Galiza marca novamente presença no Festival Literário da Madeira

Carlos Quiroga participa numa das “conversas cruzadas”, com Ana Margarida de Carvalho, João Tordo e Valério Romão

Quarta, 19 Março 2014 00:00

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PGL - Já está no ar mais uma edição do Festival Literário da Madeira. Com um cartaz de luxo, acontece de novo no Funchal (17 a 23 de Março) e afirma-se como um dos maiores eventos do tipo na Lusofonia. Na convocatória deste ano haverá de novo representação galega.

Carlos Quiroga participa numa das “conversas cruzadas”, com Ana Margarida de Carvalho, João Tordo e Valério Romão, no sábado 22 de Março (10h00, Teatro Municipal Baltazar Dias). Um verso de Daniel Faria apadrinha o momento, “Homens que são como lugares mal situados”. E haverá ocasião de recordar aos portugueses a raiz desse país que ainda alenta neste canto atlântico. Terá lugar às 10h00 no Teatro Municipal Baltazar Dias.

“queria de ti um país de bondade e de bruma
queria de ti o mar de uma rosa de espuma”

(Mário Cesariny)

A caminho da quarta edição, a Nova Delphi, promotora do Festival, assume o objetivo de fazer da ilha um ponto de chegada e de partida de pensamentos e ideias, e levar o FLM cada vez mais longe no mapa dos Encontros culturais de maior expressão. A convocatória de 2014 invoca o patrocínio ético/estético dos versos de Mário Cesariny, “Queria de ti um país", num poema lapidar que Rodrigo Leão e Os Poetas souberam guindar a hino alternativo de uma nação. Lapidar, dizem os organizadores, porque o poema está impregnado de um cheiro a qualquer coisa que se putrefez antes de nascer. O verso pode prolongar-se até à bruma de um Quinto Império que o Padre António Vieira e Fernando Pessoa desenharam no horizonte onírico do País. A eleição deste versos como bússola do FLM 2014 tem, logo à partida, o trunfo de reforçar a intimidade entre a ilha e o todo nacional. Todos os homens têm um país. Na pior (ou melhor) das hipóteses, são apátridas, aquém ou além de um país que é casa, mas não é lar.

Carlos Quiroga na edição de 2013A Europa – como projecto civilizacional corporizado pela União Europeia – e Portugal atravessam um “interregno”, ideia que Bauman espraiou no último FLM. Interregno porquê? Na História da Humanidade, poucos países poderão rivalizar com Portugal na sua dimensão ficcional. São séculos de utopias e distopias, euforias e disforias. O Portugal real faz-se com os despojos do sonho, com a matéria que sobrevive aos séculos atómicos. Pessoa, na “Mensagem”, sintetizou a fatalidade que pesa sobre os Homens: “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”. O sonho de Deus – e podemos imputar a capacidade de sonhar a qualquer entidade ou mecanismo velado que transcende a razão – impede uma concretização plena. Portugal, como projecto colectivo, não pode cumprir-se segundo os preceitos do sonho. Portugal, como qualquer outro país, é o resultado tangível do que sobra quando acordamos. “Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama”, sentenciava a lúcida mágoa de Álvaro de Campos, consciente de que qualquer obra humana ficará sempre aquém do ideal. “Falta cumprir-se Portugal”, esse país de brumas e de fogo que a espada de D. Sebastião não tem poder para levantar. “A faca não corta o fogo”, resumiria Herberto Helder. Faltará sempre cumprir-se Portugal, um país cuja singularidade também está nas bibliotecas inteiras que podem ser formadas a partir do que não foi, não é e dificilmente será.

Em 2014, Portugal comemora os 40 anos de um marco civilizacional. Independentemente das ideologias, “o homem está condenado a ser livre”. No plano antropológico, esta condenação civilizacional devia substituir o fardo do pecado original. Há 40 anos, as brumas da opressão levantaram-se para ceder lugar à ideia de “bondade”. Na sua génese, a “liberdade” integra a “bondade”. Homens houve que, antes daquele “dia inicial, inteiro e limpo”, quiseram outro país. Os poetas definiram-lhe o ritmo métrico, os cantores deram-lhe eco, os ensaístas não temeram ensaios-nulos, alguns militares perseguiram a liberdade (supremo paradoxo), os civis riscaram um prefixo (es) e nasceram cravos no metal frio que media a temperatura das metástases. Resultado? Não haverá consenso. Teria razão Pessoa quando atribuiu a Bernardo Soares o anátema segundo o qual “todos os revolucionários são estúpidos”?

País com as fronteiras mais antigas da Europa, o século XX português é um caso único no "velho continente". Relativamente imune ao apocalipse nazi – o que também justifica a preservação do Estado Novo –, Portugal deixou-se governar por um regime opressor durante mais de 4 décadas. Só Espanha, com Franco, acompanhou Portugal em contramão civilizacional. Juntos nesta "jangada de pedra" que nunca encontrou o vento certo, Espanha restaurou a Monarquia e transitou para a democracia, enquanto Portugal protagonizou uma ruptura romântica que introduziu a democracia com cravos no coração. Hoje, 40 anos depois, é tempo de actualizar o ensaio do açoriano Antero de Quental, "Causas da decadência dos povos peninsulares", partindo do caso português para uma reflexão mais abrangente que não ignora a condição do próprio Homem. Uma reflexão antropológica, portanto, que estabelece um confronto – porque de confronto se trata – entre entidades aglutinadoras, os países, e a matéria que (des)faz países, os Homens. Que não choque a sugestão de invocar Primo Levi. "Se isto é um Homem" é o título de uma obra que perpetua – ou deve perpetuar – a descrição do "mal absoluto".

Nada nos impede, porém, de celebrar Levi, reconhecendo-lhe a legitimidade moral para impulsionar um debate sobre a condição humana. Portanto – e porque os tempos moldam, ou procuram moldar, um arquétipo de Homem – que conceito de Homem estamos a criar no século XXI? Que Homem se desenvolve nesta "caverna de Platão" sujeita aos ditames dos "mercados"? Que "Admirável Mundo Novo" cresce no ventre das manifestações que contagiam o Mundo? Adaptando uma das célebres, porque visionárias, sentenças de Churchill, "nunca tantos dependeram de tão poucos" num Mundo que fundamenta o aforismo de Clausewitz, invertido por Focault: "a política é a continuação da guerra por outros meios."

 

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