Entrevista a João Seixas, responsável do blogue Baía da Lusofonia

“A língua portuguesa, ou melhor, o galaico-português, é de todos aqueles que falam a nossa língua no mundo, que a tornam viva, que introduzem novos vocábulos, que permitem que povos das mais diversas latitudes se entendam, mesmo que a palavra não tenha o mesmo significado”

Sexta, 14 Dezembro 2012 09:41

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João Seixas, responsável pelo blogue Baía da Lusofonia

PGL - Desde junho de 2012 João Seixas é responsável pelo blogue Baía da Lusofonia, um projeto que, afirma, "tem como fim único promover a palavra em língua galaico-português ou em línguas crioulas que dela derivam, está aberto a todos os cidadãos espalhados pelo mundo que pretendam exprimir-se nestas línguas". Do PGL colocamos-lhe uma série de questões para sabermos mais desta iniciativa e da sua visão sobre a língua na Galiza.

A chama que acendeu a Baía da Lusofonia é o mau trato que o português recebe em Portugal. Talvez a maior parte dos nossos visitantes poderiam ficar chocados com esta realidade, nomeadamente os galegos. Poderia explicar-nos com mais detalhe este facto?

Começo, se me permitem, por citar o ex-presidente de Cabo Verde Pedro Pires que afirmou “O trabalho a ser feito é fazer da língua portuguesa para além de uma língua de cultura, uma língua de ciência e tecnologia. Caberá aos países mais avançados e mais populosos como Brasil, Portugal, Angola, Moçambique de trabalharem para fazer da língua portuguesa uma língua de cultura, mas sobretudo uma língua de ciência e tecnologia”. Existe hoje um deslumbramento na juventude portuguesa ao chegar ao patamar do ensino universitário, objectivo que a maioria dos seus ascendentes não conseguiu alcançar, o de serem obrigados a estudar também em língua inglesa, por haver alguma ausência de literatura técnica em língua portuguesa. Depois os meios audiovisuais, como a televisão e o cinema que continuam a apostar na legendagem, os jogos em rede, a música, levam que os jovens considerem a língua inglesa como a língua de futuro. É bom recordar que o português é a sexta língua mais falada no mundo e a terceira do ocidente, a seguir ao inglês e castelhano.

João Seixas é de ascendência galega pola parte materna, da zona de Vigo e de apelido Começanha e o seu conhecimento e seguimento da realidade galega é acentuado. Este interesse obedece apenas à ligação familiar?

Não, os meus conhecimentos sobre a minha ascendência galega são muito rudimentares, apenas sei que o meu trisavô, para cumprir o seu desejo de ser marinheiro, indo contra as intenções familiares, fugiu de Vigo para Lisboa. Também sei que este meu ascendente galego tinha um tio Bispo, que foi homenageado com uma estátua em Vigo. Não sei se hoje ainda existe. O meu interesse pela Galiza é o mesmo por Portugal. Ambos são os países da europa ocidental e não do sul como nos querem fazer crer, não são os periféricos da europa, mas sim os países do centro do mundo, ou não tivessem as naus e caravelas portuguesas aportado a quase todos os pontos do globo. Temos um passado comum, com origem na mesma língua, o galaico-português.

O português médio pouco sabe da realidade galega. Quais seriam as vias mais eficazes para aumentar a vontade de saber?

Volto a fazer uma citação, agora nas palavras do ex-presidente de Moçambique Joaquim Chissano: “Numa economia baseada no conhecimento científico, as tecnologias de informação são um factor importante para o seu desenvolvimento e são as responsáveis pela crescente interdependência que se regista no mundo de hoje. Entretanto, lamentavelmente, a maioria dos países em desenvolvimento, particularmente os africanos, têm tirado poucos benefícios desta revolução digital. O desafio que se nos coloca é encontrar formas inovadoras para realizar o potencial que as tecnologias de informação e comunicação representam no combate à pobreza assim como a promoção e partilha do saber entre os nossos povos. Portanto, o investimento na educação, incluindo a aprendizagem informática, são fundamentais para o desenvolvimento humano, devendo as estratégias de tecnologias de informação e comunicação nacional, regional e internacional incorporar também a capacidade de produção dos conteúdos”.

O blogue Baía da Lusofonia é uma gota de um oceano neste mundo “em rede” que tem de ser explorado por conteúdos na língua galaico-português e perceber quais são os gostos da juventude. Para minha surpresa e para um blogue destinado apenas à palavra, os leitores têm aumentado e registados em Portugal, embora saibamos que não são números fiáveis, são apenas 21,6% dos visitantes, sendo os restantes mais importantes, a Alemanha, 17,8%, os EUA, 17,0%, a Rússia, 16,3%, o Brasil, 8,6% e a França, 6,4%. Querem estes números dizer que os leitores estão onde há comunidades de cidadãos dos países lusófonos, ou onde se encontram os estudantes desses mesmos países, que através de uma biblioteca pública têm acesso a um computador.

João Seixas é português. Que lhe sugere a frase “o português é nosso” em boca de um seu conterrâneo? De quem é a língua portuguesa?

Excelente questão. Aqueles que afirmam que “o português é nosso” são precisamente os mesmos que mais atentam contra a língua portuguesa, mais preocupados com os benefícios pessoais que podem obter, de entidades supranacionais, onde a língua portuguesa não tem peso.

A língua portuguesa, ou melhor, o galaico-português, é de todos aqueles que falam a nossa língua no mundo, que a tornam viva, que introduzem novos vocábulos, que permitem que povos das mais diversas latitudes se entendam, mesmo que a palavra não tenha o mesmo significado.

Era impensável há alguns anos nós ouvirmos a palavra bué, hoje a juventude adoptou esta palavra com origem em Angola, a expressão galera que entra diariamente através da televisão em nossas casas, muito empregada no Brasil, tinha outra interpretação em Portugal, o termo maningue, que as tropas portuguesas trouxeram de Moçambique, durante a guerra colonial, a cozinha tradicional de Goa, muita apreciada em Portugal, com os nomes que entraram na culinária portuguesa como chacuti, ou o bolo bebinca, são exemplos que esta bela língua que galegos e portugueses falam, é uma língua sem dono, é universal!

Julga que as nações que falam português estão a avançar com passos firmes na intercomunicação e no desenvolvimento de projetos conjuntos?

Antes de responder directamente à sua pergunta, tenho que recordar o homem que foi o grande impulsionador da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o embaixador brasileiro José Aparecido de Oliveira, falecido no ano de 2007 com 78 anos de idade, que entre os vários cargos que ocupou, foi Ministro da Cultura no Brasil e Embaixador em Portugal, onde deixou muitos amigos.

Felizmente que foi um brasileiro que teve a iniciativa da CPLP, pois há muitas vozes, preocupadas com o futuro desta organização e afirmam que é uma tentativa neocolonial portuguesa, mas o melhor é citar o ex-presidente do Brasil Lula da Silva: “A CPLP é muito especial para o Brasil. Não vejo nela apenas uma organização internacional, somos uma comunidade, uma comunidade construída a partir do conceito de solidariedade e com união de valores objetivos amalgamada por uma língua comum. Somos oito países com mais de 245 milhões de habitantes distribuídos por quatro continentes, estamos comprometidos com a democracia, o desenvolvimento e a justiça social. A CPLP nos ajuda a transformar a nossa identidade linguística e cultural, cada vez mais, em uma realidade com voz e peso no cenário internacional”.

Os passos firmes que os países falantes em português possam dar, passam sempre pelo que o Brasil pretenda que a CPLP seja. O Brasil é a sexta economia do mundo, tem um território superior à europa, não foi um país colonizador, tem todas as condições para em conjunto com os países africanos de língua oficial portuguesa, dar outro rumo, mais pujante à CPLP e ainda tem o benefício de estar no Mercosul, fazendo a ligação aos países de língua castelhana.

Na minha modesta opinião, era necessário um Conselho de Sábios para ajudar a desenvolver a CPLP, com personalidades tão diferentes como Lula da Silva pelo Brasil, Duarte de Bragança por Portugal, Marcolino Moco por Angola, Joaquim Chissano por Moçambique, Pedro Pires por Cabo Verde, Domingos Pereira pela Guiné Bissau, Ramos Horta por Timor Leste, Fradique de Menezes por São Tomé e que falta faz a esta Comunidade, homens como Amílcar Cabral!

Que temos a ganhar os galegos e as galegas no universo lusófono?

Ao responder às interessantes questões apresentadas nesta entrevista, estou também a querer dar um exemplo de Lusofonia, uma comunidade onde a Galiza também está inserida. Por isso recorro a ilustres personalidades do mundo lusófono e novamente cito Joaquim Chissano: "Devemos continuar a desenvolver esforços para que os laços linguísticos se transformem também em espaços económicos por excelência, porque os novos desafios que muitas vezes se estabelecem no domínio da economia trazem igualmente uma forte componente identitária." A fala da língua galega juntamente com os conhecimentos técnicos dos cidadãos, é uma mais-valia no mundo lusófono, que dentro de algumas décadas será a língua dominante no Atlântico Sul, com a vantagem que os cidadãos da Galiza têm de falarem também a língua castelhana.

A Baía da Lusofonia está aberta para os galegos e as galegas. Em que forma podemos colaborar?

O blogue Baía da Lusofonia que tem como fim único promover a palavra em língua galaico-português, ou em línguas crioulas que dela derivam, está aberto a todos os cidadãos espalhados pelo mundo que pretendam exprimir-se nestas línguas. Neste momento o blogue tem colaboradores no Brasil e Moçambique, tem contactos com outros países pertencentes à Lusofonia e, com regiões onde se fala um crioulo de origem portuguesa, como é o caso da Casamansa. Para tal colaboração basta o envio dos textos através do correio electrónico que se encontra na Baía da Lusofonia, tendo como normas, uma palavra como título que exprima o conteúdo do texto, um texto que não seja demasiado longo e dois nomes como assinatura do mesmo.

O blogue Baía da Lusofonia terá muito orgulho em poder publicar originais galegos, mas enquanto isso não acontecer, irá publicando citações de autores que defendem a língua Galaico-Português na Galiza. Obrigado