«É urgente que as instituições abandonem qualquer discurso de ‘consenso normativo’, pois é evidente que não o há»

Entrevista a Arturo de Nieves e Carlos Taibo, autores de Galego, Português, Galego-Português?

Sexta, 07 Junho 2013 08:32

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Carlos Taibo e Arturo de Nieves

Valentim Fagim - Entrevistamos Carlos Taibo e Arturo de Nieves, autores de Galego, Português, Galego-Português?. Este trabalho, publicado pola ATRAVÉS | EDITORA, é um inquérito a personalidades do mundo cultural galego. No total, 56 pessoas respondem o questionário enviado polos autores a respeito da identidade da língua galega.

Quando surgiu a necessidade de fazer este livro e que vos encorajou a o fazer?

Arturo: conheci a ideia a princípios do ano 2012 em Madri, cidade onde morei durante esse ano. Ali entrei em contacto com um círculo de galegos entre os que se achavam o Carlos Taibo e o Diego Bernal, entre outros. Durante algumas noites falou-se do interessante que seria realizar um inquérito às elites culturais galegas sobre a questão normativa, ideia que me pareceu realmente boa. Daí a pouco estávamos já o Carlos e mais eu sentados a pensar polo miúdo no desenho do livro.

Carlos: Polo que a mim respeita, em várias conversações com figuras da vida galega cheguei a conclusão de que, interrogadas em privado, confessavam posições amiúde muito próximas ao reintegracionsimo. E pensei, claro, que tinha sentido trabalhar num livro que resgatasse essas opiniões ‘privadas’ e permitisse a sua  difusão. Esse foi o miolo do projeto inicial.

O inquérito está formado por três perguntas, a primeira sobre a conveniência da chamada “norma oficial”, a segunda sobre a identidade do galego/português e a terceira sobre as relações da Galiza sobre a Lusofonia. Que ambicionavam desvendar estas perguntas? Que motivou a sua escolha?

Havia uma sensação, partilhada por muitos amigos e amigas, de que a proporção de reintegracionistas no mundo cultural galego devia ser maior do que poderia parecer atendendo à grafia empregue maioritariamente por elas. Assim, todos podíamos comentar alguma ocasião em que, no contexto da conversa informal, muitas pessoas supostamente refratárias ao mundo reintegracionista não eram tais.

Pensamos que eram horas de clarificar a questão e, sobretudo, de contribuir para fomentar um debate civilizado e produtivo sobre as questões que figuram no inquérito, tão largamente submetidas às margens da esfera pública galega e, porém, tão centrais para a nossa sociedade.

Uma vez descartada a possibilidade de realizarmos qualquer inquérito com validade estatística, o nosso propósito foi o de ampliar ao máximo os critérios de seleção com a única condição de serem pessoas de relevância para o mundo cultural galego. Tecnicamente trata-se duma amostra qualitativa por julgamento para maximizar o estatuto, que tem demonstrado dar bons resultados neste tipo de investigações.

Estamos satisfeitos com o resultado, pois achamos que fica presente boa parte do leque discursivo existente sobre as questões inquiridas, de maneira que a inclusão dum maior número de respondentes no inquérito só iria redundar no já exprimido por outros. Devemos comentar, porém, que houve uma limitação nos critérios de seleção, pola qual optamos por deixar fora as pessoas conhecidas pola sua condição de reintegracionistas, ao entendermos que numa amostra não probabilística como esta alguém poderia acusar-nos de selecionar os respondentes para que os resultados fossem favoráveis às posturas do lusismo ou do reintegracionismo, pois conhecida é a nossa vinculação com elas. E deixamos também fora gentes vinculadas com os mundos da empresa, da igreja e do desporto, neste caso por entender que era difícil que chegassem as respostas correspondentes.

 

 

Um facto que chama poderosamente a atenção é que as diferentes respostas entram com certa frequência em contradição flagrante entre si na mesma entrevista. Por que achades que isto acontece?

Como tem comentado o Celso Álvarez Cáccamo, a análise do discurso das respostas poderia dar para outro livro. Nós mantivemos um nível de análise muito pouco interpretativo, fundamentalmente de descrição simples das respostas, sabendo que é um tema muito sensível –houve quem decidiu não colaborar por medo a expor-se demasiado–. Em qualquer caso, o que num primeiro momento podem parecer contradições ou incongruências internas talvez não o sejam tanto se colocadas no quadro dum determinado discurso sobre a língua. Mas também não podemos descartar a possibilidade de que estes temas contem com um grau baixo de reflexão por parte das nossas elites culturais, em concordância com a grande marginalidade que, como dissemos, ocupam na esfera pública galega. Para além de todo o anterior, é preciso salientar que muitos dos interrogados em modo nenhum são especialistas na matéria pela que se lhes perguntava, circunstância que bem pode facilitar eventuais contradições.

O inquérito foi enviado a 100 pessoas, das quais 56 enviaram as suas respostas. Das não enviadas, quais achastes mais em falta?

Gostaríamos de ter contado com os contributos de Xosé Manuel Beiras, pola sua grande relevância política, de Manuel Rivas, pola sua grande relevância literária, e de Xosé Luís Méndez Ferrín, pela mesma razão e pela sua importância no debate isolacionismo/reintegracionismo. E também teríamos gostado de contar com mais respostas de mulheres, carência que em parte é a nossa culpa e em parte nasce dum sistema cultural que marginaliza as mulheres.

Achamos que não há qualquer hipótese de normalização cultural, já não digamos nacional, enquanto temas duma centralidade tão evidente como os apontados no inquérito se mantenham nas margens do debate público e, neste ponto, as elites jogam um papel muito relevante. É certo que no caso das duas primeiras figuras pessoais mencionadas não obtivemos uma negativa clara a participar, polo que cabe especular com problemas pessoais ou de agenda que lhes impossibilitassem responder o nosso inquérito. Méndez Ferrín desculpou a sua participação.

O livro inclui uma análise final de onde tiramos conclusões interessantes como que o apoio à “norma oficial” está longe de alcançar um consenso. Talvez mais um eco do possibilismo que acompanha os usos do galego desde os anos 80?

Talvez, mas o mais significativo para nós está em que os temas tratados são centrais para a sociedade galega –pois afetam profundamente à nossa língua, às nossas relações internacionais e, portanto, ao nosso futuro como país– e apresentam evidentes dissensos. Então há várias conclusões; em primeiro lugar é urgente que as instituições abandonem qualquer discurso de “consenso normativo”, pois é evidente que não o há –e isto deveria ter implicações importantes, nomeadamente no sistema educativo–; em segundo lugar resulta também urgente que se abra o debate, de tal maneira que os temas assinalados façam parte da agenda pública da sociedade galega e não só da sua parte mais consciencializada em matéria linguística –e para isto seria interessante a implicação de partidos políticos e meios de comunicação–.

Queríamos acabar esta entrevista com a pergunta que encerra as entrevistas Agal Hoje aos novos sócios e sócias da AGAL. Qual é a fotografia linguística que desejades para a Galiza no ano 2020?

Uma Galiza na qual se invertesse a dinâmica linguística presente, de jeito que começássemos a ganhar falantes na língua própria, pois isso seria esperançoso para o futuro da língua e do país em geral. E uma Galiza reintegrada no espaço linguístico e cultural que é o seu.