Alonso Novelhe, escritor: “A temática de Adelaida é estendível aos corações de todos os cidadãos do planeta”

Está satisfeito da sua primeira experiência narrativa, após vários títulos de poesia, e afirma que para o Reintegracionismo “outras vias maiores estão por chegar”

Segunda, 25 Fevereiro 2013 00:00

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Artur Alonso Novelhe

J.M.A. - Em Outubro de 2011 a editora Através deu ao mercado Adelaida, o primeiro título de narrativa de Artur Alonso Novelhe (México, 1964), após vários de poesia. Colaborador do PGL, onde desde o verão de 2008 tem a seção de opinião Cartas Mexicas, Novelhe fala desta nova experiência, do seu relacionamento com o público, do Reintegracionismo, e faz balanço dos seus dez primeiros anos, prestes a fazer-se, no campo literário galego. Também adianta um novo projecto, na dramaturgia, em que agora está a trabalhar.

Após ter-se apresentado em 2003 no mercado com produtos de poesia, completa esta primeira década no campo literário galego com a narrativa Adelaida, por que é que muda de gênero? Qual é a mensagem e por que não a exprime através da poesia?

Em realidade nunca refleti sobre este assunto. A mudança não foi acidental, mas também não refletida. Adelaida nasceu assim, de rompante: por livre iniciativa ela fez sua escolha. Fazia muito tempo que eu estava a observar – talvez sem saber desde a mais tenra infância – as formas mediante as quais a dor se oculta no interior das pessoas; primeiro em aquelas que tinha mais perto, depois outras com as que me relacionava. Mas tarde devi entender algo sobre a dor transformada em sacrifício, ao observar atentamente as reações de diverso tipo das variadas gentes dentro da minha comunidade, e isso evidentemente levou-me a descobrir a dor mais ampla no mundo, afinal todo nascia da mesma dor: a dor universal. Eu também tinha muito funda gravada a minha dor, as cadeias que limitam e afogam nossa inicial liberdade. E o pior, não tinha nenhum remédio para curá-la, mesmo aliviá-la, podia ser em certos casos, no mínimo complicado. Comecei então a questionar-me e achei que ao melhor, solucionando o problema social – que acreditava nessa altura – devia ser a raiz de todas as dores, solucionar-se-ia a dor intima dos seres humanos, ultrapassando de algum jeito a injustiça. Mais tarde descobri que a natureza dessa dor é intrínseca à nascença e que ela está tão entrelaçada nas nossas entranhas, como no mundo no qual nós vivemos, assim como também no resto de seres sencientes, que com nós compartilham este entorno. Nessa época nasceu Adelaida. e sua mensagem, de algum modo, não encalhava no esquema mais ambivalente do meu universo poético; no entanto a voz de onde surgia, crescia diretamente da fonte da poesia em si: daí pois imagino que essa voz queria mostrar-se à luz da narrativa poética... E foi assim que escolhera materializar-se... eu simplesmente lhe servi de canle...

Para que público está orientada Adelaida: para o do ensino, para o adulto, para o da comunidade galega...?

E difícil para mim dizer para que publico, em relação a uma hipotética separação, por geração, gênero ou camada social. Minha experiência me transmite a sensação de que em geral o publico feminino, se vê mais retratado na obra. Elas tal vez sentem mais, ou vivem a vida com um sentimento mais próximo do supostamente refletido na protagonista; sem os amortecedores e couraças que muitas vezes os homens usamos por aquilo da reafirmação machista e o condicionante inserido cultural e social do macho ter de fugir da sensibilidade... ou resguardá-la num local mais intimo. Enquanto a faixa etária dos potenciais leitores é difícil de avaliar. Sim! estou ciente que a obra não pode ser restringida a Galiza, a temática em si é estendível aos corações de todos os cidadãos do planeta. Outra cousa é a qualidade necessária para ultrapassar fronteiras ou as redes editoriais precisas para isso. No entanto, eu sim gostaria que o publico lusófono tivera acesso a obra. Um primeiro passo nesse sentido foi dado quando Adelaida começou ser anunciada na loja virtual WOOK.

No final inclui um glossário de léxico, qual é o objetivo?

Esta pergunta está em certo modo entrelaçada com a anterior, dado o glossário for inicialmente pensado para leitores lusófonos, e a sua possível dificuldade com certo léxico galego. Foi uma sugestão muito oportuna da Maria Do Vigo, a pessoa que corrigiu toda esta obra, e a quem sem duvida lhe devo muito do nascimento deste inicial sonho chamado Adelaida.

Adelaida teve lançamentos em Ourense, Lugo, Compostela, Ginço de Lima, Ponte Areias... está satisfeito desses atos? Surpreendeu-lhe a reação do público?

Muito satisfeito. O que mais destacaria é que a Adelaida deu-me a desculpa, por assim dizer, para falar em profundidade dos problemas tanto sociais, como da psique humana. E contrariamente ao que esperava, a gente não só – na maior parte das ocasiões – conectava e fluía num ambiente, que chegava a ser, com assiduidade, muito familiar e intimo; senão que também no final de cada ato havia como uma espécie de comunhão entre todos, onde autor, apresentador e publico eram já uma unidade, sem nenhum tipo de roles pré-estabelecidos. Isso deu em uma experiência, da qual aprendi um pouco a estar mais a vontade nos seguintes lançamentos.

A crítica tem relacionado esta narrativa com produções de Álvaro Cunqueiro, Celso Emílio Ferreiro, Otero Pedraio ou o Nouveau Roman, concorda com essas apreciações?

São apreciações, como bem disse; mas certamente, estes referentes, também são a fonte das que um bebeu, e é normal que a água que agora jorra desta torneira, tenha o germe da nascente onde foi criada. No entanto eu gostaria de acrescentar também a influencia – para mim muito clara – do realismo mágico hispano americano, de certos autores orientais e, como não, de autores lusófonos como Lobo Antunes, Mia Couto, Saramago, Manuel da Fonseca, Agualusa, Eurico Veríssimo e Jorge Amado por citar algum nome de forma aleatória.

O título lembra o “singular e admirável romance” (em valorização de Urbano Tavares Rodrigues), Maria Adelaide, de Manuel Teixeira Gomes, aquela narrativa que mandou queimar Salazar, há algo na sua personagem que lembre à do político e escritor português?

Como mesmo você refere a valorização que Urbano Tavares fez da obra de Manuel Teixeira Gomes, em geral é muito alta, e em particular de Maria Adelaide, a qual situa como obra mais profunda do autor. Isso faz-me ser muito prudente enquanto a este tipo de comparações. Acho a minha obra muito mais modesta. No entanto, certas qualidades literárias puderam-se extrapolar, ainda que a mim parecia-me pretensioso, ser eu, a fazer ditas comparações. Acho que algo da sensualidade, ânsias de liberdade... puderam ser concordantes; mas não posso argumentar muito mais, seria como bem disse antes uma ousadia. A fim e ao cabo Manuel Teixeira Gomes está considerado um dos grandes da literatura portuguesa da transição do século XIX para o XX.

Nestes dez anos tem participado em iniciativas como a Associaçom Galega da Língua, o Clube dos Poetas Vivos, o Portal Galego da Língua, o Instituto Galego de Estudos Celtas ou a Academia Galega da Língua Portuguesa, que balanço lhe merece esta atividade?

Com uma tentativa de avaliação comedida posso considerar que todas estas experiências formam parte do trajeto vital que me levaram aonde agora estou: o que agora sou. Nenhuma delas é mais importante que a outra. No entanto, devo ser sincero e tanto a nomeação da Academia Galega da Língua Portuguesa, como no seu dia a secretaria do Instituto Galego de Estudos Celtas, foram motivo de um relativo “orgulho” e grande gozo pessoal – com sinceridade não me sinto merecedor de tais honras – e se em seu momento me decidi pelo “sim”, sem duvida também teve a ver com certa avidez encoberta, que de quando em quando ataca o nosso humano ser. Mas acho que tanto estas nomeações, como as outras participações associativas, deram-me a oportunidade de conhecer seres humanos de muita valia, dos quais aprendi muito e sigo a aprender, e os quais em certo modo também são responsáveis da minha maturidade pessoal. Ainda falta muito no processo revolucionário que tem de acontecer a toda a espécie humana, nesse salto quântico, que temos que dar, para finalmente conscienciar-nos de que todos partilhamos a mesma essência, e de que a categorização, fragmentação, divisão e procura da diferencia que tanto a todos nos agrada, é uma das raízes do confronto continuo, que em maior ou menor escala, vivencia toda a humanidade. Nesse senso eu também tenho que trabalhar muito disciplinadamente comigo mesmo para evitar certas deformações, e mesmo para respeitar a diversidade de opiniões e formas de ser ou estar no mundo. Isso é como respeitar a identidade de cada um. Porem no que respeita à minha modesta achega nestas organizações devo afirmar que foi muito pouco o que dei em comparação com o que recebi e sigo a receber. Sem dúvida, sem o passo por estas diversas associações e instituições, eu não houvesse tido a oportunidade de ver mais além do meu restrito ego.

 

Artur Alonso com Maria Do Vigo

XVIII Colóquio da Lusofonia - Ourense

 

No PGL tem a secção de opinião Cartas Mexicas, qual a diferença entre este contributo e o trabalho literário?

Para seguir fazendo este exercício de nudez literária e intimista... Com sinceridade meu mais profundo sentimento existencial se revela como poeta. Assim que a poesia sempre está presente na minha vida diária – seja implícita ou explicitamente – Já não posso dar-lhe sentido a existência sem ela. Cartas Mexicas tem esse ritmo agochado que lembra a poesia, apesar de os artigos de fundo ter um matiz mais social ou geopolítico (que é outra das minhas ocultas paixões) mesmo quando penso em termos de política internacional, a literatura ou melhor compromisso literário, que tem de por força inscrever-se no social, como bem afirmava Juan Rulfo, autor do famoso Pedro Páramo; dado este compromisso estar subjacente em todas as suas múltiplas facetas da escrita: a do escritor como ser, o escritor como parte ativa do processo social, com o seu conseqüente discurso político, o escritor como referente na formação do imaginário coletivo da consciência humana... em definitivo não podemos separar literatura, política, ética... A psicologia humana gosta muito de diferenciar, categorizar. Mas no entorno a nossa volta, no entorno natural tudo está interligado. Também o mundo literário funciona como um complexo ecossistema, onde cada partícula depende uma da outra, a vez que se retroalimentam e complementam. E em todo esse processo criativo, no que a mim respeita, a essência surge sempre desde um fundo poético.

Sente-se bem integrado e cómodo no campo literário galego?

Como escritor não tenho queixa. Enquanto à minha aposta lingüística – se de aposta se pode falar... e mais eu acho não, não se devera falar assim – não é nenhum aposta, senão uma maduração nascida da minha própria trajetória e das minhas mais apreciadas leituras. Bom, pois para abreviar usarei o termo “reintegracionista”. Como reintegracionista tenho certa percepção dum obrigado afastamento (como um preço a ser pago). Mas antes de nada há uma cousa que quero aclarar, e penso, afinal vai vir à tona de toda esta espécie de alegoria.

Tentarei ser mais claro. Eu tenho a impressão de que na historia recente da Galiza, e também como é lógico na da literatura galega, estamos a percorrer três fases duma mesma etapa. A primeira começa com o Ressurgimento, a segunda que corresponde a praticamente todo o século XX, que no entanto vai a ver-se interrompida pela ditadura franquista, para logo retornar com outros modos e valores; vou atrever-me a chamá-la de Assentamento: etapa onde se assentam as primeiras instituições e organizações galegas e galeguistas. E a terceira, na qual agora estamos no seu inicio, vou referenciá-la como de Descobrimento: é aquela na que os galegos e galegas vamos começar, estamos começando a descobrir, que a identidade que sonhamos perdida e restrita a firmes lindes da eira familiar, tem uma janela internacional por onde pode abrir-se ao mundo, e interagir nele com sua própria cultura e língua... e a janela que estamos a descobrir e com a qual temos começado uma frutífera e, para ambos, enriquecedora amizade é a lusofonia.

Por outra parte eu acho que parte dessa marginação histórica que leva padecido o reintegracionismo, tem duas faces, dous rostos bem complementares: um de sofrimento e outro de gozo. A face do sofrimento é bem conhecida de todos e todas os que, de algum modo, partilharam ou partilham esta caminhada. A de gozo é a que agora mesmo estamos a descobrir e tem muito a ver, com essa marginação histórica.

Ao ficar afastado de qualquer centro de poder o reintegracionismo teve que por lógica evolutiva e por natureza reativa de converter-se em vanguarda. Como vanguarda, na atualidade, tem de convergir com as outras vanguardas a nível internacional. E acontece que nesta altura, está sendo mudado, removido desde as sombras, o velho paradigma da ação que poderíamos definir pela mecânica da equação : ter – fazer –ser ... nessa velha visão, aplicável a todo tipo de construção, era preciso ter o suporte material para levar a frente (fazer tangível) o projeto, que depois nos ia dar a oportunidade e sentirmo-nos realizados (ser) .

No novo paradigma de vanguarda, estamos a virar para conceição mais holística de: Ser – fazer –ter.

Esta última perspectiva está a ser muito bem aplicada pelas novas gerações reintegracionistas, que em certo modo se sentem mais integradoras e integradas no mundo global lusófono. São reintegracionistas pelo tanto sentem necessidade de expressá-lo (necessidade de ser), usam essa energia criadora para propor um reto e a seguir aparecem os aliados para levá-lo à frente (daí nasce o fazer), logo ao final conseguem o suporte material para que essa idéia se concretize na realidade (o ter, o obter), é assim do único modo que se pode levar à frente, tantos e tão variados projetos sem apoio institucional como estas novas gerações estão agora mesmo a criar.

Assim que voltando a pergunta em realidade tampouco me afeta esse afastamento relativo. Porque podemos abrir outras vias... e ainda outras vias maiores estão por chegar. De momento estamos nas cativas, mas estas simplesmente são lançadeiras para um futuro com maior difusão da literatura galega no espaço galego português.

Quais são os seus projetos mais imediatos?

Estamos a trabalhar numa pequena peça teatral. E digo estamos a trabalhar, porque se não for por outra Maria, outra prezada amiga Maria, que me está a ensinar muito deste gênero completamente novo para mim, não sei se afinal esta obra poderá, no futuro, ver a luz; de fazê-lo sem duvida o mérito, ao igual que o de Adelaida, terá de ser compartilhado. Trabalhamos, e vamos ver, se talvez, conseguimos abrir a porta para a realização e hipotético nascimento da mesma. Materialização desta idéia, que veio a minha imaginação e escolheu também nascer a seu jeito, desta vez como humilde obra de teatro.

 

Artur Alonso na na Associaçom Cultural o Facho da Crunha