«O partido ao serviço da língua»

Entrevistamos Carlos Morais, Noa Rios e Igor Lugris, do Conselho de Redacçom de Abrente, periódico de Primeira Linha

Terça, 23 Dezembro 2008 00:00

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Carlos Morais, Noa Rios Bergantinhos e Igor Lugris

PGL - Aproveitando a comemoraçom dos 50 números da publicaçom partidária de Primeira Linha, o Portal Galego da Língua conversou com três dirigentes desse partido, de orientaçom comunista e independentista, para conhecer um bocado melhor a trajectória do jornal e do próprio partido.

Falamos, com Carlos Morais, Noa Rios Bergantinhos e Igor Lugris, sobretodo dos importantes pontos de contacto que essa experiência política e editorial tem com a luita pola língua e com o reintegracionismo na última década de história da Galiza.

Eis o resultado da entrevista.

PGL: Que tem o Abrente de trabalho militante e que de trabalho profissional?

Carlos: Trata-se de umha publicaçom quase absolutamente dependente do trabalho militante, que só é possível polos contributos de militantes que ponhem a disposiçom do projecto a partir da sua parcela profissional e de conhecimento, ou da sua entrega nos mais diversos aspectos do processo de elaboraçom de cada número.

Noa: Eu destacaria a regularidade e estabilidade como traço profissional pouco visto no mundo editorial do ámbito político galego, e onde Abrente sim tem conseguido até hoje umha certa seriedade no compromisso adquirido com os leitores e leitoras.

Quantas pessoas intervenhem directamente no processo de publicaçom de cada número?

Carlos: Como órgao de expressom de Primeira Linha, Abrente é elaborado polo seu organismo de direcçom, o Comité Central. Aí decidem-se os conteúdos, a orientaçom e especialmente o editorial que abre cada número.

Normalmente, a diferença do que é norma em publicaçons de carácter partidário, Abrente abre as suas páginas a vozes alheias ao nosso partido e às nossas posiçons ideológicas, até umhas 140 pessoas que até hoje tenhem escrito, sem por isso deixar de responder à orientaçom global que se decide internamente.

Noa: Sim, mas além do Comité Central, último responsável pola publicaçom, todo o partido participa de algumha forma no processo, por exemplo, decidindo os lugares de distribuiçom, em que actos públicos... também na procura de contactos e no oferecimento de espaço para escrever, na consecuçom de publicidades, todo o qual se fai sobretodo a nível comarcal e local.

Tendo em conta que a sua distribuiçom é gratuita e dificilmente contaredes com subsídios públicos, deve ser difícil manter umha iniciativa como esta durante tantos anos. Como se sustenta economicamente?

Carlos: Partindo da concepçom leninista, que fai do jornal partidário um organizador colectivo, damos também valor ao princípio da independência de classe e económica, daí que apostemos no autofinanciamento. Além dos fundos próprios do partido, existe só umha via externa de entrada de fundos, que é a inserçom de publicidades de pequenos negócios, que dessa forma apoiam a existência de um periódico comprometido socialmente e com este país. Acho que em 1996 o Abrente foi umha das publicaçons pioneiras em introduzir esta via dentro da imprensa política na Galiza.

Igor: Há que ter em conta que o Abrente nom é umha empresa que tenha que aspirar ao lucro económico. Os benefícios que nos confere som de tipo político e ideológico, ajudando a dar a conhecer o nosso projecto, abrindo-o ao debate com outros sectores sociais... todo isso compensa o carácter deficitário que ineludivelmente tem a nível estritamente económico, umha vez que tem umha distribuiçom gratuita e Primeira Linha nom conta com nengum tipo de ajuda oficial, institucional nem externa para além das apontadas.

Qual é a tiragem e como é a distribuiçom do periódico?

Igor: A tiragem é de 3.000 exemplares e a sua distribuiçom está em maos da própria militáncia do partido, que a fai chegar aos centros de trabalho, de estudo, centros sociais e às mobilizaçons sociais, com as limitaçons que impom a própria tiragem e a nossa dimensom partidária. Por outra parte, há que destacar a distribuiçom electrónica, pois as visitas ao Abrente na Internet multiplicam o número de exemplares em papel de cada número.

Noa: Também se reservam por volta dos 300 envios postais, gratuitamente, a pessoas e organizaçons galegas e internacionais que querem receber um exemplar em papel na morada.

O Abrente é especialmente lido na Internet (cada número costuma ter muitos milhares de acessos). Ainda vale a pena publicar em papel?

Noa: Eu acho que ambas ediçons som complementares, ainda reconhecendo que a digital tem um público muito maior e é, evidentemente, menos custosa em termos económicos. O papel tem umha funçom parcialmente diferente, permitindo umha leitura também diferente, mais apousada. Pensemos também no uso colectivo para o debate de conteúdos em reunions ou actos de estudo e debate político em grupo, onde é importante poder tocar o jornal.

Igor: Além do dito, é claro que a leitura na rede costuma ser mais fragmentária, imediata, enquanto no papel dá para umha leitura mais profunda e demorada, complementando a leitura na Internet. É curioso, neste senso, comprovar como na rede se tenta cada vez mais aproximar os formatos de leitura à leitura em papel, como se vê em serviços gratuitos como Issuu, onde vimos publicando o Abrente desde há uns meses.

Carlos: Tampouco a percentagem de galegos e galegas com acesso à rede permite esquecer-se do papel, pois nom estamos ainda ao nível dos países com a Internet mais estendida entre a populaçom.

 


Durante a etapa inicial, o Abrente era escrito na norma de ‘mínimos’. A finais do século passado, enquanto algumhas organizaçons se preparavam para abandonar os mínimos em direcçom ao galego isolacionista, vós passastes dos mínimos para os ‘máximos’ propostos pola AGAL. Porquê?

Carlos: O jornal reflecte a evoluçom do partido que o edita. Nascemos como organizaçom no seio do BNG, pensando que era viável construir umha corrente revolucionária marxista no seu interior. Naquela etapa, ainda sendo reintegracionistas umha boa parte da militáncia inicial, incluídos alguns sócios da AGAL, tentamos evitar um choque com as práticas maioritárias no BNG, seguramente com umha certa dose de ingenuidade, visto com a perspectiva que dam os anos.

De resto, lendo os nossos textos na altura comprova-se que nom era exactamente a norma de mínimos que nós empregávamos, e sim umha forma híbrida entre os mínimos e o padrom da AGAL. Quando chegamos à conclusom de que a nossa presença no BNG estava esgotada, em funçom da deriva neoliberal e regionalista que começava a experimentar, dous anos e meio após a nossa constituiçom formal, o I Congresso de Primeira Linha adoptou já o padrom da AGAL, sendo imediatamente adoptado no próprio Abrente e nas restantes publicaçons partidárias.

Noa: Eu lembro umha frase de um companheiro que só mais tarde viria a integrar-se no partido, Maurício Castro, que na altura nos recomendou “nom pôr a língua ao serviço do partido, mas o partido ao serviço da língua”. Acho que foi um juízo acertado e foi isso que figemos.

Abrente gaba-se de fomentar a publicaçom de visons diferentes às do partido que o edita, mas sempre em galego reintegrado. Ninguém vos coloca problemas por ver os seus escritos adaptados?

Igor: Sendo a forma escrita um princípio, escrever no Abrente, implica a assunçom do mesmo. Houvo alguns casos em que se colocárom problemas, mas isso foi sempre resolvido com umha nota explicando que o artigo em questom tinha sido originalmente escrito noutra norma. Em todo o caso, acho que o mais significativo é que, em todos estes anos, ninguém se negou a publicar no Abrente por causa da forma escrita.

Também contades com importantes colaboraçons internacionais. Que papel reservades ao ámbito lusófono?

Igor: Pola posiçom que ocupamos, numha naçom sem soberania tam próxima de Portugal, partilhando língua com o Estado vizinho, sempre demos grande importáncia aos nossos relacionamentos com a esquerda portuguesa. No entanto, nom foi fácil conseguir essa interlocuçom, até que em 2001 abrimos por fim umha via de relaçom estável com a Política Operária, organizaçom comunista com que colaboramos desde aquela de maneira preferente. De facto, através da Abrente Editora, única editora marxista galega na actualidade, temos publicado obras conjuntas com a Dinossauro, ligada à Política Operária. É o caso das obras de Francisco Martins que publicamos no último ano, Os anos do silêncio e Anti-Dimitrov, além da distribuiçom dos livros dessa editora no nosso país e dos nossos em Portugal.

Noa: Em todo o caso, a nossa colaboraçom com a esquerda social portuguesa aspira a ser aprofundada e aberta a mais correntes que, progressivamente, vaiam tomando consciência da existência da Galiza como naçom oprimida.

Acabades de falar dos livros de temática política que publicades sob a chancela da Abrente Editora, também escritos no padrom reintegrado. Achades isso umha limitaçom?

Igor: Nom nos parece que seja. Todos os títulos, excepto os dous primeiros, fôrom publicados no padrom reintegrado, e a difusom está a ser grande, e nom só na Galiza, mas também em Portugal. Há outras circunstáncias que tenhem mais peso no sucesso das iniciativas, como a difusom ou a distribuiçom, além do interesse da obra.

Que opinades da posiçom da intelectualidade e do mundo cultural galego em relaçom à língua e a outras formas de compromisso social?

Carlos: Em nossa opiniom, a maioria da intelectualidade galega caracteriza-se por ser subsidiada, complexada e acobardada, muitas vezes recluída na sua torre de marfim aspirando só a fazer carreira académica ou literária, mas sempre, isso sim, à custa dos fundos públicos. Isso explica que, para conseguir apoios e entrar nos circuitos vinculados com o poder, agora o bipartido e antes o governo do Partido Popular, renuncie aos princípios de qualquer intelectual comprometido com o seu tempo: combater o statu quo, mudar o presente e contribuir com a sua capacidade intelectual para esses objectivos. As excepçons podem ser contadas com os dedos das duas maos, e na língua vê-se bem, na submissom à norma isolacionista. De facto, temos visto nos últimos 15 anos como poetas, ensaístas, romancistas, músicos, artistas mais ou menos próximos do reintegracionismo fôrom cooptados pola lógica do sistema.

Noa: A actividade editorial é também um exemplo. Cada vez é mais difícil encontrar editoras abertas, com excepçom de Abrente, AGAL e poucas mais, ao uso do galego reintegrado.

Igor: Também o discurso da língua, em geral, está a ser abandonado por muitos intelectuais, perdendo-se a tensom e permitindo que surjam iniciativas abertamente hostis com o galego. Para viver do poder, nom se pode entrar no confronto com a oficialidade, isso é umha evidência.

Para quando a unidade independentista?

Carlos: É evidente que as diferentes tentativas que tem havido dérom em fracassos parciais, embora permitissem articular correntes como a nossa, mas esse nom era o objectivo. Nós continuamos a manter a unidade como objectivo estratégico, com base nos princípios do carácter de esquerda do independentismo galego; da plena autonomia em relaçom à expressom maioritária do nacionalismo, hoje convertida em regionalista; e da pluralidade ideológica, em forma de plataforma ampla em que entrem desde a social-democracia de esquerda até correntes comunistas como a nossa.

Igor: Nom creio que todo este tenha sido um tempo perdido. Devemos tirar as liçons correspondentes para avançar nesse objectivo último da unidade. E a unidade chegará.