Ondjaki, o talento angolano

  • Dia 1 de fevereiro, 20:00, Ondjaki na EOI de Vigo, sob a organização do Departameto de Galego e do Departamento de Português: "A literatura angolana hoje"
  • Dia 2 de fevereiro, 19:30, Ondjaki na Biblioteca Ângelo Casal (Compostela), sob a organização da AGAL: "Conversas com Ondjaki"

Segunda, 30 Janeiro 2012 00:00

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O escritor angolano estará vários dias na Galiza

Carlos Quiroga (*) - Prosador e poeta, com aventuras de artista plástico e de cineasta, está traduzido para várias línguas (francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco) e já recebeu alguns prémios (Sagrada Esperança, António Paulouro, finalista Telecom, Grinzane). Os da minha rua (2007), que agora apresenta Biblos, foi distinguido precisamente em Portugal com o APE de Conto.

O uso delicado da língua portuguesa que Ondjaki pratica, liberado patentemente na sua poesia (Actu Sanguíneu, 2000; Há prendisajens com o xão, 2002; Materiais para confecção de um espanador de tristezas, 2009), é capaz de manter com intensidade o apelo prolongado como contador de estórias. Os romances (Bom Dia Camaradas, 2001; O Assobiador, 2002; Quantas Madrugadas Tem a Noite, 2004; AvóDezanove e o segredo do soviético, 2008) e os outros contos (Momentos de Aqui, 2001; E se amanhã o medo, 2005) ligam-se não só por esse trabalho na matéria verbal, mas também pela matéria narrativa e o mundo contado.

Todo um universo relacionado que levanta um autor já com uma voz reconhecível, atingida com rapidez admirável. Porque alcançar uma dessas vozes costuma demorar na carreira de um escritor. O seu estilo abre portas diretas ao sentimento, algo bem imediato quando o destinatário da narrativa é um aparente público infantil (Ynari: a menina das cinco tranças, 2004; O leão e o coelho saltitão, 2008). Mas até nestes emprendimentos há sempre um trabalho de escrita por trás. E é sempre um deleite degustar os resultados. De escrita falamos brevemente com Ndalu de Almeida (Luanda, 1977), mais conhecido por Ondjaki. Um talento angolano.

–Até que ponto se transfigura uma memória concreta em Os da minha rua?

Quase tudo nesse livro é verdade... A partir das memórias verdadeiras, o que faço é buscar um olhar de ternura para chegar a episódios literários. São memórias concretas e fragmentadas que dão um conjunto cronológico a esse livrinho. Ele faz parte dessa trilogia sobre a minha infância em Luanda (juntamente com “bom dia camaradas” e “avóDezanove e o segredo do soviético”). Talvez ainda tenha que escrever mais um livro sobre esse período...

–A pátria da infância é território predileto da literatura e também deste livro –e ainda doutros da tua autoria. Em ti, mais do que estratégia narrativa, é uma necessidade emocional?

É um misto de necessidade emocional com necessidade literária. É um material que está aqui (dentro), disponível e armadilhado, afetivamente, para ser levado aos livros. Então é só ir buscá-lo, saber moldá-lo ao sabor da estória que vou contar. Sem dúvida que é um vasto território, às vezes perigoso, às vezes enganoso porque pensamos que conhecemos muito bem a nossa infância, e isso nem sempre é verdade. É preciso entrar lá com um espírito cuidadoso de quem é um convidado. Eu convido-me para lá estar, por algumas horas ou momentos, e volto ao presente com algumas estórias. Mas respeitando sempre esse delicado universo.

–Os professores cubanos e as estórias da revolução deram mais concretamente um Bom dia, camaradas, e creio teres dito que ainda podem dar mais obra. Pensas revisitar o assunto?

Penso sempre revisitar a infância. É um lugar de não fronteiras, de territórios abstratos e vastos. É a combinação dessas memórias que me fascina, que me dá vontade de escrever outras estórias. Às vezes fico restrito ao universo das minhas memórias, e dos meus afetos, às vezes misturo com as vidas e os passados dos outros. É bem possível que haja mais um livro sobre essas infâncias luandenses...

–A ensonhação mágica de raiz africana, bem patente por exemplo em O Assobiador, vai à tona com alguma continência noutros livros. Tens consciência dessa inclinação onírica, seja na vertente temática ou ainda na verbal?

O “Assobiador” é um livro que me aconteceu sem eu ter pensado muito nele... Foi quase uma surpresa que fui deixando acontecer. Acho que essa inclinação onírica ela está dentro, ela está na minha linguagem, nos meus objetivos literários. Mas eu só quero é, de vez em quando, escrever uma boa estória. Com os materiais que estiverem ao meu alcance, tentando melhorar a cada livro, claro. Nos últimos anos tenho estado mais preso a Luanda, e a universos ficcionais quase realistas... será uma pena? Talvez... Mas talvez seja um caminho, talvez necessário passar por isso para voltar aos contos e às estórias mais abstratas, mais próximas dessas inclinações oníricas... a ver vamos...

–Estudar seis meses cinema em New York, filmar o documentário com Kiluanje Liberdade, trabalhar no Brasil com o Tabajara Ruas..., são muitos indícios de um outro rumo possível. A dedicação ao cinema continua estando ao lado? Pode acabar substituindo a dedicação à escrita?

Não, acho que não. Não sei quase nada de cinema, e fiz o documentário porque queria mesmo dizer algumas coisas sobre Luanda, naquele formato. Formato de escutar as pessoas de Luanda a falarem sobre a sua cidade e sobre as suas vidas. Não atrapalha. Vai complementando. Volto à escrita munido de outras experiências, além de que, eventualmente, filmar é um vício. Gosto de filmar. Gosto de observar o mundo e as pessoas pela lente de uma câmara... Mas não sei onde é que isso me vai levar. Mas estou aberto.

–Moras atualmente, e desde há algum tempo, no Rio. É uma escolha ocasional ou tem fundamentos de perdurabilidade?

Ah, não sei... Realmente não sei. Neste momento parece-me coisa de durar. Ter aqui uma casa, estar com pessoas daqui, do Rio, é já uma realidade. Mas sem perder o contacto com as outras pontas da nossa língua portuguesa, vou muito a Angola, procuro estar atento, escrevo para jornais angolanos, gosto de ouvir as estórias... Vir morar para o Rio não foi escolha ocasional, foi algo que resultou de escolhas pessoais. São novas aprendizagens...

–Apesar da vida movimentada e até cosmopolita, a tua escrita continua ligada a uma identidade angolana. Achas que isso pode mudar com o distanciamento geográfico?

Espero que não. Mas não é em relação à identidade angolana que me preocupo. Tenho mesmo é da linguagem, é de vir a ser afetado no meu modo de pensar literário, ou no meu modo criativo de escrever. A língua portuguesa falada e escrita no Brasil tem uma força muito grande sobre os outros falantes desta nossa língua, e é disso que tenho medo. Das influências inconscientes... Mas, repito, estou aberto. Se tiver que ser influenciado, muito bem, que receba e trabalhe com boas influências... Afinal nem a Língua nem as pessoas são entidades estanques, de pedra. Somos todos humanos, até a língua. Com os seus ritmos próprios e os seus sangues, mas também o que nos chega dos outros e das suas culturas...

–Esse mesmo amplo conhecimento do mundo dá-te também uma perspetiva rica acerca da unidade e diversidade da Língua Portuguesa. Tendo estado várias vezes na Galiza, e até tendo-nos dedicado palavras no JL, como vês agora e desde essa experiência “o caso galego”?

Olha, o que se chama “o caso galego” vejo com grande preocupação. Sempre estive na Galiza pelas mãos e pelos olhos de pessoas que prestam muita atenção à questão cultural e linguística da Galiza. Isso foi-me alertando para as vossas questões, para as vossas dúvidas e buscas. E o que me entristece é que, do ponto de vista institucional, quer vosso, quer das instituições de Língua Portuguesa, o “caso galego” existe muito pouco. Acho que a verdade é essa. Esta temática cultural da Galiza tem de ser mais discutida, continuamente problematizada, e deve contar, pelo menos, com a solidariedade de outros membros da Comunidade de Língua Portuguesa. Portanto, sim, urge que haja mais debate, mais pressão, para que se fale, para que se discuta, para que os outros saibam das vossas questões.

Ninguém sabe, em Angola, o que se passa culturalmente com a Galiza. Nem no Brasil. E em Portugal, muitos poucos também têm consciência disso. É preciso divulgar, debater, construir polos de opinião. E aí, se vocês o desejarem, trazer essas vozes ao vosso debate. Penso ainda que há muito “ruído”, muitas vozes, mas uma ausência de propostas concretas, e de alternativas concretas. Quando isso acontece, vence quem está sentado no poder. E assim vai o mundo. É por isso que todos os dias sonho com a palavra “debate”. Para falarmos. Para inventarmos novos modos de falar sobre as mesmas coisas. Para que no nossos presente, cada um de nós contribua para o surgimento de novos formatos culturais. É que ainda que os políticos se esqueçam, a cultura é feita de pessoas. Infelizmente, nem sempre “com” as pessoas...

 

 

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(*) Fotos Slobodan Saric.