Amosse Mucavele: «Os estudiosos atrelam-se ao luso-estabelecido, a englobar as literaturas africanas nos quatro nomes conhecidos»

Quarta, 27 Março 2013 09:29

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Alberte Momán (*) - Amosse Mucavele nasceu em 1987 em Maputo onde vive, sonha em ser poeta, ensaísta, antologiador, tradutor, cronista, Director do projecto de divulgação Literária Esculpindo a Palvra com a Língua, é chefe da redacção de Literatas-Revista de Literatura moçambicana e lusófona, membro do Conselho Editorial da Revista Mallarmagens (Brasil), membro da academia de Letras de Teófilo Otoni-Minas Gerais, membro da International Writer association (IWA-Ohio-USA) possui textos publicados em diversos jornais do mundo Lusófono, representou Moçambique nas primeiras Raias Poéticas de Vila Nova de Famalicão (Portugal).

Amosse, por enquanto a poesia moçambicana não é muito conhecida na Galiza, podes-nos fazer uma introdução sobre a actualidade no campo da poesia em Moçambique?

Sou suspeito de falar da poesia moçambicana, em jeito de introdução diria que a poesia galega não é muito conhecida também em Moçambique [risos].

O campo da poesia em Moçambique primeiro, é um campo que tem o oceano Índico como uma das suas principais balizas, tal como disse o poeta Sangare Okapi “os remos dispensa/ temos as mãos para a navegação”. isto é, desde a sua voz primeira o poeta Campos de Oliveira o mar esteve sempre presente; Segundo, a poesia moçambicana nasce do sonho, da viagem, da invasão, e da procura da liberdade. Sendo eu um modesto leitor e não um conhecedor profundo da poesia moçambicana, permita-me socorrer-me aos ensinamentos da Professora Dra. Ana Mafalda Leite, moçambicana e docente de literaturas africanas na Universidade de Lisboa (Poéticas Fundacionais da Literatura Moçambicana, in Revista Proler, pág. 19 a 25, Maputo, n.º 18, Abril 2009): «se exceptuarmos casos isolados é na década quarenta do século vinte que começam a despertar as primeiras vozes poéticas de Moçambique, mas serão, no entanto, os poetas José Craveirinha e Rui Knopfil que publicam em livro, alguns anos depois os mais significativos fundadores da poesia moçambicana e intérpretes da moçambicanidade, enquanto confluência de temáticas sociais, esteticamente orientadas por uma dinâmica intertextual, simultaneamente endógena e exógena. A modernidade e a consciência do fazer literário revelam-se na criação de um novo paradigma literário, diverso do metropolitano, que estes dois poetas concretizam e que os torna duas figuras incontornáveis para a caracterização da poesia moçambicana».

Com efeito, a consciência do fazer literário, encenada na textualidade dramatizada, do par Craveirinha/Knopfil, simboliza a simbiose dos dois pilares sobre os quais assenta a poesia moçambicana actual, representada pela obra de diferentes autores como Sebastião Alba, Mia Couto, Luís Carlos Patraquim, Eduardo White, Armando Artur, Heliodoro Baptista (estes que começaram a publicar na década 80, no Moçambique Independente) e na década 90 depois do socialismo e da guerra civil que durou 16 anos, proclamamos outra independência, outros mais significativos nomes que surgiram são Guita Júnior, Adelino Timóteo, Sangare Okapi, Ruy Ligeiro, Celso Manguana, Helder Faife, Mbate Pedro e Andes Chivangue, os que estão a surgir nestes últimos 2 anos Léo Cote, Il Bhonde, Izidine Jaime, Eduardo Quive, Mauro Brito, e na poesia de autoria feminina ainda estamos reféns da Noémia de Sousa, mas arrisco a vaticinar dois nomes que estão a vir refiro-me a Hiróndina Joshua e Uraka.

A língua portuguesa como língua oficial em Moçambique, entendo que é muito empregada no mundo literário, mais, como é a literatura, nomeadamente a poesia, nas línguas próprias do país?

As línguas nacionais estão a sofrer uma marginalização de grandes proporções, estas línguas não são usadas e nem servem para nada nas zonas urbanas da capital do país, onde vivo. A poesia em línguas locais não existe, pelo que eu saiba existem contos orais que certas pessoas tem recolhido e publicado posteriormente sejam em edições bilingues ( na língua original do conto e na língua portuguesa) exemplo da escritora Fátima Langa, do Professor Dr. Lourenço do Rosário, do projecto Cuentos del Mundo, da Escola Portuguesa,  com a finalidade de resgatar este mundo que esta a desabar aos olhos nus das entidades governamentais ligadas a Cultura e a Educação, a Texto Editores, e o Professor Dr. Bento Sitoe autor do Dicionário de Changana e Português.

Sou um dos membros fundador da única organização que trabalha e desenvolve especificamente projectos que subentendem as aéreas da Cultura e Educação, chamado Movimento Literário Kuphaluxa

Pela tua biografia, sei que desenvolves uma importante actividade no mundo literário. Que projectos estás a desenvolver e como se enquadram dentro do mundo literário Moçambicano?

Eu tenho estado a desenvolver vários projectos no mundo da literatura, e é com muita pena que os mesmos projectos não tem merecido a devida atenção das instituições governamentais e privadas pois em Moçambique todas as manifestações culturais desde a literatura, o teatro, etc. São actividades vistas como de última instância sem importância nenhuma para o país. Pessoalmente não conheço nenhum país que desenvolveu sem as manifestações culturais a cortejarem. Mas este não interesse não é por falta de dinheiro deve-se a falta de vontade política.

Sou um dos membros fundador da única organização que trabalha e desenvolve especificamente projectos que subentendem as aéreas da Cultura e Educação, chamado Movimento Literário Kuphaluxa (significa divulgar, disseminar, língua tsonga) que está a 3 anos a funcionar com meios próprios e da bondade de algumas pessoas, escritores, certas instituições que não passam 3, nomeadamente a FUNDAC (patrocina-nos nas passagens aéreas quando somos convidados para fora do país e na edição de livros) o escritor Ungulani Ba Ka Khossa, a Associação Moçambicana da Língua Portuguesa, a Associação dos Escritores Moçambicanos , o Centro Cultural Brasil-Moçambique , que tem nos oferecido livros para certos projectos tais como: Literatura na Escola e Criação de Núcleos Escolares de Leitura, Ensinarte, etc., mas livros não bastam para os projectos correrem na sua plenitude, assim sendo temos projectos únicos, repito que recebem muitos nãos das grandes empresas que cantam a (i) responsabilidade social mas no final das contas patrocinam cantores de “músicas” pornográficas que só tem 3 minutos de vida. Isto mostra o estado degradante do país que anualmente troca de currículos e a cada vez que os anos passam a escola mais ignorantes forma, isto mostra de forma clara que as politicas deste governo nunca olharam para o pobre cidadão, isto mostra de forma clara que as grandes empresas não se interessam em projectos educativos que vem trazer melhorias para o nosso ensino, ao receberem um projecto a primeira coisa que fazem é ver o nome da pessoa que assinou e se ela não tem ligação com um dirigente da mesma o projecto é imediatamente chumbado.

Como meio viável de conseguir patrocínios estamos a pensar em desenhar uma noite de poesia numa discoteca com mulheres nuas e música electrónica ao fundo, convidando um dj estrangeiro, ou homenagear políticos e Presidentes de Conselhos de Administração, aqui não vai falhar todas grandes empresas irão nos patrocinar.

Trocando de água para vinho o mesmo Movimento Literário Kuphaluxa idealizou e geri a Revista Literatas-Revista de Literatura Moçambicana e Lusófona, o único espaço de dialogo intercultural que veio tirar da letargia que se encontravam embalados os países falantes da língua portuguesa. Estes países que só se conheciam pelos nomes dos presidentes, escândalos de corrupção, novelas, golpes de estado, etc., a revista aproximou velhos amigos e iniciou novas amizades entre escritores do mundo inteiro independentemente das fronteiras linguísticas, com a revista, que logo tornou-se na nova rota/ponte África-América-Europa-Ásia. O Brasil que é o maior mercado editorial da língua portuguesa, foi por via da mesma que conheceu, descobriu os mais diversificados e originais cultores da palavra de Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Timor-Leste, Macau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde. Que antigamente usavam a rota Portugal para chegar a Brasil, e em muitas das vezes não chegavam pois Portugal já tinha estabelecido um número limite de escritores a maioria luso-descendentes para divulgar no Brasil e no mundo. E por fim mesmo com todo este trabalho ainda continuamos vilões nesta Nação que ainda não existe e heróis no mundo.

Eu conheci-te em Famalicão, num encontro de escritores e escritoras ligados à lusofonia, entendida esta como um nexo entre as distintas falas portuguesas. Que relação existe entre os distintos países de fala portuguesa dentro do continente africano, e como é a relação com outros países da mesma língua no mundo, nomeadamente Brasil e Portugal, sempre no contexto literário?

A relação entre os países falantes da língua portuguesa no continente africano é boa em termos pessoais, isto é, entre os escritores dos mesmos. Dada a falta do envolvimento dos governos locais na divulgação e na criação de uma soberania literária de cada país.

Os escritores africanos encontram-se somente em congressos, Feiras, Festivais, na Europa e no Brasil, o que não deveria acontecer pois cada país creio que não lhe pode faltar dinheiro para organizar congressos, Feiras, Festivais, uma vez que os Conselhos Municipais, os Ministérios da Cultura são os tais como dizem Conselhos de Buracos e Ministérios das Brincadeiras, mas parece-me que Angola esta dar passos gigantescos em matérias divulgacionais da sua literatura, a título de exemplo no ano passado organizou-se em Luanda a 1ª Bienal Internacional de Poesia. Nós temos organizado pequenos eventos que a priori eram grandes no projecto devido a falta de patrocínios, encolhem-se, e os únicos convidados que conseguem vir com dinheiro deles são os angolanos, eles custeiam as passagens aéreas e o alojamento em Maputo, pois o Governo deles apoia-lhes. O mesmo acontece com os brasileiros, isto não deveria acontecer, é o peso que carregamos de sonhar muito e no final tudo acontecer aos rastos.

Indo para o Brasil e Portugal estes dois países são os palcos principais onde actuam os escritores africanos e os estudos destas literaturas a cada dia que passa conquistam mais leitores e interesses por parte dos estudiosos, digo que as Universidades brasileiras e portuguesas fazem um trabalho maior que as Universidades africanas ( sem querer tirar mérito a alguns Professores e críticos literários  mais significativos, que passo a citar: Professor Dr. Francisco Noa, o imparável escritor e Professor Lucílio Manjate -Moçambique, Professor Dr. Francisco Soares, o escritor e Professor António Quino, e o atento poeta e  Professor Abreu Paxe - Angola), seja na investigação, colóquios, edições, etc., pois os estudiosos ligados às mesmas, muito deles atrelam-se ao luso-estabelecido,  isto é, se um renomado Professor brasileiro ou português fala do Mia,  Agualusa, Guimarães Rosa, Lobo Antunes, automaticamente eles também apelidam-se especialistas dos mesmos autores, sem produzir nada, ao meu ver estes ’’estudiosos’’ das Universidades africanas deveriam escrever, divulgar autores que ainda não são conhecidos ou publicados no Brasil e Portugal, para melhor se conhecer a literatura dos seus países, não o que acontece de se englobar as literaturas africanas de língua portuguesa nos 4 nomes e com toda a razão são os únicos  publicados nestes dois países.

Esta obra é uma enunciação daquilo que Lezama Lima chamou de "protoplasma incorporativo" de vários textos, leituras, diálogos, afectos...

Neste momento, estás à espera de que saia um teu livro de poemas, A Posse do(s) Sonho(s) ou o Prefácio de uma Galáxia Interior. Em palavras de Susanna Busato crias, dentro do quotidiano, um universo em ‘suspensão’, quanto há de sonho, de quotidiano, e de realidade em suspensão?

A Posse dos Sonhos /Traumbesitz

Coloca então as folhas junto às almas.
Roda lentamente o martelo e cobre o rosto.
Coroa, com as pancadas que faltam ao coração,
o cavaleiro que luta com moinhos longínquos.

São apenas nuvens, que ele não suportou.
Contudo o seu coração bate ao passar de um Anjo.
Faço grinaldas com os restos que ele não despedaçou:
a barreira vermelha e o negro meio.

O título levei de empréstimo do poema acima lido de Paul Celan, traduzido pela Professora e escritora portuguesa Yvette Centeno que amigavelmente me enviou, contudo este livro nasce da falta de um espaço ideal para traduzir esta minha solidão, desenvolve-se na luta incansável com as palavras que erguem imaginações no corpus da realidade a espera do seu tempo da tomada de posse, ou o Prefácio de uma Galáxia Interior é esta suspensão que o poeta se reparte entre a transparência imagética, a iluminação excêntrica e fulminante da linguagem[1] da(s) Galáxia(s) tal como pediu o Haroldo de Campos, e a força da poesia como lugar inabitado pela luz, onde se escurece os sentidos[2] “… pela metaforização do discurso (que se) para salva(r) o pensamento” parafraseando o poeta Cabo Verdiano Arménio Vieira.

Este Prefacio é o convite a entrar e a sair neste mundo feito de sonhos, vivências, e realidades em “suspensão” pois aqui o que mais me interessa é questionar a pedra, a tempestade, e dentro de mim lavrar a sensibilidade do tempo com a linguagem porosa, magnética a fim de criar uma imagem que possa suscitar novos horizontes para os caminhos a seguir (somente eu e os meus leitores, caso tenha).

Esta obra é uma enunciação daquilo que Lezama Lima chamou de "protoplasma incorporativo" de vários textos, leituras, diálogos, afectos... e digo que tudo que o livro diz se engloba neste pensamento do T.S.Eliot:

[…] os poetas na nossa civilização, como existe actualmente, têm de ser difíceis. A nossa civilização engloba grande variedade e complexidade, e esta variedade e complexidade […] tem de produzir resultados complexos e vários. O poeta deve tornar-se cada vez mais englobante, mais alusivo, mais indirecto, para forçar […] a linguagem para o significado que lhe quer atribuir.

Um dos temas recorrentes no teu livro é a solidão, feito que contrasta com as constantes dedicatórias dos poemas. Trata-se mais bem da solidão do poeta, ou é outro tipo de isolamento?

Na minha criação poética a comunicabilidade e aplicabilidade dos conceitos ganham outras dimensões, isto é, quando falo da solidão do poeta refiro-me a incomunicabilidade na qual a minha expansão subversiva ao mundo da palavra recriadora e reconfiguradora de conceitos (in)visíveis e da realidade (in)tangível, é uma esfinge a se desvendar no subterrâneo vulcão da linguagem imaginativa-poderosa desta que só o poeta se expressa livremente para o mundo, ao “ criar a magia sugestiva que contenha ao mesmo tempo o objecto e o sujeito, o mundo exterior ao artista e o próprio artista.” nas sábias palavras de Baudelaire.

Creio que a palavra solidão em mim tem múltiplos sentidos: ela ganha silêncios extraterritoriais e perde vozes intrasensórias, é neste jogo de bate sai onde se confluem os sentidos da solidão na minha óptica. Primeiro como refúgio do poeta, segundo como isolamento do mundo matéria (in)orgânica da sensibilidade do tempo profanado e do espaço das convivências singulares e plurais destas paisagens (extra)territoriais (o homem, a árvore , o mar, o vulcão, etc.).

Fernando Pessoa ( Bernardo Soares) foi um homem desassossegado e isto está nítido nos seus poemas, e eu sou solitário de natureza, mas estou rodeado de pessoas com quem reparto esta minha solidão seja virtualmente ou presencialmente, e as palavras que se seguem indicam esta afluência:

A poesia reconstitui-se na língua anterior ao conhecimento e esculpe as suas sismologias-tapeçarias no mundo-outro como uma partilha do desassossego, uma sanguinidade do poema-poeta-poesia-liberdade na exploração mutual do enigma, na germinalidade do deserto, na actualização do silabário elementar da harmonia e da vertigem fertilizadora-sacralizadora do olhar-perdido-do(no)-mundo. disse Luís Serguilha.

«A poesia do Ramiro Vidal faz nos recuar ao tempo colonial onde em Moçambique houve umas vozes fortes a escrever sobre o colonialismo e a liberdade»

Pessoalmente, acho a tua poética muito próxima, tanto na forma quanto na temática, da poesia galega contemporânea. Imagino que a literatura galega é absolutamente desconhecida em Moçambique, tens tido já algum contacto com a literatura galega?

Tive o meu primeiro contacto com a poesia de língua castelhana há sensivelmente dois anos, recebi uma selecção de poetas europeus, lá estava o Tomas Transtomer, António Gamoneda, Juan Juarroz, Edmond Jabés, Paul Celan e pessoalmente fiz as traduções digo que senti-me em casa e depois de ler rasguei 2 livros que tinha escrito. Esta foi uma grande porta que se abriu no meu imaginário poético-leitoral.

Continuei a caminhar  pelos corredores da palavra onde tive o primeiro contacto com um poeta galego, José Luis Puerto, seguiram-se X. L. Méndez, Lois Pereiro, Chus Pato, o Carlos Quiroga —que depois conheci-o em Famalicão—. Pelas mãos da Ana de Sousa, via Facebook, sugeriu-me amizade com Manuel Miragaia, em seguida ele me passou vários contactos de poetas galegos, inclusive o senhor, que viria a conhecer em Famalicão juntamente com a Verónica Martinez aquela poeta de palavras eróticas e o irrequieto Ramiro Vidal Alvarinho com a sua poesia de combate.  Na poesia, dialogismo não falta, para quem for a ler a sua poesia, logo encontrará traços verosímeis do lirismo do Eduardo White e Armando Artur, a poesia do Ramiro Vidal faz nos recuar ao tempo colonial onde em Moçambique houve umas vozes fortes a escrever sobre o colonialismo e a liberdade, a poesia de combate.

 


 

(*) Entrevista realizada por Alberte Momán para o PGL.

[1] e [2] Victor Sosa, Poeta e crítico de arte e literatura mexicano