Higino Martins: «O drama do último moicano nom se pode desejar a ninguém»

Professor galaico-argentino já está em terras galegas vindo de Buenos Aires

Segunda, 15 Dezembro 2008 16:51

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Higino Martins Estêvez chegou à Galiza

PGL - A sexta dia 12 à tarde, e com algo mais de umha hora de atraso, chegou ao aeroporto de Lavacolha perto de Santiago de Compostela, o membro de honra da AGAL e académico da AGLP Higino Martins Estêvez, máxima autoridade académica nos estudos célticos da Galiza e da língua dos calaicos.

No mesmo aeroporto aguardavam-no o Secretário e o Presidente da AGAL e Heitor Rodal, o editor do seu último livro: As Tribos Calaicas – Proto-História da Galiza à luz dos dados linguísticos.

Higino Martins abraçou-se emocionado com todos, chegava canso depois de umha longa viagem na que passara do verao portenho ao inverno galego. O seu rosto franco, transparecia a alegria de estar de novo pisando a terra a que pertence, esteja onde quer que ele estiver. Recebeu informaçom de tudo, e já estava pronto para essa noite se deslocar ao pub Modus Vivendi de Compostela no que ia ter lugar um recital de Iolanda Aldrei e onde estivo acompanhado por muitos amigos e pessoal que o quer e admira.

É de salientarmos o mérito do seu editor Heitor Rodal, a machina que fez que Higino pise de novo a Terra, pois foi capaz com o seu entusiasmo, sentido e capacidade, de dar a andamento o formoso projecto de Ediçoes Galiza. Projecto que nom podia nascer com melhor estrela, como som as duas obras já dadas à luz, obras marcantes, O Atlas Histórico da Galiza, o primeiro livro desse tipo feito desde a Galiza e a sua história, magnificamente bem editado e que está sendo um sucesso de vendas, e agoraAs Tribos Calaicas – Proto-História da Galiza à luz dos dados linguísticos.

Higino Martins trabalhando com a toponímia e os dados linguísticos desvenda-nos o conhecimento de feitos afastados no tempo mas ainda marcantes do nosso presente em que ecoam, como ele em nom pouca medida pom de manifesto ao trazer-nos o conhecimento das épocas mais longínquas e primórdiais do nosso país.

No livro tratam-se as questões a ver com as razons profundas que havia na estrutura dos conventos romanos, as tribos calaicas todas que conformavam os espaços de cada convento, e muita cousa mais. Estám recolhidos trabalhos do professor Higino que se remontam a polo menos os últimos 25 ou 30 anos, e todos juntos apresentam um corpus unitário e uma lente privilegiada para nos mergulharmo no ser e viver de aqueles tempos, e para os projectar sobre o nosso presente.

Estamos certos que vam ser muitos os nossos visitantes que vam gostar imenso da leitura de tam apaixonante livro. Durante esta semana o professor, tal e como foi anunciada, tem umha densa agenda de apresentaçons e actos, aos que encorajamos a participar todos os amigos e leitores, pois vale realmente a pena compartir a sua presença humana e a sua sabedoria.

 

Para fazer boca, deixamos um aperitivo: a entrevista em vídeo que Higino Martins concedeu ao PGL no sábado dia 13 de dezembro em Ourense. Para nom perder...

 

 

Nota: a pouca iluminaçom do local onde foi realizada a entrevista impediu umha melhor qualidade na gravaçom. Embora isso, achamos de interesse divulgar o documento.

 

Transcriçom da entrevista com Higino Martins

 

Como se vive o galeguismo com um oceano polo meio?

Os galegos estám em todas as partes do mundo, de maneira que um lugar onde se concentrárom maciçamente tem que ser um lugar que algum testemunho deve dar, tem de dar, forçosamente. Foi umha meca... quinta província. Hoje passei por Santiago por um lugar de comidas chamado 'A Quinta Província', nom sei se será um novo imigrante na Galiza, pero isso dá, nesse breve sintagma, a ideia do que se trata. Ainda que sejamos rastos, pero talvez podamos dar algum testemunho.

Que tipo de vínculos tem a emigraçom galega com a Galiza?

Os vínculos reais som os sociológicos das viagens que dantes se davam da Argentina para a Galiza e agora dam-se da Galiza para a Argentina, normalmente esses... Pero continuam, existem, a pesar de que poda existir umha certa sensaçom de enrarecimento, porque evidentemente fazer a viage é a verdadeira maneira de realizar um sonho da ciência ficçom... É a máquina do tempo, por várias razons que nom vamos desenvolver agora.

Na Argentina Adigal leva oferecendo cursos de galego-português há muitos anos. A distância ajuda a interpretar com mais clareza o quadro linguístico e cultural da Galiza?

Eu suponho que a distáncia - suponho e tenho a persuasom, de que a distância permite ter umha ideia global mais atinada, nom permite fazer análise sociológica que algo que unicamente in situ se pode realizar. Os cursos, já acabamos de encerrar o 32º, começaram no ano 77 ininterrompidamente. Agora, se temos vida, em Maio de 2009 começaremos o 33º ano, em vários lugares.

Que se pode esperar da classe política galeguista no campo da língua?

É misterioso. A História galega é uma História cheia de surpresas, onde os acontecimentos, aparentemente, nom venhem produzidos polo labor humano, ainda que evidentemente o labor humano nom pode ser descartado, pero é umha História cheia de surpresas produzidas por erupçons do inconsciente colectivo, poderíamos dizer de umha maneira simplificada. Como som problemas milenares, som sumamente inter-realizados, reprimidos, precisamente decorre por erupçons. Suponho que nesse ponto podemos ter esperança que é fundamental. Eu estou certo.

O senhor é especialista nos povos pré-romanos que habitárom a Gallaecia. Que o motivou a investigar essa esfera do saber?

A problemática da transculturaçom que foi o que primeiro motivou o curso de galego, porque do que se tratava e de que o galego nom desapareça porque se desaparece o galego desaparece o povo galego. A identidade é dolorosíssima, o drama do último moicano é algo que a ninguém se lhe pode desejar, o exílio que Sócrates nom quijo tomar.

De maneira que essa transculturaçom recusada foi o que me levou a insistir, a teimar no problema secular histórico do povo galego que tinha umha transculturaçom outra nas costas. Essa transculturaçom que tivo muito mais tempo do que se suponha, porque depois da conquista romana o céltico chegou a durar, estou em condiçons de provar no livro que vou apresentar agora, durou mais de 1.000 anos. Arredor do ano 1.000 começa a desaparecer definitivamente a fala dos montanheses que nom deixavam registros como ali está o testemunho da etimologia de Urraca.

Ainda temos agora em proceso de investigaçom umha duraçom suplementar nos Ancares que poderia ter durado quatro ou cinco séculos mais a partir da etimologia de um nome de família exclusivo dos Ancares que é Deiros, que é um nome que unicamente pode ser interpretado a partir de um nome céltico testemunhado na Irlanda, um teónimo céltico.

Pode o galego na Galiza seguir o mesmo caminho que levou à desapariçom do céltico?

Eu confio em que nom. A diferença fundamental dá-se, neste caso, em que temos Portugal nas costas e Portugal é umha situaçom absolutamente diferente, qualitativamente que muda a situaçom de tudo. O céltico foi a primeira lingua indoeuropeia ocidental indiferenciada que unificou Europa pero finalmente recuou, deixou de existir aproximadamente arredor do ano 1.000 também no Maciço Central francês e na Suiça Ocidental e poderia haver alguns outros lugares que irám aparecendo.

Pero o caso do galego vai ser mais resistente porque hoje temos muitas forças que estám animadas e temos precisamente o encosto necessário em Portugal.

Como é que interpreta o assunto do Celtismo? É a língua, nomeadamente a base toponímica, um argumento sólido para o mesmo?

A toponomía é o único registro que nos permite recuperar, recobrar a memóra de um período absolutamente olvidado. Através da análise da toponímia, e nom é umha análise requintada, impossível de fazer, chegou debruçar-se e apanhar, estava tudo, porque a gramática histórica, pondo as coordenadas, hoje é umha ciência exacta. Portanto nom tem problema, o problema vinha dado por interferencias de tipo político, essas interferências de tipo político fôrom as que figérom a desfeita da cova céltica, a ridiculizaçom porque consideravam que era umha bandeira do galeguismo.

Agora sabemos que celtistas há em toda a Europa, os vizinhos castelhanos também som celtistas, porque nom vamos nós descobrir exactamente qual foi o nosso passado. O nosso passado está aí, esse passado vai fazer felizes aos galegos e também aos vizinhos, a todo o mundo, nom pode haver triunfos na morte do adversário (nom falo de adversários, a minha mulher é castelhana, está claro?).

O amor á pátria é amor puro, nom é ódio a ninguém, ainda que às vezes tenhamos colaboracionistas muito perigosos e sobretodo muito medo, medo a ser politicamente incorrectos. Pero fazendo, transpassando aí temos o clique necesário para ingressar um novo País.

Alguma palavra para recuperarmos?

Palavras galegas? Tantas existem... Agora estám a fazer a recolhida na Academia Galega da Língua Portuguesa e confio em que vai haver várias categorias, nom só as que farám parte da língua comum fazendo pares ('coisa' á par de 'cousa'), senom também vocábulos exclusivamente galegos, e mesmo alguns cunhados na época do galego médio, diria eu bralar que é produto de um certo declínio ou ruiva, pero que de alguma maneira estám arraigados ali e que dam testemunho sem prejuízo para o conjunto.

Como analisa o Acordo Ortográfico do português?

É umha pedra basilar. Verdadeiramente o Acordo é algo necessário e que nom tem que ir em detrimento de ninguém, que nom vai ferir ninguém. Evidentemente as resistências sempre aparecem, pero terám de ser vencidas com a boa vontade e pola inteligência e pola compreensom e o diálogo, porque o valor que está em perigo aqui é um valor importantíssimo, muito mais importante do que pudera ser esse pequeno amor próprio ferido.

Qual devia ser o papel da Galiza nesse Acordo?

Na Galiza é importante também porque a Galiza está do ponto de vista fonético e do ponto de vista léxico mais próximo do Brasil, está geográfica e animicamente e muitos outros aspectos do folclore e da tradiçom popular mais próximo de Portugal, de maneira que pode fungir de gonzo entre ambos. É um território onde todo o mundo pude sentir alegria da recuperaçom, tantos uns como os outros. Os brasileiros porque no século XIX nom queriam charmar-lhe português à sua língua, bem superamos nós também esse problema pero fôrom os brasileiros os que dixérom «nós falamos a língua galega», o artigo de Barreto, tam difundido que foi. Bem de maneira que estamos na situaçom perfeita para fazer adiantar o processo em geral. Vai ser pura felicidade.