Laiovento edita antologia de conto brasileiro

“A ideia com esta antologia é oferecer ao leitor galego uma rara oportunidade de conhecer o que de melhor há hoje na literatura brasileira”

Segunda, 06 Fevereiro 2012 00:00

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PGL - Recentemente saiu do prelo da Laiovento uma coletânea de autores e autoras do Brasil sob o título O Conto Brasileiro Contemporâneo. A antologia foi coordenada pola professora galega Carmen Villarino e o escritor brasileiro Luiz Ruffato. O PGL entrevistou-nos para dar a conhecer aos nossos leitores e leitoras os passos que levaram a esta interessante edição que, com certeza, será apreciada polos amantes do Brasil, que na Galiza são especialmente numerosos.

Toda coletânea, seja do género que for, implica uns critérios de escolha. Quais foram neste caso e porque estiveram motivados?

Luiz- Nossa preocupação foi fundamentalmente escolher textos que fossem representativos do ponto de vista estético, mas também que cobrissem as várias regiões sócio-culturais do Brasil. Assim, temos autores nascidos de norte a sul do país, além de um equilíbrio entre homens e mulheres. Mas, prevaleceu, sempre, o critério da qualidade do texto.

Carmen- Escolhemos um livro de contos porque queríamos mostrar parte da fértil produção contística brasileira na atualidade. Nas últimas duas décadas (num fenómeno parecido ao acontecido nos finais da década de 60 e inícios da década seguinte), é percetível no sistema literário brasileiro um interesse crescente (em termos de produção, edição e consumo) polo conto e pretendemos mostrar parte da variedade que essa produção significa.

O livro, ainda que podendo ser editado em Portugal, foi-o na Galiza. Por quê? Que ideia pretende oferecer-se ao leitor e à leitora galega com esta seleção?

L-Portugal, curiosamente, interessa-se pouco pela literatura brasileira contemporânea. Há alegadas razões linguísticas (o português em geral teria dificuldade de compreender o português brasileiro escrito), mas há também verdadeiros problemas editoriais. Os autores que constam da antologia abriram mão de seus direitos autorais, já que esta edição na Galiza não tem, como ponto de partida, interesses financeiros. Se fosse para uma edição em Portugal, comercial, os autores não abririam mão dos direitos autorais. A ideia com esta antologia é oferecer ao leitor galego uma rara oportunidade de conhecer o que de melhor há hoje na literatura brasileira.

C- Pretendíamos que a produção brasileira atual chegasse diretamente ao público galego, sem mediações; com um produto que trouxesse aquilo que de mais representativo estava sendo feito no Brasil da virada do século XX para o XXI.

O projeto pretendia que a ponte cultural Galiza-Brasil fosse evidente e que pudéssemos trazer no original um livro que poderia ser editado no Brasil de hoje e ter a mesma validade que sendo editado na Galiza.

 

 

Carmen Villarino | Foto: LVG

 

O Brasil, mercê ao seu crescimento económico, está a projetar uma nova imagem no exterior, de facto, a de uma potência mundial. Como influencia esta nova “marca” imagem cultural do Brasil?

L-É fato que o Brasil é hoje protagonista da economia mundial. Estivemos sempre associados à imagem de um país subdesenvolvido em todos os setores, inclusive cultural. E os europeus e norte-americanos principalmente sempre nos viram como sinônimo de sol, samba, mulheres peladas, futebol e papagaios. E isso muito por culpa nossa também, pois os governos sempre investiram nessa imagem exótica. O que há hoje é que queremos mostrar um país complexo. Temos problemas terríveis para resolver, como os ligados à educação, saúde, corrupção, meio-ambiente, etc, mas ao lado disso temos muito a oferecer. No caso da literatura, creio que ele pode ofertar ao leitor estrangeiro a possibilidade de conhecer um país mais próximo do real: diverso e complexo, mas fascinante.

C- O fato de a imagem do Brasil estar mudando a nível internacional em termos económicos, sociais e políticos faz com que, nos inícios do século XXI, os investimentos em políticas culturais –dentro e fora do país- estejam sendo mais visíveis, também aquelas medidas que visam uma projeção exterior do país em termos culturais. A divulgação internacional de produtos culturais como o cinema ou a música brasileiras começa a incluir também, nos últimos anos, a exportação de produtos literários.

A presença do Brasil em feiras do livro internacionais –nomeadamente em Frankfurt 2013, como país homenageado- mostra parte dessas novas dinâmicas.

Que papel joga a literatura na sociedade brasileira? E no ensino?

L-A literatura no Brasil sempre teve um papel secundário nos debates da sociedade. E não é diferente agora. Temos um índice de analfabetismo funcional enorme e uma educação pública e privada de péssima qualidade. Mas aos poucos a figura do escritor começa a ter relevância social e as escolas começam a compreender a importância da literatura na formação do cidadão. Tudo ainda muito precário. Mas já é um começo.

C- A essa visão acrescentaria o fato de se evidenciar uma maior visibilidade social do/a escritor/a brasileiro/a nos últimos anos participando de campanhas de divulgação cultural e literária nos diferentes estados do Brasil e, ao mesmo tempo, um interesse mediático importante polas festas literárias e bienais do livro que proliferaram por todo o país (Flip, Fliporto, Forum das Letras, Jornada de Literatura de Passo Fundo, etc.), em que o escritor é a figura central.

Que medidas se poderiam colocar sobre a mesa para um melhor entendimento entre o Brasil e a Galiza?

L- Os brasileiros não conhecem a Galiza. O primeiro ponto deveria ser uma politica de aproximação cultural entre Brasil e Galiza. Já há um início de entendimento nesse sentido mas ainda é pouco... Hoje, não tenho dúvida, por incrível que pareça, creio que há mais afinidade entre nós que entre os brasileiros e portugueses, inclusive porque há menos pontos de tensão...

C- Concordo com que a aproximação cultural entre o Brasil e a Galiza seria fundamental para um melhor (re)conhecimento mútuo e que isso teria implicações noutros âmbitos. Uma das formas poderia ser favorecendo mais contatos entre homólogos no campo cultural –mas não apenas- e apoiando parcerias entre os dous países.

 

 

Luiz Ruffatto | Foto: Tyrannus Melancholicus

 

Que papel toca à Galiza no seu relacionamento com o Brasil? Como nos podemos visibilizar?

L- A Galiza deveria ter uma política voltada para disseminar a ideia de que somos, os brasileiros, galegos na origem...

C- Concordo totalmente e acho que uma das formas de visibilidade que a Galiza pode adotar como estratégia é a de mostrar a sua produção cultural atual e, sobretudo, mostrar-se como um país moderno.

Que pode ser atrativo do Brasil na Galiza?

C- Na Galiza há, de modo geral, um interesse e uma atração forte polo Brasil (fundamentalmente pola emigração galega) e mostrar o país como um espaço alargado da nossa cultura e próximo de nós em termos linguísticos e culturais é um modo de o fazer mais atrativo.

Para quem quiser aprofundar no relacionamento e na presença galega lá e brasileira cá, a que deve prestar atenção?
L- Há uma enorme comunidade galega no Brasil. Um dos pontos iniciais deveria ser o incentivo para que essa comunidade se assumisse como tal. Ela não se sente galega, até porque durante muitos anos galego no Brasil foi sinônimo de gringo, em algumas regiões, ou de pobre em outras... O intercâmbio cultural, nesse sentido, deveria ser priorizado...

C- No livro consideramos útil incluir um glossário final (da autoria de Laura Blanco de la Barrera) que ajude aqueles/as leitores/as pouco acostumados/as com textos brasileiros. Entendemos que fórmulas como esta possam ser úteis para introduzir mais textos da cultura brasileira (não apenas literários) no mercado galego e que o intercâmbio seja mais frutífero, sem ter que recorrer a fórmulas estranhas para quem comparte uma mesma língua.

O estranhamento que podem produzir alguns textos brasileiros –como pode acontecer com alguns contos do livro que mostram um registro coloquial que os torna mais complicados- não deveria afastar-nos deles, como também não afastam as letras de músicas que ouvimos ou os filmes a que assistimos.

 

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