Marisa Moreda, leitora de galego em Braga

"A minha mãe, que nunca estudou português, esteve em Braga e pudo comunicar-se sem problemas nos cafés, nas compras etc."

Sexta, 02 Março 2012 00:00

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Marisa Moreda

PGL - Marisa Moreda é licenciada em Filologia Galega pola UDC, tem trabalhado na Universidade da Corunha e no ILG e agora é leitora de galego em Braga onde dirige um programa de rádio: Galiza mais perto.

Como é o teu dia a dia?

O meu dia a dia em Braga não é muito diferente a como eram os meus dia a dia na Galiza. No semestre passado não tive muitas aulas, assim que nestes primeiros meses desfrutei de tempo para conhecer a cidade.

A integração não foi muito difícil e às vezes mesmo tinha de pensar: “Ah, não estou em Compostela, estou em Braga”. São cidades muito parecidas (clima, arquitetura, ambiente estudantil...) e o carácter das pessoas e a língua facilitaram enormemente a minha adaptação.

Foi talvez a inexistente barreira linguística (e também cultural) a que me permitiu integrar-me mais rapidamente na sociedade bracarense. Sempre que volto à Galiza as pessoas perguntam: e que tal com o português? Percebes? Eu sempre ponho o mesmo exemplo, pois acho que é muito representativo. A minha mãe, que nunca estudou português, esteve em Braga e pudo comunicar-se sem problemas nos cafés, nas compras etc. Porém, uma colega estremenha, que tinha estudado durante o verão português e que vinha cá para fazer uma investigação, encontrou maiores dificuldades tanto na compreensão como na produção.

Uma excursão a Braga, ou a qualquer outra cidade do Norte de Portugal, seria uma boa forma de lhe mostrar à sociedade galega a potencialidade da língua.

Qual o conhecimento médio que os teus alunos e alunas têm da nossa realidade linguística?

A maioria dos alunos e alunas tem conhecimentos sobre o galego e sobre a Galiza pois a proximidade faz que muitos deles tenham viajado lá ou mesmo passado férias. Eles distinguem perfeitamente o que é Galiza, um lugar onde –como eles dizem– podem falar à vontade, e Espanha. Em relação com isto, lembro que no primeiro dia, quando fui às finanças, o senhor que lá trabalhava olhou para mim e disse: “não gosto dos espanhóis... sorte que a menina é galega”. Também fiquei chocada quando vi que nas lojas do centro da cidade têm a bandeira galega com um texto de Rosalía de Castro. Algo assim é impensável na Galiza atual.

 

 

Que impulsionou as tuas alunas e alunos a se inscreverem?

Alguns inscrevem-se por curiosidade e outros por questões laborais. Quase todos querem apresentar-se às provas CELGA para poderem optar a um emprego na Galiza. Este ano a Xunta de Galiza não realizará provas fora do âmbito do Estado, mas a proximidade permite-lhes apresentar-se e fazer a prova em Vigo. Mais um fator que os anima a se inscreverem é o facto destes cursos estarem isentos de propinas.

No primeiro semestre ofereceu-se um curso nível B1 e inscreveram-se 8 alunos e agora venho de ministrar um intensivo com 18.

No segundo semestre, além dos cursos de língua que oferece o Babelium-Centro de Línguas, também lecionarei a disciplina de “Cultura e Literatura Galegas”, uma opção das licenciaturas de “Línguas e Literaturas Europeias” e “Estudos Portugueses e Lusófonos”. Acho que este estudantado terá motivações diferentes.

Numa entrevista que fizemos a Miguel Arce, leitor em Lisboa na altura, afirmava que "A difusão da cultura galega em Portugal e nos países lusófonos como o Brasil, obviamente tinha de atender mais a aspetos de difusão da literatura e da cultura que a ensinar a norma". Que opinas ao respeito?

O labor dos leitores e das leitoras dos CEG das distintas universidades vai mais aló do ensino da língua. Em Portugal, a diferença do que sucede em outros países onde a comunicação não é possível sem um conhecimento prévio de galego, tenho a possibilidade de trabalhar em distintos âmbitos da sociedade. Um setor que considero muito importante é o da mocidade e por isso, na próxima semana, estarei numa escola de secundária de Braga (Escola Sá de Miranda) para abrir com o estudantado um diálogo que espero seja muito enriquecedor.

O caso dos cursos de língua é um bocadinho diferente, pois o facto de os alunos e as alunas se apresentarem às provas CELGA faz que tenham de aprender a norma para passar a prova. O estudantado é consciente desde o primeiro dia da proximidade do que eles falam e o que têm de aprender, e isto fez que o nível mais baixo ofertado seja um B1.

 

 

Marisa Moreda dirige um programa de rádio: Galiza mais perto, na Rádio Universitária do Minho. Como é a sua estrutura? Qual a sua função?

O programa “Galiza mais perto” foi iniciado no ano 2010 por Inês Rodo Montes, anterior leitora do CEG da Universidade do Minho. Já anos antes, por volta do 1998 o leitor que nesse momento estava cá, Pedro Dono, conduziu um programa “Ondas do mar de Vigo” onde a música galega era a protagonista.

“O Galiza mais perto” é uma iniciativa da Rádio Universitária do Minho, uma rádio com uma forte componente cultural e de divulgação científica, das novas correntes da música, da literatura, do cinema e das artes. Eles propuseram um programa semanal onde a música galega tivesse presença e onde se partilhara informação sobre outras questões culturais da Galiza.

O objetivo do “Galiza mais perto” é o de aproximar, através das ondas, a cultura e a música da Galiza ao Norte de Portugal. O programa costuma estar dividido em duas partes, a primeira é dedicada à música mais tradicional e a segunda é um espaço para dar a conhecer o que os novos grupos galegos estão a fazer. Além da música damos informações sobre concertos e outras atividades na Galiza, assim como sobre questões culturais que podem ser de interesse para os ouvintes do “Galiza mais perto”. Iniciamos uma nova secção “Entrevistas além Minho”, conduzida por Ro Dourado, que desde a Galiza enviará as conversações com pessoas do panorama cultural galego. Pudemos escutar já na RUM a entrevista realizada a Lorena Souto, ganhadora do XXIV edição do Prémio Nacional de Poesia Xose Maria Pérez Pallarés.

Aproveito para vos convidar a participar no “Galiza mais perto”, que se pode escutar em www.rum.pt, pois o programa deve funcionar como elo entre as duas bandas do Minho.

Como te sentes sendo uma embaixadora da Galiza em Braga?

Embora não leve muito tempo em Braga, acho que sou uma afortunada por poder dar a conhecer a Galiza e a sua cultura numa sociedade que se mostra aberta ao diálogo.

O trabalho das pessoas que antes estiveram cá (Pedro Dono, Carlos Pazos e Inês Rodo) facilita muito o meu labor, pois o CEG já está presente nass atividades que se organizam anualmente em Braga (Feira do Livro, Jornadas do Conto etc.). Espero que a minha estadia em Portugal me permita achegar um bocadinho mais a Galiza e Norte de Portugal.