De Foz a Sandycove da mão de Laura Branco

De novo a frescura do atlantismo na literatura galega

Segunda, 01 Outubro 2012 00:00

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Marcos Seixal Carvalheira - Sandycove é um povo costeiro situado no sul de Dublin, ao sul de Dún Laoghaire e Glasthule e algo mais ao norte de Dalkey e Bray. É o lugar em que está a torre Martello, em cujo alto Mulligan se afeita e onde Stephen Dedalus deixa as chaves, no Ulysses de Joyce. Ali, à beira de uma pequena praia rochosa, solitária e fria, a poeta galega Laura Branco sentiu-se à vontade para mirar aquele mar calmo e gris; e para estar só.

Essas vivências estão recolhidas nas Doenças dum espelho, livro que apareceu neste mês de agosto passado e que nestes dias se apresenta em diversos lugares, entre eles a Livraria Couceiro de Santiago de Compostela.

Laura Branco (Foz, 1984) é licenciada em Filologias Galega e Portuguesa pela Universidade de Santiago de Compostela, e atualmente combina a investigação doutoral no campo da historiografia literária com os estudos de Psicologia pela UNED e o seu trabalho como tradutora. Aproveitando o lançamento deste seu poemário, sentamos comodamente à mesa dumha baiuca marinheira em Foz. Ali nos transmitiu saudades dum estágio na Irlanda, ao tempo que nos mostrava o melhor do país irmão, como teria feito Cunqueiro com as terras bretoas. No gratíssimo encontro falamos da imagem externa do livro, do prólogo, da revisitação da mitologia clássica e ainda de muitos outros temas que agora compartilhamos com a audiência do Portal Galego da Língua.

-O volume leva um prólogo de Jorge Letria. Quais as razões? Vínculos do escritor com a Universidade de Santiago? Investigação da sua obra literária?

-A ideia de escolher um prologuista português surdiu da própria editora, como uma ideia entre outras. Não se tratava de um critério editorial propriamente, mas de uma possibilidade interessante para uma obra galega escrita na ortografia histórica. Como a de procurar uma comunicação bidirecional entre duas literaturas que partilham o mesmo sistema lingüístico. Partindo dessa ideia, começámos a pensar em quem poderia fazê-lo. Consultámos com algumas pessoas (do ámbito do ensino e académico) e um dos nomes que surdiu foi o de José Jorge Letria, especialmente pela sua vinculação com a Galiza e o seu conhecimento do panorama literário galego.

Eu tinha uma idea sobre a sua trajectória como agente no campo literário e cultural português, de modo geral, mas não foi um autor que eu tivesse estudado na faculdade. E, com efeito, pessoalmente eu não o conhecia. Nem ele a mim, evidentemente... Mas contatei Jorge Letria de modo direto, mediante correio eletrônico. Eu era consciente de que esta circunstância de desconhecimento distanciava-se do modo habitual de proceder na prologação de obras. Mas era uma circunstância que conferia uma neutralidade de que eu era partidária. Para a minha surpressa, em menos de vinte dias recebi o seu prefácio.

-Os epígrafes iniciais são de Nietzsche (“De onde é que vêm as montanhas mais altas?... Vêm do mar”) e de Khalil Gibran (“... aqueles que nos compreendem escravizam uma parte de nós”). Estes fragmentos são a síntese do que vamos achar depois: o mar, como génese do cosmos; e o eu, a defender a sua identidade?

-Pode que esta seja uma síntese um bocado estranha. E, talvez, estranha como o livro mesmo no seu conjunto. Efetivamente, do ponto de vista linear, o mar é o espaço comum entre os diversos lugares, reais e imaginários, em que a história e a travessia se desenvolvem. A metamorfosse narrada configura-se argumentalmente como uma travessia por mar. Do ponto de vista ascensional, de progressão, o mar é a metáfora da génese que faz conetar a última frase da citação de Nietzsche, “O mais alto tem de chegar à sua altura desde o mais profundo” -do Assim falou Zaratustra-, com a ideia da dor intrínseca a qualquer processo de nascimento e de individuação, e referida também mais adiante, culminando na completude de tal processo, na parte final (“Imago”), com a citação de Hermann Hesse.

- Por que Khalil Gibran?

-O louco, de Gibran Khalil Gibran, é um livro muito especial para mim. Eu sempre gostei, desde pequena, de mirar os lombos dos livros nos estantes da minha casa e indagar livremente através dos títulos. O que havia -e há- na casa é El loco, na edição espanhola de Pomaire, de 1978, entre outras obras do autor; mas era esse o título que a mim me atraia. Era um livro de que meu pai me tinha falado, como de muitos outros, e não lembro bem a idade que teria eu quando o li por primeira vez -suponho que não mais de onze ou doze anos. Creio que desde sempre me interessou essa frágil margem que separa a cordura e a loucura. Como duas caras, aparentes, de uma mesma cinta. Como uma banda de Moebius. O preámbulo desse livro, “Perguntais-me como me tornei louco...”, e em concreto esse último parágrafo que tomei como citação, captivou-me e senti-me identificada com ele.

 

Laura Branco, na Feira do Livro de Foz, com Luís G. Blasco "Foz",
Celso Dourado (ilustrador do volume) e Pepe Árias (o editor)

 

- Falemos agora da Medusa. Comenta-nos quais foram as fontes do seu conhecimento. Em que momento te sentes atraída pola mitologia?

-Eu descobri a figura de Medusa através do cinema, mas sem me dar muita conta, e sendo eu menina. Foi num filme de inícios da década de 1980 que sempre que emitiam na TV eu revia. Trata-se de Fúria de Titãs, de Desmond Davies. Creio que nem sequera eu tinha racionalizado o facto de gostar ou não gostar do filme propriamente; simplesmente, sempre o via e sempre causava em mim a mesma tensão e fascínio. E precisamente, de todos aqueles visionados, o que com mais força ficava na minha memória era o enfrentamento entre Perseo e Medusa desde o início da seqüência em que ele chega às ruínas onde ela habita, para conseguir a sua cabeça. Os efeitos especiais eram daquela rudimentares e os movimentos das figuras, feitas então de plastilina, podem ser hoje irrisórios para alguém, mas para mim conserva ainda todo o dramatismo que tinha causado aquela impressão no meu imaginário infantil e posterior. Mas eu sempre percebia este enfrentamento e a morte de Medusa duma perspectiva diferente, e esta era uma questão sobre a que só posteriormente refleti: eu não via Perseo como apenas um heroi, mas também, ao mesmo tempo, como um invasor.

-E a literatura...

-Mais adiante, com efeito, a minha atracção pela mitologia vem da mão da literatura, principalmente através das leituras trabalhadas nas aulas de língua e literatura espanhola, na escola e no bacharelato, especialmente a poesia espanhola renascentista; por exemplo, Garcilaso de la Vega.

Assim como também através da escultura renascentista e barroca italiana, e da pintura, também no período escolar e no licéu durante o bacharelato. Naquela altura, com algumas leituras de Homero, Virgílio e outras obras clássicas que depois li por conta própria, especialmente As metamorfoses de Ovídio.

Curiosamente, e seguindo a esteira da metamorfose, mas neste caso não em relação à mitologia clássica, o primeiro livro que li em português foi uma tradução d' A Metamorfose de Kafka, para uma cadeira de primeiro de bacharelato.

- Por que a estrutura de “pórtico” seguido das três fases duma metamorfose?

-Bom, este livro tem já uma certa antiguidade, acumulando mais de uma década na sua concepção originária. Houvo uma primeira versão que se remonta aos finais da adolescência e que completei tendo eu dezoito ou dezenove anos, mas que desbotei ao pouco tempo. No entanto, a ideia estrutural ficou em latência até que uns anos depois, entre 2006 e 2007, decidi retomá-la, aproveitando só a estrutura original de três partes, e escrevendo uma versão nova que terminei em 2007.

Originalmente, o poema que denominas 'pórtico' intitulava-se “Doenças dum espelho”, em lugar do título atual “O espelho de Medusa”. Portanto, é esse poema de apertura o que lhe conferiu o nome ao livro, poema que me parecia uma síntese de todo ele, como uma espécie de desafio por resolver.

Esta reinterpretação pessoal do mito de Medusa concebe-se como uma metamorfose simbólica. O poemário divide-se em três partes, correspondentes a três fases de uma metamorfose (tomando como referência o processo biológico holometabólico dos lepidópteros): “Larva”, “Cristálida” (termo que fai uma dupla referência à ‘crisálida’ e ao ‘cristal’ como suporte sólido do espelho) e “Imago” (na biologia, nome técnico do estádio adulto, final, do insecto. Mas é também um termo da psicologia que refere o processo de formação da identidade do indivíduo em relação a uma imagem inconsciente formada na infância).

Mas esta obra é anterior ao meu contato e aprofundamento nas terminologias específicas da psicologia e da psicanálise.

-Cinema, Literatura clássica, Psicologia, Psicanálise... e nada dizes da música! Por que está tão presente no poemário? Tens estudos musicais?

-Tenho alguns estudos musicais, mas interrompidos desde há algum tempo. Estudos de Grau Elementar de Guitarra e Piano, que realizei entre 1995 e 2000. Abandonei guitarra para estudar piano, que era realmente do que eu gostava, e continuei durante uns anos mais, mas sem me examinar.

A música é fundamental para mim; é algo que está presente no meu dia a dia, e acompanhou quase sempre o processo de escrita deste poemário.

 

Laura Branco assinando livros na Feira do Livro de Foz

 

- Quem também te acompanhou foi a literatura nossa. Esse teu universalismo tem raízes bem fortes na Terra. Por acaso... entre os teus poetas preferidos está Luís Pimentel?

-Gostei muito de Luís Pimentel quando o li no período do liceu, de modo fragmentário, e posteriormente estando em Compostela. Mas reconheço que é um autor cuja leitura me ficou um bocado à sombra de Manuel Antonio, que naquela época me tinha impressionado.

As minhas leituras da infância e adolescência foram variadas, do que havia nos estantes da minha casa, fundamentalmente. Lembro em concreto algumas sensações que certas obras me provocáram daquela, como Juan Salvador Gaviota de Richard Bach, El viejo y el Mar de Hemingway ou mesmo La Perla, de Steinbeck [cito-as com os títulos das edições em espanhol porque eram as que eu tinha], e de modo muito especial Pequeño Teatro de Ana María Matute. E na poesia, naquela altura Neruda, ou outros autores a que accedi algo depois, como por exemplo Carlos Edmundo de Ory. Já na adolescência, li muito os poetas românticos. Sobretudo, Baudelaire e Allan Poe (os contos, principalmente), além de Rilke e Novalis, junto com autores do existencialismo. E Pessoa, assim como Conrad, Joyce, T. S. Eliot, etc., e posteriormente outros como Clarice Lispector, cuja escrita me cativou, profundamente, desde que comecei a ler as suas obras estando em Compostela.

- … e Manuel Antonio?

-De catro a catro foi uma obra que me impactou a primeira vez, estando no liceu. Aquelas imagens rupturistas da poética do mar e a forma de transmitir a solidão da experiência marítima. Era uma obra singular.

- Essa experiência marítima levou-te à Irlanda. Quando e quanto tempo estiveche em Dublin?

-Passei o mês de agosto de 2005.

- Resposta lacónica... Quais foram as sensações?

-Nessa curta estadia em Dublin tive a experiência da Irlanda urbana mas também a da Irlanda suburbana costeira. Eu tinha a morada em Donaghmede, uma área suburbana do norte, como já sabes, mais humilde e obreiro em contraposição com o sul.

Tratava-se do centro de um país que, não era difícil perceber, tinha medrado muito às pressas mas de modo muito desigual. No entanto, a vida do centro da cidade deixava ver um entusiasmo buliçoso, envolvente mas acolhedor, o tráfego citadino comum, e um habitus social perceptível de actividade e compromisso cultural nacional. Aliás, lembro que eu cheguei uns dias depois de o IRA Provisional (PIRA) anunciar o abandono da luta armada.

Mas na minha memória pesou mais a experiência costeira. Se calhar mais inocente e bucólica. Aqueles povos costeiros do norte tinham algo que me era entranhável e nostálgico ao mesmo tempo, e que me fazia refletir sobre a vida e fisionomia atual e pretéria da Marinha. Isso era algo sobre o que eu tinha já pensado muito mas que se tornava violentamente evidente, na beleza ordinária dos lugares que preservam a sua idiossincrasia e da sua ausência no que outros temos, em boa medida, deixado perder.

-Comenta-nos algo a respeito de certos lugares. Que nos dizes de Malahide?

-Malahide é uma vila costeira, residencial, do norte; algo mais ao norte que Howth. É um lugar encantador, colorista e muito cuidado. Mesmo sendo do norte, é um dos povos suburbanos mais ricos, com uma área portuária de recreio para a gente do lugar, e turística no verão. Mas sem o caráter privativo e mais restrito, sob a minha percepção, da zona sul.

- E Kilbarrack?

-Kilbarrack é uma área suburbana, obreira e residencial, muito humilde, que colinda com Donaghmede; uma das últimas paradas ao norte do Dart (o trem), que eu apanhava lá a diário para ir ao centro da cidade ou regressar à casa onde morava.

- Em contraste com esses lugares, no livro também aparece mencionado Merrion Square... Outra Irlanda...

-Sim. Merrion é um parque do centro de Dublin, do século XVIII, dentro da área georgiana mais extensa. Mais pequeno que o de St. Stephen's Green, e mais íntimo, tranquilo e húmido, envolve com mesta vegetação as ruas internas que conduzem a uma área central, despejada, de grama.

-E Foz?... quero dizer... Howth?

-É-che uma velha aldeia portuária situada numa península. Mantém a atividade pesqueira. É o melhor lugar para comprar peixe e divisar desde o alcantil, perdendo-se nas vistas da baia dublinesa ao longe. Esse povo transmitia-me uma sensação de familiaridade intensa, como respirando no seu ambiente algo que noutrora tivesse sido de aqui e já não.