Entrevista Carlos Mendes, coordenador dos cursos aPorto 2012

A escolha da peça certa numa noite de teatro ou do restaurante que não vem nos roteiros para um jantar, fazem da experiência aPorto algo muito diferente do turismo convencional

Sexta, 13 Julho 2012 06:59

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Noemi Pinheira - O fotógrafo Carlos Mendes é o coordenador da edição 2012 dos cursos aPorto, estadias de uma semana na cidade invicta os meses de julho e agosto com atividades formativas de manhã e lúdicas e culturais de tarde. A atividade é organizada pela AGAL e Andaime, e as inscrições já estão abertas até uma semana antes do início de cada curso.

Nascido num dos bairros históricos mais emblemáticos do Porto, Carlos Mendes dedica-se desde muito jovem à música e à fotografia, e acabou por optar por esta última como carreira profissional. Concluiu bacharelato em fotografia e mais tarde licenciatura em arte e comunicação, ambos na escola superior artística do Porto. Num percurso natural na pesquisa e interesse pela imagem, acabou integrando também a formação em audiovisuais, cursando fotografia cinematográfica avançada em Cuba.

Desenvolve profissionalmente trabalho em fotografia, com especialização em fotografia de arquitetura, especialidade que leciona no Instituto Português de Fotografia, e em documentário para televisão, como diretor de fotografia.

Noemi Pinheira: Revezas Filipa Fava como coordenador dos aPorto. Como enfrentas este desafio?

Carlos Mendes: A relação do Porto e norte de Portugal com a Galiza sempre foi, para mim, algo muito natural e evidente. Desde criança que me desloco regularmente ao vosso país, contactando com a vossa cultura e com a vossa (ou deverei dizer "nossa"?) língua. Infelizmente, esta relação transfronteiriça não é tão comum quanto seria desejável entre povos irmãos e o grande desafio é estabelecer uma ponte duradoura através de todos os participantes dos aPorto. O meu grande objetivo, em quanto coordenador, é propiciar um conhecimento do Porto a um nível muito mais profundo do que aquele que atinge o turista e promover assim uma aproximação permanente entre as nossas terras, tanto nos alunos e alunas que nos visitam, como nos tripeiros que, comigo, os recebem.

 

A política etno-cêntrica desde sempre defendida pelo governo central de Espanha privou a Galiza do contacto regular com a língua portuguesa

 

NP: As aulas são ministradas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto por mestrandas dessa entidade. Pode-se afirmar que é um desafio ensinar português de Portugal a galegos e galegas?

CM: Embora não pertença à área do ensino de línguas, acredito, em quanto conhecedor da realidade social e linguística galega, que a grande dificuldade seja a identificação das diferenças, já que partilhamos um imenso tronco comum. Sem dúvida, a diferença mais evidente é a fonética, visto que a impregnação castelhana no galego, infelizmente, nos fez distanciar a esse nível. A política etno-cêntrica desde sempre defendida pelo governo central de Espanha privou a Galiza do contacto regular com a língua portuguesa, levando a que os galegos e galegas não tenham o ouvido treinado para a compreensão da nossa fala, o que constitui outro desafio tanto para as docentes como para os alunos e alunas. Complementando as aulas, as atividades culturais visam em grande parte o contacto com a realidade da nossa sociedade e da nossa fala em ambiente informal e quotidiano.

NP: Os aPorto tencionam mostrar um Porto para além do turismo convencional, de que forma?

CM: Para além de atividades impossíveis de encontrar para um turista, como uma oficina de música tradicional ou uma visita guiada ao Museu de Serralves, há uma grande preocupação de, fazendo escolhas criteriosas, transformar eventos mais acessíveis em momentos exclusivos. A escolha da peça certa numa noite de teatro ou do restaurante que não vem nos roteiros para um jantar, fazem da experiência aPorto algo muito diferente do turismo convencional. Acresce ainda a constante interação com os portuenses motivada pela natureza das atividades. É agradável ver, por exemplo, que a UNICEPE, uma cooperativa livreira que muito amavelmente nos recebeu no ano passado, este ano aprofundou a sua participação, organizando atividades exclusivas para a comunidade aPorto. A amizade construiu-se para ficar e os alunos e alunas que nos visitam não são turistas, são amigos e amigas!

 

A escolha da peça certa numa noite de teatro ou do restaurante que não vem nos roteiros para um jantar, fazem da experiência aPorto algo muito diferente do turismo convencional

 

NP: Que sensação tem deixado nas pessoas do Porto o seu contacto com os galegos e as galegas por meio dos aPorto?

CM: Indiscutivelmente, a sensação que sobressai é a de irmanamento. Como atrás dizia, o contacto entre os nossos povos é menor do que seria agradável ou desejável, pelo que acaba por ser uma fantástica descoberta de parte a parte, como o reencontro de dois irmãos afastados.

NP: Que dão os aPorto que não dão os cursos convencionais de língua?

CM: Duas particularidades fazem dos aPorto especiais e insuperáveis: serem preparados científica e pedagogicamente para discentes galegos, com todas as suas idiossincrasias; complementação da parte letiva com atividades culturais especificamente desenhadas para os alunos e alunas aPorto que estendem a formação e permitem um conhecimento diversificado do porto, dos portuenses e da nossa cultura e língua.

NP: Que perfis de alunos e alunas galegas se têm achegado aos aPorto?

CM: Uma fantástica mistura de pessoas de diferentes idades, áreas de formação, profissões e originárias de todas as partes da Galiza, fazem deste encontro um momento de especial riqueza humana. Em comum uma grande paixão pela língua e cultura galega e portuguesa e a avidez da descoberta do Porto.

 

Foi muito gratificante fazer novos amigos e ver como se criaram amizades entre alunos que vieram a outra cidade fazer amigos entre os seus conterrâneos

 

NP: O público galego é um público especial nas aulas de português? Por que?

CM: Sem dúvida, pela proximidade linguística e pela grande curiosidade em encontrar, identificar e dominar as diferenças.

NP: De que atividades gostaram mais os alunos e alunas do ano passado?

CM: Através das ruas estreitas e antigas, passeou-se pela cidade e pela história do Porto, de Portugal e da relação histórica com a Galiza, um momento especial que agradou a todos, tal como o contacto com a nossa música tradicional, muitas vezes de raiz comum com a galega. Isto, claro está, para além dos animadíssimos jantares onde reinou a alegria e o convívio. Foi muito gratificante fazer novos amigos e ver como se criaram amizades entre alunos que vieram a outra cidade fazer amigos entre os seus conterrâneos.

 

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