Asisko Urmeneta: «Das opinions mais repetidas após ver 'Gartxot' seria a frase "o que é que nos figérom!"»

Hoje, dia 22 de março, às 20h, colóquio com o diretor no C. S. 'O Pichel', em Santiago de Compostela

Quinta, 22 Março 2012 00:00

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Autocaricatura de Asisko Urmeneta

Séchu Sende / Valentim R. Fagim - No dia 23 de março, às 23h, vai-se estrear na Galiza, nos cinemas Compostela, o filme de desenhos animados Gartxot. Trata-se de umha personagem lendária, um bardo navarro da Idade Média condenado a ser emparedado por um crime terrível. A versom que se vai mostrar ao público compostelano estará em versom original com legendas em galego elaboradas pola AGAL.

Para conhecer mais acerca da história de Gartxot, do processo criativo desta obra audiovisual e da própria história de Navarra e do povo basco, o escritor Séchu Sende e o presidente da AGAL, Valentim R. Fagim, conversárom com o diretor da fita, Asisko Urmeneta. Fruto desta conversa é a entrevista que oferecemos a seguir para o público do PGL. Ainda, as pessoas interessadas poderám participar hoje, às 20h, num colóquio com o autor no Centro Social 'O Pichel', no n.º 21 da compostelana Rua Santa Clara.

Tráiler de Gartxot

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P: Asisko, que nos podes contar da personagem de Gartxot?

R: Gartxot é um servo da abadia de Orreaga, na Navarra do século XII. Trabalha guiando os peregrinos que remontam o porto de Ibañeta desde Donazaharre, caminho de Santiago de Compostela. Mais a sua verdadeira vocaçom é a de bardo, na sua dupla acepçom: improvisa coplas para os navarros, e entesoura a tradiçom oral épica desde tempos remotos. A igreja local tolera o seu espírito crítico, ate que os frades de Concas, formados e formateados no espíritu imperial de Cluny, tomam posse da abadia.

P: Como é a transformaçom de umha lenda de tradiçom popular oral para narrativa de vanguarda?

R: Um verdadeiro prazer! Nom houvo ninguém trás nossa exercendo de comissário histórico, e a longa andaina do roteiro tivo tanto de documentaçom quanto de criaçom. O escritor e político pamplonês Arturo Campión escreveu pola vez primeira a lenda medieval do Gartxot há um século. Na sua narraçom nom há personagens femininas, mas em 2012 basta olhar ao redor para se aperceber de que não é crível um roteiro tam 'viril', de modo que achegamos as personagens chave de Oxanda, Nethe, Aulli, e, sobretodo, Xune.

P: Gartxot narra umha história dramática, mui dura, para além da sua pulsom vitalista. Estamos perante um filme para crianças ou para adultos?

R: É um filme de animaçom para adultos. As crianças podem vê-lo, nom há cenas de violência esplícita que nom tenham visto na TV, mais recomendamos fazê-lo em companhia, porque podem surgir questons que um adulto – às vezes – pode responder.

P: Para além dos cinemas, até onde chegou Gartxot? Pode-se dizer, dalgum jeito, que ativou umha espécie de movimento sócio-cultural sobre a própria geografia dos Pirenéus?

Autocaricatura de Urmeneta

R: O Concelho de Itzaltzu, onde Gartxot nasceu, fica vizinho de Zuberoa, no País Basco Norte. As montanhas pirenaicas sempre fôrom as auto-estradas do passado, e a relaçom entre salacencos e suletinos eram, mais do que fluídas, naturais. A substituiçom forçosa do euskara polo espanhol é cousa de um século em Itzaltzu. Entre outros agentes – nunca melhor dito – umha esquadra de carabinheiros instalou-se no lugar. Esquadra virtual, porque os funcionários estrangeiros se instalárom nas casas, forçando a aculturizaçom das famílias. As relaçons comerciais com os nortenhos fôrom proscritas com o álibi do contrabando. Mas a recuperaçom da figura de Gartxot anima hoje os jovens itzaltzuarres a aprenderem a língua, e começam timidamente a obviar fronteiras, e a convidar os jovens suletinos a visitar a cova onde Gartxot foi preso, e eles passam a conhecer a vila de Maule com motivo do Dia de Gartxot... O filme chegou numha conjunçom propícia, e também propiciou a geminaçom.

P: Quais som os valores, as atitudes, o sentido da vida com que esta história sobre a idade Média quer participar na atualidade?

R: Indagando na história de 1100 descobrimos que já entom se deu umha conquista militar de Castela e Aragom contra Navarra, com a bênçom do bispo de Roma e a partiçipaçom ativa dos senhores da guerra contra os mouros. E os reis aragoneses introduzírom pessoas da Ocitánia nos cargos militares e eclesiásticos do Reino usurpado, nas cidades e bairros novos, expulsando os navarros. Temos testemunhos daquela gente, que conceituavam os bascos como de bestas, que falavan como cans e comiam como porcos. E quigérom-nos neutralizar, e a conquista mental começou há 900 anos... Hoje nom somos livres, mas a conquista nuncha chegou ao fim. Nessa tentativa de doma dolorosa continuamos a resistir, e a Espanha deve gerar litros e litros de fluxo gástrico extra para nos digerir, e isso provoca-lhe graves ulceraçons e prejuízos de saúde mental para ela própria, mas todo antes de soltar a presa...

Umha das opinions mais repetidas do público após ver Gartxot resume-se na frase: «o que é que nos figérom!».

P: Poderia-se tornar Gartxot num clássico do imaginário de resistência e de criatividade para as línguas minorizadas do mundo, como o português na Galiza ou o euskara, o bretom, o curdo... e muitas mais?

R: Quando digo que os espanhóis nom querem soltar a presa, falo também da Galiza ou Catalunha. Nunca se dá umha relaçom de igualdade, nem sequer de respeito.
O duque de Alba, na invasom de 1512, foi muito didático quando dixo que «é atribuiçom do conquistador fixar as condiçons, nom do vencido».
A mim, é-me ofensivo que a mesma língua que se fala nos salons presidenciais de Lisboa, ou Brasília, ou nas chancelarias diplomáticas dos cinco continentes, seja ignorada e subestimada na sua casa, na Galiza.

Apesar de o euskara ser muito mais antigo que o espanhol, está condenado a ir sempre acompanhado – no melhor dos casos – dele, como umha criança quando quer ver o nosso filme.

O que dizer do curdo, do bretom, do corso ou do amazigh? Todas estas línguas vam figurar na opçom de legendagem de Gartxot no DVD que contamos editar para setembro...
Na adaptaçom da cançom que fijo Benito Lertxundi de Gartxot na década de 80, dá-nos a chave: «que caro paga quem é hóspede na sua própria casa!».

Gartxot é um grito coletivo de desconquista, que surge de todo povo que sabe que se for digerido, finalmente, antes o depois, acaba em merda.

P: Gartxot começou sendo uma banda desenhada, depois transformou-se em curta-metragem... que vos empurrou a elaborar uma versom cinematográfica de longa duraçom?

R: Por um lado, neste ano comemoram-se 500 anos da conquista – a dia de hoje – definitiva da Navarra. E 75 da morte de Campión. Nós quigemos dar um rosto à luita contra a conquista lingüística, e Gartxot representa a tragédia da transmissom rota. Da minha janela velho os filhos do vizinho a brincarem na praça, e brincam em francês. Avós e pais nom lhes ensinárom. Eu sei que o filme jamais vai chegar a familias como as deles, mas a casas que precisam de toda força criativa para o dia a dia, sim. Para voltar a Campión, falando da conquista, ele sempre dixo: «contra o poder da força, o direito é eterno». Contra o direito natural nada podem as leis, isso quigemos transmitir no filme.

P: No mundo dos desenhos animados, com grande concorrência por parte das multinacionais, a popularizaçom da animaçom na TV, a socializaçom do desenho na publicidade..., como vives tu, como desenhador e criador de imagens, a entrada de Gartxot, do teu estilo, – cubista, de vanguarda, com muita força e a um tempo com grande sensibilidade – nos olhos do público?

R: Um privilégio! Um dos poucos presentes de fazer anos é que as proposiçons se venhem a adequar ao estilo, e nom ao contrário. Lertxundi, um verdadeiro bardo atual, desconfiava dos personagens caricaturescos para protagonizar o drama, temia a banalizaçom da mensagem. Mas emocionou-se até as lágrimas com o resultado. Certo é que ao publico lhe custa entrar na história ao começo, quem é quem, mistura de idiomas – euskara, latim, ocitano –, animaçom quase que artesanal, e esses rostos impossíveis... pode ser desconcertante.

Mas passada a passagem descritiva, começa a açom... e se levarmos o espetador ao final, e lhe fizermos esquecer que trata com desenhos, e por cima nom convencionais... é que funcionou a proposta.

P: Por que decidistes que o filme fosse lançado na Galiza, legendado na nossa língua? Que sensaçons vos dá este facto?

R: Quando por fim consegues botar a andar umha longa-metragem de animaçom para adultos, em basco, mas nom basco normativo, senom em basco experimental; sem concessons no roteiro e sem final Disney... quere-lo fazer circular quanto possível! O seguinte passo é que queres contá-la a outros países que vivem contra corrente – e apesar do esmagamento imperante. No caso de Gartxot, seria umha traiçom ao personagem fazer-lhe ter como língua veicular latim... perdom, quigem dizer o espanhol. A sintonia com Séchu Sende marcou o nosso caminho desde a origem. Tenho verdadeiro interesse por conhecer as opinions do público galego umha vez visto o filme. Deixo-vos o meu endereço, caso alguém queira enviar a sua crítica: ardigasna[arroba]gmail.com.

Urmeneta durante o lançamento de Gartxot na Baixa Navarra
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P: Para acabar, para além desta entrevista sisuda, com Gartxot vamos passá-lo bem, nom si?

R: No meu país, o publico riu, chorou, olhou a história oficial com outros óculos... Se o filme te comover de algumha forma, a mensagem foi transmitida já.

P: Gostavas de comentar aos leitores do PGL, mais alguma questom? Sente-te à vontade.

R: Varios clássicos! Quando falo em plural, incluo o Juanjo Elordi, co-director e produtor e o Elorta Barruetabeña, co-guionista. É um trabalho em comum, ademais com animadores, músicos, historiadores, atores que o descobrírom ser andando o filme, tradutores, críticos... Se alguém quiger indagar, que dê umha olhada em gartxotfilma.com.

Outro clássico igualmente sentido: um prazer podermos apresentar na Galiza. Estes som prémios, estar entre vocês. Gostaria sinceramente de articular umha via de comunicaçom para fazer chegar ao País Basco a criaçom cinematográfica galega.

Falaremos em direito. Seria desejável bater batera (todos juntos).

Por outro, sempre pensei que uma postura inteligente, criativa e de futuro é o reintegracionismo lingüístico, ou como o quigerem chamar. Um exemplo que vos copiaríamos, se a nossa língua tivesse Estados libertados!

Obrigado e até sempre!

 

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