Uxía Senlle: «É um grave erro estratégico não afirmar que galego é português são a mesma língua»

Reveladora entrevista com a cantora de Mós

Sexta, 27 Março 2009 00:37

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Uxia Senlle

Margarida Martins - A obra de Uxía Senlle sempre se fundamentou em expressões musicais populares além de se converter em catalisadora de culturas, músicas e artistas diferentes. O espetáculo Cantos da Maré, desenhado por ela mesma, é boa mostra disso, trazendo as melhores vozes de Portugal, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau e Moçambique... vozes que falam a nossa língua.

Em Janeiro de 2009 estivemos com a cantora de Mós na freguesia de Manhufe (Gondomar), no estúdio de gravação a Casa dos Tolos. Recebeu-nos e falamos de música, de língua, de lusofonia e da sua experiência pessoal durante todos estes anos, experiência que faz que hoje afirme sem complexos que galego e português são a mesma língua.

Margarida Martins – Uxia, Tu és de Mós, e ainda que sejas uma pessoa nova, lembrarás um Mós mais rural do que é agora mesmo...

Uxía – Muitíssimo mais rural, porque eu jogava no monte, o meu espaço de jogo era polos campos e montes, e ainda que onde nascim passava já uma estrada antiga importante, a velha estrada do Porrinho a Vigo, o sítio era muito mais natural.

Mós é um concelho desestruturado nem tem nenhum lugar que faça as funções de núcleo urbano, de centro espacial do município. Para mim é terrível compreender que do Mós que conhecim de pequena fica já muito pouco. Agora a última batalha que estamos a levar em Mós é a de impedirmos que nos façam uma nova auto-estrada, uma nova via do caminho de ferro, a do tgv-ave, que destruiria o pouco que fica do Mós da Uxia criança.

Na Galiza entendemos mal o progresso, pensamos que o progresso e mais cimento e auto-estradas. Eu gostei da Irlanda, um lugar onde o progresso não inçou o país de auto-estradas e de cimento e a paisagem que também é, e não pouco, criação cultural é conservada e com ela o ambiente. Bom é certo que agora mesmo as gentes parece estarem com mais consciência sobre estes temas, com valorizar o meio, mas infelizmente não sei se poderemos impedir que esse espaço de Mós se degrade mais.

Bom, também é certo que em Mós há cousas que se conservam, eu crescim ao lado duma cerâmica e o oleiro era um artesão, um verdadeiro artista a fazer peças com o barro, era amigo meu e a cerâmica manteve-a aberta em funcionamento até há uns dous anos em que fechou.

Em Mós sofremos de sermos a periferia de Vigo, mas ainda com todos os estragos aqui e acolá descobrem-se pequenas ilhas desse velho ambiente rural.

Eu muito aprendim dos meu maiores, deles aprendim a conhecer e apreciar Mós, e sobretodo aprendim do grupo Melguela. Ao grupo Melguela unem-me muitas cousas, e uma das mais importantes, é todo o que a mim me ensinaram.

Como foram os teus começos no mundo da música?

Pois mira, eu nascim numa família de músicos, o meu pai tocava o contrabaixo numa orquestra de baile, o meu avó gostava muito da música, sempre fomos uma família onde todos cantam, havia uma guitarra e eu comecei com ela de jeito mui intuitivo e autodidacta, eu era mui nova e mui ousada, e desde muito cedo já estava compondo, musicava poemas de poetas a medida que os ia descobrindo: Celso Emílio, Curros, Rosália...

Como te dizia era pequena e ousada, cantava no instituto, cantava nalgum pub da zona, cantava na universidade, eu fum ao CUVI1 e no ambiente académico foi onde mais desenvolvim a minha actividade, sempre com os amigos.

Sempre estiveche ligada à música galega?

Sim, dalgum jeito sim, comecei de jeito autodidacta e intuitivo, escrevia os meus próprios poemas e fazia-o em galego, depois entrei para um grupo de baile tradicional, começando a apreender desse mundo e aí descobrim o potencial da música galega, porém, não foi até muito mais tarde, até o grupo Na Lua que, de verdade, descobrim a riqueza e diversidade da nossa música e os ritmos que havia nela. Foi no grupo Na Lua onde eu comecei a familiarizar-me com a música que vinha de Portugal.

 



Pensache alguma vez em publicar os teus poemas?

Bom, pois sim pensei-no, tenho já muita cousa escrita, basicamente poemas, eu são leitora de poesia desde bem cativa, tenho também alguma cousa em prosa, mas são perfeccionista e sinto algo de pudor de cara à publicação de alguma cousa minha, mas no futuro tal vez acabe dando esse passo.

Gosto imenso dum livro de poesia que tendes publicado pola AGAL Lua de Além Mar e Rio de Sonho e Tempo de Guerra da Cal, esse livro é precioso, sabes que tenho musicado poemas de Guerra da Cal, que me parece um dos nossos maiores poetas, mas nunca cheguei a gravar essa música

Como se vive, sobretodo nos inícios, a competência do inglês e do espanhol? Representa uma dificuldade?

Pois sim, é evidente que sim, nos meus inícios para romper um pouco as barreiras não foi fácil, eu entrei quase antes em Portugal que aqui, mas aqui agora já não sinto que a cousa seja tão complicada, é bom sabermos que temos o mercado amplo da lusofonia, o nosso espaço natural. Como dizia, agora já não sinto a pressão dos meus inícios, venho de cantar em Londres, uma cidade globalizada e multicultural e fum magnificamente tratada fazendo-o em galego, ao meu lado outro poderia fazê-lo em chinês e o publico sabe apreciar o que fazemos.

Agora bem, é certo que continua a existir nos ambientes espanhois, por exemplo Madrid, certa oposição ao facto de cantarmos na nossa língua. Um dia na TVE contavam-me uma anedota dum programa musical que tiveram já há anos na tv2, e nesse programa sempre cantavam gentes em basco, catalão e galego, e quando cantavam artistas “espanhois” sem usarem o espanhol a centralinha dos telefones colapsava com os protestos. Na Espanha continua a haver âmbitos onde não se gosta que cantemos na nossa língua, também há gente magnífica que aprecia o nosso trabalho e desfruta das nossas canções.

Felizmente conheço muita desta última, mas nestes últimos tempos, o espanholismo agressivo tem medrado por todo o lado com uma ideologia absolutamente fascista e implacável com as diferencias. O estado espanhol é um mundo mui complicado onde se lhe dá a volta as cousas e se chama agressores aos agredidos e acusa-se de imposição a quem se negam direitos e todo lhe é imposto. Isso não tem absolutamente nenhum sentido e até se torna ridículo, mas como estamos num momento complicado, temos o direito mais absoluto a expressarmo-nos na nossa língua e vivermos nela, temos que estar a fazer pedagogia para dar a volta as cousas e impedirmos que as apresentem pólo invés.

Ainda que essas tendências pairem no estado sobre as nossas cabeças como uma ameaça, eu são optimista. O outro dia lia uma frase da qual gostei muito e que faço minha contra o pessimismo da razão está o otimismo da vontade. Eu confio na gente nova do nosso país, na vontade que todos podemos ter para pôr em valor a nossa língua e cultura. Temos agora uma geração nova de músicos e cantantes que vão fazendo e cantando cousas na nossa língua com absoluta naturalidade.

 



A Lusofonia é um espaço para os nossos interesses culturais e de todo o tipo. E Cantos na Maré é um exemplo nesse sentido. Como nasceu Cantos na Maré?

Nasceu há seis anos, sempre tivem o sonho de organizar na Galiza, de sermos os anfitriões dos países da lusofonia de trazê-los à nossa terra com todas as suas músicas. Ponte-Vedra abriu-nos as portas à primeira edição.

O que fazíamos era um experimento pois daquela não sabíamos como ia sair, foi algo experimental, mas nessa primeira edição produziu uma conexão enorme entre o público e os que estávamos no cenário. Achávamo-nos ante uma realidade tão certa e segura que tínhamos que continuar a avançar por esse caminho.

A música permite a comunicação dum jeito mais claro, permite a comunicação direta, permite a Galiza estarmos na Lusofonia, e como somos os anfitriões ajudamos os demais a que nos conheçam dum jeito fácil fantástico e efetivo. Quando começou Cantos na Maré no Brasil não existíamos, mas não existíamos de jeito terrível e claro.

Hoje a Galiza e a sua musica está presente no Brasil, agora nasceu Cantos da Maré em rede, que é a possibilidade real de pensarmos num mercado da Lusofonia onde os agentes culturais estejam presentes. Cantos da Maré tem é o sucesso da vontade e da paixom que pomos nas cousas. Cantos na Maré tem que ser itinerante, é um encontro de musicas e músicos galegos mas não é só isso, é algo mais.

Como chegache a Portugal?

Bom, são de Mós, é dizer, quase raiana e desde bem cedo na minha vida ecoavam cousas de Portugal. Mas quando cheguei a Portugal, este para mim foi todo um descobrimento e eu sentim ali a minha cultura, descobrim o Portugal onde muitos galegos e galegas tradicionalmente emigraram.

Hoje sinto o Porto e Lisboa como a minha casa. Para mim é já mais importante em muitos aspetos Portugal que a própria Galiza sendo como são pessoa que é galega e como tal age por onde vai, e com a minha terra tenho eu os meus compromissos, mais a nossa cultura fai-se grande abrindo-se para a Lusofonia.

Em Portugal também há certa desconfiança a respeito da Galiza e dos galegos, lembro que quando se organizou a Semana da cultura galega em Lisboa levaram-me como se fosse uma embaixadora. Num programa tão referente no âmbito cultural em Portugal como Câmara Clara, onde eu falava da Galiza como um território mais do universo lusófono, um lugar onde fazíamos música na mesma língua, notei a desconfiança de não perceber muito bem a que vínhamos em realidade, senão seriamos uns colonizadores da Espanha.

Em Portugal ainda não se entende bem qual é a situação da Galiza, e as relações que temos com Espanha. Mas estamos num momento excepcional para as nossas relações e temos que avançar por aí.

 



Uxia tu és pessoa agora a impulsionar muitas carreiras musicais na Galiza, mas não só. Percebes que para os lusófonos também és abertura a novos mercados?

Pois sim, disso se trata, isso que se abre nesse campo é o mais positivo. Cantos na Maré pretende ser um mostruário das novas músicas de todos os países lusófonos. Cantos na Maré permitiu o conhecerem-se muitas pessoas: Chico César, Manetas Costa...

Eu confio muito no trabalho colectivo, na fluidez na comunicação e a isso ajuda muito a música. Eu agora tenho uma muito grande família arredor minha, a minha família da música da Galiza, a minha família da música de Portugal, a minha família da música africana, a minha família da música do Brasil... eu faço as cousas assim, fazendo amigos e fazendo família e faço-o por carácter, eu aprendim das mulheres da minha aldeia, aprendim muito nos directos em Cavo Verde e de Lisboa. A integração de todos em Cantos na Maré é fantástico, é um convívio muito especial onde não há estrelas só amigos fraternos duma grande família, a da música lusófona.

Com respeito à música galega há muito talento na gente nova e eu animei muitos dos que estão cantando e fazendo cousas na música. Tem que haver para além de afinidades, generosidade para abrir caminhos e cobrirmos todo o leque de possibilidades do mundo musical. Tenho apoiado muitos artistas de todos os estilos ainda que dos que mais goste seja das vozes, (cita vários de distintos estilos). Alguns, ainda que já estejam consagrados, sigo-os sentindo como uns irmãos da minha família.

A nossa língua é internacional...

Temos que irmos portugalizando e unindo forças, irmos fazendo uma rede de projectos comuns onde todos os lugares e países tenham um circuito de concertos lusófonos. Há tempo pensei que isso ia ser cousa difícil e lenta, porém é mais rápido e fácil do que esperava.

É um grave erro estratégico não afirmar que galego é português são a mesma língua. Há que fazer que vejamos as televisões portuguesas na Galiza para já. Temos a sorte de termos uma língua internacional com todas as vantagens das culturas internacionais com milhões de falantes e temos que aproveitá-lo, eu não entendo o erro dos políticos, e erro histórico de que essa nossa realidade lingüística se agache, parece-me um erro gravíssimo. Na medida em que nos afirmemos pertencentes à lusofonia formaremos parte dum mundo vasto e riquíssimo no âmbito cultural, temos uma cultura tão rica e da que somos o berço, que não podemos deixar que no-la apaguem.

Esse medo que há em sectores a reconhecer que a Galiza tem a mesma língua que Portugal e a agir na política cultural e lingüística consequentemente, na União Europeia não deveria fazer sentido, pois as vantagens desse facto não só são para nós, são para todos.

 

 

 

Nota:

1 CUVI = Colégio Universitário de Vigo dependente da Universidade de Compostela, e que depois foi das primeiras estruturas da universidade de Vigo.