quando encetei a composiçom da monografia Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom.

Carlos Garrido no ato institucional do 30º aniversário da AGAL

PGL: Qual é o objetivo deste estudo?

CG: Em correspondência com a sua natureza de monografia, Léxico Galego: Degradaçom e Regeneraçom é um estudo ambicioso, que visa atingir umha pluralidade de objetivos. Para já, trata-se de descrever mediante um modelo, de modelizar, os fatores que historicamente tenhem determinado o estado de descaraterizaçom e de disfuncionalidade que hoje padece o léxico galego, e tal análise é efetuada em relaçom ao léxico da fala espontánea, ao léxico dos utentes cultos de galego e ao léxico padronizado polos codificadores (isolacionistas); como fruto dessa análise da degradaçom do léxico, no livro delineia-se umha estratégia encaminhada à plena regeneraçom lexical, baseada numha desinibida coordenaçom com o luso-brasileiro, com o que, de facto, se estám a lançar os alicerces para umha codificaçom lexical verdadeiramente eficaz. Naturalmente, é, neste contexto, o movimento reintegracionista o coletivo chamado, em primeiro lugar, a beneficiar desta fundamentaçom codificadora, e também a pô-la em prática, polo que a monografia apresenta grande profundidade analítica e atende questons de muita releváncia para umha padronizaçom ecuménica do galego, como o tratamento dos particularismos lexicais galegos, a conceituaçom dos castelhanismos, a variaçom diatópica e diacrónica do léxico galego-português, etc.

PGL: Como se organiza a monografia?

CG: No nível hierárquico superior, a monografia consta de três partes: umha primeira dedicada, por um lado, a expor os termos e os conceitos fundamentais do modelo de degradaçom lexical e, por outro, a patentear, mediante umha série de exemplos reais de uso lexical, a atuaçom e a natureza dos diversos fatores degradativos; na segunda parte, a mais extensa da monografia, estudam-se, sucessivamente, os fatores de degradaçom lexical que historicamente afetam a vertente galega do galego-português: a variaçom (geográfica, diafásica, diastrática) sem padronizaçom, a substituiçom castelhanizante, a erosom e suplência castelhanizante, a estagnaçom e suplência castelhanizante e os usos diferencialistas; já na terceira e última parte da obra, oferece-se umha síntese das conclusons mais relevantes do estudo e tecem-se reflexons sobre as linhas de açom sociolingüística que, vinculadas à plena regeneraçom do léxico galego, deveriam ser seguidas para afirmar hoje a sobrevivência da nossa língua.

Num nível hierárquico inferior, os capítulos da segunda parte consagrados a cada fator de degradaçom lexical analisam, em primeiro lugar, a incidência do correspondente fator degradativo sobre a fala espontánea atual em todas as suas manifestaçons; em segundo lugar, a partir da análise de tais manifestaçons degradativas e dos correspondentes efeitos deletérios, delineia-se, em resposta a cada fator de degradaçom, a estratégia regeneradora mais eficaz e ponderam-se os aspetos gerais da sua execuçom; a seguir, aparece em cada caso umha secçom de natureza crítica destinada a denunciar as atitudes nom regeneradoras que, frente a cada fator de degradaçom lexical, manifestam os atuais sistemas de codificaçom do galego, em especial o da RAG-ILG, e a mostrar como tais atitudes hoje prejudicam o desempenho lexical dos utentes cultos da língua; encerra cada capítulo umha reflexom sobre as possibilidades de aplicaçom da estratégia regeneradora proposta.

Devo dizer que o plano inicial da presente obra incluía também umha parte de percurso histórico e sociocultural do léxico galego, mas tal estudo, efetivamente abordado e concluído, por causa dos constrangimentos hoje padecidos, só poderá vir a lume no futuro, se para tal houver ocasiom.

PGL: Observamos que o estudo é muito amplo e inclui numerosos casos e exemplos. Qual é o motivo dessa exaustividade?

CG: Justificado pola extensom típica do género monografia, nesta obra prolonguei muito, com efeito, as listas de exemplos e de estudos de caso. Razons para tal proceder há várias: por um lado, estudar o léxico nom é como tratar da morfossintaxe, de modo que, quando um estudioso aspira, como foi o meu caso, a aproximar-se da exaustividade na descriçom ou na análise de problemas lexicais, deve lidar com um grande número de significantes e significados, e com muitas relaçons entre os elementos, o que consome espaço; por outro lado, esta monografia também aspira a constituir-se em compêndio das atitudes que o galeguismo e a galeguística tenhem historicamente mostrado em face da degradaçom lexical do galego e, nesse contexto, também, infelizmente, em denúncia sistemática das inibiçons e intervençons despropositadas exibidas polos correspondentes codificadores.

PGL: Julga que a  maioria dos utentes é consciente dos problemas de degradaçom do léxico galego?

CG: Acho que o estado de maciça degradaçom que hoje padece o léxico da esmagadora maioria dos utentes de galego, tanto na fala espontánea como na língua de vocaçom culta, é percebido, mormente, de modo subconsciente, embora, infelizmente, de forma plenamente atuante. Refiro-me a que sociedade galega está a desprender-se da língua, como se dum lastro se tratasse, a um ritmo acelerado, e para essa desafeçom contribui a perceçom social, errada mas efetiva, e decididamente alimentada polo deficiente modelo codificador patrocinado polo poder autonómico, de o galego, e o seu léxico, constituir um código formal e funcionalmente subordinado ao castelhano, deficitário em personalidade e expressividade e de limitada utilidade. Quanto às esferas da comunicaçom culta e especializada, a perceçom da degradaçom lexical do galego é nelas amortecida pola circunstáncia de a penetraçom real da língua ser, em muitos casos, apenas superficial (pensemos no raquítico uso que ainda hoje se fai do galego na imprensa, na sanidade, na justiça, nos desportos, na docência profissional e universitária, no ensino e divulgaçom da ciência, na socializaçom da técnica...), e pola passiva aceitaçom, e mesmo ativa promoçom, de um léxico galego profusamente recheado, e até crivado, de castelhanismos e vozes artificiosas, que desnaturam e inutilizam a língua. Nesta última faceta, é claro, tem umha enorme responsabilidade grande parte dos integrantes do denominado sistema literário galego, os quais, se nom for por escandalosa ingenuidade, parecem estar a comportar-se como os cortesaos do rei nu do conto de Andersen.

PGL: Às vezes há quem apresente a variedade de sinónimos com distribuiçom dialetal como umha riqueza lingüística que nom se deve perder. Como considera esta afirmaçom, no contexto da tese que defende?

CG: O ideal para o galego nesta altura é que apresente umha configuraçom lexical semelhante à do castelhano, do inglês, do alemám, etc., quer dizer, próxima da das línguas de cultura comunicativamente eficazes e socialmente estabilizadas. Nessa condiçom, o galego deveria dispor de um léxico dialetal claramente delimitado, utilizável, conforme os casos, para o colóquio e para usos cultos marcados (literatura de ambientaçom rural, p. ex.), e de um léxico supradialetal também claramente definido, utilizável na comunicaçom formal, especializada, internacional (ensino, administraçom, meios da comunicaçom social, ciência, técnica, liturgia, literatura em geral...). Assim, por exemplo, poderá ser julgado útil e enriquecedor conhecermos, como formas dialetais, nozelho e ril, mas, nesta altura, é muito mais interessante estarmos cientes de que as variantes geográficas galegas tornozelo e rim som as de caráter internacional, as únicas galegas usadas e reconhecidas por c. 200 milhons de pessoas, e as únicas galegas utilizadas por cirurgiaos (que falam variedades da língua galega), e as únicas galegas registadas em publicaçons de traumatologia e de cirurgia de transplantaçom (compostas em variedades da língua galega).

PGL: Qual julga que, no que di respeito à incorporaçom do léxico culto, é a causa de os organismos codificadores do galego modelo ILG-RAG nom assumirem na prática o que na teoria exponhem nos princípios que regem as suas Normas ortográficas e morfolóxicas do idioma galego?

CG: Com efeito, na «Introdución» às suas normas ortográficas e morfológicas, a RAG e o ILG proclamam que, para a habilitaçom de léxico culto e técnico-científico, o português será considerado recurso fundamental, mas, depois, nos seus dicionários, e nos usos lexicais que os representantes dessas instituiçons fam, predominam as vozes cultas de origem castelhana e, mesmo, neologismos por eles inventados. A causa principal para um comportamento tam incoerente pode apreciar-se no prólogo que Antón Santamarina redigiu para a última ediçom do Vocabulario Ortográfico da Lingua Galega (VOLGa): trabalha-se com a ideia de que o galego nom pode, nem deve, abandonar na Galiza a sua condiçom subsidiária, subalterna, a respeito do castelhano, de modo que, assim como a ortografia do galego tem de ser, para a atual RAG, a castelhana, também no léxico o galego “nom pode levar muito a contrária ao castelhano”. De modo secundário, umha outra causa para tal incoerência será a incompetência técnica, a limitaçom analítica, dos codificadores do ILG e da RAG, o que se patenteia no facto de, nessa introduçom das NOMIGa, estes codificadores limitarem ao «léxico culto, e nomeadamente no referido aos ámbitos científico e técnico» a conveniência da coordenaçom com o luso-brasileiro, porque, na verdade, nom é apenas o léxico culto e especializado que deve entrar, por coerência metodológica, nessa categoria regeneradora da coordenaçom intrassistémica, mas, de facto, todo o léxico moderno, posterior ao século XIV ou XV, incluindo-se aqui elementos lexicais correspondentes à vida quotidiana (ex.: boiom [= cast. potito], cartaz, coreto, esferográfica, gíria, nomeaçom, óculos, patamar, redigir) e os próprios, até, das gírias e do calom (ex.: chumbar umha disciplina, fazer cábula, rusga [policial; = cast. redada]...). A propósito, nem a voz redigir nem a voz gíria som registadas no VOLGa, mas, no cúmulo de umha feliz inconseqüência, Antón Santamarina utiliza as duas palavras num recente artigo da sua lavra, e o ILG escreve xiria no seu sítio internético!

PGL: Quais som as conseqüências para a nossa língua de nom se aplicar umha adequada estratégia de regeneraçom do léxico?

CG: É fácil ver que, com a estratégia aplicada pola RAG e polo ILG ao léxico galego, em que grassam a inibiçom e a intervençom despropositada, som freqüentes a descaraterizaçom, por aceitaçom resignada da avassaladora influência do castelhano, a irresponsável renúncia a usufruir as imensas vantagens da unidade lingüística galego-portuguesa e, sobretodo, a disfuncionalidade comunicativa. A monografia exemplifica e analisa pormenorizadamente cada um desses efeitos degradativos, que hoje prejudicam grandemente o prestigiamento e a utilidade social do galego.

PGL: Com freqüência encontramos no modelo de galego inspirado na norma isolacionista vozes cultas como icona que chocam aos ouvidos de qualquer galego-falante. O que acha destas escolhas lexicais?

CG: Casos como o do neologismo *a icona, inventado pola RAG e polo ILG, representam o cúmulo da incompetência e da irresponsabilidade desses codificadores, pois, como é possível que umha pessoa que pense em galego se ponha a instaurar umha denominaçom para um conceito do ámbito cultural e produza e divulgue, sem  qualquer vergonha, umha soluçom tam disforme, por cacofónica, e, portanto, tam disfuncional como essa? Atreveriam-se esses codificadores a propor para o castelhano a soluçom paralela el icoño? Estou certo de que nom! Isso só se entende sob a óptica de umha falta de compromisso real com a promoçom social da língua e do papel subsidiário que a ela é atribuído. A verdade é que o caso de *a icona (o ícone, em galego correto) já tinha um desonroso precedente no seio da codificaçom RAG-ILG na denominaçom *o cu para a letra quê, aberraçom hoje felizmente corrigida após insistente denúncia por parte do Reintegracionismo; mas o grave é que ainda estám vigentes nos repositórios lexicais da corrente isolacionista vários casos similares, gritantemente cacofónicos ou “hilariantes”, que denunciamos na monografia, como as soluçons *o cono (forma parelela a cast. *la coña), em vez do correto o cone, ou *a silicona (forma paralela a cast. *el silicoño), em vez do correto o silicone; ou denominar ano ao ánus, de modo que, como caberá entendermos enunciados como «Ten sesenta anos, pero aparenta menos» ou «Consérvase ben, tendo en conta que é unha persoa entrada en anos», que a RAG incluiu num dos seus últimos dicionários?; a RAG chama, de modo incoerente e com subordinaçom ao castelhano, *calzóns às cuecas, i. é, a umha peça de roupa interior masculina, mas, entom, os futebolistas e outros desportistas, que os locutores da TVG dim que vestem calzón(s), praticam o seu desporto em trajes menores!

Enfim, sem necessidade de chegarmos a esses extremos de neologia descabelada e hilariante, o mais triste é que podemos multiplicar, como fai a monografia, os exemplos de usos lexicais avalizados e patrocinados pola RAG e polo ILG que som claramente disfuncionais, e redundam na inferioridade expressiva do galego face ao castelhano, e os quais se devem, basicamente, ao desprezo pola coordenaçom com o luso-brasileiro, a única estratégia verdadeiramente emancipadora para a expressom galega, como mostra a monografia. Para pôr só dous exemplos finais desta triste circunstáncia: escolhe-se peto para denominar o bolso (por exemplo, das calças), mas peto também é, em galego, entre outras cousas, um pequeno recipiente para acumular pequenas poupanças, de modo que enunciados como «guardou o dinheiro no peto» é fácil resultarem ambíguos; a RAG denomina, incrivelmente, cobras às cobras-capelo, de modo que o seu dicionário pode afirmar sem rebuço a falsidade de que «as cobras son moi velenosas»...

Carlos Garrido com outro dos seus trabalhos,
a 2.ª ed. do Manual de Galego Científico

PGL: O seu trabalho é o primeiro destas caraterísticas na Galiza: como acha que (ou em que) contribuirá para a codificaçom do léxico galego?

CG: Penso que a diagnose que a monografia efetua dos males que na atualidade padece o léxico galego e a identificaçom das correspondentes medidas paliativas e regeneradoras que nela também fica feita podem e devem servir de alicerces para umha codificaçom eficaz do nosso léxico. Essa virtualidade poderá ser realizada ou atualizada, de modo imediato, polo Reintegracionismo, e, nomeadamente, pola Comissom Lingüística da AGAL, que me honro em presidir, e a qual, de facto, já tem pronto um documento codificador do léxico galego, de próxima publicaçom, que se pauta, em boa medida, polas orientaçons contidas na monografia.

Fora do ámbito do reintegracionismo, no campo do atual oficialismo, os efeitos benéficos que umha proposta como a de Léxico Galego. Degradaçom e Regeneraçom poda vir a exercer demorarám, receio, muito mais tempo, dado que a sociedade galega ainda está longe de constituir, por falta de cultura democrática e de tradiçom cívica e intelectual, umha verdadeira sociedade aberta. Ao respeito, quando estou otimista, penso que talvez a monografia contribua para suscitar algumha reaçom no oficialismo, similar àquela que levou à expurgaçom de *o cu como nome de letra; no entanto, quando estou pessimista, penso que esta obra, como todas as do Reintegracionismo, constituirá apenas um testemunho exonerador deixado ao futuro, a manifestar que nem todos éramos parvos, nem todos irresponsáveis, nem cúmplices passivos de umha injusta e insidiosa agressom contra o património e a identidade do nosso povo... Enfim, oxalá este pensamento se revele enganado!

 

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