Concha Rousia: "Nântia vêm sendo os fantasmas em que nosso ser coletivo, nosso ser cultural, sobrevive"

"O objetivo do livro é voar, é libertar a palavra que me foi dada..."

Sexta, 20 Julho 2012 00:00

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Ernesto Vasques Souza - Concha Rousia, cuja biografia, presença e mérito não necessitam apresentação no PGL, vem de publicar na Através editora um romancinho de aventura juvenil: "Nântia e a Cabrita d'Ouro". Uma viagem iniciática e aventura coletiva, contra a destruição e o mal, que se deixa ler a todo público.

Uma Galiza fresca e já antiga, representada por uma sábia cativa, e uma vital mocinha do Brasil espreguiçando-se tamanho, que reencontra as origens em descoberta do mundo, vencelham-se por meio de símbolos, lendas, histórias de família e descobertas arqueológicas numa peripécia clássica nas terras mágicas da Lima.

Caminhos no rio do tempo, auxiliares e objetos da heroína, peripécias, velhas pedras, barcas mágicas, salmões da sabedoria, serpes-monstro, árvores, transmissão, martelos, comunidades em revolta e o poder dos dominadores representado pela mesmíssima Rainha Lupa, tracejam um universo literário que encaixa e nos encaixam pela palavra filha das oralidades no melhor das tradições da fantasia romanceada desde a Demanda do Santo Graal até o hoje de espada, bruxaria e constante de poder arbitrário. Falamos com a autora para o PGL:

- Qual o objetivo do livro? Que público procura?

O livro tem um objetivo filosófico: Esse objetivo é voar, é libertar a palavra que me foi dada... Eu tenho que passar essa palavra para a minha filha, mas não posso abrumá-la, não posso fazê-la prisioneira de custodiar nosso riquíssimo legado. Dantes era mais fácil, meu pai falava a carão do lume, e meia dúzia de filhos apanhávamos suas palavras pelo ar, com a ajuda da não existência da televisão, nem a internet... Mas aqueles eram os tempos dos livros falados; ora bem, era sempre voluntária a receção ou não do partilhado. Então para poder deixar o meu legado tenho que o lançar a uma outra lareira, um outro lume... Mas que afinal saia de mim e siga...

O livro tem também um objetivo pragmático: Esse objetivo é procurar fazer chegar aos mais jovens as histórias mais antigas, de forma divertida embora não superficial. De fácil leitura mas não de fácil processamento do que o livro conta. Está pensado para um público jovem, sem importar a idade... Pode ser como os puzzles de 8 a 99 anos, ou mais... Eu penso que pode ser o livro galego que a juventude galega ainda não leu sobre o seu mundo, seu mundo tão roubado deles, não é? Mas como isso nos leva passado a tantas gerações acho que a idade não será impedimento para se meter dentro do mundo que recria para nós. Depois também está pensado para poder ser lançado ao resto do mundo.

- De onde vêm as histórias e os símbolos?

As histórias vêm da lareira, vem do calor do lume, vem dos olhos cravados nas chancas que meu pai faz para os nossos pés, enquanto nos conta os contos, tudo se cozinhava na lareira, até que eu tinha uns 7 ou 8 anos não tivemos cozinha de ferro e tudo se cozinhava no chão... Verão e inverno... Éramos 11 filhos e um que morreu ao nascer, gémeo do terceiro mais velho... Eu nasci de número 10, o 4 de outubro, o mesmo dia que o pai e a avó paterna...

Então os símbolos vêm do mundo que vivi, eu não tomo nada da literatura até porque eu cresci na literatura oral; e a escrita, hoje penso que para bem, ainda demorou em chegar a mim, se chegou! O meu pensamento, a filosofia, o meu saber fluem da nossa cultura, da cultura indígena, que chegou até nós e em nós procura saída... E já não pode ser a oralidade. Eu escrevo com imagens, cada cousa que conto corresponde-se com um lugar no mundo real, a minha memória é visual, o que eu faço e traduzir as imagens a palavras...

- Nântia é personagem saga... Inaugura uma série?

Nântia é um ser vivo, como a Terra, como a Galiza, como uma filha que eu criei para lhe entregar à filha de carne e osso, minha Nerea de 12 anos; mas também para entregar ao coletivo, o verdadeiro 'proprietário' dos nossos tesouros culturais, de onde eu os tomei e aonde eu os faço retornar na forma que me é possível. Acho que o coletivo vai decidir sobre isso, sobre se Nântia se deve converter numa série de 2 de 3 ou mais volumes... Ora, neste primeiro não a vamos deixar morrer.

 

Nântia e a Cabrita d'Ouro

 

- Qual é a ralação entre Nântia e Namay?

A relação ente Nântia e Namay... Hummmm  Bom, a sua relação certamente não é temporal, mais de 2000 anos separam as suas vidas, mas certo é que elas partilham espaços, paisagens, e quem sabe talvez também seu coletivo seja o mesmo. Na verdade isso é algo que eu ainda não descobri completamente, tem em conta que a minha escrita é em grande medida introspetiva, mergulho em elementos culturais dos que eu não sou  completamente consciente para descobrir a importância e as relações entre diferentes elementos assim de jeito racionalizado. Nântia é mais jovem, anda nos 14 anos, Namay está com 18; elas têm o mesmo jeito de olhar isso é verdade...Isso é que eu posso dizer, por agora...

- Eu destacaria uma cousa do carácter protagonista: diria que é feminino mas não singular, senão... coletivo?

Pois gosto dessa afirmação, Ernesto, até porque eu me acho uma simples voz que adquire o valor que tem porque fala, ou pretende falar, desde o coletivo e para o coletivo. A minha vivencia do feminino é de um ser menos 'individualizado' do que o masculino; porque ela, a mulher, está permanentemente percebendo o outro, ela por definição incorpora o outro à sua experiência, incorcopora o coletivo, as necessidades do coletivo; e deste jeito ela deixa de ser um ser assim tão individualizado, não sei se isto chocará algumas pessoas, mas a mim encaixa-me para explicar as atitudes perante o mundo; para explicar como as mulheres são capazes de se deixarem a si próprias para o final, e muitas vezes desatenderem-se... Ora bem, essa habilidade faz delas seres capazes de, se o mundo o necessitar, colher o mundo no colo e seguir enfrente...

- Que gostarias de dizer ao público leitor?

Desejaria pedir que recebam a Nântia com carinho, ela leva demasiado tempo oculta, leva séculos sem sair à luz, existindo, como a Cabrita d'Ouro e como a própria Rainha Loba, em lendas, que vêm sendo os fantasmas em que nosso ser coletivo, nosso ser cultural, sobrevive; então eu pediria que a tratem com ternura e que lhe deem a oportunidade de crescer com eles e de crescer eles com ela, Muito obrigada.

 

Concha Rousia 'celebrando' Nântia

 

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