Para umha visita à Bretanha...

Yannig Laporte: «Na Bretanha somos 4,5 milhons, e talvez sejamos 200.000 falantes de bretom»

Terça, 30 Dezembro 2008 01:20

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Yannig Laporte, responsável polas relaçons internacionais de EMGANN

PGL - Yannig Laporte é responsável polas relaçons internacionais de EMGANN, Movimento da Esquerda Independentista Bretá, tendo sido candidato nas passadas eleiçons autárquicas. Com 28 anos, mantém umha fluida relaçom com vários colectivos galegos e estivo recentemente na Galiza para homenagear Luís Gonçales Blasco 'Foz'.

Aproveitamos estas circunstancias, e umha recente viagem à Bretanha de um redactor desta casa, para sabermos um pouco mais sobre o país dele, nomeadamente em relaçom à situaçom da língua bretá.

A língua ambiental de todo o território já parece o francês, é difícil para um estrangeiro ouvir bretom...

Depende aonde fores. Historicamente, existe diferença entre a Baixa-Bretanha (Oeste), onde se falava bretom, e a Alta-Bretanha (Leste), onde se falava romance (galó). Hoje em dia nom podemos dizer que nom exista esta diferença, mas já quase todo o mundo fala outro romance: o francês. De qualquer modo, o mais fácil para ouvir falar bretom é penetrar na Baixa-Bretanha.

Fora do ámbito familiar ou da paróquia, é estranho ouvir falantes naturais de bretom, e menos a falar com gente desconhecida. Nalgumhas circunstáncias, podemos encontrar esta língua ligada às actividades culturais bretás, como as «festoù-noz» ('seráns bretons'), salons de livros ou festivais, onde existe gente comprometida na vida associativa.

Nas cidades, o retrocesso da língua foi mais rápido (sendo verdade que é preciso viajar polo campo para ouvi-la), mas agora estamos a ver umha inversom da situaçom sócio-lingüistica nas urbes e nas profissons intelectuais e liberais, ligada à transformaçom da sociedade bretá, que agora vive maioritariamente nos núcleos urbanos. A actividade dos movimentos pola normalizaçom do bretom também criou redes e centros onde se encontram falantes de bretom, mesmo na Alta-Bretanha, em localidades tam importantes como Rennes e Nantes.

Entre a gente nova é mais difícil ainda, nom é? Que percentagem de bretons, nomeadamente jovens, o dominam?

É verdade, porque a transmissom natural da língua foi derrotada nos anos 50 no ámbito familiar. As pessoas precisavam de melhorar a sua situaçom social e, nessa altura, isso só era proporcionado polo francês: os pais cessárom de falar bretom na casa às crianças (é umha história comum a tantas línguas!). Entom, quanto à gente nova de hoje, o normal é que só os seus avós falem bretom, nom os pais.

Na actualidade somos 4,5 milhons, e talvez sejamos 200.000 falantes de bretom. Mas nom podemos afirmar isto rotundamente, por falta de dados, entre outras cousas porque nom fôrom feitas perguntas em relaçom a isto, nem a todas as pessoas, no censo: só temos estimaçons.

Quais as zonas em que goza de maior vitalidade?

As zonas do Leom e do Treger, no Norte dos departementos de Penn-ar-Bed / Finistère e Aodoù-an-Arvor / Côtes d'Armor. Nestas regions muita gente fala ainda o bretom; ali se encontram a maioria das escolas Diwan e das aulas bilíngües no ensino público e privado. Muitos municípios assinárom a carta «Ya d'ar brezhoneg» ('Sim ao bretom') do Ofis ar Brezhoneg ('Agência da Língua Bretá'). Foi assinada, por exemplo, por umha escola secundária privada na cidade de Lesneven, que também aderiu.

Apesar da debilidade da língua, qualquer pessoa nota logo que está na Bretanha, pola enorme presença de simbologia celta e do folclore...

Nom saberia dizer se este simbolismo é bom, talvez seja umha prova da perda de identidade natural, reencontrada agora através de símbolos. No entanto, por causa do folclore, fôrom criadas as federaçons de música, danças e traje, as mais importantes do Estado francês.

Qual a situaçom do bretom no ensino?

Hoje em dia há menos de 10.000 crianças que aprendem em bretom na escola: nas redes 'Diwan' («a semente»; escolas associativas em bretom, laicas e gratuitas de regime privado, embora concertadas através de um contrato com a Education Nationale), 'Divyezh' («duas linguas», associaçom dos pais polo ensino do bretom no ensino público, que promove o desenvolvimento de aulas bilíngües) e 'Dihun' («acordar», associaçom semelhante, mas para o ensino privado católico). No total, isto representa 1% das crianças escolarizadas em toda a Bretanha. Também existem cursos e atelieres de ócio nalgumhas escolas. Na secundária é mais difícil, devido à falta de professores e de informaçom aos pais e maes e às crianças.

Desde há 3 anos existe umha associaçom que se chama «Divskouarn» («as orelhas») que propom informar os pais sobre o bilingüismo, ajudar os que querem falar em bretom na casa e formar profissionais.

«Os políticos franceses nom darám novos direitos aos falantes de 'línguas regionais'»

Prevém-se avanços legislativos nos próximos anos ou polo contrário?

Nom podemos dizer muitas cousas sobre avanços legislativos na actualidade. Há pouco tempo foi levado à constituiçom da República Francesa que «as línguas regionais constituem parte do património da Naçom», e prevê-se umha lei geral sobre o assunto para o ano, mas já sabemos, como dixérom influentes políticos, que nom dará direitos novos às pessoas que falam línguas 'regionais'. Nas leis que já existem, os municípios tenhem muitas atribuiçons para avançarem com o bilingüismo na vida pública; só necessitam de vontade, e vemos bem quanto muda a situaçom dependendo de se ela existe ou nom. Infelizmente, existem concelhos como o de Douarnenez que na actualidade se recusam a trabalhar com o 'Ofis ar Brezhoneg' («Agência da Língua Bretá»).

Hoje em dia falta-nos a reivindicaçom da oficialidade da língua, promovida nos anos 80 e 90 polo movimento 'Stourm ar brezhoneg' («O Combate do Bretom»). Porém, actividades como as de Ai'ta, um grupo de gente nova, permitem manter a chama na actualidade.

E o nacionalismo político? Qual a sua situaçom?

O paradoxo da Bretanha é que de um lado possui umha identitade muito visível e, do outro, o nacionalismo é minoritário nas eleiçons. O problema é das organizaçons políticas, que nom trabalham avondo para socializar as suas reivindicaçons, mas também de um sentimento 'tipicamente bretom' que podemos denominar «submissom do colonizado». A falta de conscientizaçom nacional contrasta com o enraizado sentimento de 'ser bretom'.

Nalgumhas ocasions, como na luita pola defesa dos hospitais no mês de Junho passado, vimos bem como eram complementares a luita nacional e a luita em prol dos serviços públicos, e isso sentia-o a gente na luita, igual que os jornais.

Agora podemos dizer que se os bretons nom forem nacionalistas, polo menos estám de acordo com os ideais nacionalistas, ainda que nom empreguem esta palavra para se definirem.

Como supera o movimento normalizador a existência, em território bretom, de duas línguas históricas diferentes do francês? (galó e bretom)

O galó fala-se na Alta-Bretanha, fazendo parte das línguas románicas do Norte, tal como o francês ou o valom da Bélgica. O nível lingüístico das pessoas que falam galó é muito baixo, mas esta língua tem umha forte presença na cultura oral desta zona. O problema é que temos um movimento polo bretom que nom existe polo galó. E o sentimento comum é que o bretom é a língua da Bretanha, e o galó un tipo de francês labrego. Nom é facil luitar por ambas quando sabemos que o bretom está numha situaçom de grave perigo. O sentimento nacional ou identitário na Bretanha constituiu-se sobre um modelo diferente, por exemplo, do da Escócia. Neste país a língua nom tem tanta importáncia na imagem nacional como o bretom na Bretanha. É mais fácil de luitar polo escocês de origem germánica que polo galó de origem románica.

Como vês a actividade e capacitaçom do movimento normalizador bretom?

Empreguei muitas vezes a palavra "bilingüismo". Isso dá para perceber a debilidade intelectual do movimento pola língua e mesmo a debilidade da sociedade bretá no que di respeito a determinados conceitos. Palavras como "normalizaçom" e "normativizaçom", fruto da sociolingüística catalá, nom som entendidas na nossa terra. Hoje só podemos empregar, amodinho ainda, palavras como "política lingüística" ou "desenvolvimento lingüístico".

Muita gente trabalha polo bretom, dentro de muitas associaçons, colectivos etc... Muita gente até pode manifestar-se, às vezes mais de 10.000 pessoas, mas... quantas pessoas sabem por que se manifestam? Manifestar-se a prol da língua, sim, com certeza, mas para que tipo de política? Pola oficialidade, co-oficialidade...? Por isso, esses termos teriam que ser percebidos desde já. Falta conscientizaçom política, faltam conhecimentos básicos de sociolingüística, e parece que sempre estamos a sonhar com outros países onde as cousas vam melhor, mas sem nos preguntarmos polo nosso próprio povo, e sem implementarmos o que vemos noutros países. Eu acho que isto é umha espécie de doença tipicamente bretá. Se procurades boas camisolas reivindicativas ou em língua bretá, nom as encontraredes, porque já nom existem. Só ides topar-vos com camisolas, bem feitas, nom cabe dúvida, mas unicamente a mostrar mulheres velhas com traje antigo, berros e lemas etílicos ou alusons sexuais e narcóticas. Parecemos orgulhosos das nossas doenças mentais e sociais. Quando vinherdes por aqui, o melhor será comprardes camisolas de Kukuxumusu.